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Masekela em Lisboa

por jpt, em 21.06.15

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Ontem noite ainda não longa levaram-me a conhecer o Largo do Intendente, aquela zona que "nos tempos" era má demais mesmo para os passeios em busca do pitoresco. Agora semi-recuperada e palco, dizem-me, da animação boémia, dita cultural, e levemente gauchiste ..., felizmente descaracterizadora daquela profunda miséria que naquele antanho ali habitava. Caímos, inesperadamente, num festival musical ali a decorrer nestes dias. O pequeno rossio atulhado de gente, os bares apinhados, ambiente simpático,  muito típico - eu com a cada vez mais habitual sensação de ser avô, tamanha a juventude circundante. Tanta que até agride, ainda que tão pacífica. 

 

Mas o importante é ter percebido que hoje à noite, por aquela hora das vinte e uma e trinta, o grande Hugh Masekela tocará, o encerramento do tal festival, "Lisboa mistura". Vi-o há anos, muitos, lá em Maputo. Vai ser interessante ver o mais-velho aqui, não sei se pela primeira vez nesta capital ...

 

Para quem não o conhece: vão até lá. E deixo aqui a sua "Stimela" (Xitimela), já tornada "clássico", numa versão recente [e aqui já colocara velha versão com transcrição da letra). Até logo?

 

publicado às 12:39

África do Sul: xenofobia?

por jpt, em 20.04.15

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Uma polícia tenta apagar um homem atacado em Reiger Park, Boksburg. Fotografia de Shayne Robinson, The Star

 

Zwelithini, o chefe não-eleito zulu, assenta na falta de democraticidade do seu estatuto simbólico, a sua desnecessidade de votos, a sua "liberdade" para opinar. Critica a "preguiça" dos seus compatriotas, a sua aversão ao trabalho e à disciplina (onde já li isto?) e apela à partida dos estrangeiros - cada tribo no seu território, dir-se-ia noutros tempos. O discurso está aqui gravado e transcrito. Foi o pequeno rastilho suficiente para esta onda criminosa de ataques aos estrangeiros africanos na África do Sul, a vaga de terror submergindo os mais desapossados dos desapossados.

 

As continuidades históricas são vigorosas. Independentemente da cor da pele dos mandantes e dos seus sipaios. Há muitos itens sociológicos para indexar na explicação disto tudo. Entre eles conviria não esquecer a cleptocratização da "governância" da "esquerda" sul-africana. 

 

Há quem insista, com punhos de renda, em chamar a isto xenofobia. Não uso o termo. É racismo. Para esta gente (mandantes e sipaios) há duas raças no mundo: "eles" e os "outros". Depende do momento sobre quem (a "raça") escarram o ódio que os faz sobreviver.

 

 

 

publicado às 10:15

No feedly (31)

por jpt, em 11.04.15

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Conversas inéditas de Manoel de Oliveira (com Augusto M. Seabra), no Escrever é Triste - uma entrevista ao cineasta, com um quarto de século, e mais do que recomendável.

 

Uma visão de Asterix (e funciona), no Leituras de BD.

 

Descompasso, excelente texto no Antologia do Esquecimento (e não só por lembrar Ruy Duarte de Carvalho).

 

Broqueio, no Urso do Relvas.

 

Brontosaurus Rising, com um elogio dos paleontólogos portugueses que comprovam agora a exisência do agora chamado Apatosaurus excelsus, no The New Yorker.

 

Escrever é difícil, a vida também, no A Terceira Noite.

 

Charlotte Rampling, no Herdeiro de Aécio.

 

Do ir e parar, no Apenas Mais Um.

 

O derrube da estátua de Cecil Rhodes, no The Guardian.

publicado às 16:50

Kannemeyer em português

por jpt, em 01.12.14

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É surpreendente apanhar uma edição portuguesa do "banda-desenhista" sul-africano Anton Kannemeyer, este Papá em África (ligação a galeria sobre o livro e com o texto de posfácio de Marcos Farrajota e do/a tradutor(a) Crizzze), editado por uma editora que eu desconhecia (isto de viver fora de Portugal), com um nome impronunciável mas com um grande blog [Gente Bruta, isto sim um blog de editora, não essas pobrezas institucionais que fui conhecendo]. Estão aí 500 exemplares para que os esgotem, apressem-se.

