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Três ou quatro vezes por ano encontro o António Cabrita, não mais do que isso. Bebe-se uma cerveja, apenas o pretexto que ele usa para me dar o seu último livro editado, que ao homem brotam-lhe palavras e sentidos. Há já uns meses convocou-me para uma sessão no Núcleo de Arte, ia ele falar sobre algo, e lá me entregou este seu "Bagagem Não Reclamada" (Alcance), então acabadinho de sair à rua. São para aí 200 sonetos, escritos ao longo de trinta anos. 

 

Eu sou um fraco leitor de poesia. Talvez porque preguiço, engasgo-me, falta-me ali o boy meets girl, não ascendo. Mas não só por isso. Li algures, ou disseram-me, ou invento agora porque acho que me fica bem, que os poetas dizem que dizem o futuro, quais oráculos ("praticantes de medicina tradicional" como por cá convém chamar) e desagrada-me isso, descreio, acho-os se assim arrogantes, exijo isso do depois aberto, imperscrutável. Ainda assim vou lendo, para me comprazer na prova da minha verdade.

 

Dizem-me agora estar o Cabrita aleijado, atropelado, poeta sobrevivente, lamentando-se de braço ao peito, feito canhoto por enquanto. E arrepio-me, na memória deste seu soneto

 

 

Método de caligrafia para a mão esquerda

 

Não a poupes, gasta o mais possível

a tua morte. Sê um perdulário, se a idade

for um fogo que não pudeste extinguir

não te demova a dor. Palpa-a,

deixa que radie, e que esbraseie

como tudo o que envolve a pedra: o ar,

o pavio da pele, o sangue cujo frémito

arboresce a noite; deixa que no interior 

da íris, se isole e canse, a recuperar

a simpatia que já foi sua, o apego

de uma cunha à mesa da noite.

Mantê-la debruçada no parapeito

da preguiça é o teu ofício, e nunca 

te arrepiem as unhas roídas de sono.

 

Afinal oráculo ...? Insonio-me. E se assim é tudo me piora, será que o homem entrevê mesmo?, quando chego a isto, sei lá a quem ele horizonta, temo:

 

Agrafa a noite agrafa a manhã

à luz: delata as mitologias

que às golfadas

levantaram o arco da ilusão.

 

A morte rápida é castigo

muito leve para os ímpios,

morrerás exilado

errante, longe do solo natal

 

- o salário que um ímpio

merece escreveu Eurípides, 

a quem imito, enquanto

 

me ardem ossos

e o ágrafo desejo me 

rebita algum consolo

publicado às 01:10

Há algum tempo botei aqui sobre o livro de António Cabrita, "A Maldição de Ondina", uma trama maputense originalmente editada no Brasil. Agora o Cabrita foi a Portugal, presumo que a banhos, e aproveita para presenciar a apresentação pública da edição portuguesa, na casa Abysmo. O evento acontecerá para a semana, o convite está aqui, informação para quem se encontre nos arredores naquela data (25 de Setembro). Não acredito que aconteçam chamuças (a crise e o etnocentrismo gastronómico dever-se-ão potenciar mutuamente) mas presumo que haverá verve. E livros.

publicado às 14:50

 

(Postal escrito para o Delito de Opinião)

 

(Re)acabei agora este "A Maldição de Ondina" de António Cabrita. O autor, patrício imigrado em Moçambique há uma série de anos, que o XXI vai passando, poeta, prosador, jornalista, argumentista, crítico, professor, bloguista, editor, tradutor, vai tendo por cá uma actividade intensa, constante e profunda, afixada em vários livros, disseminada em múltiplos textos, um ritmo que não lhe prejudica densidade e ponderação. Este romance, publicado inicialmente no Brasil (Letras Selvagens, 2011) sairá em breve em Portugal (Abysmo), e também por isso aproveito esta nossa "série" no Delito de Opinião para o anunciar, coisa que vem do interesse do livro e desta vontade de amiguismo, que o Cabrita é um tipo que vale a pena e também porque se o bloguismo vale para algo é para dar uns abraços a quem nos apetece.

 

Aqui deixa o seu olhar, desencantado parece-me, sobre o seu Moçambique, esse onde nos encastramos. Um verbe mais depurada do que a sua habitual. Sem pitada de exotismos, das belezas tropicais ou das pobrezas bíblicas, sem mistérios austrais ou abismos pós-coloniais, utopias desvanecidas ou boas causas, mais ou menos poetizadas, que abundam em tantos outros. Com recurso a uma linha policial - e nisso, só nisso, se aparentando a algumas outras construções ficcionais portuguesas recentes sobre o país -, que acaba por ser apenas o fio de prumo para equilibrar as múltiplas variáveis do bailado melancólico que avassala as personagens.

