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Começo do CONLAB 2015

por jpt, em 02.02.15

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Em sessão na reitoria da Universidade Nova de Lisboa abriu ontem o CONLAB 2015, a 12ª edição do congresso luso-afro-brasileiro de ciências sociais decorrida nos últimos 25 anos. Logo para começo deu para que conhecesse eu o edifício, do qual já ouvira falar, uma imposição bem esgalhada, obra do Guli e do Manuel Aires Mateus e que lhes valeu o Valmor. Boa coisa, ainda que sem abrigo para fumadores, e com uma belíssima sala de conferências (Salão Nobre?, como se chamava dantes?). Valeu a visita, ainda que me tenha ficado no piso térreo e seus arrabaldes. Espero que um dia possa subir o elevador.

 

Há quem torça o nariz a estes congressos académicos, e às vezes também eu, que aos 50 anos estou apenas 4º congresso da minha vida. Porque têm uma dimensão convivencial, turística (uma pobre ética laboral, que impercebe ser isso um factor fundamental do enriquecimento intelectual). E porque alimentam uma visão quantitativa da reflexão (quantos "papers" - o pobre jargão tecnocrático - escreveste este ano?), essa sim questão importante mas que não se dirime barafustando com a existência destes espaços de intercâmbio profissional. Discorde-se pois desse altaneiro menosprezo pela actividade congressista, inócuo pois alheado das questões fundamentais.

 

Este Conlab é, à partida, um sucesso: mais de 1500 participantes locutores, cerca de 150 grupos de trabalho, e isto apesar da ausência dos colegas angolanos, de súbito alquebrados pelo "choque petrolífero" ali acontecido, e dos moçambicanos, estes defrontando a tradicional falta de fundos. Em assim sendo torna-se evidente, e isso foi referido por vários presentes, em particular pelo conferencista Sousa Santos, que a continuidade significante deste tipo de eventos tem que afrontar a assimetria de acesso a recursos entre as diversas comunidades profissionais. De qualquer forma é assinalável a pujança de um evento cíclico que vem reunindo profissionais das ciências sociais dos palop e do pelop, combatendo a constante afronta a este tipo de saber por parte do senso comum mediatizado mais reaccionário (independentemente do tipo de vestes ideológicas com que os adeptos do "cientismo" se ornamentam) e por parte de alguns poderes políticos.


A inauguração foi rica em significados, por algum do explícito e por muito do implícito. A sessão protocolar, vasta em discursos e orlada por folclore, tornou-se matéria-prima para breve ... "paper". As costumeiras, ainda que enviesadas, referências aos "descobrimentos", ao "império", à "história comum que nos une". Vai levar décadas, gerações, até que nós, portugueses, nos expurguemos desta visão de "nós" próprios. O cúmulo foi o episódio "danças e cantares", um grupo de jovens tamboristas e dançarinas (uma batucada, dir-se-ia no tempo do Marechal Carmona) afrodescendentes acompanhados de um músico fadista, um pretenso multiculturalismo com que a organização portuguesa recebeu os participantes nacionais e estrangeiros. Assim como se em Maputo recebêssemos um congresso com um grupo musical da Escola Portuguesa de Moçambique mesclado com um timbileiro de Zavala e se tocasse música de Freitas Branco. Esta candura que se julga multicultural é mesmo o sintoma do mal-estar com a história, como se uma mácula identitária de irreflexão construída, presente em alguns nichos portugueses, e tanto também no campo das ciências sociais. Pois, como diz o sábio povo, "em casa de ferreiro espeto de pau ...". Sei que as duas décadas de Moçambique, parte das quais a aturar a sub-intelectualidade socialista portuguesa, me tornou muito sensível a esta auto-incompreensão patrícia, mas já vai sendo tempo, em 2015, da "gente" se pensar a sério.