 

Kannemeyer não é um iconoclasta, é um puro canibal. Se aparenta filiar-se no racionalismo, como este ex-libris simula 

 

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tal não corresponde minimamente à verdade. O autor filia-se muito mais num "devoro, logo existo", pontapeando todos os bons ícones e princípios e, ainda por cima, as boas causas. Há algo que o engrandece, o seu discurso (o seu apetite voraz, dizendo melhor) global. Pois, e sabê-lo-á quem está habituado ao registo sul-africano, as maiores produções nacionais têm sempre um tom local, como se tão complexa seja (e é) aquela sociedade que algema os elaboradores (mesmo Coetzee, também ele pontapeado neste livro). Visceral dependência contextual que Kannemeyer rompe sem recusar a flatulência ancorada, libertando-se exactamente através deste radicalismo "take no prisioners". Nada lhe escapa.  

 

Aqui nesta preciosa selecção o sacana acampa em Tintin no Congo, este envelhecido, em já calvo cinquentão, satisfazendo-se em doggie style com a pobre (paupérrima) indígena agradecida mas também sodomizado na prisão, enquanto nos lembra, assim-como-quem-não-quer-a-coisa, as tenebrosas práticas africanas dos belgas tintinescos. Rasga os pergaminhos africanders, não deixando pedra sobre pedra do Voortrekker, e pontapeia as práticas negras da "nação arco-íris", como a eroto-mania violadora das brancas. Tanto fel não lhe capta, evidentemente, a simpatia interna, naquele conturbado espectro de luz austral. Principalmente quando, como aqui em cima meti, afixa os mimetismos como prática estruturante (e hiperbólica) da actual sul-áfrica.

 

Há derivas que são criticáveis? Haverá, para mim em particular as preocupações com a carga semântica inscrita na língua (no africâner, no caso). Não há línguas "limpas", a gente sabe, e é até bizantino continuarmos nessa preocupação higienista. Mas que não seja por isso - repito, vão esgotar os 500 exemplares. A ver se mais coisas do homem serão editadas em português.

 

 

 

publicado às 15:28

 

Dams, Displacement and the Delusion of Development: Cahora Bassa and Its Legacies in Mozambique, 1965 - 2007, o livro que Allen Isaacman e Barbara Isaacman publicaram em 2013. 

 

Com óbvia articulação a este temática falarão na próxima terça-feira no âmbito dos seminários do Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM.  A sessão leva o apetecível título de "A expansão dos tentáculos do império Sul-Africano: a desterritorialização da Bacia da Cahora Bassa".

 

Data: Terça-feira 25 de Março
Local: Anfiteatro 1502, FLCS, Campus-UEM
Hora: 10:05 ás 12:05h
Oradores: Professores Allen Isaacman e Barbara Isaacman
RESUMO:

Em 1965, quando Portugal propôs a construção de uma barragem em Cahora Bassa , as autoridades coloniais imaginaram que inúmeros benefícios fluiriam do projecto hidroeléctrico de 515 milhões dólares americanos e do ambiente que iria produzir . Estes incluíram a expansão da agricultura irrigada , o aumento da presença Europeia e dividendos em minerais, bem como a redução de cheias nessa região de chuvas imprevisíveis e às vezes excessivas.

Apesar destas declarações , as realidades no terreno obrigaram Portugal a modificar drasticamente a sua visão para a represa. Durante o período de construção, o progresso da luta de libertação contra o colonialismo Português em Moçambique tornou a barragem um ponto focal no âmbito de uma disputa regional mais ampla. Cahora Bassa se ​​tornou um projecto de segurança que o regime de minoria na África do Sul e da ditadura de Salazar em Portugal mascararam como uma iniciativa de desenvolvimento . Ambos viam a barragem e sua albufeira como um amortecedor poderoso que iria bloquear o avanço das forças da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e , por extensão, o Congresso Nacional Africano (ANC). Os regimes temiam que se a FRELIMO e os seus aliados fossem capazes de atravessar Rio Zambeze, eles teriam acesso relativamente fácil para ambas as principais cidades coloniais da Beira e Lourenço Marques, e para a fronteira Sul Africana.  

