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60 dias de facebooking

por jpt, em 18.06.11

Nunca gostei do sempre-repetido mandamento bloguístico "escreve sobre o que sabes. Link to the rest". Sempre me irritou o prescritivo sobre esta irresponsável actividade, na qual para mim cada-um-como-cada-qual. Os limites do saber próprio (quando este existe) estão no trabalho,  e isto do in-blog é para botar sobre o que vem à respectiva cabeça.

 

Para além disso o weblog é um diário, de impressões, e estas são (ou podem ser) múltiplas, esparsas - um tipo que só se interessa sobre o que sabe, caramba, é um chato. Claro que há os blogs especializados (dedicados), alguns fantásticos. Mas isso é uma saudável opção, não uma obrigação.

 

Mas o mandamento de "link to the rest" está estafado no bloguismo acima de tudo por razões tecnológicas. Com a vertigem imediatista do facebook, aquilo do clic-clic e ligação feita perdeu-se muito da dimensão inter-ligadora (e textual, reflexiva) do bloguismo. Aliás, os sistemas (blogspot, wordpress) terão que integrar essa função supra-ligadora. Ou desaparecem.

 

Como blogar neste contexto? Não sei bem, nem sei se isto tem muito futuro (há anos que se diz que o bloguismo è finito), ainda por cima com a "lentidão" ligadora que tem. Mas, pelo menos, é um sítio e um meio onde se pode escrever ... sobre o que não se sabe. Suprema liberdade potenciada pelo facebook, para onde podemos ir "linkar" coisas, fast-fast, clic-clic, com tanta vantagem ...

 

Uso o FB fundamentalmente como difusor de ma-schamba (a página blog ma-schamba, o grupo ma-schamba [modalidade que perdeu visibilidade nos murais devido às alterações do sistema FB] e o ma-schamba na aplicação NetworkedBlogs). Ainda assim acumulam-se as ligações, seja por réplicas imediatas de outros murais seja provenientes de outros suportes (blogs também). Como exemplo do supra-linkismo facebookista  actual, até vertiginoso, (mas também para meu arquivo, e esperando que alguém se divirta abaixol) deixo os meus dois últimos meses de facebooking, as aventuras nessa likeland reino do clic-clic.

 

A ordem da colocação aqui é inversa da cronológica ...

 

 

64. O (necessário, urgente) elogio da Culinária Moçambicana

 

 

63. Documentário de Werner Herzog sobre pinturas rupestres

 

 

62. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

61. Assange, o wikilikeakista: o facebook é máquina de espionagem! Estes romanos são loucos!

 

60. Constante reprise

 

59. Pérolas do youtube ...

 

58. Um número especial da Science et Vie dedicado ao acidente nuclear de Fukushima (via Klepsýdra)

 

57. Pérolas do youtube ...

56. O Byrne de oiro.

 55. The Clash "Should I Stay or Should I Go?": sem embebimento disponível ... É clicar e ouvir/ver ... 

 

54. Gorongosa. Fauna, Flora e Paisagens, um belíssimo trabalho fotográfico disponibilizado no facebook.

 

53. 30 Postais sobre Moçambique (elo retirado). Vale a pena lavar a vista.

 

52. José Sócrates: "seis anos de batota". Que herança ... A arquivar, para não o esquecer.

 

51. O "vai vir charters" do Paulo Futre. Uma bela peça de marketing mas, muito mais do que tudo, uma lição de rir-se de si próprio. Viva Futre! (o meu candidato ...)

 

50. O excelente Nkwichi Lodge no Lago Niassa, um verdadeiro eco-lodge e com gente porreira à frente, foi escolhido como um dos 101 melhores hotéis mundiais [Já lá estivemos e sobre isso botei, deslumbrado].

 

49. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

48. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

47. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

46. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

45. Directório de blogs expatriados. Aqui a secção Moçambique.

 

44. Um ascensão fulgurante, dançarinos moçambicanos integram o último trabalho de Beyoncé.

 

43. João Pereira Coutinho, no fim de José Sócrates, o pior dos políticos portugueses, com o tique máximo da anti-democracia: "um político que prefere negar a realidade e confunde uma crítica ao governo com uma crítica ao país". Que nunca mais volte, é um desígnio nacional, apesar das suas ameaças "em andar por aí".

 

 

42. O excelente sítio Buala a trabalhar sobre Ruy Duarte de Carvalho.

 

41. O Da Casa Amarela a comemorar o aniversário de Dylan

 

40. A AL é uma emérita coleccionadora de cartoons e tem um mural FB fantástico nisso.

 

39. No 70º aniversário de Dylan, ele sobre Elis Regina

 

38. Forever Mickey

 

37. Água Vumba premiada, a minha bebida moçambicana preferida. (Sim, apesar de militante da dupla 2M - Manica)

 

36. A propósito da crise, versão pop-pirosa ...

 

35. 3XMiles

 

34. The Guardian a olhar para a imprensa moçambicana e seu impacto social. O elogio do jornal "Verdade", o popular primeiro gratuito, que tanto modificou a paisagem mediática aqui. E que é líder na imprensa informática, com o vigor que coloca - celebrizando-se na cobertura dos acontecimentos de 1 e 2 de Setembro de 2010.