 

A conferência de abertura foi muito significativa. Carneiro da Cunha, antropóloga brasileira que eu desconhecia e a quem os meus colegas muito apreciam, desaproveitou a ocasião, entendendo-a como espaço para uma charla introdutória à diversidade cultural, sob postura ética (mas, pior do que tudo, chamando "ciência" aos conhecimentos empíricos, o maléfico "autoctonismo-indigenismo" ideológico do qual urge libertar-nos), como se se estivesse a abrir um curso de licenciatura. Esta parte do meu diário é antipática mas é também política. Pois este tipo de desaproveitamento, por simpático que pareça, pois alimentado do "exotismo", reforça a sensação de irrelevância social da antropologia face às outras disciplinas, e isso influencia o acesso a recursos, humanos, económicos e até estatutários. E é isso mesmo que notei no discurso de um  dos presidentes das instituições organizadoras, a agradecer aos colegas do seu instituto que organizam o evento, nomeando-os, e a nisso elidir o nome dos antropólogos tão cruciais nesta enorme tarefa. Não se resume isso a uma qualquer malvadez pessoalista - "coisas lá entre eles, lisboetas", as mesquinhas tricas no eixo da Junqueira (ISCPS) às Forças Armadas (ISCTE/ICS), passando pela Berna (Nova). Para quem está de fora, num evento ritual internacional de cariz tão multidisciplinar, só pode ver nessa elisão o enquistamento epistemológico, as compitas disciplinares, a anti-ciência, em suma, o hábito estratégico da desvalorização da antropologia.

 

Sousa Santos também falou, brevemente, um rescaldo deste quarto de século, fazendo um apanhado das diferenças e similitudes contextuais entre o momento do primeiro congresso (1990) e agora. Natural que assim o fizesse. Há muitos que não o apreciam (e outros tantos que o idolatram, já agora). Mas, e independentemente do que se possa pensar das suas ideias muito revolucionárias (que eu me abstenho de comentar), o certo é que este espaço internacional profissional nasceu e cresceu dos seus esforços, e da sua equipa. Criticáveis algumas das suas ideias? Sim, decerto. Mas louvável, e muito, esta iniciativa, esta vontade de abrangência e de estabelecimento de conexões. Ontem alertou, e muito bem, para as diferenças de capacidades económicas entre os diversos contextos nacionais quanto às ciências sociais, e o quanto isso desequilibra estas participações, e referiu a rígida estratificação sociológica na prática científica nos países africanos. Recordou o peso das ditaduras, e das suas heranças no contexto das ciências sociais: o Estado Novo, o colonialismo, a ditadura brasileira. Mas há uma higienização no seu discurso, talvez não só "en passant", um "us and them" que perpassa. Pois as sociedades africanas (e suas práticas científicas) foram apresentadas como se apenas pós-coloniais. E se as ditaduras europeia (e sua emanação colonial em África) e americana são vistas como cientificamente influentes porque não referir as influências das autocracias (para não dizer mais) nos estados africanos? Mas o que da sua comunicação mais retiro é o seu remoque: esperaria que em 2015 o congresso apontasse para um reflexão sobre os 40 anos das independências dos países africanos. As efemérides servem para isso, para chamar a atenção reflexiva. Mas o pendor luso-brasileiro, sociologicamente determinado, esqueceu isso. Não ele, e isso ficou-lhe, acho, muito bem.

 

Borges Coelho fez uma rica intervenção. Uma análise do processo das ciências sociais em Moçambique nos 40 anos nacionais. E da sua articulação/confronto com o "campo político" e também, nas últimas décadas, com as pressões do mercado. Nisso desmontando a ideia de um processo linear de afirmação e autonomização de um "campo científico" - uma ideia que grassa, e que nada mais é do que um avatar da crença no "progresso". Foi uma belíssima intervenção que decerto será publicada e que deverá ser lida pelos profissionais, um documento para reflexão. Pontapeou ainda os malefícios para a ciência social, contruída no uso da língua, da trapalhada colonial do Acordo Ortográfico.

 

E terminou, em grande, evocando António Quadros (Grabato Dias, Mutimati Barnabé João), como exemplo da interdisciplinaridade frutífera para pensar e imaginar o mundo - pedagogo, cientista, empirista, poeta, artista plástico, cidadão livre. Recordando-me a ideia de que o silêncio sobre o extraordinário António Quadros (e a sua ileitura) é o sinal mais evidente do défice cultural, de modismos e escaparates feito, em Portugal e em Moçambique. Mas não só aí. Vale sempre ouvir Borges Coelho. Ontem ainda mais.

