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Peniche

por jpt, em 10.12.14

forte_de_peniche.jpg

 

Peniche é tão longe como o é a Manhiça mas o certo é que não ia lá há mais de 30 anos, coisas da inércia. Quando lá terei ido? Não sei, pois constato agora que nem tinha memória da terra. O Pedro levou-me lá, coisas de ter ele uma actividade universitária de "extensão" na escola secundária local, a "Árvore das Memórias", assim a intitula ele.

 

Ao seu desafio logo disse que sim, pois para além de tudo o mais prometeu-me pagar o almoço. Assim fomos, bem recebidos na escola, um robusto edifício "Estado Novo tardio" (1957, acho) em muito bom estado, já bem acrescentado nesta alvorada de milénio. Assisti à sua sessão numa turma super-animada e enérgica de um curso técnico-profissional (daqueles que a chanceler Merkel nos recomenda), da qual gostei imenso, vinte jovens a desmontar as preconcebidas e preconceituosas ideias sobre a "decadência (geracional) do império romano".

 

A simpaticíssima colega que nos acolhera dera-nos um brifingue ("sinopse" em português arcaico) sobre a natureza e a sociedade penicheira, detalhando-se face à nossa particularmente enfática curiosidade gastronómica. Foi-nos assim recomendado o alfaquique frito com açorda de ovas ou um sequinho (de cantaril), não deixando de nos avisar sobre os "esses de amêndoa", ditos como prenunciando um júbilo final. O local que acabámos por escolher para culminar a nossa penichice foi o restaurante "Sardinha", do qual não retirámos razões de queixa. Ainda que, devido à situação proto-calamitosa que nos acomete, nós lumpen-intelectualidade, eu tenho prescindido das degustações regionais, algo mais dispendiosas, e me tenha ficado pelo quase-sempre prestável peixe-espada grelhado, um vintage dos frutos do mar. Mas que ali nem grande coisa. O Pedro sabe da poda e explica-me: "estão proibidos [pelo demo ASAE] de grelhar em carvão - só nas "festas" o podem fazer - e os grelhados ficam assim, desenxabidos". A ecologia tem custos, assumo.

 

Depois percorremos a Fortaleza, perdão, o Forte de Peniche. O Pedro doutorou-se sobre a Ilha de Moçambique, eu andei por lá bastante, aos caídos, isto de fortalezas (perdão, fortes) chama-nos, apela-nos. Surpreendeu-me o tamanho daquilo, imponente. E, sem saber da sua história, quem terá tido a ideia de a instituir assim, imponente, naquela ilha [Peniche era uma ilha? acho que o ouvi dizer]. Assim posta exige uma leitura sobre a história da estratégia defensiva desta nossa costa.

 

Percorremos o parco museu do forte, a lembrar a prisão do "Estado Novo". Depois todo o terreiro daquilo - tem um museu (municipal) que não visitámos e uns ateliers de artistas locais - uns guerreiros em metal a lembrar a arte étnica da África Austral d'agora, aquilo de transformar o espólio de armas em arte, mas aqui talvez com menos arreganho imaginativo. Acima de tudo fico estupefacto, de novo, agora vendo-o de dentro, com o tamanho do forte. E, claro, com o seu desuso. Que fazer do verdadeiro mamarracho? Vários edifícios, das várias levas de construção, devolutos. Parece-me aquilo aprisionado, ainda que já não prisão, da museologia. Turismo, serviços, comércio, algo tem que ali entrar, verdadeiro mausoléu de um tempo que vai passando. 

 

No final a exposição do centenário de Cunhal. Que fique explícito, eu gosto de Cunhal, por motivos estéticos e familiares. Mas o que encontro em exposição no edifício público é uma mescla da sua invocação e da evocação da prisão "dos tempos". É a narrativa PCP colocada em edifício público. É muito legítima, mas é isso. Como se entregássemos os palácios às narrativas monárquicas e os templos às narrativas eclesiásticas. Falta ali qualquer coisa, em termos de tratamento. Por exemplo? Visitámos a sala final acompanhados de um casal. Francófono. Nem uma legenda em língua estrangeira. O que restou do internacionalismo proletário?, pelo menos ...

 

publicado às 18:59



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