Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



As eleições do Brasil

por jpt, em 27.10.14

Arquipélago-de-Marajó.jpg

 

 

(Quase) nada sei sobre o Brasil actual, assim como se a minha curiosidade vá de férias aquando sobre o país, sei lá porquê ... De quando em vez acciono no youtube um "Seu Jorge" de boa voz e ritmo, li e pouco gostei um escritor Buarque de Hollanda (reaccionário demais para o meu conservadorismo), li e gostei de Hatoum, li mas não é "a minha praia" Bernardo Carvalho, e não me lembro, honestamente, de qualquer outra pista que tenha obtido neste milénio. Ao longo dos anos fiz dois ou três amigos brasileiros mas pouco (ou mesmo nada) falamos sobre o país deles, centrados que estamos quando juntos nesse outro grande país austral que bem conhecemos.

 

Por isso pouco ou nada liguei às eleições brasileiras. Para quê opinar ou, pior do que tudo, tomar partido sobre algo que não se conhece? Ainda para mais num contexto político onde abunda a transversal influência dessas diabólicas seitas cristãs, malandragem encartada? Mas acabo agora de ouvir na rádio um breve excerto do discurso final do candidato derrotado Aécio Neves onde ele, como é saudável protocolo, saudava Dilma Roussef, a "presidente" eleita.

 

E nisso lamento a sua derrota. Pois, e repito, mesmo quase nada sabendo do que se passa naquele país, por esse mundo político afora pouco há que mais asco me cause do que a torpe demagogia daquilo da "PresidentA" que Roussef e seus sequazes andam para aí a apregoar. E que alguns colonizados mentais portugueses logo se aprestam a regurgitar ...

 

Mas, mais importante do que tudo, que a PresidentE reeleita seja benéfica para o seu país. Que reduza o abate, claro, em primeiro lugar. E, já agora, que o Brasil não seja tão agora-colonial naquilo da prosápia do Sul-Sul.

publicado às 09:15

    

 

 "Ases do IX Mundial de Futebol - México 70", sugestivo nome da colecção de cromos das Edições Palirex sobre o campeonato mundial de futebol de 1970 que fui buscar ao baú, traz  à memória quase tão fatigada como a pobre Selecção Nacional de Portugal no Brasil 2014, vários dos grandes jogadores dos últimos 50 anos e, eventualmente, a melhor equipa nacional de sempre, a do Brasil, que veio a conquistar o troféu pela 3ªvez, garantindo a posse permanente da cobiçada Taça Jules Rimet. Ora esta noção de permanência foi significativamente abalada quando os 3, 8 kg em ouro do troféu foram desviados criminosamente no Rio de Janeiro e nunca mais encontrados (diz-se que a taça terá visto a sua forma alterada, derretida que foi num superior passe de alquimia). No entanto, o desvio da Jules Rimet não era caso inédito e uma rábula do género já tinha acontecido em Inglaterra em 1966, meses antes do Campeonato do Mundo que o país sediava começar, e conta-se numa penada. A taça foi surripiada a 20 de Março quando estava exposta em Londres em simultâneo com uma mostra filatélica. Apesar da apertada vigilância, o larápio foi relativamente bem sucedido, se exceptuarmos o pequeno  incómodo de ter sido preso sem contudo confessar o crime e o paradeiro do precioso objecto. A afamada Scotland Yard andou desatinada  e aos papéis, nada encontrando, vendo-se enxovalhada uma semana depois por Pickles, um cão igualmente britânico que enquanto passeava o dono e levantava a pata para um habitual desanuviar da bexiga, se travestiu de Sherlock Holmes, farejou um arbusto e em vez de um apetecido e esperado osso, encontrou outro petisco igualmente duro de roer: Era a desconsiderada taça embrulhada em jornais. 

 

 

 Voltando aos protagonistas principais do jogo, ou que deviam sê-lo sempre e em qualquer ocasião, o Brasil de '70 tinha uma equipa com uma qualidade que dificilmente se repetirá. O seleccionador brasileiro era Zagallo (duas vezes campeão mundial enquanto jogador em 58 e 62 e muito justamente treinador campeão no México) e contava com o inevitável Pelé, único futebolista a conseguir 3 títulos mundiais, mas e não desfazendo no homem, coadjuvado por Clodoaldo, Gerson, Tostão, Piazza, Jairzinho, Carlos Alberto e Rivelino até eu era Pelé! Curiosamente se era do Rei Edson Arantes do Nascimento (sei de cor o nome o que não é habilidade...) que se esperavam os golos, este acabou por marcar só quatro e o melhor marcador do escrete acabou por ser o infernal Jairzinho, sucessor do mítico Garrincha no Botafogo, com 1 golo por partida - o melhor marcador do torneio foi o alemão, à época federal, o habillidoso e letal Gerd Muller, com 10 batatas apontadas na conta pessoal, incluindo dois hat-tricks consecutivos contra a Bulgária e contra a Roménia ainda na fase de grupos.

