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Kannemeyer em português

por jpt, em 01.12.14

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É surpreendente apanhar uma edição portuguesa do "banda-desenhista" sul-africano Anton Kannemeyer, este Papá em África (ligação a galeria sobre o livro e com o texto de posfácio de Marcos Farrajota e do/a tradutor(a) Crizzze), editado por uma editora que eu desconhecia (isto de viver fora de Portugal), com um nome impronunciável mas com um grande blog [Gente Bruta, isto sim um blog de editora, não essas pobrezas institucionais que fui conhecendo]. Estão aí 500 exemplares para que os esgotem, apressem-se.

 

Kannemeyer não é um iconoclasta, é um puro canibal. Se aparenta filiar-se no racionalismo, como este ex-libris simula 

 

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tal não corresponde minimamente à verdade. O autor filia-se muito mais num "devoro, logo existo", pontapeando todos os bons ícones e princípios e, ainda por cima, as boas causas. Há algo que o engrandece, o seu discurso (o seu apetite voraz, dizendo melhor) global. Pois, e sabê-lo-á quem está habituado ao registo sul-africano, as maiores produções nacionais têm sempre um tom local, como se tão complexa seja (e é) aquela sociedade que algema os elaboradores (mesmo Coetzee, também ele pontapeado neste livro). Visceral dependência contextual que Kannemeyer rompe sem recusar a flatulência ancorada, libertando-se exactamente através deste radicalismo "take no prisioners". Nada lhe escapa.  

 

Aqui nesta preciosa selecção o sacana acampa em Tintin no Congo, este envelhecido, em já calvo cinquentão, satisfazendo-se em doggie style com a pobre (paupérrima) indígena agradecida mas também sodomizado na prisão, enquanto nos lembra, assim-como-quem-não-quer-a-coisa, as tenebrosas práticas africanas dos belgas tintinescos. Rasga os pergaminhos africanders, não deixando pedra sobre pedra do Voortrekker, e pontapeia as práticas negras da "nação arco-íris", como a eroto-mania violadora das brancas. Tanto fel não lhe capta, evidentemente, a simpatia interna, naquele conturbado espectro de luz austral. Principalmente quando, como aqui em cima meti, afixa os mimetismos como prática estruturante (e hiperbólica) da actual sul-áfrica.

 

Há derivas que são criticáveis? Haverá, para mim em particular as preocupações com a carga semântica inscrita na língua (no africâner, no caso). Não há línguas "limpas", a gente sabe, e é até bizantino continuarmos nessa preocupação higienista. Mas que não seja por isso - repito, vão esgotar os 500 exemplares. A ver se mais coisas do homem serão editadas em português.

 

 

 

publicado às 15:28


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