 

Um manifesto iluminista, até expresso no título, em que o Cabrita se insurge com a persistência da história (de uma tradição moderna, direi), que vê como desagregadora, violadora da reciprocidade necessária ao bem comum, comunitarista que assim se desvenda o autor. Ainda assim, talvez paradoxal, europeu desiludido, deixando entender como é a prática africana que alimenta a acção europeia - é assim que vejo a articulação entre os dois protagonistas, o moçambicano Raul e o pós-moçambicano César (neste habitando algo do próprio autor, digo eu). No final, optimista trágico (?), deixa o autor a ténue esperança de uma mitigada redenção.

 

Raramente gostei tanto de um livro com o qual tanto discordo. Leiam-no, é a minha palavra.

 

 

publicado às 07:35

A la Blog

por jpt, em 28.11.12

 

 

O meu texto de hoje na coluna "Ao Balcão da Cantina", no "Canal de Moçambique" 

 

A la blog

 

A angústia diante do ecrã vazio é típica de quem se propõe a escrever periodicamente. Tão típica que já nem é assunto. Pois tantas vezes os escribas preguiçosos a repetiram, gemebundos. Lamentá-la em papel impresso deveria ser, pura e simplesmente, proibido pelos directores de jornais e revistas. Sim, como censura prévia, verdadeira excepção à liberdade de opinião impressa! Por motivos de galhardia e fastio, nada mais. Tipo, “ó amigo, vá chatear outros!”.

 

Não me é o caso, nove anos a blogar moldou-me a atenção, habituou-me o teclado, que até já funciona em piloto automático. A dificuldade não é o ecrã vazio, que verborreia não me falta, vã que seja. O problema é o tipo de atenção que a escrita in-blog cultiva, o género de texto que faz brotar.

 

Fica-se com um olhar espartilhado, debruçado sobre as pequenas coisas, fiapos disto e daquilo do que é feito o mundo, coisas do pouco fôlego: um olhar de fumador, por assim dizer. Que outros dirão desconcentrado, e talvez o seja. Incompetente, pois assim apenas balbuciando dizeres que não se querem conclusivos. Desses que vão sem teses, daquelas povoam o mundo do “dever ser”. Entenda-se, sigo, e falo, com má disposição muita. Missal nenhum.

 

No fundo botar in-blog é uma dieta diferente. A largar o texto longo, as pratalhadas do cozido dominical, ou as matapadas, para os especialistas e, que saudade deles!, para os grandes repórteres. E a preferir um buffet de pequenas notas, breve chamadas de atenção, suaves irritações, rotundas erupções de calão, sorridentes encantos, amiguismos militantes. Na verdade, num blog um tipo jinga, nada mais do que isso.

 

Enfim, um tipo fecha-se assim, ensimesmado, e vai palrando nesse sublime irresponsabilidade do que lhe vem à cabeça. O problema é, de repente, este adultismo de vir para o mundo dos jornais, onde o cardápio sempre se deve adequar à simpática clientela. Pois os repastos já não são solitários. E há quem pague a conta.

 

Enfim, vai longo o palrar, apenas para apresentar os pratinhos do dia:

 

a) O Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane acolhe esta semana (quarta e quinta) uma conferência internacional: “Os intelectuais africanos face aos desafios do séculos XXI”. Celebrando os seus 50 anos e evocando Ruth First, a activista e investigadora sul-africana, assassinada nas suas instalações há exactamente 30 anos.

 

É um grande evento, a congregar a atenção da comunidade intelectual nacional. Serão mais de 100 comunicações apresentadas, por investigadores estrangeiros e nacionais. Espero que sejam produtivas as apresentações e, em particular, os debates. E, muito em particular, quando se renova o discurso desvalorizador das ciências sociais, em prol de um “saber-fazer”, bandeira da tecnocracia, disfarçada de tecnologia. A situação do mundo dever-nos-ia ser suficiente para perceber o quão enganadora é a cantilena malévola dessa sereia tecnocrática, e da necessidade de analisar o real para debater, criticamente e conflitualmente, o que fazer e como fazer: o “todo o poder aos engenheiros” é ainda pior do que o “todo o poder aos sovietes”, esse mito de XX.