 

    

 

 

 Se o Brasil era isto, a Itália e a República Federal da Alemanha eram igualmente grandes equipas e o jogo entre as duas selecções nas meias-finais ficou conhecido como o "Jogo do Século", só mais nada. Para dar uma pálida ideia da maluqueira que foi, fica um vídeo e adianto para quem não tiver pachorra para os poucos minutos do resumo que aos 90' o placard indicava 1-1 mas no final da meia-hora de prolongamento a Itália ganhou por 4 a 3. Entre outros, jogavam pelos transalpinos o lendário guarda-redes Albertosi (o seu supelente era Dino Zoff), Riva, Sandro Mazzola e o endiabrado Rivera e pelos boches encontravam-se o enorme Sepp Maier, Netzer, Overath, Schnellinger (que jogava no Milão), Vogts, Uwe Seeler, Muller e aquele que haveria de ficar conhecido como Kaiser, o extraordinário Franz Beckenbauer.

 

 

 

                                                                    

Portugal, apesar da proeza que foi o 3ºlugar dos "Magriços" no Inglaterra '66, numa presença inédita nos mundiais, evitou habilmente a maçada e canseiras da deslocação ao México - lá iria em 1986 para uma desastrada presença desportiva, desonrando a camisola das quinas com histórias miseráveis fora do relvado que não cabem aqui agora, de um grupo de jogadores que poderia ficar conhecido como "Os Mercenários". Foi pena, porque havia futebolistas de enorme categoria e qualidade como Eusébio em bom estado e boa forma, José Carlos, Humberto com 20 aninhos, Jaime Graça, Peres, Toni, ou Tomé e Jacinto João do Vitória de Setúbal. A baliza era geralmente guardada por Zé Henrique, conhecido por Zé "Gato" e à sua sombra estava o muito mais talentoso e eficaz Vítor Damas. Critérios que alguns afirmam injustos de seleccionador mas que são geralmente imutáveis, mesmo perante as evidências e que se vão perpetuando com breves interrupções com a "conivência" da FPF. Esta gente merecia pelos seus dotes futebolísticos, estar numa competição em que participavam outros enormes praticantes para além dos já mencionados. Estavam Gordon Banks e os manos Charlton, um deles um senhor, "sir" Bobby, numa equipa inglesa que contava com outro Bobby, o Moore, Nobby Stiles e Alan Ball, o uruguaio Fórlan, de sua graça Pablo, notável jogador e pai do Diego que foi considerado o melhor jogador no Mundial de 2010 na África do Sul, ou o jovem talento peruano que poucos anos depois veio brilhar para o FC Porto, Teofilo Cubillas. Foi um despedício não estar no México 70, parece-me.
 
E se o a batalha das meias-finais entre Itália e a RFA foi considerado o jogo do século, um dos golos que o Brasil espetou nos 4 a 1 à Squadra Azzura que, na 2ªparte por causa do calor e da anterior refrega com os alemães, estava com os bofes de fora,  é apontado como o melhor da história do futebol, uma obra colectiva da constelação brasileira de estrelas. Fica para acabar de vez com a palheta o filme do momento, uma lição como se pode e deve jogar Futebol com Carlos Alberto a fechar o Mundial '70 com uma chave de ouro e que pode converter aqueles que entendem o Futebol como uma espécie de religião, um ópio do povo.

publicado às 23:38
modificado por jpt a 11/7/14 às 04:25

Da bola...

por mvf, em 12.06.14

Começa hoje o Campeonato Mundial de Futebol 2014 e por isso aqui fica uma imagem que fiz no Rio de Janeiro há uns anos.

 

Vosso 

mvf

 

 

 


         Rio de Janeiro, Brasil ©miguel valle de figueiredo

 

publicado às 15:11
modificado por jpt a 11/7/14 às 04:34

Vinicius de Moraes - 100 anos

por mvf, em 19.10.13

 

Com o nome de baptismo Marcus Vinitius da Cruz de Melo Moraes (apenas aos nove anos é registado como Vinicius de Moraes), nasce no dia 19 de Outubro de 1913, na Rua Lopes Quintas nº114, no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Vinicius morreu de edema pulmonar a 9 de julho de 1980 em sua casa na Gávea, também no Rio de Janeiro.