 

33. Dexter, via MVF - que tem um refinado mural FB. E talvez por isso tão pouco aqui culime ...

 

32. Mitos industriais perversos, via A Arte da Fuga, um bom pontapé no guevarismo e, mais globalmente, no acriticismo.

 

31. Um céu limpo global, fruto de um projecto fotográfico de grande monta.

 

30. Uma nova supernova. A página da National Geographic dá-nos maravilhas diárias ...

 

 

29. Naipaul por Naipaul - agora aflorando a "escrita feminina". Um elefante em loja de femininismos ...;

 

28. Aquando das eleições portuguesas uma reflexão sobre as aldrabices das sondagens políticas portuguesas. Já nas últimas eleições isso se discutiu no bloguismo - o peso simbólico (académico, como se científico, e mediático-televisivo) dos sondageiros, alimentado pela idolatria da numerologia continua a permitir a subsistência e sobrevivência gente. Urge o ostracismo moral. Para todos ..

 

27. No país da Dirty Dilma: também ler um Que fazer?;

 

26. Sobre os telemóveis. Cancerígenos ou não?, via De Rerum Natura. Questão de "estação estúpida"? Ou bem pior do que isso? E que efeitos nos fanáticos twitteristas?

 

25. Chegou o icloud da Apple, e deve mudar bastante as coisas - como por exemplo nunca mais perder os ficheiros por corrupção dos "discos-afinal-moles".

 

24. Notícia da publicação do Caderno de campo na Guiné-Bissau (1947) de Orlando Ribeiro. Para a agenda de compras quando em Portugal ...

 

23. Lou Reed Forever

 

22. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

21. Bela galeria fotográfica de arte moderna

 

20. Kare Lisboa, na Lx Factory: gente família a lutar bem com a crise. E nós de longe a torcermos pelo sucesso, bem-merecido.

 

19. Lembrei-me da gentil guitarra do Beatle. (um Beatle nunca é ex).

 

18. Bjork, Venus as a Boy: lembrei-me do vulcão islandesa, mas sem direito a partilha (a função "embeber" foi retirada do youtube para este filme). É clicar para ouvir/ver ..

 

17. Tomai lá com o Bach, em Lisboa disse uma velha-amiga

 

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Flying in a motorized paraglider over one of the most diverse continents in the world, George Steinmetz captures in his photographs the stunning beauty, potential and hope of Africa's landscapes and people. See the project at http://mediastorm.com/publication/african-air

16. África em vista aérea, uma galeria sumptuosa a mostrar o  trabalho de George Steinmetz, "fotógrafo americano que percorreu e fotografou as paisagens africanas ao longo de 30 anos. Sobretudo do ar, a bordo de um parapente motorizado":

 

 

15. Uma dupla de Siouxie, a última das moicanas ...

 

14. Lago Niassa declarado reserva natural pelo governo de Moçambique, uma boa notícia enquanto há rumores de que empresas se preparam para acelerar a exploração dos "recursos" minerais existentes.

 

13. Ads of the World: conhecer o inimigo. Para melhor o combater.

 

12. Canal de Moçambique, o mais belo título dos jornais moçambicanos, a abrir a sua página no facebook;

 

11. Imperdível, textos sobre Arte Contemporânea africana;

10. Eu lembrei o Tony de Matos e logo uma amiga-FB completou ...

 

9. O Grande Tony de Matos - que eu sempre recordo a actuar no Coliseu dos Recreios em meados dos anos 1980s, então sala-nobre de Lisboa e como tal vedada aos cantores populares. Foi "special guest star" de Vitorino e levantou o público à ... entrada. Um sucesso, uma reparação. 25 anos depois honra ao Vitorino que provocou o momento ...

 

 8. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

7. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"..

 

6. Uma série apaixonante, a ir ver: Closer To The Truth

 

5. Uma sumptuosa série sobre filósofos, disponível no youtube, ao qual chego via Crítica. Blog de Filosofia;

 

4. Vasco Palmeirim - um delicioso humorista dos novos tempos em Portugal que venho conhecendo via youtube ...

 

3. O silêncio dos livros, um belo blog mostrando leituras.

2. Retirado o título [o grau de doutorada] a deputada europeia [alemã] Silvana Koch-Mehrin que plagiou - informa o Diário de Notícias exactamente no dia em que deixei o resmungo sobre o posfácio dos plágios (e lembrando outro meu lamento mais dorido);

1. Stellarium, um fantástico programa informático que nos põe o planetário em casa (como qualquer miúdo da minha geração teria sonhado).

 

jpt

publicado às 13:10

Post para um jovem aluno

por jpt, em 25.02.10

Morreu o cidadão cubano Orlando Zapata Tamayo, preso político. V. dirá que não o conhecia, que nunca dele tinha ouvido ou lido. E eu acredito. V. dirá que não é nisto em que acredita, nem isso que sonha. E eu acredito. Mas quando V. me entra sala de aula dentro, carregando a efígie de Ernesto Guevara, na t-shirt, no emblema, na boina, até - por raras vezes - tatuada, eu encho-me de repugnância. Perceba V., talvez agora, quando lhe peço para ir ler sobre Guevara, sobre os guevaristas, sobre o que logo fizeram, sobre o que continuam a fazer. Perceba V. que essa t-shirt, esse emblema, essa tatuagem, querem dizer e disseram exactamente o contrário do que V. pensa. Perceba V. que esses guevaristas que V. ouve, que V. respeita, o tratarão, se V. continuar a ser o que parece ser, como trataram todos os que antecederam este Orlando Zapata Tamayo e todos os que lhe sucederão. Perceba V., e isso perceba bem, que também tem um guevara dentro de si. Pois todos temos a besta dentro de nós. Só precisamos de com ela ter cuidado, controlá-la. Assassiná-la.