 

Post-scriptum: no fim houve um beberete, sempre simpático. Num país em que a produção de vinho tanto tem melhorado nas últimas décadas, e onde se adquire vinho tinto muito bebível a preços muito acessíveis, é espantoso que se sirva uma zurrapa daquelas, imbebível literalmente falando. O AICEP ou uma qualquer junta de turismo ou de produção vinícola não pode ajudar quem organiza eventos internacionais destes, bons para promover a exportação de vinhos e quejandos?

publicado às 09:23

A la Blog

por jpt, em 28.11.12

 

 

O meu texto de hoje na coluna "Ao Balcão da Cantina", no "Canal de Moçambique" 

 

A la blog

 

A angústia diante do ecrã vazio é típica de quem se propõe a escrever periodicamente. Tão típica que já nem é assunto. Pois tantas vezes os escribas preguiçosos a repetiram, gemebundos. Lamentá-la em papel impresso deveria ser, pura e simplesmente, proibido pelos directores de jornais e revistas. Sim, como censura prévia, verdadeira excepção à liberdade de opinião impressa! Por motivos de galhardia e fastio, nada mais. Tipo, “ó amigo, vá chatear outros!”.

 

Não me é o caso, nove anos a blogar moldou-me a atenção, habituou-me o teclado, que até já funciona em piloto automático. A dificuldade não é o ecrã vazio, que verborreia não me falta, vã que seja. O problema é o tipo de atenção que a escrita in-blog cultiva, o género de texto que faz brotar.

 

Fica-se com um olhar espartilhado, debruçado sobre as pequenas coisas, fiapos disto e daquilo do que é feito o mundo, coisas do pouco fôlego: um olhar de fumador, por assim dizer. Que outros dirão desconcentrado, e talvez o seja. Incompetente, pois assim apenas balbuciando dizeres que não se querem conclusivos. Desses que vão sem teses, daquelas povoam o mundo do “dever ser”. Entenda-se, sigo, e falo, com má disposição muita. Missal nenhum.

 

No fundo botar in-blog é uma dieta diferente. A largar o texto longo, as pratalhadas do cozido dominical, ou as matapadas, para os especialistas e, que saudade deles!, para os grandes repórteres. E a preferir um buffet de pequenas notas, breve chamadas de atenção, suaves irritações, rotundas erupções de calão, sorridentes encantos, amiguismos militantes. Na verdade, num blog um tipo jinga, nada mais do que isso.

 

Enfim, um tipo fecha-se assim, ensimesmado, e vai palrando nesse sublime irresponsabilidade do que lhe vem à cabeça. O problema é, de repente, este adultismo de vir para o mundo dos jornais, onde o cardápio sempre se deve adequar à simpática clientela. Pois os repastos já não são solitários. E há quem pague a conta.

 

Enfim, vai longo o palrar, apenas para apresentar os pratinhos do dia:

 

a) O Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane acolhe esta semana (quarta e quinta) uma conferência internacional: “Os intelectuais africanos face aos desafios do séculos XXI”. Celebrando os seus 50 anos e evocando Ruth First, a activista e investigadora sul-africana, assassinada nas suas instalações há exactamente 30 anos.

 

É um grande evento, a congregar a atenção da comunidade intelectual nacional. Serão mais de 100 comunicações apresentadas, por investigadores estrangeiros e nacionais. Espero que sejam produtivas as apresentações e, em particular, os debates. E, muito em particular, quando se renova o discurso desvalorizador das ciências sociais, em prol de um “saber-fazer”, bandeira da tecnocracia, disfarçada de tecnologia. A situação do mundo dever-nos-ia ser suficiente para perceber o quão enganadora é a cantilena malévola dessa sereia tecnocrática, e da necessidade de analisar o real para debater, criticamente e conflitualmente, o que fazer e como fazer: o “todo o poder aos engenheiros” é ainda pior do que o “todo o poder aos sovietes”, esse mito de XX.