 

 

 
 
 
Quando passam 100 anos sobre o seu nascimento, a evocação em forma de poema. Perdoarão naturalmente os mais avançados um certo paroquianismo se aqui deixar "Soneto da Fidelidade", escrito pelo poeta numa curta escala no Estoril em 1939, enquanto esperava o paquete que o levaria ao Brasil vindo de Londres nos primeiros dias da II Guerra Mundial.
 
 
-------------------------
 
Soneto da Fidelidade
 
 
 
 
 
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
 
-
 
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
 
-
 
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
 
-
 
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
 
.
 
 
          (Vinicius de Morais, Estoril, Portugal, Outubro de 1939)

publicado às 23:59
modificado por jpt a 23/1/15 às 01:41

Djávenho*

por jpt, em 24.08.13

 

Djavan não é exactamente "a minha praia", coisa do gosto pessoal. Mas é um artista de mão cheia. Recentemente, e por duas vezes, esteve para actuar em Moçambique, venderam-se bilhetes, e depois tudo foi cancelado. Deram brado as situações, julgo que uma por doença inesperada do músico (acontece) e outra por incumprimento contratual do produtor aqui (não deveria acontecer). Enfim, episódios que ficaram na história do "show business" em Moçambique - infelizmente demasiado polvilhada por episódios menos bem conseguidos, com alguns produtores a desrespeitarem o público. Agora Djavan vem aí, mesmo, numa produção mais cuidada e competente.

 

Dia 12 de Setembro em Maputo, como ele aqui anuncia o seu "djávenho" - até para acalmar as desconfianças dos anteriormente desiludidos:

 

 

E aqui um excerto de Djavan em 2013, no espectáculo que vem aqui apresentar, na íntegra.

 

 

 

Então divirtam-se lá no espectáculo ...

 

 

*Não resisto a este piscar de olho a este particularismo do português moçambicano, isso da constante troca do "ir" pelo "vir"...

publicado às 06:13

Em São Paulo

por jpt, em 25.09.12
  

No Atlântico-sul a Alexandra Lucas Coelho conta-nos como a IURD se apresta para conquistar o conselho municipal de São Paulo (sim, 20 milhões de habitantes, sim, a maior cidade da América do Sul). Usando uma cara conhecida da sua rede televisiva.

Como se sabe eu aqui não falo de política moçambicana. Mas ao ler isto só me apetece avisar os diversos presentes, cuidem-se que, como se vê, o ovo da mamba de cruz em riste anda por aí ... Sem separar, como se diz na Bíblia, o de César e o de Cristo. Ou, glosando o provérbio português, com um olho no púlpito e outro no palácio.

(Sorte a nossa, lá em Portugal, com aqueles filmes internos, de bispos em orgasmos com o dinheiro ... que acalmaram a pandemia).

jpt

publicado às 01:10

Entretanto, no país da presidentA

por jpt, em 16.09.12


[Gustave Courbet, "A Origem do Mundo" (1866)]

 

No país da lachanófoba Dilma, a PresidentA do Brasil, como gritam as ignorantAs do "género", ela própria e os eunucos do mensalão, a sonante Academia Brasileira de Letras acaba de censurar um programa que realizava devido a neste ser exibida uma reprodução deste quadro de Courbet, a tal "Origem do Mundo" - esse que 146 anos depois de ser pintado continua a provocar imbecilidades destas.

 

Um tipo pode rir-se. Reconhecer este moralismo cristo-marxista, sempre em can-can progressista. Tão forte e sempre tão ignorantA nos países de outrAs PresidentAs. Sempre arrogantA, sempre censório e ditatorial. E sempre mensaleiro, claro.

 

Que indigentA gentA. Perigosa, já agora.

 

jpt

publicado às 17:13

Semanário

por jpt, em 16.06.12

Publicidade Gratuita:

 

"Os Fantasmas do Rovuma", de Ricardo Marques do qual já aqui referi um bom livro. Esta recente obra (publicada pela Oficina do Livro), dedica-se à tão esquecida I Guerra Mundial em Moçambique, uma era histórica apaixonante (e terrível). Estou verdadeiramente inquieto para chegar ao livro. E, em antecipação, recomendo-o a todos. Desde que não o esgotem, claro.