 

Como é óbvio várias apresentações serão dedicadas a Ruth First. A esse propósito lembro as palavras de sua filha Gillian Slovo nas suas memórias “Every Secret Thing. My Family, My Country” (Virago, 1997), uma evocação de seus pais, First e Joe Slovo, o dirigente comunista sul-africano. Aí (p. 25), revisitando o traumático funeral de sua mãe, lembra como então teria gostado que nos discursos alguém recordasse a mulher, essa “coquette” que levou um vestido de seda para a prisão em 1956, essa impaciente que adormecia quando se aborrecia. Ou seja, que alguém falasse da mulher, sua mãe. Lamentando que tal não tivesse acontecido, apenas as loas à heroína, o eco da dádiva para a luta. Espero que, 30 anos depois, tal não aconteça de novo. Pois a vida, e as lutas, são feitas de gente, não de cromos.

 

b) ontem uma grande derrota para a escatologia europeia, algo com efeitos por cá – convém lembrar que a EU é ainda o grande doador. E, mais ainda, que se Moçambique importa muita coisa a menor das importações não é, com toda a certeza, o pacote das lamúrias ideológicas.

 

Pois leio a correr, e sem compreender muito bem (quando se fala de dinheiro acontece-me sempre isso) que os ministros das Finanças da zona euro (chamam-lhe Eurogrupo) e o FMI acordaram a redução da dívida grega. No fundo, aquilo que sempre foi óbvio que aconteceria no âmbito da crise europeia. Primeiro a redução do papel e da dimensão do Estado, alguma recessão, depois o reescalonamento da dívida, e o perdão parcial (ou total) desta. A gente, que fomos testemunhando o processo de Moçambique no Clube de Paris, sabia que era esse o caminho. A única surpresa para este leigo é a velocidade com que tudo acontece. Afinal, nos países ACP, bem mais pobres e com gente bem mais pobre, o perdão levou mais anos. Não há dúvida, o peso da contestação social na Europa é maior. Ouçamos, a partir de agora, os indignistas europeus não falar sobre o assunto, pois é sempre acidamente engraçado assistir ao provincianismo de vestes cosmopolitas.

 

c) recebo um interessante livro, “Itinerâncias. Percursos e Representações da Pós-Colonialidade” (Húmus, 2012), uma colectânea de textos de académicos internacionais dedicados à realidade literário-cultural dos países de língua oficial portuguesa, que foram apresentados numa conferência na Universidade do Minho. Gentil oferta de Elena Brugioni, uma das suas organizadoras, pesquisadora italiana com particular atenção sobre o país. O conjunto “não é a minha praia”, são textos sobre literatura, da qual sou mero e preguiçoso consumidor. Contém vários artigos sobre a literatura moçambicana (Borges Coelho, que escreve ele próprio, Patraquim, Chiziane) e enquadramentos teóricos. Com toda a certeza um volume atraente para os especialistas da área. Que assim me podem, justificadamente, invejar esta propriedade.

 

Logo mergulho em dois textos que analisam textos literários portugueses de retorno, de gente que daqui partiu aquando da independência. Para muito me irritar, mais uma vez, com a renovação do protocolo de silêncio sobre António Quadros, o gigante.

 

Quadros, esse que até um leigo como eu descobriu a escrever, chamando-se João Pedro Grabato Dias: “Acabou a era do pequeno torcionário / do paternal cachaço do eh! seu preto sujo / das mulatas de bolso, dos uísques muitos e especiais ” e muito mais por aí em diante (“Pressaga pré-saga saga/press”, 1974). Antes, um pouco antes, Quadros chamando-se Ioannes Garabatus, escreveu nas suas “Quybyrycas”: “E a ti povo meúdo cantarei / sem ilusórias tubas nem esperança / de me ver futurado no que sei / ser hoje a vossa fala de criança.”. Sabia-o bem, o poeta.

 

Convém calá-lo? Sim, pois forma de amarfanhar o real para botar algo, e nisso garantir a atenção às “companheiras de estrada” de hoje. Mas convém nada. “O que é preciso é ler” António Quadros, contra os academismos ideológicos, mergulhar alegremente, sem categorizar, sem “saber-fazer”. Porque a vida é feita de gente, não de cromos.

 

Por isso aproveito esta erupção de irritação, típica de bloguista, que decerto será acalmada na visita a outros textos. E faço um “apelo aos papéis”, vão ler Quadros. Façamos de 2013 um inoficial, privado, amigo, “ano Quadros”, sem homenagens nem conferências, só leituras. E conversas.

 

Adenda para o ma-schamba: sobre António Quadros ler (e quão raros são os textos na internet sobre o autor, algo bem significante) "João Pedro Grabato Dias: o homem com gatos nos pulmões", de António Cabrita.

 

jpt

publicado às 09:04

Augusto Carvalho

por jpt, em 06.09.12

 

Aqui vai bem o António Cabrita a lembrar o (seu) Augusto Carvalho, que morreu na semana passada.jpt

publicado às 01:47

Aqui está o texto do António Cabrita para a apresentação da exposição.