 

Como é óbvio várias apresentações serão dedicadas a Ruth First. A esse propósito lembro as palavras de sua filha Gillian Slovo nas suas memórias “Every Secret Thing. My Family, My Country” (Virago, 1997), uma evocação de seus pais, First e Joe Slovo, o dirigente comunista sul-africano. Aí (p. 25), revisitando o traumático funeral de sua mãe, lembra como então teria gostado que nos discursos alguém recordasse a mulher, essa “coquette” que levou um vestido de seda para a prisão em 1956, essa impaciente que adormecia quando se aborrecia. Ou seja, que alguém falasse da mulher, sua mãe. Lamentando que tal não tivesse acontecido, apenas as loas à heroína, o eco da dádiva para a luta. Espero que, 30 anos depois, tal não aconteça de novo. Pois a vida, e as lutas, são feitas de gente, não de cromos.

 

b) ontem uma grande derrota para a escatologia europeia, algo com efeitos por cá – convém lembrar que a EU é ainda o grande doador. E, mais ainda, que se Moçambique importa muita coisa a menor das importações não é, com toda a certeza, o pacote das lamúrias ideológicas.

 

Pois leio a correr, e sem compreender muito bem (quando se fala de dinheiro acontece-me sempre isso) que os ministros das Finanças da zona euro (chamam-lhe Eurogrupo) e o FMI acordaram a redução da dívida grega. No fundo, aquilo que sempre foi óbvio que aconteceria no âmbito da crise europeia. Primeiro a redução do papel e da dimensão do Estado, alguma recessão, depois o reescalonamento da dívida, e o perdão parcial (ou total) desta. A gente, que fomos testemunhando o processo de Moçambique no Clube de Paris, sabia que era esse o caminho. A única surpresa para este leigo é a velocidade com que tudo acontece. Afinal, nos países ACP, bem mais pobres e com gente bem mais pobre, o perdão levou mais anos. Não há dúvida, o peso da contestação social na Europa é maior. Ouçamos, a partir de agora, os indignistas europeus não falar sobre o assunto, pois é sempre acidamente engraçado assistir ao provincianismo de vestes cosmopolitas.

 

c) recebo um interessante livro, “Itinerâncias. Percursos e Representações da Pós-Colonialidade” (Húmus, 2012), uma colectânea de textos de académicos internacionais dedicados à realidade literário-cultural dos países de língua oficial portuguesa, que foram apresentados numa conferência na Universidade do Minho. Gentil oferta de Elena Brugioni, uma das suas organizadoras, pesquisadora italiana com particular atenção sobre o país. O conjunto “não é a minha praia”, são textos sobre literatura, da qual sou mero e preguiçoso consumidor. Contém vários artigos sobre a literatura moçambicana (Borges Coelho, que escreve ele próprio, Patraquim, Chiziane) e enquadramentos teóricos. Com toda a certeza um volume atraente para os especialistas da área. Que assim me podem, justificadamente, invejar esta propriedade.

 

Logo mergulho em dois textos que analisam textos literários portugueses de retorno, de gente que daqui partiu aquando da independência. Para muito me irritar, mais uma vez, com a renovação do protocolo de silêncio sobre António Quadros, o gigante.

 

Quadros, esse que até um leigo como eu descobriu a escrever, chamando-se João Pedro Grabato Dias: “Acabou a era do pequeno torcionário / do paternal cachaço do eh! seu preto sujo / das mulatas de bolso, dos uísques muitos e especiais ” e muito mais por aí em diante (“Pressaga pré-saga saga/press”, 1974). Antes, um pouco antes, Quadros chamando-se Ioannes Garabatus, escreveu nas suas “Quybyrycas”: “E a ti povo meúdo cantarei / sem ilusórias tubas nem esperança / de me ver futurado no que sei / ser hoje a vossa fala de criança.”. Sabia-o bem, o poeta.

