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Caído da estante

por jpt, em 07.06.15

Cartas a um amigo Alemão_0009.jpg

 

Nas arrumações, penelopianas, das estantes cai este livrinho. Breve colecta de esplêndidos textos, os quatro primeiros que lhe dão título, poderosos e magnânimos do tempo da resistência ao nazismo invasor, como não brotar o espanto diante da elevação de quem escreveu em Julho de 1944 "Mas ao julgar o vosso atroz comportamento eu não esquecerei que os vossos e os nossos partiram da mesma solidão, que os vossos e os nossos participaram, como toda a Europa, da mesma tragédia da inteligência. E, mau grado o que vós sois, continuarei a chamar-vos homens. Para sermos fiéis à nossa fé, temos de respeitar em vós aquilo que vós não respeitastes nos outros." (54)? Ainda que,como lembrou logo em 1945, diante de "funcionários do ódio e da tortura" (84)?

 

Camus, que parece hoje um pouco "fora de moda" (quem fala hoje do "O estrangeiro", "A queda" ou "A Peste"?), deixa um projecto para o futuro, como se o escrevesse hoje: " ... é preciso curar todos esses corações envenenados. E, amanhã, a batalha mais difícil a ganhar ao inimigo, é no fundo de nós próprios que ela se desenrolará e a vitória final obtê-la-emos graças ao esforço superior que transformará o nosso apetite de ódio em desejo de justiça. Não ceder ao ódio, não fazer concessões à violência, não admitir que as nossas paixões sejam cegas ... (...) trata-se de admitir que o nosso adversário pode ter razão e que as suas razões, mesmo sendo más, podem ser desinteressadas. Numa palavra, trata-se de refazer a nossa mentalidade política." (85), adversa a "esse romantismo de mau gosto que prefere sentir a compreender que prefere sentir a compreender, como se sentir e compreender fossem separáveis." ( ...) "Basta que façamos o esforço de compreender sem preconceitos, basta que falemos de objectividade, para que seja denunciada a vossa pretensa subtileza e feito o processo de todas as vossas pretensões." (86).

 

Nele a lucidez de em 1947, enquanto refuta o marxismo pois "absolutamente falso porque pretende ser verdadeiro de uma forma absoluta" (117), identificar que "o problema colonial é o mais complexo de todos os problemas (...) determina a história dos próximos cinquenta anos (...) e nunca poderemos resolver esse problema se partirmos dos mais nefastos preconceitos." (98). Fica uma proposta, que não parece assim tão descabida na actualidade mesmo que a sua linguagem o aparente: a "democracia nacional ou internacional ... uma forma de sociedade em que a lei está por cima dos governos e que, sendo a expresssão de uma vontade colectiva, é representada por um corpo legislativo. É isto que se tenta fazer hoje? É verdade que uma lei internacional está a ser preparada. Mas esta lei é feita e desfeita pelos governos, isto é, pelo executivo. Estamos pois num regime de ditadura internacional. O único meio de que dispomos para lhe escapar é de conseguir que a lei internacional esteja acima dos governos; por conseguinte, fazermos nós próprios a lei, isto é dispormos de um parlamento resultante de eleições mundiais, nas quais participarão todos os povos." (125).

 

Culminando: "se por vezes parecemos preferir a justiça ao nosso país, é porque queremos amar o nosso país unicamente dentro da justiça, tal como queremos amá-lo na verdade e na esperança" (28).

publicado às 05:02


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