 

Por falar nisso, caro aluno, rasgue essa merda de t-shirt. Não vá algum pobre miserável recuperá-la do lixo quando dela V. se libertar. Quando V. crescer. Livre. E rasgue, de vez, o respeito que possa ter por quem lhe canta guevarismos.

 

jpt

publicado às 00:29

Ainda Guevara em África

por jpt, em 13.02.10

[Ernesto "Che" Guevara no Congo (não resisto a chamar a atenção para a encenação da fotografia)]

Na sequência de textos sobre os contactos entre Ernesto Guevara e a direcção da Frelimo, no âmbito das iniciativas que aquele dirigente do movimento comunista teve em África (ver 1, 2, 3 [e ainda esta referência]) João Cabrita deixou abaixo um comentário que, pelo seu interesse, aqui transcrevo:

1. Se bem que a definição apresentada por Machado da Graça sobre o conceito de “foco” esteja correcta, no caso do Congo tinha um outro sentido. Tratava-se da ideia enunciada por Che Guevara sobre a “criação de dois, três muitos Vietnames”. Os Estados Unidos já estavam no Vietname, e a ideia dos cubanos era criar um conflito de idênticas proporções em África, a partir do Congo, e também expandir o já existente em vários países da América Latina. No raciocínio cubano, isto atrairia os Estados Unidos a novas zonas de conflito, o que acabaria por debilitá-los.

Um eventual envolvimento da Frelimo no esquema cubano não significaria necessariamente que todo o exército da guerrilha moçambicana tivesse de ser transferido da Tanzânia e do interior de Mocambique para o Congo. Imagine-se o tremendo problema logísitico que não se criaria se todos os efectivos militares existentes (Frelimo, MPLA, ZAPU, ANC, etc.) optassem por essa via. Sob o ponto de vista estratégico era de todo o interesse manter acesos os conflitos em Moçambique, Angola, Rodésia, Namíbia e África do Sul, dispersando-se assim as forças contrárias.

2. Machado da Graça diz não ter ainda visto nada que o convencesse de que a ligação de Mondlane aos Estados Unidos era “institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou”.

No meu estudo, que citei no artigo publicado no Zambeze, servi-me de documentação oficial do Departamento de Estado norte-americano, e de outra obtida na Biblioteca John F. Kennedy e na Biblioteca do Congresso (totalizando cerca de 400 páginas). Nela estão estampados de forma inequívoca os profundos laços existentes entre Mondlane e a Administração Kennedy. As ligações mantiveram-se mesmo durante a presidência de Lyndon Johnson.

Poderia mencionar, entre outros, os despachos trocados entre a embaixada americana em Dar es Salam e o Departamento de Estado, um deles, com a data de 29 de Junho de 1962, a transmitir um recado de Mondlane para Wayne Fredericks, adjunto do subsecretário de Estado para os assuntos africanos: Mondlane “necessita desesperadamente de fundos para consolidar a independência da Frelimo em relação ao Gana e aos países do bloco comunista”, dado que ele, Mondlane, “já despendeu todas as poupanças pessoais”.

Um outro exemplo, foi o financiamento concedido pela Fundação Ford para construção do Instituto Mocambicano (IM) em Dar-es-Salam, destinado a reforçar a periclitante posição de Mondlane face às correntes antagónicas que ele havia derrotado na corrida à presidência da Frelimo. As diligências começaram por ser feitas por Mondlane junto do ministro da justiça (Robert Kennedy) e terminaram no gabinete do ministro da defesa, Robert McNamara, que antes de ter integrado a Administração Kennedy havia sido director executivo da Corporação Ford. Cito de uma nota de Robert Kennedy para Mennen Williams, assistente do Secretário de Estado norte-americano, datada de 11 de Abril de 1963: “…Mondlane needs about 50 grand to keep the lid on his people and also stay on top. That seems to me a small investment.” No fim, o “investimento” da Fundação Ford orçou em $96,000.

E quem foi trabalhar para administração do IM foram pessoas como a Sra. Betty King, funcionária do African-American Institute em Dar-es-Salam. Parte do corpo docente do IM foi rectrutado pelo Corpo da Paz. É do domínio público que o African-American Institute é uma instituição do governo americano (tal como o Peace Corps) e que entre outras coisas publica o «Africa Report», revista que se distinguiu pela forma como promoveu a imagem de Mondlane. O articulista cubano da «Prensa Latina» não escrevia à toa.

3. Não creio que o socialismo advogado por Mondlane correspondesse ao stalinismo do regime de Machel. Posteriormente à experiência stalinista da Frelimo, Janete Mondlane declarou que o marido “não teria concordado com as decisões tomadas após a independência, muitas das quais associadas à violação da ideia do direito à liberdade individual”.