 

Capa: O novo Brasil: jornalista moçambicano impedido de entrar no país. (O que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos do Brasil). Ou seja, a ong moçambicana Justiça Ambiental vê barrado o seu enviado ao Brasil, provavelmente por influência dos interesses mineiros brasileiros. A "esquerda que ri", europeia ou europeízada, que dirá à presidentA?

 

Contracapa: O "velho" Brasil: o que vale a pena


Política portuguesa: o governo e seus (des)equilíbrios internos, vistos por jpp.

 

Página Internacional: o aborto na China. É uma questão que "dá pano para mangas". E dois itens particularmente interessantes, sempre esquecidos: a política demográfica do estado chinês permite aos casais das zonas rurais que tenham dois filhos se, e apenas se, o primeiro for rapariga (um défice ontológico, claro); se a família tiver quase 5000 euros pode ter um segundo filho. Imagine-se se isto fosse no Malawi ou assim o que não diriam as ongs e quejandos, a "esquerda que ri" europeia. Já para não falar nas pinças com que se tem que falar de "aborto".

 

A grecitude europeia. A demência festiva alastrará?


Sociedade: um discurso de 10 de Junho. Para quem não gosta de tralhas.


Educação: "o mais importante é estar com atenção nas aulas". Quando o calendário escolar português entra em férias convém ler uma aluna falando do ensino. E lembrar-nos do "eduquês" e dos "libertários".


Viagens:O litoral português.O Portugal rural.


Publicidade:Bom Gosto e Saúde.

 

Economia:Como estamos reféns do industrialismo.

 

Cultura:1 Filme:

 

 

Rui Knopfli, por Eugénio Lisboa.

 

 

A morte de Eddy Paape, o desenhador de Luc Orient (argumentos do magno Greg) - uma das delícias da minha juventude. Que, contristado, descubro, atrasado, via O Herdeiro de Aécio.

 

1 Canção


DesportoUm blog: o "És a Nossa Fé!". já está entre os 100 blogs mais lidos em Portugal ...

 

Um belíssimo texto sobre o Europeu de futebol.

 

1 Frase.

 

jpt

publicado às 14:48

As quotas para as raças no Brasil

por jpt, em 19.05.12
 Na sequência deste meu postal deixo estas declarações do reconhecido académico Milton Santos, que encontrei através de Alberto Lyra. Em cinco minutos está o fundamental.jpt

publicado às 04:22

 

Uma pequena amostra em área movediça para mim, ou seja, uma série de fotografias coladas e em andamento, feitas para o livro Património Mundial de Origem Portuguesa. Aqui ficam algumas imagens das Missões Jesuítas dos Guaranis (Argentina, Brasil e Paraguai). Umas, poucas, publicadas no livro e outras, mais, que ficaram de fora do calhamaço. Vou concorrer com isto ao Oscar para melhor documentário no ano de 2378. Para perder tempo e feitio, é carregar no filme. 

 

Vossomvf

publicado às 03:26

E para terminar uma semana supra-preenchida que tal ir ao Centro Cultural Brasil-Moçambique (o "velho" CEB) ouvir Amy Caldwell de Farias [quinta-feira, 1 de Setembro, 18 horas] que apresentará uma comunicação sobre "Independência do Brasil: novas interpretações". Historiadora americana, professora em Illinois, está em Moçambique para fazer pesquisa sobre a presença de brasileiros no vale do Zambeze nos séculos XVII e XVIII. E, honestamente, é mesmo sobre este último assunto que eu fico curioso, e que gostaria de a ouvir falar. Sobre o que encontra e sobre o como constrói.

jpt

publicado às 10:58

[Lula, então presidente do Brasil, em visita a Moçambique]

 

Sobre o anunciado projecto de cedência de 6 milhões de hectares a agricultores brasileiros para desenvolverem plantações de produtos comerciais aqui transcrevo um interessante texto de Beluce Belucci, "economista, doutor em história econômica pela USP. Trabalhou mais de 12 anos em Moçambique, onde coordenou projetos agro-industriais na região de Niassa, Cabo Delgado e Nampula, após a independência em 1975, no ministério da Agricultura e no Banco de Desenvolvimento. Foi diretor do Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Candido Mendes, Rio de Janeiro."

