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Saborosas Tanjarinas d'Inhambane

por jpt, em 25.06.05

 

 

 

 

Saborosas Tanjarinas d'Inhambane

 

 

 

I

 

 

 

Serão palmas induvidosas todas as palmas que palmeiam os discursos dos chefes?

 

Não são aleivosos certos panegíricos excessivos de vivas?

 

Auscultemos atentos os gritos vociferados nos comícios.

 

E nas repletas “bichas”? São ou não bizarrosos sigilosos susssurros?

 

Em suas epopeias de humildade deixam intactos os sonhadores.

 

Sabotagem é despromover um verdadeiro poeta em funcionário.

 

Não bastam nos gabinetes os incompetentes?

 

Ainda mais alcatifas e ares condicionados?

 

Aos dirigentes máximos poupemos os ardilosos organigramas.

 

Como são hábeis os relatórios das empresas estatizadas

 

prosperamente deficitárias ou por causa das secas

 

ou porque veio no jornal que choveu de mais

 

ou por causa do sol ou porque falta no tractor um parafuso

 

ou talvez porque um polícia de trânsito não multou Vasco da Gama

 

ao infringir os códigos na rota das especiarias de Calicute.

 

E nos nossos tímpanos os circunjacentes murmúrios?

 

Não é boa ideologia detectar na génese os indesmentíveis boatos?

 

Uma população que não fala não é um risco?

 

Aonde se oculta o diapasão da sua voz?

 

E quanto ao mutismo dos fazedores de versos?

 

Não sai poesia será que saem

 

dos verões crepusculares dos bairros de caniço augúrios cor-de-rosa?

 

Quem é o mais super na metereologia das infaustas notícias?

 

Quem escuta o sinal dos ventos antes da ventania e avisa?

 

 

 

II

 

 

 

Na berma das avenidas asfaltizadas olhemos perplexados

 

os sarcásticos prédios por nós escaqueirados. Não dói?

 

Nas escolas é maningue melhor partirmos as carteiras e de rastos estudar no chão?

 

E nas fábricas que mãos são estas nossas proletárias mãos que a trabalhar só desfabricam?

 

E o que é que se passa com engordecido responsável director

 

sempre a mandar-se em missão de serviço nos melhores hotéis das europas?

 

Ou então no espólio das noites de vigilância e de saco cheio

 

vale mais a carência nacional que ter um pide

 

vale ou não vale nosso esperto milícia Fakir?

 

 

 

III

 

 

 

Que os camionistas heróis dos camiões emboscados a tiro nas viagens

 

tragam as saborosas tanjarinas d’Inhambane ao custo das ciladas

 

mas que descarreguem primeiro nos hospitais nas creches e nas escolas

 

que o futuro do País também fica mais doce na doçura das tanjarinas d’Inhambane

 

e o poder sobrevive na força de um povo com tabelas d’amor e não de preços.

 

Mas os auspiciosos maduros cajus purpurinos

 

já não nos dão os gostosos tincarôsse porquê?

 

Especular a pátria não é guiar a viatura nova contra os muros e os postes?

 

E ilegalidade só é ilegalidade nos outros?

 

Hiena só é quizumba no mato?

 

Então juro que tanjarinas d’Inhambane é tanjarina d’Inhambane!

 

Eu adoro morder voluptuosamente os sumarentos gomos

 

das magníficas tanjarinas d’Inhambane. Adoro mesmo!

 

E desde leste a oeste quem não gosta das saborosas tanjarinas d’Inhambane?

 

Se não gostam, então, os que abjuram os sagrados frutos da terra-mãe

 

que façam lá um pai e uma mãe; Que façam tios e sobrinhos;

 

Que façam lá irmãos e irmãs; Que façam lá amigos e amigas;

 

Que façam lá colegas e camaradas;

 

E com a incompreensão façam lá nascer a ternura

 

o amor e a paz se são capazes!

 

 

 

IV

 

 

 

Pois é! As orientações de alguns directores desorientam os juízos

 

(deles também) mas quem é que disse que não tenho pena

 

dos seus conjuntos safaris embrulhando-os fresquinho

 

se sem problemas de suores originários deste instabilizado clima tropical?