Em troca de assistência estratégica da África do Sul na luta contra a FRELIMO, Portugal concordou em exportar para a África do Sul a grande maioria da energia que Cahora Bassa iria produzir a um preço artificialmente baixo. Este acordo de 1969 transformou Cahora Bassa de um projecto da hidroeléctrico multidimensional para uma barragem cuja principal função era fornecer energia barata para as minas e indústria Sul- Africanas, a uma fracção dos preços internacionais aumentando desta forma a segurança energética de Pretoria. De maior importância, o acordo permitiu que o regime do Apartheid pudesse estender os tentáculos do seu império para a área da barragem, no coração da colónia, levando à desterritorialização de Cahora Bassa .

publicado às 12:58

Ainda Mandela

por jpt, em 19.12.13

 

 

(Fronteira de) Lebombo, semana passada. Era assim a entrada na África do Sul, aquele país onde alguns intelectuais europeus dizem que nada muda. E onde os passantes esperavam para assinar as condolências ...

publicado às 17:16

Mandela em sotaque lisboeta

por jpt, em 12.12.13

 

Sem internet em casa e tendo, entretanto, ido à África do Sul não acompanhei as parangonas portuguesas sobre a morte de Nelson Mandela. Regresso agora e vejo um punhado de ecos. A rasteira política interna, com as acusações ao governo de finais de 1980s (com argumentos não apenas descontextualizados mas também falsificados), uma coisa vergonhosa. Mas também o coro vácuo, tipo água-de-colónia a litro. Pior ainda os que procuram ser inteligentes e conhecedores: o constante Vasco Pulido Valente lá aproveita o assunto para, como sempre, dizer mal de (quase) todos os portugueses, enquanto vai resmungando que nada mudou na África do Sul (a qual, nas suas doutas palavras, "continua dividida entre brancos ricos e pretos pobres"). Outros blogo-opinadores idem. E alguns, mais "cultos", ecoam uma patacoada (mais uma) do (ex?)ícone Zízek (outro para quem nada mudou - até porque os EUA são o motor da história, a história, o motor, dela também o demónio. Sendo dela pó os que o, ao Zizek, aplaudem).

 

Enfim, nada de novo entre os Açores e a Madeira.

publicado às 13:45

Mandela

por jpt, em 05.12.13

 

Em 1994 presenciei a ascensão ao poder de Nelson Mandela. Algo que me marcou como nenhuma outra situação, também, acima de tudo, por ele, homem público inigualável. O melhor da sua era, da nossa vida. Dos poderosos ninguém o segue, espelho que se tornou da pequenez humana. Serão os desapossados a lembrá-lo, verdadeiramente. Ele, com toda a certeza, soube-o e sonhou-o. Obrigado Nelson Mandela (Madiba). "Now (Sempre) is the time".

publicado às 21:52

Ainda

por jpt, em 18.11.13

 

há alguns rinocerontes no Parque Kruger (foto cpt, Novembro 2013).

 

Não sei até quando ...

publicado às 20:06

A beleza da democracia

por jpt, em 12.10.13

 ["A Beleza da Democracia". Mais do que mui bela eleitora. Eleições autárquicas, norte de Moçambique, 2003.]

 

Em tempos já distantes fui observador eleitoral em Moçambique (fotografia aqui), na África do Sul (memória aqui) e na Bósnia-Herzegovina (memória aqui). Lembrando esses detalhes biográficos, e associando-os a outros, fiz um texto, em registo bem diferente, e coloquei-o na minha conta da rede social Academia.edu.

 

O tal texto levou o título "O antropólogo engajado" e quem tiver paciência para o ler pode encontrá-lo aqui. É uma espécie de louvor à democracia. Um bocado para o "reaccionário", se lido  por olhos europeus, parece-me ... Parece-me e assim o espero.

publicado às 12:52

“Now is the time”

por jpt, em 25.06.13

 

(Um texto antigo, de memórias ainda mais antigas. Para este tão especial 25 de Junho. E minha memória de Nelson Mandela, Homem entre os homens. Tem sido bom viver enquanto ele.)

