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Ser como deus

por jpt, em 02.07.13

 

A leitura do "A Maldição de Ondina", de António Cabrita, e talvez não só pelas desbragadas aventuras nos aposentos da ausente Rita Hayworth que ali são afloradas, lembrou-me este "O Conquistador" de Almeida Faria, onde também algo surge acontecido na alcofa da longínqua Gloria Swanson. E deste belíssimo livro retiro um extraordinário naco. Também porque actual, e tanto:

 

"A atracção que as camas exercem sobre - ou sob - mim terá as suas raízes na minha vocação hibernativa. Lamento não pertencer às espécies que desaparecem da circulação durante o inverno. Não que pretendesse dormir três meses seguidos. Seria pelo contrário tão activo, que me faltaria o tempo e a vontade de sair do quarto. Nada de conclusões apressadas. Não me refiro apenas àqueles actos que os antigos confiavam ao lectus genialis, destinado à génese e perpetuação do género humano. Também me agrada ficar de papo para o ar, transformando a cama no lectus lucubratorius em que os romanos abastados se entregavam à cogitação, embora eu suspeite que aproveitavam para passar pelas brasas. Das minhas mais antigas lembranças, as melhores são das doenças ligeiras que me davam direito a uns dias deitado. (...) No calor protector da cama, eu sonhava, lia, viajava em imaginação, divagava numa preguiça igual à dos deuses do Olimpo, perdidos nas alturas, por cima do azul, recostados em almofadas de nuvens, preenchendo a sua eternidade com banquetes onde a música das esferas criava ambiente aos platónicos diálogos, às disputas eventuais e às menos platónicas bacanais. Aquilo que distinguia os deuses dos mortais - para além, claro, da imortalidade - era o ócio total e o seu corolário de orgias generalizadas e sem ideia de pecado. Mesmo se certas deusas escapavam à regra, persistindo numa birrenta e embirrante virgindade, dedicando-se à caça e a outras banalidades; e apesar de nem todos os deuses estarem à altura da extraterrena libertinagem, no conjunto eles constituíam o modelo impossível do que eu queria, embora injustamente condenado a nunca, nem por sombras, lá chegar.

Numa tarde de feliz e falso resfriado, na época pubertária em que não pensava senão em Kama-Sutras e camas-supras e naquilo que até os dinossauros faziam, como Deus mandava e como só Deus sabia, li que Ulisses, há oito anos de serviço cívico ao leito de Calipso, ansiava por deixar a ilha de Ogígia e regressar à condenada condição mortal que o aguardava em Ítaca. Fiquei furioso: achei o cúmulo que alguém preferisse a decadência física às intermináveis delícias da ninfa e da ilha. Que bestice! Seria crível que um herói, conceituado após uma década de passamentos bélicos, se fartasse dos menos trabalhosos feitos eróticos? Nunca gramei guerreiros. Desde então detestei-os."

publicado às 15:06


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