 

Esta terra ainda vai cumprir seu ideal publicado em 16/08/2011

 

Por Beluce Bellucci

 

A manchete do primeiro caderno da Folha de S. Paulo de 14/08/2011 “Moçambique oferece ao Brasil área de 3 Sergipes”, para o plantio de soja, algodão e milho a agricultores brasileiros com experiência no cerrado, parece trazer uma grande novidade e oportunidade aos capitais e empreendedores brasílicos. A longa matéria no caderno de economia expõe que estas terras estão localizadas nas províncias de Nampula, Niassa, Cabo Delgado e Zambézia, situadas ao norte daquele país. No mesmo artigo, um consultor indaga, arrogante e desrespeitosamente, “Quem vai tomar conta da África? Chinês, europeu ou americano? O brasileiro que tem conhecimento do cerrado”, responde ele apressadamente. A intenção explicita de colonização nesta passagem não foi contestada pelo jornal ao longo do artigo.

 

Pela matéria, fazendeiros brasileiros afoitos descobrem que em Moçambique existe “um Mato Grosso” inteiro para ser produzido, e 40 deles (não haverá um Ali?) se “apressam” a no próximo mês visitarem o país. O ministro da agricultura moçambicano revela que as terras poderão ser cedidas por 50 anos, renováveis por mais 50, ao preço módico de R$27,00 por hectare/ano.

 

Cabe inicialmente perguntar: será esse negócio uma grande novidade? e trará tanta oportunidade quanto a noticia faz parecer? O desconhecimento dos brasileiros que procuram o empreendimento reflete o desconhecimento histórico que o Brasil tem da África e faz jus ao conhecimento dos que a divulgam. Não compete encontrar aqui as razões por que “tão boa oferta” somente agora chega ao Brasil nem tão pouco saber quem está por trás desse affaire. Interesses seguramente devem existir dos dois lados, o africano e o brasileiro.

 

Mas a quem pode NÃO interessar esse projeto?

 

A região em questão possui vegetação diversa onde vivem cerca de 12 milhões de pessoas organizadas em sociedades com histórias, línguas, culturas e formação social próprias. Estão lá os macuas, os macondes, os nyanjas, os chuabos e outros. Foi o principal palco da guerra de libertação nacional de 1964 a 1975, e nos anos 80 da guerra de desestabilização levada a cabo pela África do Sul e pela Renamo. É uma população de resistência e luta. E o que dizem do modelo desse projeto? Que impacto terá sobre essa população? O que pensam outras instituições locais? Quem efetivamente ganha e quem perde produzindo nesse modelo na região? Não falemos em aumento de PIB ou da exportação, mas em nível de vida, em ganhos palpáveis, matérias e imaterias da população.

 

A experiência que os fazendeiros brasileiros dizem ter no cerrado, e o jornal repete, é de produção técnica, não de relações sociais de produção. Ela não inclui a experiência no trato com as sociedades africanas, aliás, neste quesito perdemos para todos os outros concorrentes. O brasileiro não conhece e quase não sabe andar na África, pouco se interessou pelo continente, seguramente pelo complexo de culpa da escravidão. Foi preciso uma lei, a no. 10.639 de 9/2/2003, para introduzir essa temática nas escolas brasileiras. Só recentemente expandiu suas representações diplomáticas e vem ampliando a cooperação e presença, pese a demanda, interesse e simpatia que os africanos dirigiam ao nosso país. Mas enquanto ficamos ao longo do último século com retórica e boas intenções face aos africanos, pouco fizemos e conhecemos. Em três décadas de presença na África os chineses se tornaram os maiores parceiros do continente. Antes dos fazendeiros e homens de negócios estiveram os estudiosos, os diplomatas, os estrategistas. Desenvolveram planos de longo prazo e não chamaram as regiões de Shanxi ou de Sergipe. Conheceram a história e respeitaram a soberania dos Estados e seus povos. Muito pode-se criticar sobre a presença chinesa na África, menos que seja aventureira.

 

A “novidade”

 

Todos afirmam que a África é hoje um continente subdesenvolvido, isto é, com carências alimentares, na habitação, na saúde, na educação, na capacidade produtiva, mas por quê? Como chegou a se subdesenvolver? Deixemos de lado o tráfico de escravos que mutilou sociedades por mais de três séculos (período que a força de trabalho africana era arrastada a produzir nas fazendas brasileiras – possivelmente em terras dos antepassados dos 40 fazendeiros) e nos aproximemos do século 20. O que fizeram os europeus, franceses, ingleses, portugueses e belgas na África? O que foi e como foi o colonialismo africano senão um fenômeno do século 20? Não foram lá essas metrópoles para civilizar e levar deus aos africanos? Não foram lá levar a civilização e ensinar-lhes como e o que produzir e consumir? E muito produziram... Mas como fizeram?

