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Rescaldo de uma visita a Portugal

por jpt, em 15.08.11

Uma muito boa ida a Portugal, a família está muito bem (o que me destorna Atlas) e ainda lá me restam dois punhados de amigos (o que dá alento [ou alma, na linguagem da superstição]). Um breve rescaldo do que encontrei:

 

 

 

A crise está(-me) vasta e não pude comprar livros. Mas vi nas livrarias este vol. I das obras de Bulgákov. Tradução de Nina Guerra e GAF, que continuam a civilizar o país com a tradução dos escritores russos de XIX e XX, antes deles inaceitavelmente intraduzidos. Fiquei invejoso, o contentamento da posse chegará (?) em próxima visita.

 

 

As mesmas razões afastaram-me do A Cauda do Escorpião - o Adeus a Moçambique, de Giancarlo Coccia, recente publicação que para mim foi uma novidade. O Herdeiro de Aécio aborda o livro, muito criticamente, minorando o meu lamento.

 

 

Toda a gente fala da crise do capitalismo financeiro. Eu ainda resmungo com o industrial. O "indivíduo fruidor", da mescla vigente e dominante entre pós-marxismo e pós-catolicismo, só é quando rodeado de uma miríade de "gadgets" (termo inglês que significa penduricalhos). Mas o material desta produção industrial é mau, supra-perecível, daí que nos esvaímos em constantes actualizações e substituições. A minha máquina, com meia dúzia de anos ("tão antiga?", "vive em África? sabe? ... a humidade, o pó!...") avariou, a reparação tem o custo de uma nova. A máquina do meu pai (que não é Nikon, já agora) é mais velha do que eu e ainda fotografaria, se houvesse rolos. Conclusão: "não há dinheiro não há palhaço", deixo de ter máquina fotográfica. Um dia, quem sabe?, se isto me melhorar, comprarei outra. Que não será Nikon.

 

 

Fui lá. Depois falei disso. Como seria de prever arquitectos e amigos de arquitectos defendem o "Arco do Triunfo de Cascais" que Gonçalo Byrne construíu ali na baía. Dizem que "recuperou" e "marcou" e mais não-sei-o-quê. Dizem ainda, e vindo de quem vem é um argumento delicioso, que "os apartamentos são caríssimos e estão todos vendidos". Que jeito dá a mercadocracia em algumas situações. O monstro está acima retratado (clicando ele aumenta), não me aproximei mais. Por mero pavor.

 

 

Quinze anos depois voltei ao VilaLisa, mítico local na Mexilhoeira Grande (entre Lagos e Portimão). O meu entusiasmo pela comida reduziu-se muito, entretanto. Mas ali recordei-me glutão. Ainda vale a pena.

 

 

A parede que está ali ao fundo é a actual Escola Secundária D. Leonor (Lisboa). O edifício antigo continua, mas cresceu-lhe este gânglio em forma 

de paralelepípedo. Ou será tumor? Dizem-me que agora é assim ... que se recuperam as escolas.

 

Novo governo, crise generalizada. Como durante anos trabalhei em "cooperação" (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) pergunto "que vai acontecer à cooperação?", gente nova e abordagens são esperadas. As notícias e as perspectivas são ... uma dor de alma. 

 

A retrospectiva de Pedro Cabrita Reis no Centro Cultural de Belém. Esmagadora.

(Numa sala ao lado uma individual de fotografia, de Alfredo Jaar, "Cem Vezes Nguyen", é uma fraude. Não há um qualquer antropólogo que tenha lido alguma coisa sobre "histórias de vida", sobre representação e isso, que pontapeie o rei-fotógrafo que tão nu se passeia?).

 

 

Li jornais (sempre vão sendo mais baratos). O Guia de Futebol 2011-2012 do Record é melhor do que os Cadernos de A Bola.

 

 

O jornal i, que quando apareceu tanto prometia, piorou. Não vende, dizem. E perdeu muitos jornalistas. Ainda assim vou comprando. Os amigos, feitos vizinhos, acusam-me de direitista, "servo do grande capital" por ler tal pasquim. Respondo-lhes que o jornal está cheio de textos de bloguistas de esquerda e até de neo-comunistas e velho-comunistas. Não acreditam. É a força dos preconceitos.

 

 

Há quase vinte anos o então director do Público afrontou as manifestações dos estudantes invectivando essa mole como "geração rasca", algo que ficou célebre. Não eram apenas os fundos das costas que eram mostrados, eram também os trocadilhos com o nome da então ministra da Educação que serviam como se argumentos políticos. Agora apanho no mesmo jornal um patético texto de Santana Castilho (Publico, 3.8). Castilho, que cheguei a encontrar aqui em finais de 90s, penso que ligado à cooperação com o então ISPU, despeja um incomensurável fel ("eu é que devia ser ministro") e dedica-se a jogos com o nome do agora ministro da Educação. Estará o Público na época dos "colunistas rascas"?

 

Helena Matos (texto só para assinantes):

"... não tenho qualquer interesse ou simpatia por sociedades secretas ou discretas e numa democracia nem percebo a sua razão de ser. Irrita-me solenemente a presunção dumas pessoas que a si mesmas se definem como homens bons e sobretudo todos aqueles rituais de igreja a fazer de conta que não é igreja, mais os aventais e os martelos que me parecem muito, mas mesmo muito rídiculos (...) os aventais da maçonaria movem-se cada vez mais no domínio do material. Não há na política deste país negócio obscuro, tráfico de influências, cumplicidades entre o público e o privado que não nos levem à irmandade dos aventais. Para cúmulo somos também informados de que os membros dos serviços de informações têm outras lealdades para lá daquelas que devem ao país e que inevitavelmente conduzem a esse enredo de lojas, grémios e orientes.