Sobre a qual me lembrei desta sequência de Robert Frank: "Estou sempre a fazer as mesmas imagens. Estou sempre a olhar para fora, tentando olhar para dentro, tentando dizer algo que seja verdadeiro. Mas talvez nada seja realmente verdadeiro a não ser o que está lá fora. E o que é está lá fora é sempre diferente." (Luciana Fina (coord.), Robert Frank, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 1991).

jpt

publicado às 09:32

A aldeia do Kok Nam

por jpt, em 13.08.12

Abaixo referi que o Kok Nam é autor de uma das fotografias da minha vida. Quando primeiro o escrevi ela não estava disponível. Mas agora já está (até à venda). E foi publicada no "Kok Nam. O homem por detrás da câmara", no qual o incansável António Cabrita o entrevistou longamente e que integra 45 fotografias, uma edição da Escola Portuguesa de Moçambique.

A fotografia é esta (a impressão do livro é muito sofrível e ainda por cima eu gravei e reduzi-a: isto não lhe faz justiça). Juntamente com a "velha no celeiro" do Sérgio Santimano, que lhe chamou "Macalange", e com o "apetecido quintal de caniço", de Ricardo Rangel são as minhas fotografias de vida.

jpt

publicado às 05:50

Quadros / Grabato Dias

por jpt, em 09.08.12

"...vejo como o Grabato Dias, um génio, continua a ser absolutamente desconhecido, sem que ninguém morra de vergonha...", vai dizendo o António Cabrita. Sem escaparates que o ouçam ...

Cabrita este que já botou sobre António Quadros / Grabato Dias.

jpt

publicado às 01:46

Cabrita & Forjaz

por jpt, em 05.06.12

 

(o texto para a edição desta semana do "Canal de Moçambique") 

 

Cabrita & Forjaz

 

Nestes últimos anos a Escola Portuguesa de Moçambique tem tido uma heterogénea e interessante actividade editorial, a qual não tem tido a atenção devida, porventura devido às modalidades não comerciais da sua distribuição. Três linhas se salientam: livros infantis, bem conseguidos, no qual saliento um texto de Mia Couto, ilustrado por Malangatana, que tem passado ao lado de um necessária crítica; a colecção “Acácia”, de irregular periodicidade, uma série de pequenas caixas-livros organizada por António Cabrita que junta textos nacionais, incluindo alguns inéditos, com literatura estrangeira, entre inéditos e clássicos, o que é único no país. E, agora, entrevistas com vultos culturais moçambicanos, também elas realizadas por António Cabrita.

O primeiro desses livro-entrevista, “Kok Nam, o homem por detrás da câmara”, data de 2010 e veio combater o silêncio sobre a obra do fotógrafo. E foi, para muito daqueles que o desconhecem, uma muito agradável surpresa. Pois Kok Nam, homem da imagem e não da escrita, e também de poucos (ou nenhuns) discursos, ali surge com uma profundidade analítica, do seu percurso, do seu ofício e do seu país, que quem o conhece reconhece. Mas que era urgente registar em documento, tornando-a acessível a todos.

Agora saíu o segundo volume desta iniciativa, “José Forjaz. A paixão do tangível, uma poética do espaço”. Neste caso a dimensão é diversa, pois sobre o arquitecto há já publicações e ele próprio é homem (também) da escrita. O que em nada retira interesse à obra, uma acessível forma para aceder ao pensamento e ao percurso do (re)conhecido arquitecto.

Não exagero, nem apouco os seus colegas, ao lembrar que no país José Forjaz é o arquitecto, de tal modo que a profissão quase surge como dele sinónimo, tamanha a ref(v)erência que se lhe atribui. Tal dever-se-á à importância da sua obra, internacionalmente reconhecida, ao seu papel fundacional na escola de arquitectura do país e ainda ao facto dele corporizar alguma continuidade, no sentido de transição e não de mera filiação, com a arquitectura pré-nacional. À importância da sua personalidade somar-se-á ainda o fascínio que a personagem José Forjaz produz naqueles que o contactam. Homem sedutor, não no sentido melífluo mas sim como encantatório, pela sua densidade intelectual.

Refiro este último ponto não para me atolar num tom intimista mas para salientar uma das dimensões interessantes do livro. Pois o velho Cabrita, ele próprio homem de muitas andanças (e entrevistas), surge ali como encantado. O que se traduziu numa sumarenta conversa, temática sem a ânsia da completude ou (pior) da cronologia. Gerando um texto que poderá servir para que os mais-jovens jornalistas nele possam compreender as artes da entrevista. Que implicam, claro, alguma cultura geral e alguma preparação específica. E, acima de tudo, interesse no outro. Coisas que parecerão óbvias mas que, infelizmente, não o são.