 

Convém calá-lo? Sim, pois forma de amarfanhar o real para botar algo, e nisso garantir a atenção às “companheiras de estrada” de hoje. Mas convém nada. “O que é preciso é ler” António Quadros, contra os academismos ideológicos, mergulhar alegremente, sem categorizar, sem “saber-fazer”. Porque a vida é feita de gente, não de cromos.

 

Por isso aproveito esta erupção de irritação, típica de bloguista, que decerto será acalmada na visita a outros textos. E faço um “apelo aos papéis”, vão ler Quadros. Façamos de 2013 um inoficial, privado, amigo, “ano Quadros”, sem homenagens nem conferências, só leituras. E conversas.

 

Adenda para o ma-schamba: sobre António Quadros ler (e quão raros são os textos na internet sobre o autor, algo bem significante) "João Pedro Grabato Dias: o homem com gatos nos pulmões", de António Cabrita.

 

jpt

publicado às 09:04

Quadros / Grabato Dias

por jpt, em 09.08.12

"...vejo como o Grabato Dias, um génio, continua a ser absolutamente desconhecido, sem que ninguém morra de vergonha...", vai dizendo o António Cabrita. Sem escaparates que o ouçam ...

Cabrita este que já botou sobre António Quadros / Grabato Dias.

jpt

publicado às 01:46

O conto de fadas colonial

por jpt, em 25.06.11

 

Há cerca de um ano o então machambeiro ABM (em boa hora) decidiu-se a apear um livro dedicado à demonização da sociedade colona [os meus textos de então estão aqui, os de ABM no seu blog]. Aquele disparate tinha sido muito bem acolhido no mundo literato-bloguístico português (e também no jornalístico, o Público anunciava-o como o início dos estudos pós-coloniais portugueses), e não só no gauchiste. Esse simpático acolhimento vinha muito por (procurado) desconhecimento das questões abordadas (em forma de retrato hiper-realista), muito por mero posicionamento excêntrico a literaturas ou sociologias históricas, mas acima de tudo por questões da sociologia da recepção textual - na realidade o meu co-bloguista (no defunto Olivesaria) jpn terá sido o único a botar como deve ser, qualquer coisa como "publico com a autora há mais de vinte anos, sou companheiro, amigo: gosto", e isso assim eu aprecio, que o amiguismo não é corrupto, bem pelo contrário, quando explícito é companheirismo, húmus da vida. O resto que fui vendo a esse propósito, mascarado de objectividades, só mostrava da pequenez do contexto e do desinteresse dos locutores. Lembro uma recensão ao livro anunciando que aqueles que dele não gostavam eram do "outro lado da cidade", assentando metáfora sobre a topografia/sociologia de Lourenço Marques/Maputo, com tudo o que de pejorativo (e de muros de Nicósia) isso implicaria. Turcos assim éramos, bárbaros infiéis. Ou seja, fachos, colonialistas. Enfim, confesso que então me diverti imenso a blogar sobre o caso, um verdadeiro torneio de tiro aos bonzos. Mas essa dimensão "comunitária" do apreço é interessante pois denota(va) a propensão para um particular olhar colectivo sobre a história recente de Portugal em África.

 

Vem esta memória, já estafada, a propósito da divulgação pela AL (no facebook) de Linha da Frente, um programa da RTP cujo último episódio foi dedicado aos deficientes das forças armadas de origem africana e de nacionalidade portuguesa - e de uma discussão que ali brotou (mais uma do género, que tende para o infinito). O meu interesse no tema vem de longe, em tempos até profissionalmente o acompanhei, nos finais de 1990s com o desenvolvimento da ADFA em Moçambique (lembro ainda a inauguração da sua sede, na Malhangalene), depois com a mais abrangente questão relativa às pensões aos antigos combatentes e sua aventada extensão às tropas africanas - que deu origem a um enorme boato, com milhares e milhares de petições. E, mais tarde, conhecendo os trabalhos do meu colega Elísio Jossias que fez uma tese de mestrado em Antropologia exactamente sobre os membros da ADFA de origem moçambicana (cá residentes e em Portugal). A questão dos deficientes é pungente, não só pelos óbvios dramas pessoais que a deficiência provoca como pela espantosa inércia das instituições portuguesas ao longo de longos anos.