Relacionado com esta questão recupero um livro -mais do que recomendável para analisar tantas outras questões mais vastas:

[Amélia Souto, Caetano e o Ocaso do "Império". Administração e Guerra Colonial em Moçambique durante o Marcelismo (1968-1974), Afrontamento, 2007]

"Pouco depois da luta armada se ter iniciado, Che Guevara fez uma viagem de 3 meses a África (chegou em Dezembro de 1964 a Dar es Salaam) assinalando o interesse de Havana pela luta que se desenvolvia no continente, sobretudo no Zaire. Em Fevereiro de 1965, Guevara visitou os escritórios da Frelimo, onde teve um encontro com Eduardo Mondlane. Este encontro foi tempestuoso. Segundo Gleijeses [Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington anda Africa, 1959-1976, Chapel Hill, Univ. South Carolina Press, 2002], Fidel Castro ainda recordava isso doze anos mais tarde, altura em que, num encontro com Erich Honecker, presidente da Alemanha Democrática, afirmou: "Os diferendos que nós tivemos com a Frelimo remontam ao tempo quando [...] Che Guevara se encontrou com Eduardo Mondlane. A irritação de Mondlane perante a insistência de Che Guevara de que a Frelimo devia enviar os seus guerrilheiros para serem treinados no Zaire conduziu a um choque pessoal entre ambos." Um outro aspecto que originou este choque relacionou-se com o exagero da Frelimo em relação às suas proezas militares (uma tentação que Fidel Castro evitou durante a guerra com Baptista) e perante as quais Che, que não era um bom diplomata, expressou o seu cepticismo, mas fê-lo de uma forma que ofendeu profundamente Mondlane. A conversa adquiriu um tom áspero que os dividiu.* Embora Cuba considerasse a Frelimo como um dos movimentos de guerrilha mais fortes de África, a quem desejava dar maior apoio, este primeiro encontro deixou marcas que nunca foram ultrapassadas totalmente durante a luta, tendo permanecido o mau sentimento gerado pelo encontro, "no qual o Che considerou Mondlane pouco digno de confiança, e Mondlane considerou Che irreverente e desrespeitoso". Apesar disso, Cuba ofereceu-se para enviar instrutores para os campos da Frelimo na Tanzânia, ou directamente para Moçambique, oferta essa que a Frelimo recusou por ser seu princípio enviar guerrilheiros para treino no exterior, em vários países, incluindo Cuba, sendo os chineses os únicos instrutores estrangeiros que a Frelimo permitiu na Tanzânia. Mas Cuba apoiou a Frelimo, não só treinando alguns dos seus quadros mas também fornecendo armamento, alimentação e uniformes.

*Esta versão é confirmado por Marcelino dos Santos que participou no encontro (era então Vice-Presidente da Frelimo) e que refere terem surgido pontos de vista diferentes relacionados com a preparação da guerra e o seu desenvolvimento." (pp. 209-210)

publicado às 23:26

A propósito das recentes entradas sobre os contactos de Ernesto Guevara (dito "Che") com a Frelimo Amélia Souto, que muito honra o ma-schamba com as suas visitas, enviou-me esta fotografia de uma reunião na Tanzânia do referido dirigente comunista com membros da direcção da Frelimo - onde se pode reconhecer Samora Machel.

Ainda a este propósito, e em directa ligação ao texto de João Cabrita abaixo reproduzido transcrevo uma mensagem que o Machado da Graça (once a blogger, always a blogger) me enviou.

"Estive agora a ler o texto do Cabrita sobre Mondlane e o Che. Ele põe as divergências entre os dois, como apresentadas pelo Helder Martins, como questões de lana caprina. Nomeadamente a questão do tipo de guerrilha a desenvolver. Ora eu creio que esta questão não era, de forma nenhuma, coisa sem importância. Era uma questão fundamental. O que não tira importância aos outros aspectos que o Cabrita levanta no seu artigo nem, de facto, os contradiz.

Mas qual era a divergência entre Mondlane e o Che? O Guevara aprendeu a fazer guerrilha em Cuba e, depois da vitória dos guerrilheiros, sistematizou a sua experiência num livro, que eu devo ter para aí em qualquer lado. Era a teoria do foco guerrilheiro. Segundo ele a guerrilha devia conseguir intalar-se numa parte da área a libertar e depois, a partir de lá, ir libertando o resto do território. No caso cubanbo o foco teria sido a Sierra Maestra. Depois disso ele procurou transferir esta teoria do foco para áreas muito maiores. Quando morreu, na Bolívia, a ideia era conquistar o poder naquele país e, a partir dele, exportar a revolução para os vários países vizinhos com quem a Bolívia tem fronteiras. Ora foi isso, também, o que veio propor em África. Aqui o foco seria no Congo e todos os movimentos de libertação deveriam apoiar os congoleses até conquistarem o poder naquele país e, depois, dele partiriam para a libertação dos vizinhos. Isso implicaria, se bem percebo, que a Frelimo deixasse de lutar em Moçambique e fosse reforçar o contingente no Congo. Só depois deste libertado se passaria para outros e, um dia, se chegaria a Moçambique.

