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Olhares e Experiências

por jpt, em 04.04.09

E por referir "rascunhos" de posts que foram ficando para trás. Este é uma memória de uma exposição colectiva, já com um ano, realizada com artistas ligados ao Movimento de Arte Contemporânea. Aconteceu na Associação Moçambicana de Fotografia, por ocasião da visita do presidente português, em Março de 2008.

O meu objectivo era o de discutir a sua pertinência e a adequação do formato à lógica do Movimento. E ainda, e num outro registo de questionamento, o da adequação à sala disponível. Questões que prescreveram, claro. Fica a memória.

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Uma exposição colectiva organizada pelo Movimento de Arte Contemporânea (Muvart), sob curadoria de Jorge Dias. Abaixo fotografias de obras (algumas já anteriormente apresentadas outras então inéditas) de Jorge Dias, Celestino Mudaulane, Ivan Serra, Gemuce e Anésia Manjate, respectivamente.

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publicado às 04:06

Na constante sucessão de exposições e mostras de artes plásticas em Maputo talvez não se dê o destaque devido à particular actividade - quase frenética - de um núcleo de artistas ligados à reclamação de uma arte contemporânea, alguns vinculados ao Muvart, outros nem tanto. Actividade em Maputo mas também em presença em colectivas e oficinas no estrangeiro, Europa e África, terreno mais propício à recepção às linguagens escolhidas.

 

E agora, saudavelmente, também já no norte do país, algo encetado pela apresentação da "Zoologia dos Trópicos" de Jorge Dias na Beira, um desenvolvimento de instalações que têm vindo a ser apresentadas há alguns anos.


Um feixe de actividades que integra a dinamização de palestras e discussões, com participantes residentes ou visitantes. E que acolhe particular relevo no seio do Museu Nacional de Arte, que tem sido exemplo de uma instituição cultural aberta aos seus agentes. E que tem articulado com os (aqui) importantes centro cultural franco-moçambicano (a casa da cultura de Maputo) e o Instituto Camões (a melhor sala de exposições local - e onde o seu responsável, o adido cultural António Braga tem sido exemplar tanto na relação com este momento artístico como - e esta é mais geral - como na forma como tem dinamizado o seu centro cultural ainda que esmagado pelos conhecidos constrangimentos financeiros).

 

Não quero reduzir esta actividade ao MUVART, vários são os caminhos dos seus participantes, vários são os ênfases da sua conjugação. E artistas há que se em diálogo com as linhas do movimento a ele não não se fideliza(ra)m. Mais do que tudo o MUVART, momento determinado de ruptura (até geracional) no meio artístico nacional, assumirá o seu sucesso exactamente através da sua dissolução no tempo. Como é característico dos movimentos deste tipo. Nem reduzir ao Muvart nem a este, e aos seus membros, exigir-lhe uma coerência que em tempos louvei- até mesmo por considerar a incoerência um importante mecanismo de produção artística.Mas passados anos sobre o seu surgimento, passados anos sobre a vontade de dexotização da arte local, da sua interrogação, apetece-me interrogar alguns dos acontecimentos do último ano, uma interrogação companheira - mas desconfortada.Três pontos me parecem cruciais: 1. a discussão sobre a interacção e recepção do estrangeiro; 2. a discussão sobre a movimentação colectiva; 3. a interrogação sobre os momentos individuais

 

1. A verdadeira internacionalização deste movimento artístico (e não falo exactamente do MUVART, mas da onda que o torneia) encetou-se na itinerância (infelizmente incompleta) Réplica e Rebeldia [para uma descrição ver aqui], uma vasta iniciativa com curadoria de António Pinto Ribeiro e produção do Instituto Camões.

 

A questão que considero relevante neste âmbito é que a arte se exibe explicitamente ideológica. Ora nesse espartilho seria conveniente, melhor, exigível, um radical questionamento ideológico dos eventos - o que neste caso exigiria uma etnografia explícita do processo produtivo. A mim o que se me afigura é que o radicalismo das propostas estéticas - formais - não é acompanhado do radicalismo das propostas estéticas - analíticas. Ou seja, a crítica (o desvendar, também) do processo social da produção artística individual não é acompanhado por uma similar olhar sobre a produção de eventos institucional, e sobre as práticas ideológicas que o balizam, encaixam.