Isto é um “apelo à leitura”, não uma resenha do livro. Uma tão longa carreira não é resumível numa entrevista, e o texto não o intenta. Nele abordam-se algumas questões centrais, a sua concepção de arquitectura, das relações desta com a arte, o planeamento urbanístico no Moçambique colonial e nacional nas suas relações com a sociedade, e, claro, ainda que de modo muito resumido, as linhas condutoras da obra do entrevistado.

Mas mesmo sem resenha refiro uma linha de conversa que gostaria que tivesse sido desenvolvida. Forjaz, sabiamente, rodeia o epíteto “Arquitectura Tropical” desmontando-lhe uma hipotética unicidade. Apenas aflorada, esta questão, a da “arquitectura entre-trópicos” nas suas plurais condicionantes ecológicas e na sua miríade sociocultural, despertou-me a curiosidade. Exigindo, porventura, um tomo 2 à obra …

E ainda dois pontos centrais. A proposta de uma arquitectura despojada, “desadornada” que se associa à postura filosófica que anuncia, a da vida como desaprendizagem, como de avanço libertário até uma “inocência na atitude criativa”, como se um caminho até uma intuição poética. Sendo certo que consciente das algemas dos “padrões” de compreensão e acção que o constituem, Forjaz persegue a libertação do poluente que lhe amputa o ser. É óbvia a antítese face à ideia materialista e cumulativa dominante, a da adição de saberes e bens (e adornos arquitectónicos). Como se um manifesto, individual, por um ascetismo ético, intelectual.

É por esse eixo que encontro o ponto nevrálgico desta conversa na referência aos seus projectos de templos cristãos (p.55), projectando e reproduzindo uma particular ideia da vida religiosa, da ascese. Imediatamente confrontada (e também por Cabrita) com a vida lúdica, as discotecas (locais de “caça”, dizem). De súbito temos, e numa apenas entrevista, muito mais do que isso. Enfrentamos uma visão antropológica do homem, a velha dicotomia corpo e alma, ascese e pecado, bem e mal. Tudo o que uma particular tradição tem transportado, tentado edificar (querendo extirpar os êxtases “xamânicos” ou as comunhões colectivas, por exemplo). Esse projecto de uma modernidade, querendo modelar uma forma justa, “ética”, de transcendente. De homem. De mundo.

Num país como Moçambique, onde a grande revolução que vem decorrendo é a religiosa, este livro surge assim como crucial. Sobre Forjaz. Mas também sobre a modernidade. Uma bela conversa entre dois belos interlocutores. Modernistas. Remoendo, quiçá até cansados, estas afinal tão múltiplas modernidades. Um documento. A ler.

jpt

publicado às 22:41

A Ondina do Cabrita

por jpt, em 01.06.12

O António Cabrita tem aparecido bastante aqui pelo ma-schamba, intromissão minha e, às vezes, visita dele, isto antes de se ter metido a bloguista, no seu Raposas a Sul. Agora acabo de ler que o malandro acaba de ser nomeado para a "long list" do brasileiro Prémio Portugal Telecom, 60 nomeações para três categorias, significa que o homem está entre vinte para ganhar um prémio. Já referira que lá no Brasil tinham gostado do seu "A Maldição de Ondina". E agora mostram que mais gostaram.

Isto de prémios nunca se sabe, mas era bom que o homem o sacasse. Primeiro porque podia ser que arranjasse distribuidor para o livro (ao que sei o anterior faliu, e há que evitar a guilhotina, claro), de modo a que chegasse cá ao Índico - e ao altaneiro Portugal, também. E depois, na esperança (interesseira) de que em recebendo ele o saco de euros talvez venha a pagar(-me) umas moelas e uma (ou outra) 2M.

jpt

publicado às 18:58

Cabrita & Cotrim na Minerva

por jpt, em 18.05.12

Sexta-feira, hoje mesmo, às 18 horas, na lendária livraria Minerva, a sessão de apresentação deste "O Branco das Sombras Chinesas", um livro de António Cabrita e João Paulo Cotrim, editado pela editora Abysmo em Portugal. O primeiro estará presente, e falará (ele é homem que fala). O segundo presumo que não esteja.