E, ao que sei, foi a isto que Mondlane se opôs, defendendo que a luta da Frelimo era dentro de Moçambique, para libertar os moçambicanos, e não no Congo. Se houve tudo o mais que o Cabrita afirma, não sei, mas diria que uma coisa pode não contradizer a outra mas apenas complementarem-se.

[Entretanto] Muito se tem falado da ligação de Mondlane aos Estados Unidos, mas ainda não vi nada que me convencesse de que a ligação era institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou. Mas um facto é que, no final da sua vida, ele declarou numa entrevista que a Frelimo estava cada vez mais socialista, um socialismo do tipo marxista-leninista. De qualquer forma, o artigo do Cabrita traz mais dados para a compreensão dessa época, o que é bom."

jpt

publicado às 09:11

Che e Mondlane

por jpt, em 11.02.10

(por AL mera intermediária de João Cabrita) -

 

O meu amigo e leitor maschambiano João Cabrita enviou-me um artigo dele sobre as relações entre Guevara e Eduardo Mondlane, publicado aqui há uns anos no jornal Zambeze. O artigo foi despoletado pela polémica causada com a publicação das memorias de Hélder Martins num livro chamado Porquê Sakrani. Aqui fica para vosso deleite:

 

DE HÉLDER MARTINS: "PORQUÊ SAKRANI?"

Livro de memórias suscita polémica

 

lder Martins, histórico da Frelimo, médico de profissão, pedagogo inovador, depois de Janet Mondlane e Nadja Manghezi com O meu coração está nas mãos de um negro, lançou-se na narrativa da gesta libertadora moçambicana, passando para o papel as suas memórias. Porquê Sakrani - Memórias dum médico duma guerrilha esquecida é o título de um exaustivo trabalho, de leitura fácil mas cativante, lançado o ano passado nas bancas nacionais e estrangeiras. Tal como o título sugere, o livro é o testemunho de Hélder Martins sobre a fase da luta armada contra o colonialismo. Um livro que promete ser polémico, pelo menos relativamente a um “grande tema, como o autor lhe chama. Trata-se da visita de Che Guevara ao escritório da FRELIMO. lder Martins insistiu em contar essa apaixonante faceta da história recente de África pois que, como ele afirma no livro, “muitos anos mais tarde, ouvi e li versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas, que não estiveram presentes.” E remata Martins: “Portanto, a minha versão é por testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.” Recentemente, o director deste jornal teve oportunidade de entrevistar um outro autor moçambicano e um dos temas focados foi precisamente o encontro de Che Guevara com a direcção da Frente de Libertação de Moçambique. Trata-se João Cabrita, autor de Mozambique: The tortuous road to democracy, que apresentou na altura uma versão radicalmente oposta desse encontro; quiçádisparatada”, na óptica de Martins. A pedido do ZAMBEZE, João Cabrita preparou o seguinte artigo, e nele reitera a posição anteriormente defendida, avançando com novos dados sobre o “grande tema”.

 

*** Num livro de memórias de publicação recente,[1] Hélder Martins referiu-se à disputa havida entre Cuba e a Frelimo no decurso dum encontro entre Eduardo Mondlane e Che Guevara, realizado em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965. O autor fez questão de deixar claro que decidira referir-se ao assunto dado que "anos mais tarde, tinha ouvido e lido versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas que não estiveram presentes ao encontro". A versão de Hélder Martins, segundo ele conta, baseia-se em “testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.” Em suma, Hélder Martins refere que a disputa que opôs Eduardo Mondlane a Cuba centrou-se na rejeição de conceitos de luta de guerrilha defendidos pela delegação cubana, e no mal-estar causado por Che Guevara por ter levantado dúvidas quanto à autenticidade dos comunicados de guerra emitidos pela Frelimo. Tal como outros membros da Frelimo, Hélder Martins incorre no erro de se atribuir a essa disputa questões de lana-caprina, tais como conceitos de luta de guerrilha e comunicados de guerra empolados, quando a causa fundamental gira em torno da recusa de Eduardo Mondlane em participar num ambicioso plano que Cuba pretendia executar na África Austral com o apoio dos movimentos de libertação. Tratava-se de um plano que, no fundo, punha em cheque os interesses dos Estados Unidos, país em relação ao qual Eduardo Mondlane era um fiel aliado. O facto de não se ter assistido ao encontro de Dar-es-Salam, não impede, que na presença de documentos oficiais e do testemunho das partes intervenientes, se possa fazer um juízo da situação e avançar com conclusões que, até prova em contrário, não podem, do pé para a mão, ser rotuladas de “disparatadas”. É interessante referir que Hélder Martins também não esteve presente ao encontro de Dar-es-Salam pois segundo relata no livro apenas chegou à Tanzânia em Março de 1965. O que não deixa ser caricato, é que, no seu livro de memórias, Hélder Martins fez questão de frisar que a sua versão sobre a disputa entre Mondlane e Cuba se fundamentou naquilo a que ele próprio referiu como “fofocas” contadas por pessoas que acidentalmente iam a Dar-es-Salam, mas que ele se sentiu à-vontade em descrever como fontes “primárias”, não identificando, todavia, nenhuma delas. Qualquer investigador concordará que no campo da pesquisa, as “fofocas” não colhem.