 

Um pouco elíptico mas para facilitar. O discurso "arte-contemporânea" moçambicano baseou-se (também) na recusa da determinação alheia (alheia ao campo artístico, nisso se conjugando agentes nacionais e estrangeiros) sobre o que é "arte" e, em particular, o que é "arte africana/moçambicana".

  

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[Frederico Morim e Celestino Mudaulane, "Dois Percursos Multi-culturais: o tempo ... já não tem tempo", Abril-Maio 2008, Instituto Camões Maputo]

 

 

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[Frederico Morim]

 

 

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[Celestino Mudaulane]

publicado às 10:48

Uma exposição já antiga

por jpt, em 03.07.08

Catálogo, portanto memória, da colectiva "Lisboa-Maputo-Luanda", acontecida em Lisboa em 2007, na Cordoaria Nacional, associando trabalhos de artistas angolanos, moçambicanos e portugueses. No caso dos artistas moçambicanos demonstrando até algumas peças entretanto tornadas emblemáticas - o meu particular apreço pelo "Conselho de Anciões", de Anésia Manjate, bela peça com conteúdo muito polémico, e cuja contraposição com a "Máscara" de Marcos Muthewuye é aqui particularmente feliz, indiciando as tensões existentes na leitura artística do actual..

Mas para além da memória (invejosa) de uma exposição o catálogo mantém-se particularmente interessante pelo que dele se recolhe nos textos enquadradores. A justificarem uma reflexão (provavelmente já realizada) sobre as concepções ali representadas e até sobre os efeitos - potenciadores e constrangedores - da integração dos artistas (das várias nacionalidades e contextos)  neste circuito internacional. Mais ainda, as próprias contradições entre os textos denotam as contradições existentes entre os agentes que actuam (controlam?) a recepção artística em alguns cenários internacionais e, assim, algo influenciam a produção.

Um esclarecedor texto de João Lima Pinharanda, "Cabo Não", reflectindo sobre a história dos ambientes sociopolíticos de produção artística na África aqui representada, traçando uma breve geneologia analítica da emergência de uma autonomia artística. E, lateralmente, deixando algo que parece óbvio mas que é constantemente posto em causa, por consumidores e por oradores: "Nenhum nacionalismo cultural pode estabelecer como objectivo a recuperação de qualquer pureza ou genuinidade original (quer dizer, pré-colonial)." Uma "Evocação de Luanda", de Alberto Oliveira Pinto, realçando a plasticidade e entrecruzamento das topografias e das simbologias (da topografia simbólica, melhor dizendo), deixando intuir como são (ou podem ser) constantementes reapropriadas (reconstruídas) no discurso artístico.

E ainda dois outros textos, em aparente contraposição. Um interessante "A Geografia do Encontro ou o Re.Desenho do Mundo: Curiosidade, Mercância e Fé", de José Monterroso Teixeira, que busca recentrar o olhar sobre as artes plásticas internacionais na continuidade do olhar português sobre o mundo, nascido da expansão. E isso assente na recuperação da dicotomia entre o olhar épico de Camões e o olhar negocial (efabulatório, também) de Fernão Mendes Pinto - por outras palavras, a dicotomia entre a "expansão" e o "encontro". Sendo (devendo ser) o olhar de hoje devedor da verve de Mendes Pinto. Se este debate português é já algo antigo torna-se interessante vê-lo explícito no palco da recepção artística actual, e enquanto proposta de sustentção de um pólo central. [E, num outro plano, é sempre interessante perceber como a reflexão ideológica portuguesa se centra na influência do seu Renascimento, apagando séculos de experiência histórica posterior, dos seus feitos e dos efeitos que os feitos tiveram nas concepções da alteridade. No fundo, uma exigência de depurarmos a memória].

Mas mais importante ainda - até porque os conteúdos específicos da reflexão intelectual portuguesa sobre a sua história (e "identidade") não serão particularmente importantes para a actividade artística que nos é estrangeira -, pois demonstrando dimensões fundamentais na gestão das interacções artísticas internacionais, é o texto introdutório do próprio comissário da exposição Victor Pinto da Fonseca. Deixa uma declaração de princípios, que parece pacífica, amável até: "... porque só a arte parece ter o poder de inscrever ligações entre países, como verdadeiras pontes."*

Entenda-se, não estranho apenas a sua difícil (possível?) fundamentação empírica: 

1. afirma uma irredutibilidade "negocial" entre os contextos nacionais, que parece exagerada;

2. afirma uma característica (ontológica) "conversacional" à arte que exige conceptualização fundamentadora, bem como a do deficit das outras actividades neste âmbito.

