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Território Comanche

por jpt, em 12.02.07

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Por isso os Balcãs entraram a escorrer sangue no século XX e entrarão da mesma maneira no século XXI, por muitas patranhas que nos conte o ministro Solana. O nacionalismo sérvio, todos esses intelectuais que agora pretendem lavar as mãos deois de parir criminosos como Milosevic e Karadzic, manipulou esses fantasmas para fazer frente aos que não queriam a guerra. E o chamado Ocidente, ou seja, vocês e eu, permitimos que assim fosse. Os métodos mais sujos foram postos em prática, perante a passividade cúmplice de uma Europa incapaz de dar um murro na mesa a tempo e travar a barbárie. Esta diplomacia europeia sem pudor e sem coragem, gratificando a agressão sérvia com a impunidade, acordando tarde demais, fez que primeiro croatas e depois muçulmanos bósnios embarcassem na limpeza étnica e na degolação. Já que a canalhice é rentável, disseram para consigo: sejamos canalhas em vez de vítimas a caminho do matadouro.” (77)

 

É que a antiga Jugoslávia estava cheio de domingueiros. Os capacetes azuis espanhóis chamavam-lhes japoneses porque chegavam, tiravam o retrato e iam-se embora assim que podiam. Passava pela Bósnia gente de toda a qualidade e procedência: parlamentares, intelectuais, ministros, presidentes do governo, jornalistas cheios de pressa e cretinos em geral, que ao regressar à civilização, organizavam concertos de solidariedade, davam conferências de imprensa e até escreviam livros para explicar ao mundo as razões profundas do conflito. … Estas excursões bélicas andavam, em média, entre um a três dias, mas a toda essa gente isso bastava para captar o essencial da história. …..” (22-23)

 

Entre os domingueiros da guerra havia também militares de alta patente que se deixavam cair ali em visita de inspecção do tipo olá, que tal, chavalos, e isso. Na Bósnia, reconheciam-nos logo por causa da máquina de fotografar, do ar paternal e, sobretudo, por causa do uniforme, capacete e colete à prova de bala impecavelmente limpos e novos: “Uma vez, Barlés ouviu uma descompostura dos seus chefes por negar-se a entrevistar no telejornal Susan Sontag, que nesse altura montava À Espera de Godot com um grupo de actores locais em Serajevo.” (92)

 

(Arturo Pérez-Reverte, Território Comanche, Lisboa, Presença, 1997. Tradução de Maria Bragança)

 

Um livro azedo, corporativo, meio ajuste de contas com colegas, meio ajuste de contas com os outros todos. O meu primeiro Reverte, talvez o último. E com bocados ou mal escritos ou mal traduzidos (mas qual o sujeito da frase? ocorreu-me várias vezes, letal para um tipo de escrita que se quer curta e incisiva)

publicado às 02:28


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