 

A colonização levada a cabo pelas potências foram entregues a companhias concessionárias (majestáticas ou à charte na França), que recebiam grandes concessões de terra em troca de pagamento de taxas ao estado colonial, na obrigação de produzirem, e para tal podiam explorar e gerir as populações residentes. Umas desenvolveram a agricultura de exportação (para as metrópoles que viviam a revolução industrial), e até integraram regiões com estradas e ferrovias para escoamento. Outras dedicaram-se à exportação de trabalhadores para as minas dos países vizinhos (caso da Companhia do Niassa). Muito se produziu e se exportou. Criaram-se fortunas com o amendoim, o copra, o algodão, o sisal, o café, o tabaco, a madeira... E onde estão estas riquezas? Nos palácios, estradas e infraestruturas africanas? No sistema de educação, saúde e no nível de alimentação da população negra? O povo africano trabalhou nesse século sob a batuta colonial. Produziu muito no sistema de concessão que agora se quer renovar, e foi esse modelo o que subdesenvolveu a África, trazendo para os africanos a miséria que vivem hoje. E é esse o modelo que agora se quer repetir. Antes dele os povos estavam em melhor situação que após.

 

Não são as terras fartas que chamam a atenção dos nossos fazendeiros, mas a existência de uma mão de obra que pode trabalhar a baixíssimos salários. Isso porque ela tem acesso à terra, já que boa parte da terra ainda é comunitária, e garante a própria subsistência. Enquanto esses homens trabalham nas fazendas, suas famílias produzem nas roças tradicionais. E, tendo a subsistência garantida, são impelidos ao trabalho quase gratuito, muitas vezes à força como demonstra a história, nas áreas dos fazendeiros brancos. Ao final do processo produtivo, a exportação, o PIB, os bolsos de poucos políticos e empresários nacionais envolvidos poderão crescer, mas a população continuará vivendo basicamente das suas subsistências e cada vez mais dependente de uma sociedade que a vem dominando culturalmente, através do radio e da TV, com canais globais e religiosos universais, cada vez mais produzidos aqui mesmo na tropicália. O contexto para um novo colonialismo está preparado, e a sua repetição transformará o que foi o drama colonial numa farsa liberal. Na versão colonial do século 20 as sociedades africanas encontravam-se ainda estabelecidas e foram fortemente exploradas nessa articulação com o capitalismo colonial, que a reduziram à pobreza atual. Hoje elas encontram-se fragilizadas, desconfiadas, famintas, e reeditar tal sistema com promessas e perspectivas de que irão melhorar é uma mentira criminosa.

 

Convém observar que a mudança desse modelo de exploração para o modelo desenvolvimentista, industrializante, com início no pós Segunda Guerra facilitou as propostas nacionalistas que culminaram com as independências das colônias na década de 60. Mas este assunto merece outro artigo.

 

O risco

 

Dizem que as terras em Moçambique estão ociosas. Na verdade, estão ocupadas há séculos por populações que a cultivam com tecnologias específicas, para a sobrevivência, num sistema que exige grande reserva natural e rotação. Quando os portugueses chegaram no continente encontraram homens e mulheres saudáveis e fortes. Não eram povos subnutridos nem subdesenvolvidos, mas populações com níveis tecnológicos distintos dos colonizadores. Passados o tráfico e o colonialismo, o que restou foram populações desagregadas, famintas, subdesenvolvidas, fruto das políticas produtivistas de quem “tomou conta da região”.

 

O que nós brasileiros queremos com a África? Mandar para lá fazendeiros para remontarem um sistema já conhecido historicamente e vencido socialmente, que produz e reproduz miséria para a grande maioria e lucro para poucos? Ou temos a intenção e alguma expectativa de estabelecer uma relação de cooperação que aponte para uma sociedade onde a vida das pessoas se transformem e melhorem?

 

O embaixador moçambicano em Brasília diz que “interessa-nos ter brasileiros em Moçambique produzindo, porque temos grande deficit de alimentos”, e o projeto prevê que será preciso empregar 90% de mão de obra moçambicana. A oferta é para produzir algodão, soja e milho, entre outros, visando a exportação. Sendo o milho o único atualmente utilizado para alimento humano. A Embrapa prepara as sementes com investimentos do Estado brasileiro, e o presidente da Associação Mato-Grossense dos Produtores de Algodão diz que “Moçambique é um Mato Grosso no meio da África, com terra de graça, sem tanto impedimento ambiental e frete mais barato para a China”. O chefe da Secretaria de Relações Internacionais da Embrapa diz: “Nessa região, metade da área é povoada por pequenos agricultores, mas a outra metade é despovoada, como existia no oeste da Bahia e em Mato Grosso nos anos 80.” O projeto oferece também isenção para a importação de equipamentos.