O livro é uma desgarrada que os dois escreveram há uma década e que foram publicando em fascículos num jornal. Não é um cadáver esquisito, é um traço cultural português pelo menos desde que Eça de Queirós e Ramalho Ortigão fizeram uma destas (o Cabrita poderá, inquirido ao vivo, explicar se houve outros antes. Ou mesmo depois. E se têm alguma coisa a ver com isto). Eu li este "policial". Dois tipos que escrevem bem, com garra, e isso vale sempre ler. Um ambiente na Lisboa fim do século (fim de milénio, para ser mais exacto). Aqui e ali sarcástico, o tom deles. A divertirem-se. À narrativa a gente percebe-lhe as rugas, as cicatrizes. E os agrafos. Coisas dos vários teclados misturados. Mas como é assumido isto não é resmungo, é apenas o tacto ao ler.

Confesso que às tantas deixei de acreditar. Que eles estivessem a acreditar. Mas isso será do meu palato. Valerá a pena ir lá. E comprar. E, nunca esquecer, talvez haja chamussa.

jpt

publicado às 01:52

Há poucos dias botei aqui sobre a actual imigração portuguesa para Moçambique. Há alguns meses também já aqui a tinha referido, algo influenciado pela torrente de pedidos de informação sobre o país, a vida e as hipóteses de trabalho. A qual apenas acalmou com o texto, tendo regressado, pois continuam constantes os pedidos de informação (alguns até abrasivos, que há gente que é meio doida, do exigente que é).

Agora o António Cabrita acaba de publicar no seu mural de facebook um "Aviso à Navegação", dedicado aos patrícios que têm demandado Moçambique ou que o pensam fazer. De leitura justificada, daí que o transcreva.

AVISO À NAVEGAÇÃO, por António Cabrita

É com grande apreensão que vejo os portugueses chegarem a Maputo às carradas, sem um mínimo de preparação para um mundo rigorosamente nos antípodas e armados da ilusão de que partimos de uma base comum que é a língua.

O que está a acontecer com um casal meu amigo talvez ilustre as dificuldades que aqui encontramos todos os dias: o contrato de arredamento (pagam uma renda de mil dólares) está a chegar ao fim; a vizinha propôs uma subida para 1500 dólares. O casal, medindo pós e contras, contrapropôs 1400 dólares e um contrato para três anos, para obstar passarem todos os anos pela mesma discussão. E já se tratava de um brutal aumento de 400 dólares. Resposta da senhoria: quer um contrato de 1500 para seis meses, enquanto ela faz obras na casa (com eles lá dentro), e depois então fará com eles um novo contrato, no qual procederá a um novo aumento. É delirante. Mas é assim mesmo, porque não existe regulação legislada – muitos dos deputados são senhorios - e os moçambicanos estão contentíssimos com estas levadas de emigrantes ignorantes dos preços do mercado e que aceitam tudo, a qualquer custo. E esta inflação louca é geral, eu também tive de sair há uns meses de uma casa para outra porque me foi pedido um aumento de 400 dólares.

Da mesma forma, o mercado de trabalho está a ficar viciado pelos mesmos motivos. Aterram arquitectos, profes, engenheiros, às centenas de técnicos de todas as áreas, dispostos a aceitarem tudo para não voltarem, para se aguentarem, e estão absolutamente a distorcer as condições de trabalho e a trazer um péssimo ambiente porque ainda por cima vêm armados de uma arrogância que a prazo se desfaz em fumo dado esta ser uma sociedade de códigos comportamentais muito, mas muito, diferentes que só o tempo nos faz adquirir. Sucedem-se os males-entendidos e o aroma a xenofobia sobe no ar.

Efeitos deste desnorte medem-se aos palmos largos, e nos últimos anos Maputo começa a acelerar na inflação para se equiparar aos preços de Angola, à custa dos papalvos das ONGs, empresas estrangeiros, e incautos emigrantes dispostos a tudo.

Meus caros, os ordenados locais não suportam esta inflação descabelada, não apodreçam mais o que já andava a soro. Pede-se bem senso, dignidade e equilíbrio – que talvez comece por se informarem a sério do que seja viver em África antes de se atirarem de cabeça a uma galinha que, lamento informar, não é a dos ovos de ouro.

jpt

publicado às 01:46

António Cabrita no Brasil

por jpt, em 04.03.12

Várias vezes aqui tenho falado do António Cabrita (e ele vai torrencialmente blogando no seu Raposas a Sul). Sou nisso fiel à ideologia do amiguismo, claro. De quando em vez, nos raros momentos em que estamos desafogados, pagamo-nos reciprocamente os afagos mútuos. Em parcos whiskies, quando dá para tanto, ou numa ronda de 2M. O Cabrita é um patrício aqui relevante, como fulgurante professor cada vez mais reconhecido, como produtor literário (que é uma expressão que não se costuma usar), a elevar o que lhe pede amparo, como autor de vários trabalhos significativos em áreas bem diferentes. Nestes seus anos de imigração foi-se aqui tornando uma personalidade, no campo literário, no campo cultural. Um gajo bem raro.