 

Quem é que disse que não lamento vê-los penosamente saindo dos “Ladas”com as suas poses

 

e as incalejadas mãos deles sem aguentarem sequer

 

abrir-se a porta e assentados esperarem que o motorista irrevogavelmente

 

dê a a volta ao mundo do fatalismo e cumpra hereditariamente essa tarefa?

 

Mas quem é que disse que não tenho pena?

 

Mas quem foi que disse que não sinto esse drama?

 

 

 

V

 

 

 

Depressa você Madalena vai bichar lenha, deixa bicha de carapau.

 

Tu vovó sai da bicha de capulana vai bichar pão.

 

E Toninho com Quiristina vai os dois bichar água.

 

Sexta-feira antepassada mamana Júlia dormiu lá mesmo.

 

Bichou toda a noite no Jone Uarre mas chegou vez … NADA!

 

Aontem tomar chá não tomou … foi no serviço.

 

Aoje não toma? Vai tomar amanhã.

 

Não toma amanhã toma outro dia.

 

Ou quando encontra toma de noite.

 

E quando não encontra de noite então dorme.

 

Mas quando sonhar amendoim já tomou chá, já comeu.

 

 

 

VI

 

 

 

Sim. A gente faz favor quer cascar com unha do dedo grande

 

as tanjarinas d’Inhambane.

 

Olha lá! Você estás cansado da tua terra? Salta arame … vaaaaaiiii…

 

Você não gostas bandeira? Leva documento … FAMBA!!!

 

Antigamente ‘panhava mais fome mas não ficava aqui?

 

Antigamente era palmatoada. Não estava? Não ia na estiva?

 

Antigamente sapato não corrente de ferro? Agora quer “Adidas”, não é?

 

Antigamente sentava no xibalo. Agora senta no Scala não senta? Mas quem deu?

 

Antigamente escrevia nome? Aonde? Capaz? Agora manda carta no jornal

 

só p’ra dizer que pão não presta. Comia qual pão antigamente?

 

Antigamente encontrava passaporte? Agora se não ‘panha passaporte

 

logo fica muito triste, fica muito zangado. Faz barulho.

 

Antigamente não era só caderneta?

 

Sim! Agora come carapau. Não é peixe? Batata-doce e mandioca

 

agora não é comida? Porquê?

 

Nossa barriga alembra bife com batata frita e azeitona.

 

Alembra bacalhau mais grelos, mais aquele azeite d’oliveira com vinho tinto de garrafão lacrado.

 

Mas nós tinha isso quando queria ou quando restava? Era nossa casa? Qual casa?

 

Lá naquela casa a gente puxava otoclismo p’ra noss cu pró cu dos outros?

 

Vá! Fala lá! A gente não ficava de cócoras numa sentina? A gente tinha balde mais o quê?

 

 

 

VII

 

 

 

É verdade; chuva na machamba não chove. Mas a gente espera. Chuva vai vir.

 

É verdade a gente come couve com couve, carapau com carapau, farinha com farinha. Mas senta na mesa. Família toda senta.

 

Senta em casa no prédio. Amigo também senta. Senta ou não senta?

 

Ir embora não voltar mais? Não pode. Deixar aqui? Ir aonde? Capaz!

 

Mudar moçambicano ficar o quÊ? Mudar a cara ficar qual cara?

 

Fugir há outro que vai fugir. Moçambicano próprio não foge.

 

Homem quando é homem é só um coração. Não é dois.

 

 

 

VIII

 

 

 

Agora mesmo que não tem senha de gasolina não faz mal

 

Não há crise. Candonga tem.

 

Mas quem disse aquelas saborosas tanjarinas d’Inhambane não vem mais?

 

É preciso? A gente vai fazer estratégia de mestre Lenine

 

e vamos avançar duas dialécticas cambalhotas atrás

 

moçambicanissimamente objectivas

 

concretissimamente bem moçambicanas.

 

 

 

IX

 

 

 

Agora alerta camarada Control. Vem aí camião com tanjarinas d’Inhambane.

 

Tira dedo do gatilho e faz uma aceno d’alegria ao estóico motorista.

 

Ganha metical mas desde Inhambane, desde Chai-Chai, desde Manhiça

 

ele está guiar mas ele só sabe que chegou quando está a chegar.

 

Camarada Control: Aldeia é aldeia não é vila.

 

Camarada Control: Vila é vila não é cidade.