 

O que pretende este programa é aproveitar as terras moçambicanas, “de graça”, produzir para exportação, aproveitando-se da mão de obra barata, e a ausência de regulamentação ambiental e sindical. Entretanto, sabe-se já de início, os projetos são de capital intensivo e grande tecnologia, e vão utilizar pouca mão de obra. Os produtos não serão consumidos no país e a renda interna proveniente será a modesta soma de alguns meticais por ano, que ficará com a instituições estatais. Moçambique não é a Bahia, pois a África não é o Brasil. Mas o “Havaí é aqui” e lá.

 

Como se observa, são projetos que podem ser viáveis economicamente, mas não são sustentáveis do ponto de vista ecológico e muito menos social.

 

Ao se concretizar a proposta em análise, faremos com que o aprofundamento da relação com a África, tão querida quanto necessária, se dê por um empreendimento tipo colonial comandado por fazendeiros (e jagunços) e com a benção dos estados.

 

Por desconhecimento da história, despreparo dos envolvidos, falta de objetivos estratégicos, estrutura e planejamento do empreendimento, incluído aí o nosso Estado (pese os avanços recentes), a aventura brasileira na África, nos moldes apresentado, tem muita chance de se dedicar a ir descobrir a roda no cerrado e cair no ridículo, perder dinheiro e criar novos personagens conradianos.

 

Mas, se der certo, dará razão a uma anterior parceria entre Brasil e Moçambique, a de Chico e Rui Guerra, por demais conhecida: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um império colonial (...), um imenso Portugal.”

 

Entretanto, um outro modelo de cooperação e investimento entre Brasil e o continente africano é possível e urgente de ser pensado. Mas temos que nos preparar internamente para isso, num escopo do que queremos para o nosso povo e das relações entre países.

 

É momento de governo, Estado, universidades, empresários, instituições públicas e privadas, como o Instituto Lula, opinarem sobre um novo modelo de parceria entre Brasil e a África, que envolvesse diferentes agentes brasileiros e africanos, inclusive os fazendeiros do cerrado, para encontrar outro ideal a ser cumprido.

 

jpt

publicado às 12:17

 

Lula da Silva discursou na reunião da União Africana, em Malabo. Significativo, do crescente peso económico e político, do Brasil no horizonte africano. O discurso [aqui na íntegra] tem uma parte inútil - meramente protocolar,  sobre a "juventude", mote da reunião de um conjunto de líderes que em grande parte se reproduzem pela exclusão e opressão da juventude (Ben Ali, o ex-defensor da juventude tunisina, é hoje em dia uma caricatura mas há meses seria um must na dita cimeira). Mas na sua parte substantiva é importante.

 

Questiona os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - que me parece ser um resquício de XIX (se aceitarmos, como me parece fácil, que a II Guerra Mundial nasceu em Versalhes, na qual parecia que XIX tinha terminado) e não corresponde às necessidades de um necessário ordenamento actual. A insuficiência das Nações Unidas passará também por isso. Mas a proposta reformista de Lula é populista. Certo que Índia e algum país da América Latina deverão ser membros permanentes, mas Lula quer meros critérios geográficos. Ora que país africano tem "substrato", político, diplomático, militar, económico, para ser membro permanente do Conselho de Segurança, ainda por cima "em representação" do continente? Ou melhor, só para "representar" o continente?

 

Lula avança dois pontos ainda: as origens da crise internacional estão nos países sobredesenvolvidos e na desregulação dos mercados e isso não pode condenar os países pobres a maior pobreza. Certo. Aproveita ainda para criticar a NATO sobre a Líbia. E tem toda a razão. Aquilo já devia ter acabado, a bem das populações que foram, em propalada instância, a causa da intervenção.

 

Do discurso mesmo só retiro um ponto negro: o ranhoso espirro da mais imbecil ideologia do género. Aquele seu "Presidenta" não é um erro ortográfico. É uma infecção.