Há algum tempo aqui ecoei a edição brasileira do seu romance A Maldição de Ondina, ainda inédito em Moçambique e em Portugal (publicado pela editora Letra Selvagem). E não deixa de ser significativo (e digo-o com um esgar) que um autor como o Cabrita publique o seu primeiro romance no Brasil, sem que os nossos vizinhos aqui o publiquem. E já nem falo da distante "pátria amada", onde medrou um estranho mundo editorial, ao que me consta.

De certeza que devido a toda esta minha atenção um leitor do ma-schamba acaba de me enviar este recorte do jornal Folha de São Paulo, com uma crítica ao referido "A Maldição de Ondina" feita pelo escritor brasileiro Nelson de Oliveira. Os elogios são superlativos. É certo que as críticas valem o que valem. Mas, caramba, esta é de fazer corar um desalmado. E de fazer prever uma boa recepção do livro no Brasil. Que induza uma porta escancarada à restante, e prolixa, verve cabritiana. E a reforçar a atenção noutros lugares.

jpt

publicado às 09:36

 

Uma bela entrevista de António Cabrita à revista brasileira "Pausa". Sobre ele próprio. Sobre poesia, poetas, cinema. A situação das áreas culturais em Moçambique e Portugal, etc. Tudo isto a propósito das suas frenéticas publicações (o Cabrita acaba de publicar três livros) em particular o romance "A Maldição de Ondina", publicado no Brasil.

Sublinhando esta recomendação para que se leia a entrevista aqui transcrevo a visão do António Cabrita sobre dois temas que têm sido recorrentes aqui no ma-schamba: a lusofonia e o acordo ortográfico.

Está muito bem o Cabrita.

 

O que você acha do acordo ortográfico e da chamada lusofonia.

O acordo não me ofende nem me arrefece. Como dizia o Deleuze há que gaguejar na língua para que a língua no seu próprio interior se torne bilingue, isto é, cito-o, o multilinguismo não é apenas a posse de vários sistemas mas antes de tudo a linha de fuga ou de variação que afecta cada sistema impedindo-o de ser homogéneo. Isto que sublinho é o que me importa no manejo de uma língua, é o que sempre foi feito por alguns e é o que continuará a ser feito, e isto não há acordo que o impeça. Agora, há o aspecto político da questão e aí é claro que o acordo existe para favorecer a indústria do livro brasileira, o resto são balelas.

Quanto à lusofonia manifesto reservas. Não sei como é no Brasil mas em Portugal fala-se em lusofonia como um efeito hipnótico que levaria logo a uma bacalhauzada entre os falantes de português. Para Moçambique é um termo controverso, associado ao neo-colonialismo. E de facto é preciso perguntar que sentido faz falar em «lusofonia» num país em que só oito por cento dos seus habitantes é que tem o português como língua mãe. Mesmo que o português seja a língua oficial, os códigos e as performances da língua aqui são distintas, verificando-se um crescendo de contaminações das línguas nativas e do inglês na textura do português, assim como a presença de deslizes semânticos que introduzem variações quer de significado, quer sintácticas, que tornam a sua tradução uma história de diferimento e não um rastro contínuo. Aparentemente falamos a mesma língua, mas os códigos e protocolos da língua e os valores dos seus significados são tão díspares que nos sentimos num perpétuo território estrangeiro, o qual está minado pelos equívocos e mal-entendidos com que a aparência de uma língua comum, transparente, tornou bélico o terreno. A lusofonia é uma cortina de fumo para que as embaixadas possam não falar entre si de coisas concretas, urgentes e necessárias. Com o álibi dessa suposta base identitária faz-se de conta que está tudo bem para não se investir em nenhum tipo de comprometimento sério.

É como Prémio Camões. Em 2001 fui ao Brasil, tinha acabado de lançar Inferno, que escrevi em parceria com a Maria Velho da Costa, a quem fora atribuído o prémio há 2 anos atrás. Fui a várias editoras brasileiras tentar vender esse e outros livros dela. Ninguém sabia quem ela era. O eco do Prémio Camões não tinha saído das embaixadas. É patético. Não entender a inocuidade disto é grave, desajustado e redutor. Por isso a lusofonia lembra-me a deselegância de estar a martirizar uma noiva, na véspera do casamento, falando-lhe obsessivamente do antigo namorado que ela faz tudo para esquecer.