O PLANO DE CUBA

A intervenção militar cubana em África não se tratou de uma iniciativa pessoal de Che Guevara. Ela obedecia a um plano concebido ao mais alto nível pelo governo de Cuba e que contava com o apoio da China, da União Soviética e de outros países do chamado bloco de Leste. Em África, Cuba dispunha do apoio da Argélia, do Gana e da Tanzânia, entre outros países. O objectivo cubano consistia em servir-se da luta que vinha sendo travada no Congo-Kinshasa, na sequência do assassinato de Patrice Lumumba, para promover um conflito de grandes proporções na região austral do continente, em particular nos territórios ainda sob dominação colonial (Angola, Moçambique, Rodésia do Sul e Namíbia) e, numa fase posterior, na África do Sul. Em última instância, pretendiam os dirigentes cubanos atrair os Estados Unidos a mais uma zona de conflito, para além dos que já se desenrolavam no sudoeste asiático e começavam a ganhar forma na América Latina. Tal como afirmou Che Guevara ao presidente egípcio, Abdel Nasser, em Abril de 1965: "Creio que irei para o Congo pois neste momento é a zona mais quente do mundo. Com o apoio dos africanos, através do Comité [de Libertação da OUA] na Tanzânia, e com dois batalhões de cubanos, acredito que podemos desferir um golpe contra os imperialistas no coração dos seus interesses no Katanga."[2] Che Guevara viria a entrar no Congo-Kinshasa, através da Tanzânia, em Abril de 1965. Liderava um contingente militar de cerca de 200 homens, com a particularidade de todos eles serem cubanos de origem negra. Uma outra coluna de efectivos cubanos de idêntico número, liderada por Jorge Risquet, foi desdobrada no Congo-Brazzaville. Segundo o já citado estudo de Piero Gleijeses sobre a intervenção militar cubana em África, a missão da coluna de Risquet era prestar apoio à guerrilha do MPLA, defender Brazzaville na eventualidade dum ataque a partir do Congo-Kinshasa, e actuar como força de reserva de apoio à coluna de Che Guevara. Para além das forças de guerrilha opostas ao regime de Kinshasa, o plano cubano apresentado por Che Guevara aos movimentos de libertação em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965, teve a aprovação do MPLA, do ANC da África do Sul, assim como da guerrilha ruandesa liderada por Joseph Mundandi, e de forças opostas aos regimes da Guiné-Equatorial e dos Camarões. O apoio subsequente de Cuba ao PAIGC viria a revelar-se de particular importância para os avanços na luta contra a ocupação colonial portuguesa na Guiné-Bissau. A Frelimo de Eduardo Mondlane opôs-se a esse plano, o que aliás não constituía novidade para Che Guevara. Segundo Juan Benemelis, ex-funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros cubano, aquando da sua passagem por Accra em Janeiro de 1965, o presidente Kwame Nkrumah transmitiu a Che Guevara "as suas reservas sobre Eduardo Mondlane".[3] Idêntica advertência foi feita a Che Guevara por Pablo Rivalta, embaixador cubano em Dar-es-Salam. Ainda de acordo com Benemelis, que foi o primeiro encarregado de negócios na embaixada cubana em Dar-es-Salam, o embaixador Rivalta advertiu Che Guevara de que os acampamentos de treino de guerrilheiros da FRELIMO na Tanzânia, estavam 'contaminados' por membros do 'Corpo da Paz'. No entanto, Rivalta informa Che Guevara que dentro da Frelimo poderia contar com "Marcelino dos Santos, como um elemento de toda a confiança." Rivalta havia conhecido Marcelino dos Santos durante um encontro da União Internacional de Estudantes em Praga. Não era apenas o Gana e o governo de Cuba que viam Eduardo Mondlane como revolucionário pouco consequente. Já em Outubro de 1964, Noureddine Djoudi, embaixador da Argélia na Tanzânia e representante do seu país no Comité de Libertação da OUA em Dar-es-Salam, se havia referido ao primeiro presidente da Frelimo como “um fantoche americano, a quem faltava espírito de militância, e era incapaz de liderar um movimento revolucionário.”[4] Mondlane não só se recusa a apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinsahasa, como também rejeita o apoio de Cuba para a prossecução da luta armada em Moçambique, não obstante a escassez de meios materiais com que a Frelimo se vinha debatendo desde a sua fundação em 1962. Pablo Rivalta, numa mensagem expedida de Dar-es-Salam para Che Guevara no Congo-Kinshasa a 19 de Agosto de 1965, fala da necessidade de se alterar o plano sobre o uso de instrutores militares cubanos que a pedido de Julius Nyerere haviam chegado à Tanzânia para o treino de guerrilheiros da Frelimo em Tabora.[5] Rivalta viria a clarificar o teor da sua mensagem em declarações prestadas a três autores cubanos que integraram o contingente de Che Guevara no Congo-Kinshasa. Rivalta é citado pelos autores como tendo dito que "alguns companheiros que o Che pensava enviar para Moçambique não puderam ir porque os contactos que tínhamos estabelecido com o governo da Tanzânia e com os moçambicanos disseram que não era ainda o momento, e o Che deu-me ·instruções para que fossem para o Congo e para o Congo os enviei."[6] Uma outra prova da recusa sistemática de Eduardo Mondlane em alinhar com o plano cubano, surge em Outubro de 1965. Numa derradeira tentativa de salvar do colapso o contingente militar cubano destacado no Congo-Kinshasa, o próprio Fidel Castro deu instruções a Jorge Risquet para promover um encontro com os dirigentes da Frelimo e do MPLA em Brazzaville, durante o qual devia voltar a insistir junto da Frelimo para que apoiasse o plano. Segundo Benemelis: "Na reunião de 8 de Outubro (de 1965) com os movimentos de libertação das colónias portuguesas, Castro faz um último esforço para salvar o foco africano. A delegação cubana compromete-se a ajudar o MPLA e a Frelimo, com a condição de as mesmas se unirem ao Che, no Congo. Não obstante, a FRELIMO moçambicana, na pessoa de Eduardo Mondlane, evita o compromisso. A anterior disputa Guevara-Mondlane, meses antes, centrou-se no mesmo dilema: Mondlane negou-se a colocar a FRELIMO como fonte de abastecimento do comando guerrilheiro de Che."[7] A posição irredutível de Eduardo Mondlane foi transmitida por Marcelino dos Santos que participou no encontro de Brazzaville.

