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Raramente ouço rádio, principalmente nos taxis. Quando vim para Moçambique atentei, por razões profissionais, nas então recentes RTP-África e RDP-África. Depois deixei. Mas ficou-me a memória dos projectos que sustentavam estas iniciativas mediáticas, inscritas na política de extroversão portuguesa. Afirmava-se, e até se procurou, a pertinência de estratégias constitutivas de perfis com conteúdos adequados ao público africano de língua oficial portuguesa e, marginalmente, a pequenos núcleos de falantes ou estudantes de português em alguns países africanos. Quanto aos imigrantes portugueses em África não eram considerados o alvo [diz-se "target" no jargão], e teriam outros meios de aceder à informação sobre a longínqua pátria, entre os quais, evidentemente, as RDP-Internacional e RTP-Internacional, pensadas e executadas a pensar exactamente nessa gigantesca mole de emigrantes portugueses.

 

Os anos passaram e não desfiz a ideia que tive no início. Estações com uma conceptualização preguiçosa e polvilhadas de profissionais emprateleirados. Conteúdos desajustados, polvilhados de informação muito institucional enviada das capitais africanas, e "embrulhada" com afrodescendentes simpáticos e um ou outro português oriundo das velhas colónias, estes marcando (reclamando) identidades "africanas" através de obtusos sotaques e apreço pelas mais superficiais características da sempre recordada "África". 

 

Mas nunca pensei que este desajuste chegasse tão longe. Hoje, no taxi, vamos ouvindo um qualquer cançonetista da "lusofonia". E depois começa o .... tempo de antena das eleições europeias em Portugal. E, trânsito complicado, ali ficámos a ouvir longos minutos dos partidos portugueses (azar meu, começou o BE, falando a inefável Marisa Matias, dizem que agradável à vista mas nem acho tanto assim). 

 

Mas viesse quem viesse. Tem alguma lógica, conceptual, estratégica, ou seja lá qual for, construir uma RDP-África, destinada aos públicos africanos que falam português, e massacrá-los com o "tempo de antena" eleitoral oficial? Não tem. Nenhuma. Apenas sintomático de uma gigantesca preguiça intelectual, de um "coçar a micose" político, de uma trapalhada intelectual até pungente. A pobre administração pública, a desgovernação política. 

 

Uma vergonha seria. Se a gente não estivesse habituada. 

publicado às 16:34



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