 

 

 “Now is the time”

 

Vi Mandela num comício em Aliwal North, 400 kms distante de onde nos haviam colocado, aquela East London, pequena cidade portuária de boas praias, capital daquele troço de bela terra de brancos encaixado entre os bantustões Ciskei e Transkei, esses planaltos e serras bem mais pedregosos, então destinados, naquele país louco, aos negros, os “originários”, viria eu a aprender depois, noutro local, os “kaffirs” como então já poucos diziam. Era o tempo do “Now is the time”, o até-que-enfim final daquilo, um maldito aquilo. E pairávamos sob o sentimento de estarmos na História, uma alegria contagiante, generalizada, mesmo esfuziante, aliviada do passado, esperançosa do futuro. Também mesclada, e mais até nas pequenas vilas rurais, com a angústia dos alguns que viam acabar o seu pequeno, mesquinho e irrazoável mundo.

 

Naquela missão eleitoral emparelhei com o D., um francês da minha idade, já calejado, vindo directo de anos com a Cruz Vermelha na guerra dos Balcãs. Como éramos os mais novos da equipa, impacientes e com a volúpia de conhecer, enquanto os restantes se deixaram na modorra citadina ficámos nós a acompanhar as actividades políticas no Ciskei e no sul do Transkei, e ainda nas paupérrimas townships vizinhas, enormes antros de miséria que nem no mapa vinham, e algumas das quais carregavam nomes como Frankfurt, Hamburgo ou Berlim, o absurdo extremo, um sarcasmo toponímico. Uma área enorme a cobrir, uma agenda diária frenética.

 

Valeu-nos que havia um acordo implícito com a polícia, na estrada a velocidade dos observadores era irrestrita. E assim vogávamos entre locais, no afã de a todos chegarmos. Eu carregava bastante e o D. ainda era mais louco (lembro-me de adormecer a seu lado a mais de 180 kms por hora. Naquele pequenino VW Citi 1800 que maior prova de confiança se pode pedir a alguém?). Assim trepidante foi a nossa vida nesses três meses.

 

Foi um verdadeiro mergulho no país, tão diferenciado, complexo, ele era, inebriante que estava. E com vislumbres dos seus líderes. No primeiro domingo em East London coube-nos um jantar no very british Rotary Club, com Thabo Mbeki. Suave, dulcíssimo, ali para deixar aos comensais o recado, que se veio a concretizar, do “business as usual”. E logo no dia seguinte um comício nos arredores, um estádio de futebol cheio para ouvir Ramaphosa, então líder da Cosatu (a central sindical do ANC). Radical, um orador implacável – quem diria então que poucos anos depois seria um dos maiores bilionários do país, até dono de ilhas paradisíacas em Moçambique? -  prometendo “casas, trabalho e escolas para todos, já”, algo que, e bastava olhar em volta, era mais do que justo e necessário. Só nos custava, franzir de experiência feito, aquele “já” tão repetido. Mas tão ansiado por quem ouvia – e foi a primeira vez que vi brancos, poucos, meia dúzia de operários, naquele toyi-toyi que tanto assustava outros e tantos, os estabelecidos. Class rules, disse eu para o lado, mas não era bem verdade. Enfim, na época ainda se discutia qual dos dois seria o vice do Mandela, e seu sucessor, e ficámos espantados com tamanha diferença entre ambos.

 

E outros também. Várias sessões com Winnie, então já separada mas ainda mulher do Madiba. Assim vista ao vivo era uma mulher impressionante, lindíssima na sua já idade, um carisma imponente. Se o discurso era radical - quase quase como o daqueles comícios do PAC (Congresso Pan-Africano), então ainda fiéis ao desejo de uma Azânia sob o lema do “one settler, one bullet”, de cujas sessões foram as únicas das quais nos escapulimos, num “não vale a pena”, tão mal recebidos éramos -, bem interessante era ver o número e a postura das tantas mulheres que sempre a rodeavam e acolhiam, nas cidades ou nas pequenas aldeias: gender issues, imensos, os que lhe alimentavam a liderança, uma bandeira própria. E Holomisa, o grande sobrevivente da política sul-africana, que de presidente do Transkei a dissidente do ANC ainda por lá anda. Simpático, a acolher-nos numa montanhosa aldeola. E, subtil, a rodear-nos pelos seus guarda-costas, não nos fosse acontecer algo. Estes, putos, verdadeiros putos, a confundir-nos, vendo-nos com uniforme, logo a mostrarem-nos as armas, à vez, decerto que novas, delas falando, com elas rindo, como se brinquedos recém-recebidos. Nessa sua alegria a desmontarem qualquer cenário de perigo, como os dois bem percebemos. Mas também a transmitirem um tom algo surreal a tudo aquilo. Para mais tendo nós acabados de cair no golpe que derrubou Gkozo, o muito menos hábil presidente do Ciskei, um dia único, rijo, memória por si só, para mais tarde …