MONDLANE E OS ESTADOS UNIDOS

A intervenção militar cubana nos dois congos em 1965 coincide com uma série de acções que os Estados Unidos vêm desenvolvendo no campo militar, político e diplomático no sentido de manter a sua influência na região. Mondlane é um elo importante nos esforços diplomáticos encetados por Washington. O estudo de Piero Gleijeses revela que em finais de 1964, a Administração Johnson, promoveu o recrutamento de forças mercenárias na Rodésia e na África do Sul, assim como na Bélgica e na França, as quais, sob o comando de Mike Hoare, foram enviadas para o Congo-Kinshasa a fim de salvarem o regime de Moses Tshombe da derrocada face aos avanços da guerrilha simba e à impotência das forças governamentais. A acção das forças mercenárias, segundo demonstra Gleijesses, citando documentos oficiais norte-americanos obtidos ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação, foi de primordial importância para a derrota da guerrilha simba e o colapso da intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. Entre outros factores que contribuíram para o fracasso da intervenção cubana incluem-se as profundas divisões no seio do movimento de guerrilha congolês, a decisão do governo tanzaniano em retirar o apoio à rebelião congolesa, e o golpe de estado ocorrido na Argélia em Junho de 1965. O contingente cubano viria a abandonar o Congo Kinshasa em Novembro de 1965, cerca de 7 meses após ter infiltrado o território congolês. Aviões soviéticos da Aeroflot procederam ao transporte do contingente de Dar-es-Salam para Havana. Paralelamente à acção militar no Congo-Kinshasa, os Estados Unidos desenvolvem, em parceria com Eduardo Mondlane, uma iniciativa diplomática tendente a levar Portugal a solucionar o problema de Moçambique pela via pacífica. Em Julho de 1965, por ocasião da visita de Robert Kennedy à África Austral e Oriental, Mondlane discutiu a situação em Moçambique com o antigo ministro da Justiça americano e outros dirigentes norte-americanos em Dar-es-Salam. Mondlane confidenciou a Wayne Fredericks, subsecretário de Estado para os assuntos africanos, que caso Portugal concordasse com um plebiscito sobre o futuro das colónias, os termos desse plebiscito seriam menos importantes do que o processo político que ele iria despoletar. Efectivamente, Mondlane admitia que uma eventual independência de Moçambique não necessitaria de fazer parte do plebiscito. Para Mondlane, uma escolha simples entre Moçambique permanecer como província ultramarina portuguesa ou como membro duma comunidade Lusófona era por si só um significativo passo em frente. Na sequência deste encontro, o Departamento de Estado apresentou uma proposta a Salazar em Agosto de 1965. O embaixador norte-americano em Lisboa, George Anderson, é quem entrega a proposta concertada na base no encontro de Dar-es-Salam no mês anterior. Salazar mantém a mesma posição irredutível.[8] Em face do que acaba de ser exposto, torna-se óbvio e claro que seria um contra-senso o presidente da Frelimo apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. E se não apoiou, não foi por questões de lana-caprina atrás mencionadas, mas sim por que uma aliança com Cuba não condizia com a maneira de ser de um dirigente que desde a sua subida ao poder se havia demarcado dos desígnios do bloco comunista em relação ao continente africano. E a prova de que o distanciamento de Eduardo Mondlane era em relação a Cuba e não a Che Guevara propriamente dito, foi que mesmo depois da sua morte na Bolívia, o presidente da Frelimo continuou a manifestar a mesma posição, nomeadamente em conferências na Universidade de Dar-es-Salam e em entrevistas com correspondentes estrangeiros. Cuba não perdoaria Mondlane por ter proferido “declarações injuriosas” contra Che Guevara numa entrevista concedida a jornalistas norte-americanos do «Liberation News Service». Foi por intermédio da agência noticiosa estatal, Prensa Latina, que as autoridades cubanas acertariam contas. Num extenso artigo sugestivamente intitulado “Presidente da Frelimo desmascarado”, e posteriormente publicado no «Juventud Rebelde» e transmitido pela Rádio Havana Cuba, a Prensa Latina começa por se referir a Mondlane como alguém “que viaja aos Estados Unidos com mais frequência do que um embaixador do Departamento de Estado”. Depois, estabelece uma diferença entre Che Guevara e Mondlane: O Che e o Senhor Mondlane realmente diferem em tudo. Em primeiro lugar, o senhor jamais entrou em Moçambique para combater junto da guerrilha a cuja formação ofereceu obstinada resistência após a fundação da Frelimo. O senhor escolheu Washington e outras grandes capitais como campo de batalha enquanto o Comandante Guevara seleccionou a Sierra Maestra primeiro, e depois as montanhas bolivianas, onde combateu até à morte.”[9] Segundo Fidel Castro, Eduardo Mondlane viria a retractar-se, se bem que as relações entre o primeiro presidente da Frelimo e Cuba permanecessem sempre distantes. De passagem por Berlin Oriental a 3 de Abril de 1977, Castro manteve um encontro com Erich Honecker, no decurso do qual informa o dirigente da antiga RDA sobre as conversações que acabara de manter com Samora Machel na cidade da Beira. As palavras proferidas por Fidel Castro provam uma vez mais que a disputa entre Cuba e Eduardo Mondlane tem causas muito mais profundas do que a versão de Hélder Martins, apoiada em “fofocas”: Havia diferenças entre nós e a Frelimo, que datavam do tempo em que a Frelimo estava baseada na Tanzânia, e onde o Che Guevara conversou com Mondlane. Nessa altura, Mondlane não concordou com o Che, e disse-o publicamente. Posteriormente, publicaram-se em Cuba artigos de imprensa contra Mondlane. Mais tarde, Mondlane retractou-se, mas apenas avel interno pelo que as coisas permaneceram mais ou menos no ar.”[10] Mas já em relação a Samora Machel, Castro tinha uma outra opinião, em tudo diferente daquela que o governo cubano havia manifestado em relação a Eduardo Mondlane por intermédio do jornal «Juventud Rebelde», órgão oficial da União da Juventude Comunista de Cuba: Na realidade, Samora Machel foi para mim uma surpresa. Passei a considerá-lo com um revolucionário inteligente que tomava posições claras e mantinha um bom relacionamento com as massas. Ele causou-me muito boa impressão. Conversámos durante dia e meio. (…) Antes disso não sabíamos ao certo qual a influência que os chineses exerciam sobre ele. Ele agora está mais próximo da União Soviética e de outros países socialistas.”[11]