Mas muito mais do que isso aqui se explicita uma secundarização da arte. E a vontade, a actividade, da sua instrumentalização. Uma arte ao serviço da tal "ligação entre os países", uma sua politização não no sentido do capital de questionamento que encerra, sim nos efeitos apaziguadores que proporciona.

Enfim, arte pela arte não, sim arte para o diálogo. Um diálogo que se quer apresentar sem ruídos, por via de uma descontextualização radical. Porque sendo "O enfoque do transnacional é o novo paradigma na arte contemporânea, substituindo o pós-moderno.", o argumento surge como o da sua desterritorialização. Melhor dizendo, associalização: "A exposição não reinvindica um contexto socio-político, antes, convida o espectador a pensar na singularidade de vida de cada artista presente ...". O indivíduo (artista), local e global, em trânsito comunicacional. "Toca algum sino"?

*[Citar trechos de textos é quase sempre deturpá-los à vontade do citador. Infelizmente não os encontrei disponibilizados na internet, para os ligar, permitindo uma leitura nunca truncada. De resto, sobre os textos de que me afasto: a exposição transposta no livro é óptima, donde o comissário fez um bom trabalho, muito para além das frases que aqui pico e pilho. E o texto de J.M. Teixeira é muito interessante e fundamentado, um prazer de leitura.]

Enfiim, não será fundamental discutir os artefactos intelectuais de uma exposição já acontecida há um ano. Mas é interessante visitar o conjunto das obras e atentar nestes caminhos. Enquanto se espera pelos próximos.

[Anésia Manjate, "Conselho de Anciões", 2005; Cerâmica e Corda de Sisal]

[Gemuce, "Deixa-Andar", 2005; Esculturas, chapas de zinco, video]

[Jorge Dias, "Neocasulo", 2005; Camisete, arame, tecidos]

[Marcos Muthewuye, "Máscara", 2000; Metal]

[Tembo Dança, "sem título", 2006; Arame farpado, madeira, tecido, plásticos, rede metálica, papel]

publicado às 01:56

Arte Invisivel

por jpt, em 13.12.07

(excerto de "3 Tempos" de Gemuce)

(excerto de "Intolerance", de Abdoulaye Konaté)

(excerto de "Cuba Livre", de N'dilo Mutima)

Malhas que a "cooperação" tece ... Uma pequena caixa intitulada "Art Invisible", contendo três volumes cada um dos quais dedicados a um país: Moçambique, Angola e Mali. Uma edição da ARCO 2006 (Feira Internacional de Arte Contemporânea) procurando divulgar artistas inovadores destes países, gente incluída no movimento artístico contemporâneo africano. O critério das opções nacionais é político-diplomático, o patrocínio é assumidamente destinado a países com os quais Espanha tem "estreitas relações de cooperação". Refiro este ponto para sublinhar que não será fácil encontrar alguma coerência no projecto, trata-se da justaposição de autores artistas africanos que procuram a expressão contemporânea, essa talvez etnia cronológica ou atitudinal. Não obsta isso a que os pequenos objectos em questão seja muito interessantes. O pequeno volume dedicado a Moçambique contém um texto de Jorge Dias (ideólogo-mor do Movimento de Arte Contemporânea local) e uma representação de artistas que se vêm salientando. Neste particular campo parece-me que a referência mais feliz se centra nas iniciativas de Gemuce, em especial o seu "jogo da democracia" cuja patente tarda em ser realidade - não como realidade "industrial" mas como corolário da atitude da instalação. E cuja provocação tem passado ao lado, tamanha a surpreendente placidez com que as "aventuras contemporâneas" artísticas têm aqui sido recebidas.

(Anésia Manjate, "Passaste por Aqui", 2006)

(Rui Assubuji, Maputo 2004)

(Gemuce, Jogo Democracia, 2005)

publicado às 21:14

 

 

Lisboa-Maputo-Luanda, exposição na Cordoaria Nacional em Lisboa. Com moçambicanos, Anésia, Gemuce, Jorge Dias, Marcos Bonifácio e Tembo. Até finais de Abril.

publicado às 20:11

Conselho de Anciões

por jpt, em 28.10.05

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[Anésia, "Conselho de Anciões", (Museu Nacional de Arte, exposição "Arte no Feminino")]

publicado às 03:41


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