 

Se alguns milhares de homens deste país se sentem felizes por andar de avental, chamando-se irmãos e dizendo-se homens bons, essa é sinceramente uma coisa que não nos diz respeito e a mim me causa particular fastio. Mas a democracia que somos tem o dever de investigar o tráfico de influências em que justa ou injustamente a maçonaria surge no cerne e muito particularmente os partidos, sobretudo o PS e o PSD, têm de ser capazes de olhar para dentro e analisar as consequências para si e para o país das cumplicidades maçónicas de muitos dos seus dirigentes..

 

(...) Preocupemo-nos com os aventais que (...) se tornaram no símbolo daquilo que em Portugal o poder não pode e muito menos deve ser."

Sim. Por todo o lado a maçonaria. Na política - onde o inenarrável caso da votação em Fernando Nobre para presidente da AR, com apelo a solidariedades maçónicas passou como "natural" . Como é possível que um deputado apele ou actue através de solidariedades que não são públicas e escrutinadas? No PS e no actual governo, resmungam. Nas universidades, dizem-me. Com ascensões incompreensíveis, com pequenos e médios poderes (nas administrações das entidades académicas, na selecção de projectos e bolsas, etc). Até tipos que foram meus professores, uma escumalha.

 

À chegada a Lisboa vi isto:

 

 

António Reis, veterano deputado socialista. Que aqui recorda ter sido "presidente do conselho de ética da AR". Que disserta na televisão pública (acompanhado por um arremedo de jornalista, cheia de salamaleques, dando-lhe verdadeira passadeira) sobre o que é ser maçónico. Que recrutam na elite (sorrio, um tipo do PS!, a recrutar na elite). Que são procurados pelos políticos, que querem aderir para "colher os ensinamentos" que ali se redistribuem (não podiam ir à internet? A uns cursos de verão? por correspondência?). E o serviço público leva-o ao colo, na legitimação. Para os pacóvios se contentarem.

 

Que fazer com estas redes, esconsas, apropriadoras, adversas à sociedade aberta (explícita), democrática? Adversárias do desenvolvimento? Combatê-las? Como, se o teu vizinho é maçónico? Se o teu querido amigo os defende? Se o(s) teu(s) novo(s) ministro(s) também? Se a tua própria família te diz "não te metas com eles, cala-te"?

 

Há pelo menos uma coisa, fácil. Nunca votar em quem tem maçónicos. Como no partido deste infecto que recruta na elite ...

 

Entretanto, vim-me embora.

 

jpt

publicado às 01:10


2 comentários

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De jpt a 15.08.2011 às 16:29

Antes de tudo seja bem-vindo. Quanto ao que me diz no ponto 1 recordo que eu escrevi "arquitectos e amigos de arquitectos defendem o arco de triufo de cascais", e como tal concordaremos, ainda que eu não conheça o universo da cidade e como tal não tenha trocado opiniões sobre o assunto de modo a permitir-me estabelecer a sua conclusão (não tenho a sua fundamentação empírica) sobre o sentir da população. E ainda, quando refiro "arquitectos e amigos" naõ me estou a restringir a uma invectiva, creio que a adesão a projectos abruptos passa pela partilha de concepções, de um capital cultural particular (se é verdadeira a partilha ou estratégias de pertença social isso é outra coisa). Honestamente, e ainda que concedendo o direito à ruptura (ou mesmo o dever) na arquitectura, acho que aquele monstro negro é indefensável. A minha longínqua foto apenas quer ilustrar isso, a baía (já basto destruída, diga-se) levou uma patada ...

Quanto ao segundo ponto: eu vivo longe há muito, de quando em quando ouço falar da maçonaria (e, até, sou aqui e/ou no facebook, invectivado como maçónico, imagine-se). Não tenho o sentir daí, generalizado. Mas cheguei a Portugal e logo vi esta inaceitável entrevista. E depois em pequenos comités de amigos fui comentando-a e fui submergido por reflexões, com conhecimento de causa [e há coisas e nomes que não se podem escrever sem provas, e mesmo com estas será de evitar], sobre a presença da maçonaria. No poder, na administração pública, nas academias. Entretanto rebentou o caso dos serviços de informação, que acho que também se referiu a isso, mas já não acompanhei. Por tudo isto o meu incómodo, que levou á referÊncia. Se está um pouco serôdia, ainda bem.

Cumprimentos, e até breve, espero
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De espumante a 15.08.2011 às 14:38

Meu caro JPT

Só dois reparos:

1 ) O complexo de apartamentos do G. Byrne. Só para discordar relativamente ao que o José disse sobre a opinião corrente. Moro aqui em Cascais há bastantes anos e ainda não encontrei ninguém que não considerasse «aquilo» um abrolho. Ressalvam-se alguns amigos do arquitecto e mais uns quantos que gostavam de ser amigos do arquiteto (já nem sei se é com 'c' ou sem 'c'...) mas, definitivamente, a opinião geral é má...

2) Maçonaria. Cada vez há mais gente que acha que já deu para esse peditório. As pessoas estão cansadas e acham-se indiferentes à maçonaria. Muitas delas, de resto, têm já uma vaga noção do que «aquilo» seja. E ainda bem. A comunicação social, enfim, vai-se esforçando para manter a chama viva porque ela própria tem interesses envolvidos na coisa, do dinheiro ao emprego, passando pela cueca, há ainda pressões fortes. Por acaso não vi esta entrevista, mas calculo saber quem é a jornalista cheia de salamaleques .)))
Um abraço

Nelson Reprezas

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