 

Um dia ao rossio de King William’s Town veio FW. Chegámos tarde, atrasados por uma outra qualquer acção. Ali encontrámos uma grossa confusão, a praça quadrada cercada com gente até às entradas, uma contra-manifestação ANC, algo que violava o acordo entre partidos, feito para evitar violências. E isto logo pouco tempo depois da mortandade no Bophuthatswana, que começara numa coisa similar. Ficámos os dois estupefactos, lá estavam os nossos colegas EU e tantos outros observadores, atraídos pela visita de De Klerk. Mas estavam saudando os contra-manifestantes, até com “Vs” a la Churchill, com eles aplaudindo, enfileirados, manifestando-se. “Estes gajos são iguais em todo o mundo” terei resmungado no meu francês de então, já desprezando a esquerdalhada inconsequente. Depois fomos lá para o meio, onde mil apoiantes do Partido Nacional, se tanto, brancos, claro, rodeavam o seu líder. Tensos, assustados, angustiados (“a provarem do que fizeram durante décadas”, terei eu usado de novo o meu francês), convictos que aquele cordão policial não lhes protegeria o futuro. Lá nos pusemos perto do palanque, “showing the flag” (melhor dizendo, “showing the caps”), que era para isso que lá estávamos e nos pagavam. Pouco depois FW acabou a arenga, curta, nervosa, naquele contexto, e avançou. Viu-nos, parou e inverteu o caminho para nos cumprimentar, às estrelas em fundo azul da União Europeia. Naquela época o homem era um símbolo também. Para mim um Gorbatchev, até fisicamente parecido, um líder com a coragem de acabar uma tralha enorme e desprezível, a do seu povo. Nisso e por isso um tipo admirável, e foi o que lhe quis expressar naquele aperto de mão, na resposta ao seu agradecimento. Afinal ainda puto, também tenso naquilo tudo, engasguei-me e saiu-me apenas um estuporado “God bless you, sir”. Horas depois, já de cervejas na mão, ressacando um dia intenso, e sabendo-me todo ateu, o D. ria-se, desbragado, daquela minha tirada. “Estava a falar com um boer, pá”, defendia-me eu, acabrunhado, enquanto percorria o meu parco calão francês. O que fui ali gozado. Com alguma razão. Mas não toda.

 

 

 

  

Num desses dias veio nova tarefa. O comício perto de Aliwal North com Mandela, convocado para as 8 da manhã. Mandela é dali, nasceu um pouco mais a norte, no Transkei, mas a sua língua mãe é Xhosa, a língua local. Tornando ainda mais interessante, se tal possível, acompanhá-lo na região, entre a sua gente, se quisermos falar assim, o que vale o que vale, que nunca fez ele alarde de algum xhosismo. Mas ainda assim foi também por isso que lá fomos, tão exultantes, saímos na alvorada, naquele habitual “pata a fundo” para chegar à hora marcada. Para encontrar um estádio de futebol já apinhado, bancadas e relvado, e mais houvesse ... Ali tudo madrugara, para acolher o Madiba. Foram horas na expectativa da sua chegada, era a campanha e decerto que o líder tinha várias sessões no caminho. E nessa espera ali ocorreu festa constante, cânticos múltiplos, grupos corais, das igrejas alguns, outros mais ou menos espontâneos, um corrupio de gente feliz. Nós, estrangeiros, constantemente interpelados, saudados, numa comunhão festiva. Mais espantoso ainda, não havia qualquer produção, nem discursos, nem animadores, nem espectáculos musicais, isso dos profissionais para alegrar ou apenas aquecer o “povo”, como é tão costume pelo mundo todo. Apenas a população esperando o seu candidato, o seu líder, até que enfim, e em festa por isso. Era a minha primeira vez em África, ainda desabituado de muitas coisas, inesperando tantas outras. E toda aquela agitação, superlativa, todo aquele som e cor me deixou fascinado, mesmo que sempre na disciplina do anti-exótico.