 

[NOTA: abaixo uma comentadora acusa-me de ignorância quanto a esta questão. E está certa, como se pode ver pela definição de "Presidenta" no Houaiss. Em tempos recentes li algures uma fundamentada refutação do termo (onde?) mas pelos vistos também errónea. Não servirá isso para esconder a atrapalhação agora sentida ("onde me meto?"). Mas fica o texto assim, para aprender a não me armar aos cucos].

 

[ADENDA À NOTA: Francisco Belard: "A presidenta e outros usos do género" e Ciberdúvidas (usando os insuspeitos Lindley Cintra e Celso Cunha, na "Nova Gramática do Português Contemporâneo") explicam bem a incorrecção do termos Presidenta. Não a sua inadmissibilidade mas a sua incorrecção. É erro gramatical. E plebeísmo sociológico. E, digo eu, arrivismo político. Sossego-me. E replico o resmugo.]

 

Depois de ler, e bem, o seu discurso, parece que Lula decidiu improvisar. E borrou a pintura. Lá veio invectivar o Ocidente por nunca ter (nem hoje) tratado africanos e sul-americanos como seres humanos com igual dignidade, pois parecem "nativos". É a "carta racial" tão do agrado PTista. E é a "lusofonia" de Brasília, este constante abraçar dos africanos assente numa comunhão entre povos colonizados e racialmente oprimidos. Uma falácia múltipla. Mais do que tudo porque quer esquecer as relações de poder económico e político que se procura instituir. Mas também porque reproduz "para africano ver" o auto-embelezamento brasileiro, cujo ecos se vão encontrando aqui por Maputo (por exemplo os grupos de capoeira cujos mestres estão cá contra o colono ..., num processo que deveria ser estudado). A ladainha do país colonizado e sofredor, racialmente outro face ao agressor euro-ocidental.

 

Ora o Brasil, independente desde 1820, é um enorme país colonial. Supra-agressor dos seus "nativos". Que não têm a cor nem as formas faciais do "meu irmão Lula". Este auto-nativismo brasileiro é-me ainda mais irritante do que a nossa pobre "lusofonia".

 

Este atrevimento, falsário, da elite política e cultural brasileira (o delicado cantor Caetano Veloso ainda há alguns anos fazia ditirambos contra os colonizadores portugueses no Brasil, "ele" que há 190 anos coloniza aquele país), não seria nada mais do que ridículo de intelectualmente indigente se não tocasse num ponto. O racialismo que Lula agita casa com, e legitima, o racismo transversal, internacional. XXI verá grandes alterações. E não será o fim do racismo, nem do racialismo. Eles serão forças motrizes de muitos movimentos. Dentro de África e nas relações de África com outros contextos - muito para além dos politicamente correctos que querem apagar o existente, sossegando consciências em vez de combater o monstro (que não é monopólio do tal "ocidente" que dá jeito a Lula verberar). Por isso esta camaradagem "nativista" de Lula, este "parecemos nativos" pode, hoje, provocar risos nos africanos a olhar para aquele branco (colono, digo eu). Mas legitima o "vocês ...". O ovo da mamba.

 

E não é assim que se combate o racismo, claro. Como também não é com "presidentAs" que se promove a igualdade de direitos. Urge combater esta retórica. Reaccionária. E, na insensibilidade industrialista e capitalista, colona.

 

jpt

publicado às 23:06

Dirty Dilma

por jpt, em 02.06.11

 

Por todo lado a imagem do célebre chefe Raoni devastado com a decisão de se avançar com a construção do Barragem do Belo Monte. Uma derrota do mundo.

 

 

Sobre esse complexo hidroeléctrico e seus "barrageiros" ler este artigo. Não é inenarrável. Mas dói ler, quanto mais narrar. O rude colonialismo brasileiro. Delenda Brasilia est?

 

jpt

publicado às 16:37

A IURD no poder

por jpt, em 29.09.07

Estes meus amigos, para os quais sempre sou um "reaccionário simpático", estes meus amigos da esquerda que foi revolucionária, que se quer progressista, que se mantêm anti-americana, que promove a desalienação, estes meus queridos amigos que terão dito nesta semana, a de Lula e Edir Macedo (o da IURD) tudo juntos? Estes meus amigos sempre prontos a resmungarem contra ZéDu, o cleptocrata, (ah, a rivalidade angola-moçambique!) como passearão as suas belas e burguesas t-shirts com o guevara ao peito?

 

Quem serão os "reaccionários simpáticos", afinal? Até (meus) "queridos"?

publicado às 13:11


Bloguistas




Tags

Todos os Assuntos