 

A referência feita pela AL ao programa derivou quase de imediato em comentários apologistas do "sentir português" das tropas africanas recrutadas nas guerras coloniais (e, deduzo, nas obrigações que as instituições têm face a esse sentimento) - uma retórica recorrente, sempre apagando a pluralidade das causas e processos de integração dos africanos nas forças armadas portuguesas. E nisso, conscientemente, apagando os vincos e esquinas da sociedade colonial. Ou seja o desconforto, óbvio, com uma incúria inaceitável do Estado português, e da sociedade de que ele depende, face a responsabilidades históricas surgiu (como quase sempre surge nesta área) como motivo de enaltecimento daquela "nação" acima iconografada. E mais, de comentário em comentário, regressou o elogio do estatuto do indigenato e, intrinsecamente, da ideologia assimilacionista de então.

 

São estas as duas faces da moeda do desolhar nacional sobre o passado (ainda) recente em África. Certo que este recorrente elogio do colonial (mesmo que por vezes matizado por alguma distância crítica face ao "colonialismo real") não vem embrulhado com o "capital cultural" da denúncia aplainadora da sociedade colonial de que acima falei, do mundo académico-literato sensível ao engajamento como turbo do pensamento. Mas é resiliente, talvez até mais divulgado, e defende-se, entranhado, numa reclamação empírica - "nós/eu estávamos lá, sabemos como realmente foi" - e continua, ainda que difusamente, a ter influência num olhar da sociedade sobre si, no passado e, se calhar, no agora mesmo. Certo que África, e o passado colonial, não são hoje muito importantes em Portugal, eurocentrado e globalizável. Mas nem é inexistente nem esta questão se prende apenas com as relações da sociedade com África.

 

Esta recuperação do assimilacionismo, e da sua forma particular de "estatuto de indigenato", a afirmação da sua bondade (e até da sua contemporaneidade), não é mais nem menos do que a aceitação pública e assumida do estupro cultural, da violação religiosa, da apropriação económica, do politicocídio, que todo o sistema implicava. E até espanta pela sem-vergonha das declarações e pela sua constante repetição, algo que até poderia aparentar inconsciência (mas não a é). Quando refutadas essas (torpes) opiniões reclamam um feixe de considerações auto-validadoras. Reclama-se a experiência própria, uma legitimidade empírica (que, nada paradoxalmente, consiste exactamente em negar a empiria, a qual sempre é opaca, como é sabido), que surge desvalorizando quem não pensa assim. Que logo é metido de um "outro lado" qualquer, um "outro lado da cidade" outra vez. Pois de cada vez que me dá para afrontar esta ladaínha de novo "turco" me encontro dito.

 

Nestes apologistas uma das formas habituais de contestação é afirmarem meras "opiniões" as discordâncias. O que não deixa de surpreender, pois estes são discursos que habitam nos contextos menos simpáticos ao relativismo, esse tão falado hoje (o da aceitação das múltiplas seitas cristãs, da coranização, do curandeirismo; o das múltiplas formas familiares e conjugais; o das radicais liberdades de costumes, etc.). Mas nesta questão, particular, tudo desliza para o relativismo, como se fosse um mero confronto de opiniões. Um relativismo que se alastra até aos que não concordando com este "pensar colonial" o contextualizam, vendo-o (explicando-o) como fruto da peculiar sensibilidade daqueles que sofreram o fim do sistema colonial e que, devido a esse verdadeiro trauma, assim constroem as suas próprias visões do mundo. Ou seja, aceitando que uma identidade (multi)biográfica [qua "tribo"] elabora o mundo de forma diversa e sobre ele opina, assim legitimamente.

 

Outras vozes mais serenas face à contestação da sua visão colonial querem ensinar que a democracia é a aceitação de opiniões diversas. Ora aqui está mais uma falácia. A democracia consiste em aceitar o direito a expressar as opiniões, não em aceitar as opiniões. São repugnantes? Desprezíveis? Ainda que pouco importantes no mundo de hoje, e como tal menosprezadas no sentir global? Há que o afirmar. E não é falta de democraticidade fazê-lo, é um imperativo. Pois se o diálogo é democrático também o repúdio o é.

