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(Sábado, 16 de Agosto de 2014. Esquina da Av. Julius Nyerere com a Av. 24 de Julho, Maputo: carro pertencendo a uma caravana de propaganda da Renamo)

 

Quem lê o ma-schamba sabe que não botei sobre política moçambicana. Algo que está explícito no que chamámos, ironica e pomposamente, "estatutos editoriais do blog". Várias razões para isso, abrangentes e individuais. Sempre entendi que ser estrangeiro em terra estrangeira inibe alguma acutilância ("ouça lá, se está mal mude-se", será sempre a resposta possível e irrebatível). Ainda por cima tendo eu uma malvada tendência para o maniqueísmo quando sobre política - algo visível nos 532 postais sobre "política portuguesa" nesta década de blog (na maioria escritos por mim), triste colecção histriónica.

 

Sendo estrangeiro e ainda por cima português. Sempre estive ciente de que botar sobre política em Moçambique nessa condição poluiria a interpretação do que eu escrevesse. Daqui resmungar-se-ia o meu "tuguismo" ["expulse-se do país, de preferência para um país onde lhe cortem a cabeça", escreveu há anos sobre mim o então secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos, no portal dessa organização, diante do radical silêncio dos seus pares de letras; "actualmente todos os intelectuais e pedagogos portugueses são aldrabões e colonialistas", botava há tempos um conhecido "jornalista de investigação"; "todos os portugueses são mal-criados", sublinhava um ilustre jurista e agora "fazedor de opinião" local]. Mas também dos meus patrícios. Botasse eu sobre política daqui e estou certo que teria tido o choque de opinadores patrícios daqui oriundos, um núcleo societal que esteve bastante activo na internet, sempre constantes e lestos na crítica radical a todos os itens do processo nacional moçambicano, como se este ontologicamente ilegítimo [ainda assim, apesar dos meus cuidados, fui recebendo a imputação de "frelimista". E também a de "detentor de interesses em Moçambique" - e eu agora a fumar Pall Mall, bolas].

 

E há o estatuto pessoal. Professor numa universidade pública moçambicana, fui durante alguns anos cooperante português - e nesta última condição contratualmente proibido de exercer actividade política no país (uma expressão lata, eu sei, mas que assumi de modo abrangente, até pela mera assinatura do contrato, à qual ninguém me obrigou a não ser eu próprio). Mas há muito tempo que não sou cooperante e como tal poderia escrever sobre o que me apetecesse. Friso essa liberdade. Há anos que escrevo no "Canal de Moçambique", um jornal conotado com a Renamo ou o MDM (varia consoante o locutor). É certo que escrevo sobre temas não políticos (livros, viagens, locais de Maputo, quotidiano, etc). Mas ainda assim é muito significativo que ninguém, alguma vez, me tenha alfinetado em relação a isso. 

 

Dito isto. Não boto sobre política moçambicana. Mas vou pensando, claro. De maneira algo diferente dos meus vizinhos, que isto de ser estrangeiro poupa-me ao abrasivo, o do prós e contras. E da dos meus patrícios daqui saídos, também eles maioritariamente abrasivos, pelo menos os que foram e vão escrevendo sobre o aqui.

 

Tenho aqui uma boa mão cheia de amigos "samoristas", cultores do nacionalismo desenvolvimentista e da personalidade carismática do primeiro presidente. Tenho alguns, menos, "guebuzistas", que frisam o empreendedorismo e a descentralização patrocinados pelo actual presidente. Muitos conhecidos e alguns amigos estão na expectativa do MDM (não serão exactamente "simanguistas", não há neles uma pessoalização da adesão), crentes na democratização societal que patrocinará. Muito poucos no meu núcleo social são renamistas (alguns foram-no, mas foram saindo nas purgas anti-urbanas e anti-intelectuais naquele partido).

 

Eu cheguei ao país em 1994 (as próximas eleições serão as primeiras multipartidárias que não acompanharei). O país estava crispado, saído de uma devastadora (e como o foi ...) guerra, com a ameaça de fracturas regionais políticas. E estava paupérrimo, dos mesmo mais pobres do mundo: colónia sub-desenvolvida atravessara um regime de índole comunista e entrara naquilo que se chamava "Bretton Woods" com uma economia fragilíssima, sem capital, sem investimento estrangeiro, sem infraestruturas, sem recursos humanos para um mundo globalizado. E sem espaço para entrar no mercado mundial, que é coisa que a gente tende a esquecer. Sem uma cultura tradicional democrática e sem instituições com essa prática.

 

Assisti (ou pelo menos foi isso que os meus olhos entenderam) a um urdir das teias do país, uma pacificação interna. Dolorosa, por vezes errática. Conseguida. A uma democratização, passos a passos, ainda que com coisas que chocam a sensibilidade estrangeira (a desgraça de Montepuez em 2000 talvez a pior). A uma fabulosa inserção internacional, uma diplomacia moçambicana absolutamente brilhante nos múltiplos palcos bilaterais e multilaterais, isso também denotando a maleabilidade interna. Ao crescimento de uma burguesia nacional (a "classe média" do jargão, a "sociedade civil" de outro jargão), com os tiques da "compradora" (este termo de um jargão já mais fora-de-moda), apropriadora ("apropriação primitiva do capital", disse o teórico), mas necessária a uma "economia de mercado" (aquilo do capitalismo) nacional. À ascensão de uma componente tecnocrática do poder político, à qual eu sou muito sensível, apesar de antropólogo - não há desenvolvimento, ainda por cima partindo de tamanhas dificuldades, sem tecnocratas.

 

Nada disto foi perfeito, nada disto foi exemplar, nada disto é utópico ou exaltante, romântico. Foi, e será um processo. Com as maleitas da vida em sociedade. Pode ser sempre melhor, até muito melhor. Mas é. Um algo maiúsculo. É por isso, por ter conhecido Moçambique nesse período e tanto me ter surpreendido (e "engajado", apesar de mim-próprio) que aqui sou um "chissanista". No respeito a um estadista democratizador, um construtor desta democracia, sempre saudavelmente imperfeita.

 

Brotou-me isto nestes últimos dias. Pois na manhã do sábado passado fui beber um café ao "Nautilus". No cruzamento da Nyerere com a 24 de Julho, a 500 metros da residência do Presidente, a outros 500 metros dos serviços da Presidência. Inesperadamente ali passou uma caravana de propaganda política da Renamo, que fotografei da esplanada, a primeira que vi neste período pré-eleitoral. Isto um ano e meio depois de a Renamo, estuporadamente, ter encetado acções militares no centro do país. De ter ateado o medo da guerra. E pode agora manifestar-se mesmo no centro da capital do país. Apesar desse tudo ... É uma lição, para os críticos de todos os matizes. A paz e a democracia são necessárias. E são possíveis, apesar dessa irracionalidade política.

 

Há muita coisa a fazer no país? Há, com toda a certeza. Sou eu mais sensível à protecção ecológica e dos direitos dos agricultores (itinerantes) à terra - ameaçados pela vertigem da exploração dos recursos minerais e silvícolas, que recompõem modelos de exploração exógena. Mas mais importante é ter a consciência de que os instrumentos democráticos e democratizadores existem e a cultura de paz também. Para os manter, e fazer crescer, será preciso que os críticos larguem os respectivos maniqueísmos. E, sem dúvida, que grasse um sentimento de "patriotismo", de maior repartição societal.

 

(Pronto: agora podem protestar-me de "frelimista").

publicado às 09:26


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