 

Camarada Control: Cidade é cidade não é distrito.

 

Camarada Control: Distrito é distrito não é província.

 

Camarada Control: Província é província não é nação.

 

Camarada Control: Control é control não é Governo.

 

Camarada Control: Território nacional é lá no primeiro

 

grão d’areia em Cabo Delgado até no último milímetro da Ponto D’Ouro.

 

Camarada Control: Abre teu mais fraterno sorriso no meio da estrada

 

e deixa passar de dentro para dentro de Moçambique

 

nossas preciosas tanjarinas d’Inhambane.

 

Agora escasca uma tanjarina e prova um gomo.

 

É doce ou não é doce camarada Control?

 

Pronto!

 

Muito obrigado Camarada Control!

 

E viva as saborosas tanjarinas d’Inhambane…VIVA!!!

 

 

 

 

 

[Versão em Nelson Saúte (org.), Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana, Lisboa, D. Quixote, 2004, p. 103]

 

 

 

 

[José Craveirinha, versão em Nelson Saúte (org.), Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana, Lisboa, D. Quixote, 2004, p. 103]

publicado às 10:03


8 comentários

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De jpt a 16.06.2008 às 10:08

Hoje é Sábado... e o poema do Craveirinha muito bonito.

Publicado por: alves fernandes às junho 25, 2005 04:42 PM
http://predatado.blogspot.com/
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De jpt a 16.06.2008 às 10:08

Grande. E oportuno.
(esta é que me continua a doer: "Fugir há outro que vai fugir. Moçambicano próprio não foge.
Homem quando é homem é só um coração. Não é dois")

Publicado por: Carlos Gil às junho 26, 2005 01:22 AM
http://xicuembo.blogspot.com/
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De jpt a 16.06.2008 às 10:09

Muito belo, este poema. Continuo a ler Roupa Velha. Será que vi uma fotografia sua? No meio de crianças? As estradas do Niassa? Será?
Li também há uns tempos uma coisa deliciosa, que me esqueci de dizer. Sobre a Anita. Em toda a minha vida, penso que só li dois ou três livros da Anita, mas compreendo o fascínio. Eu tive uma boneca que se parecia com a Anita, que o meu avô trouxe - seria de Macau? - e que dizia "habla comigo" e andava sozinha. Era quase do meu tamanho e um pouco assustadora. Também a Anita era um pouco estranha...

Publicado por: sara monteiro às junho 26, 2005 02:21 AM
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De jpt a 16.06.2008 às 10:09

...o deslumbre e o poder das palavras que nascem do humus da raiva salmodiando a maldição de "...o que é necessário é transformar a realidade"...será que a poesia pode oficiar essa utopia?
Com um abraço do Morfeu

Publicado por: morfeu às junho 26, 2005 04:22 PM
http://www.anomalias.weblog.com.pt/
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De jpt a 16.06.2008 às 10:09

Gil o poema está aqui para o aniversário. Por aquilo que aqui significou. Não o levo à letra, muito menos nessas derivas de identidades homogéneas e até épicas. Não o leves também. AF e Morfeu obrigado pelo eco da leitura.
SM acertou. E a Anita acho que foi a primeira polémica que tentei - ainda achava que valia a pena. Depois percebi que não.

Publicado por: jpt às junho 27, 2005 12:34 PM
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De jpt a 16.06.2008 às 10:10

Sempre forte o Saborosas Tanjarinas d'Inhambane, e muito bom de reviver. Nos anos oitenta, era o prenúncio de uma nova era, de uma nova atitude, que se fazia urgente na literatura e na vida! E como esquecer os msahos no Tunduro e o Gulamo Khan a dizer isto? Ao assinalar-se os 30 anos da nossa independência, homenagem também minha a ele e a Craveirinha. A ti, outro Zé, obrigada.

Publicado por: Fátima Ribeiro às junho 28, 2005 02:28 PM
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[...] são 35 anos de independência de Moçambique. Na data do trigésimo aniversário aqui deixei este poema de José Craveirinha, poema também momento que foi, que agora [...]
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[...] o poema de José Craveirinha, Saborosas Tanjarinas d’Inhambane: os ideais da revolução moçambicana que ficaram pelo caminho. O Infante de Fernando Pessoa: [...]

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