 

Uma outra questão que surge nas elaborações é a reclamação do não-enriquecimento próprio (ou familiar) colono. E é essa uma linha fundamental, pois abre caminho para quem não chega lá de outra forma, ao que realmente interessa. A sociedade colonial portuguesa era compósita, claro, e por isso mesmo atoardas denunciadoras como as que lá em cima lembrei são meros bibelots kitsch. O interessante é exactamente ver-se a multiplicidade dessa sociedade, não apagar a especificidade de contextos, de grupos diversos, das múltiplas formas de integração e das componentes que as terão influenciado, e também das formas de construção de alteridades. Não demonizar os seus agentes, colonos (ou colonizados), como se espantalhos. Nem mesmo os colonialistas. Mas nunca apagando os traços fundamentais da realidade que foi. Coisa que os denuncionistas não conseguem (nem se interessam), coisa que os apologistas não querem (há quem diga que não conseguem, o que é a pior das desvalorizações, e que refuto).

 

Neste contexto de invisualidade há um potencial de afecto, particular. Às vezes, e é dessas vezes que este texto fala, um afecto ciumento. Um olhar sobre as antigas colónias constantemente apontando os falhanços e as malevolências pós-independências, comparando-os com as práticas e realidades de antanho, estas vistas como benevolentes ou, pelo menos, até benevolentes. Os percursos dos estados africanos e em particular as diferenciações socioeconómicas neles existentes são reclamados como prova óbvia do bem anterior. Ou seja, as dinâmicas de exploração interna, enormes e terríveis, e que são o processo histórico actual, são transformadas em contraponto a uma bondade anterior.

 

Mas há um ponto fundamental, que nunca é referido neste feixe discursivo meu compatriota. É que o projecto de exploração, de apropriação, de transformação violenta e indesejada (não-requerida), o desígnio de poder, a realidade actual, não é já nosso. Um "nosso" de país, donde sociedade complexa, hierarquizada, diferenciada, onde tantos não eram (nem se sentiam) possidentes, e onde as acções e concepções eram múltiplas. Mas onde presidia uma identidade comum, que baseava direitos comuns subordinadores de outrem, e confrontada com uma realidade apropriada, assim subordinada.

 

Assim sendo é esta liberdade de não ser colono que quem ainda tece loas ao "indigenato" e ao assimilacionismo, até ao colonialismo, não preza. É esta democraticidade que estes reclamados democratas não sentem. Com tudo o que défice de cidadania, no próprio país, isso anuncia. E também por isso a indignação face a compatriotas que ainda hoje, tão anacronicamente, valorizam a opressão e o agenciar (de múltiplas formas e com diferentíssimos estatutos) desse malfadado desígnio de então.

 

Em 1971, em Lourenço Marques, António Quadros assinando João Pedro Grabato Dias escreveu:

 

 

Sei que são meus senhores, é quanto basta

para saber-me escravo e infeliz

E ainda que os soubera forcejando

unicamente por interesse meu

e por meu bem, sem causas de malícia,

eu lhes negara o gosto de o fazer

e o direito de impor-me o que nem sei

se desejo. E ainda que inocentes

de propósito cru de magoar-me

eu os negara porque são senhores.

 

[João Pedro Grabato Dias (António Quadros), A Arca. Ode Didáctica na Primeira Pessoa, cxcix, Lourenço Marques, edição do autor, 1971]

 

40 anos depois ainda soam os lamentos de que no "nosso tempo" não era assim. E os resmungos do que foi perdido, das feridas próprias ou alheias, da injustiça sofrida. Um ressentimento que reclama este futuro. E também por uma compensação. Moral. Quantas vezes por via do reconhecimento, atento, até quotidiano, da malevolência alheia, até da incompetência.