 

 

Finalmente, já bem pela tarde dentro, às 4 horas, chegou a caravana. Foi o delírio, mas não aquele delírio do êxtase, espumado, frenético, sim o da alegria, o de receber e partilhar, um cúmulo de comunhão, um “estar juntos” como se disse depois. Quando soou que aí vinha deixei-me de neutralidades, também eu corri, atravessando o estádio, para o receber, a coisa do uniforme fez-me chegar até perto, nisso em definitivo perdendo de vista o tradutor. Mandela apareceu, aquele ar de falso frágil, o sorriso quase enigmático e que nunca consegui definir melhor do que chamando-lhe maroto. Na felicidade alegre do tal “até-que-enfim”, digo, o “Now is the time”, palavra de ordem de então. A população delirante e eu, nós, quase tanto, qual de nós, observadores – e tantos eram, dezenas, chegados nas últimas horas, quantas ongs andavam naquilo … -, não era de Madiba?

 

Mandela cruzou-nos e subiu ao palco, uma apoteose. Junto do seu povo, que o era a maioria do país, mas mais ainda ali, terra de Xhosas, que enchiam aquele terreno, pensei. E discursou. Logo, de imediato, arrepiando-me, verdadeira “pele de galinha” – e ainda hoje, ao escrever isto me acontece. Pois falando em africânder. Ali mesmo, no seu espaço natal, falando “a língua do inimigo”. Foi breve. E no fim pediu desculpa, já em inglês, e disse que queria fazer um resumo, pois ali estavam, estávamos, muitos “amigos estrangeiros”. E disse-nos, a todos os outros repetindo, que ali, África do Sul, era, já era, ia ser, a nação “arco-íris”, a “rainbow nation”. E partiu, para este nosso futuro.

 

Um “healer”, curandeiro laico, sarando o passado, prevenindo o futuro, minha tese que foi parte da conversa no longo regresso desse dia, lento pois comovido. “Amandla” para homens assim. Com a enorme grandeza da generosidade. De fazer futuros.

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 16:07

O melhor dos homens

por jpt, em 04.04.13

 

Está, ainda hoje, aqui ao meu lado. Este autocolante que trouxe das eleições (que momento!!) de 1994. Fui buscá-lo, verificá-lo, apalpá-lo, neste dia de boatos sobre a sua morte. O melhor homem? Não se diz isso. Mas com o melhor dos homens, com o melhor que os homens têm, isso com toda a certeza.

publicado às 23:02

Elefantes do Mpumalanga

por jpt, em 01.04.13

 

Páscoa na África do Sul. "Deitado abaixo" por uma qualquer maldita gargantite, a pior de que tenho memória adulta. Impediu-me este manso mas magnífico trilho, a do Santuário de Elefantes de Hazyview. Fui apenas cocheiro da princesa e da rainha, e da sua magnífica companhia.

 

 

Voltaram entusiasmados. Radiantes. Eu invejando.

 

 

Esperei-os durante algumas horas, bebericando chá para combater o frio do Mpumalanga. E no seu entusiasmado regresso lembrei-me daqueles que acham o marfim um recurso, e tantos são eles. Pois nada mais são do que pobres. Não sentem. Não pensam. Não aprenderam.

 

 

 

Pois não os ensinaram. Ou, se calhar, não conseguiram aprender. Pois, insisto na minha crença, a virtude ensina-se. Visitem. Nunca é tarde para isto.

 

[As fotografias são do sítio do "Santuário"]

publicado às 15:46

 

Mais do que motivo suficiente para uma ida a JHB: para a semana acontecerá a festa do vigésimo aniversário de Madam & Eve, a fantástica família que reside no Mail & Guardian. É um universo de crítica radical, obrigatório. Será, por vezes, tão ancorado na realidade sul-africana que se torna imperceptível para quem não a conhece. Nesse caso siga-se para o episódio seguinte, em regime de sôfrega leitura diária. Pois Madam & Eve é tão universal-genial como os seus confrades, Charlie Brown, Mafalda, Calvin & Hobbes.

 

Quem vai a JHB?

 

jpt

publicado às 09:52

Crying Face

por jpt, em 10.09.12

(Este postal nada tem a ver com a situação político-fiscal portuguesa) "Crying Face", a célebre composição na tufa no Desfiladeiro do Rio Blyde. Visão global, para quem ainda não conhece este "canyon" mesmo aqui ao lado:

Esteve-se bem, neste fim-de-semana.jpt

publicado às 01:20


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