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Bhowani Junction

por jpt, em 30.11.09

 

Bhowani Junction cartaz

 

Em registo leve-leve um pouco dedicado ao olhar cinematográfico sobre o mundo colonial. Pois acabo de rever este delicioso Bhowani Junction (1956) - e vejam as imagens seguintes, porventura recordem-nas. O que me fez lembrar os entre-comentários aqui acontecidos, e alguma acidez com que um olhar crítico (ou seja, tentando analisar) sobre o acto cinematográfico foi recebido.

 

A obra foi filmada no Paquistão, adaptação do livro Bhowani Junction, de John Masters, oficial do exército colonial britânico. Livro que nunca li e como tal é-me impossível traçar o que no filme deriva da sua adaptação, feita por Sonya Levien e Ivan Moffat, dois argumentistas veteranos de Hollywood. Sendo dedicado ao final do Raj britânico, centra-se na história da mestiça anglo-indiana Victoria Jones (Ava Gardner), integrada nos serviços administrativos do exército, e dos conflitos identitários (afectivos) que a situação política lhe provoca. Ou seja, o cenário do filme é a ascensão da independência mas é um cenário motriz da complexidade da personagem, as suas deambulações não são mera ilustração, pretexto, dos eventos narrados ... Assim, e para além da presença (e que presença!) da semi-deusa Ava Gardner, o que o torna interessante é o exemplificar da complexidade que pode (podia) haver no acto cinematográfico sobre o contexto colonial.

 

Por um lado como o cenário é construído pelo olhar anglófilo. A narração do fim do regime colonial é ancorada nos episódios ligados ao conflito que originaria a formação dos estados da Índia e do Paquistão - e é muito interessante ver, ainda que com os cuidados necessários face ao comparativismo selvagem, que o olhar britânico sobre a descolonização na Índia tanto se centra no conflito hindu-islâmico (neste caso mesmo tantas décadas passadas), um implícito sobrevalorizar da "ordem" anterior (colonial) assim evocada, algo muito similar a tantos discursos portugueses sobre os conflitos pós-independências africanas. É notória a ligação ao discurso inaugural sobre as ocupações, então (e demoradamente) anunciadas como "guerras de pacificação". Ou seja, uma visão do colonialismo entendido como "pacificação" dos locais e dos nativos, imersos num hobbesiano mundo a ser ilustrado pela civilização. E, obviamente, do seu final como o da despacificação nativa, a erupção dos díspares (e irracionais) conflitos.

 

Mas ainda mais significante quanto à "marca do olhar" que encena a obra é o contraste apresentado entre os mundos psicológicos em confronto - nesse sentido a cena crucial (que está no trailer abaixo) é a do sit-in na estação de caminhos-de-ferro, onde é notório o contraste entre a fleuma "máscula" (segundo o arquétipo), racional, britânica simbolizada no protagonista coronel Savage (Stewart Granger), e no seu culto do individualismo meritocrático, mas também presente nos próprios indianos que com ele ombreiam - obviamente "disciplinados" corporal e psicologicamente, "assimilados" às posturas correctas - e a excitação histérica do lider independentista, não só "feminina" mas também obscurantista, enredado nos preconceitos de casta, desvirtualizadores do valor "indivíduo". Esta é uma oposição estruturante no cinema de então, basta atentar na quantidade de histéricos - quantas vezes dionísicos - "mexicanos" do mundo "western" vergados ao peso dos pilares apolíneos wasp's, aka cow-boys. Para os pouco crentes na presença desta dicotomia estruturante do universo cinéfilo atentem na quantidade de vozes em falsete das personagens masculinas não wasps ao tempo da Velha Hollywood.

 

 

É hoje uma trivialidade dizer que George Cukor foi um cineasta de mulheres, exponenciando as habilidades das suas actrizes. Também deste Bhowani Junction se poderá dizer isso, Ava Gardner ascende ou, pelo menos, mantém-se no panteão no qual reina desde essa era. Se cinquenta anos depois podemos vê-la já com uma distância que permite reconhecer um tipo de representação de época (contextos ...), algum do que aquilo que em português se define como "over-acting", dela provém ainda um encanto avassalador - seja no avatar exótico de caqui british colonial, seja no do igualmente excêntrico sari hindu - que presumo à época ter sido absolutamente arrebatador.

 

Ava G bhowani junction

 

Mas não se trata de um passeio da actriz, uma passerelle de sedução. A personagem tem uma evolução provocada pelo processo descolonizador.  A desordem política implica a desordem afectiva de Victoria Jones (Ava Gardner), a explosão da sua sensualidade e a complicação da sua afectividade, um processo até tardio (ela já é um pouco velha, como lhe dirá a episódica sogra sikh). Sensualidade e afectividade que são vistas como processos identitários, nunca reduzidos ao melodramático. E é este o interesse do final, que vai para além dos maniqueísmos, caricaturas ou paternalismos que navegam outras obras.

 

Victoria é uma figura de charneira, um interstício colonial. Sem pureza rácica e pedigree social, filha de um ferroviário - salientando a imagem do proletariado colonial como produtor da mestiçagem. Objecto social de assédio por parte da elite colonial - a tentativa de violação sofrida, climax do filme, às mãos de um oficial britânico não é escudada num qualquer desvario psicológico deste último. O coronel Savage explicita mesmo que era prática essa violência sobre as "raparigas euroasiáticas". Nesse sentido a convulsão política de então despoleta um feixe afectivo e sensual em torno de Victoria e nela mesmo.

 

O desordenar político, e os conflitos que daí ocorrem, retiram-na da relação certa, do casamento "endogâmico" - com outro mestiço, pois este excessivamente "anglófilo". E projectam-na numa tentativa de reinstalação identitária, num casamento sikh, uma ruptura identitária, uma desordem crassa, do qual foge durante a própria cerimónia matrimonial (a parte menos conseguida do filme). E rompe de novo com a ordem prescrita ao envolver-se com o seu comandante, Savage (Stewart Granger) - "que artigos do regulamento acabámos de violar?", perguntará ela - que lhe trará a sedimentação da identidade britânica - ainda que ele próprio quase um "pied-noir", bisneto de militar do exército da Índia, tem o estatuto social e a pureza rácica que acalmarão as angústias, as desordens de Victoria. Factores que não serão suficientes, pois ela rompe a relação no fim, no happy ending. Fica a busca, no local.

 

[Para quê este texto? Pois, quando se vê os flamingos, a "África" do "bwana", em particular das décadas recentes, o espectador pode torcer o nariz. Porque já houve filmes, certo que de época, certo que com olhares muito marcados, mas que exploraram muito mais a complexidade das relações coloniais. Não como documentos, sim como cinema (vá lá, abusivamente, até como literatura). Ou seja, bem para além dos Oscares e da "bela fotografia" um espectador pode patear. Ou encolher os ombros, enquanto cospe o milho duro das pipocas.]

 

(Página com ligações para a galeria dos intervenientes.)

 

jpt

publicado às 02:06


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