 

Na prática denuncionistas (invectivando os demónios próprios) e apologistas (carregando sobre os demónios alheios) continuam o seu conto de fadas colonial: "... a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação." (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

 

Democraticamente têm todo o direito de o narrarem, ao conto de fadas de cada um. Mas não podem exigir respeito. Intelectual.jpt

publicado às 00:59

mutimati-eu-o-povo

 

 

A surpresa de encontrar em Portugal esta nova edição do célebre e lendário "Eu, o Povo", de Mutimati Barnabé João (António Quadros), uma publicação em colecção de bolso da Biblioteca de Editores Independentes (2008). Com um interessante prefácio de José Forjaz, narrando da sua origem, e um hermético (percebi nacos, e com toda a certeza não o fundamental) posfácio de Daniel Jonas (e que tal levantar o pé na densidade quando se escreve para uma colecção de bolso?).

 

Sobre o mítico livro, apropriação criacionista da identidade moçambicana por parte de Quadros, muito ouvi falar. Transpira o tempo de então, o 1975 ideologizado colectivista. Mas acima de tudo o voluntarista tempo de então. Talvez seja esse mesmo voluntarismo, essa vontade de crer, que tenha levado a crer ter sido um "povo", um guerrilheiro, a escrever estes poemas - consta (acredito porque mo contaram) que só tendo sido levado o texto a Jorge Rebelo, ele próprio poeta, ele negou essa hipótese ao ler "Tenho um espinho no pé direito. / Descalço a alpercata. / Esta terra é estéril. Queima. Está na agonia." (O estrume). Pois, disse, "alpercata só um português utilizaria". Ao reler agora os poemas ocorre-me imaginar o espírito do leitor de então que não descodificava de imediato a operação autoral.

 

Alguns destes poemas são ainda recorrentemente ditos, mostrando o como produziram uma época, que tem permanências. É o caso de "Relatório" (Faz favor dá ordem para pôr dentro outro Irmão / Camarada Comandante) ou (não é hoje tão explícito?) "Camarada Inimigo" (Este inimigo deixa muita informação e rasto / Não pode ser um inimigo assim tanto) ou "Eu, o Povo" (A táctica colonialista é deixar o Povo no natural / Fazendo do Povo um inimigo da natureza). É disso que se faz o encanto que neles encontro. Como neste, o meu preferido espelho desse tempo:

 

Operação da guerra da libertação

 

Esta árvore amiga é o inimigo

Destroncar esta árvore é uma operação contra o inimigo.

Escolhemos um inimigo, inimigo, à medida da nossa grandeza

Um inimigo do tamanho da nossa tarefa

Que vai dar muita chatice a cair, e táctica e estratégia

E vai ser derrubado melhor que em pé

Pois se que esta terra é boa para uma árvore tão alta

Há-de ser muito boa para dar machamba.

Vais ser ataque de serrote ou machada ou enxada na raiz?

Vai cair para o lado do vento?

Vai ser de cinto de fogo ou trotil mesmo?

Vai ser com as mãos fazendo força, camaradas?

Onde há uma árvore maior do que a força do Povo?

Se vier o velho, a mulher, o menino, todos um e um e um

Riscar com a unha do dedo pequeno, lamber com a língua

Nove milhões de pequenas carícias e pouca força

Por onde passa o Exército da Libertação

Esta árvore cai mesmo.

Fica um rasto verde e cheiroso e o caminho aberto

Para passar a Liberdade e o Futuro.

É fácil ver quem passou aqui.

publicado às 02:06



António QuadrosCurso de Comunicação Gráfica, Maputo, Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico, UEM, 1998
[prefácio de José Forjaz; noções gerais sobre o problema da visão das cores; cor e representação: teoria da cor; a percepção visual; o olho humano e a visão da cor; a mão; a imagem sonora]


[oferta de Luís Lage]

Texto de António Quadros, homem que foi de plurais actividades, e grande poeta. Deixo o poema que finda esta publicação.

Palavra de Ordem:
Matar a Árvore!

Campo de jogar à bola
machamba de fraca espiga
eis as palavras de ouro!

Desde a Machava à Matola
a árvore é inimiga
e aqui tem o seu matadouro.

Num futuro, já de luto
com sêde, fome e sol quente
buscaremos sombra e fruto
na estupidez do presente...

publicado às 22:23


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