O imaginário lusófono é como o sentimento da queda no Paraíso bíblico: há um misto de culpa, de rejeição e de tremenda atracção pela Eva. O aparente decoro da Eva não nos deve deixar impotentes, e convém voltar a fecundá-la, com a diferença de que agora pode ser ela a tomar as rédeas do jogo, tendo o papel activo na função. É preciso aceitar a troca das posições no leito para que a coisa volte a animar. Enquanto não se entender esta coisa primária, a lusofonia não passa da simulação das erecções de um anão ao espelho. O Eduardo Lourenço já disse tudo sobre esta matéria no seu devido tempo, mas como os políticos portugueses não têm mais nada a oferecer senão retórica agarram-se à miragem.

jpt

publicado às 11:37

Um trio do António Cabrita

por jpt, em 05.11.11

Aparece-me em casa o António Cabrita, a desfaçatez em pessoa ou melhor, o livro em pessoa. Pois entre outros assuntos, e assim como nem quer a coisa, despeja a notícia que vai botar livros. Três. Três! Não dá descanso ao teclado, está visto. Começa logo agora, vai-se para o Brasil lançar, em momento a decorrer no próximo 16 de Novembro, este "A Maldição de Ondina", editado na Letra Selvagem, um romance de 248 páginas que tem um posfácio de Adelto Gonçalves, aqui transcrito e que leva o tétrico título de "António Cabrita e o futuro da lusofonia".

Entretanto lá na outra banda da dita lusofonia, e pela editora Língua Morta, vai sair o ensaio "Respiro", 38 páginas que agora também habitam cá em casa em avatar PDF, ainda por ler. Nelas o Cabrita começa assim:

"Um dizer de Plotino exclui à priori o dualismo em que Platão atolou o mundo das ideias: «Ninguém aí (alude-se ao Uno) marchará como sobre uma terra estrangeira».

Um direito de linhagem que abstrai as exclusões, o que me agrada sobremaneira, pois fui prematuramente atraído pelo clamor das contradições, tapeçaria em cujo avesso leio as complementaridades.

Nunca me furtei ao apuro acrobático de montar vários cavalos de uma vez, saltando de uma garupa para outra, num equilíbrio instável que me expunha às escorregadelas mais inconvenientes. É mais fundo e intrínseco que a aparência de ter andado 20 anos com o coração dividido entre a poesia e o cinema, uma baba comum a tantos. Ora me põe na jogada a imanência de Deleuze, ora a transcendência neoplatónica me garante o naipe de ases, e, em sucessivos “incroyable!”, gabo as pertinências de um e de outros. No ensaio literário não é dissemelhante. A iconoclastia nominal de Henri Meschonnic – invejo-lhe a lucidez, a coragem com que desossa as falácias do “pensamento poético” –, não me faz abdicar do desfrute de “aromas & essências” em Salah Stétié, para quem o poeta, esse abat-jour, cata lâmpadas... na retrosaria de Deus."

para, as tais páginas depois, vir a concluir, ou pelo menos a interromper,

"Dantes os movimentos literários encadeavam-se de forma progressiva, cronológica, como as missangas num fio. Agora, uma espécie de configuração mosaica, propulsionada pela net, impele-nos às zonas intersticiais, à mestiçagem, ao hibridismo. Estamos mais plurais, e é uma tarefa insana e irresponsável querer travar o curso deste fluxo. Qual a vantagem de falhar uma série de encontros estimáveis, ou de anquilosar numa fórmula?

Quem nos impede de ser em arquipélago, depois de Pessoa, dos rizomas de Deleuze? Entre o intervalo e a oscilação, o coração subsiste; renitente às aporias, o coração subsiste, sem que se quebre o frágil elo que une o seu ritmo narrativo à transparência de uma consciência. Contudo, esta transparência, este diafragma não pode cair no erro, na desfaçatez de confundir sujeito psicológico com o sujeito do poema. Ao fazê-lo, esqueceria o essencial: «O mal é (...) a redução do ter-lugar das coisas a um facto igual aos outros, o esquecimento da transcendência inerente ao próprio terlugar das coisas», Giorgio Agamben.

E na sequência desse esquecimento trairíamos o reconhecimento do movimento que Diotima consagra, no 37Banquete: «chama-se poesia à causa que torna possível a passagem de qualquer coisa do não-ser ao ser», e baldar-se--ia aí a lição de Pound: «Without character you will be unable to play on that instrument or to execute the music fit for the Odes»

Carácter que o poeta pagou bem caro. Por que, afinal, tudo se paga não é?"

Finalmente anuncia "O Branco das Sombras Chinesas, 78 páginas de um policial, escrito a meias com João Paulo Cotrim e ilustrada por João Fazenda, uma edição da Abysmo. E que no tal PDF me parece muito bonito.

Toca a ler o Cabrita.

jpt

publicado às 03:05


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