[1] Hélder Martins, Porquê Sakrani - Memórias dum médico duma guerrilha esquecida. Maputo, Editorial Terceiro Milénio, 2001.

[2] Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington, and Africa, 1959-1976,  The University of North Caroline Press, 2002.

[3] Juan F. Benemelis, Castro - Subversão e terrorismo em África, Europress, Odivelas 1986

[4] “Telegrama Confidencial” expedido pela Embaixada dos Estados Unidos em Dar-es-Salam a 15 de Outubro de 1964. (Documento obtido ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação e citado em João M Cabrita, Mozambique - The Tortuous road to democracy, Palgrave, 2000.)

[5] Ernesto Che Guevara, The African Dream - The diaries of the revolutionary war in the Congo, The Harvill Press, Londres 2000.

[6] Paco Ignacio Taibo II, Froilán Escobar, Félix Guerra, O ano em que estivemos em parte nenhuma - A guerrilha africana de Ernesto Che Guevara, Campo da História, Porto 1995.

[7] Benemelis, op ci

t[8] “Telegrama Secreto” expedido da Embaixada dos Estados Unidos, Dar-es-Salam, 29 de Julho de 1965; “Memorando Secreto” relativo à conversa entre o embaixador Anderson e Salazar, 22 de Outubro de 1965, citados em Cabrita, op cit

[9] Teofilo Acosta, Desenmascarado el presidente del Frelimo, Juventud Rebelde, Havana 21 de Maio de 1968 p3

[10] A transcrição do discurso de Fidel Castro foi encontrada nos arquivos do antigo Partido Unificado da Alemanha. Está disponível na Internet : http://cwihp.si.edu

[11] Ibid

publicado às 12:32

(N)A "Pátria Amada"

por jpt, em 04.01.10
Lisboa

 

1. Inverno. Um calor de estalagmites.

 

Dizer

[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]

 

2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à "terra" é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto.  E depois ... basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano "horror").

 

 

avc

 

3. A gula. Crise? E é um "trocadilho" fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais ... Aliás, a cada um o seu sapatão.

 

 

paulo duarte

 

4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: "Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo". Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!

 

pai natal

 

5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos "entes queridos", esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ....

 

stuyvesant logo

 

6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.

 

Corcunda de notre dame

 

7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.

 

asterix

 

8. Cultura. Na revista "Os Meus Livros" (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna "Caldeirada de Letras" (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: "Astérix Ortografix". A propósito da edição do "O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro" (fraquinho, já agora) uma crítica as  novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).

 

Artis

 

9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante "Sinal Vermelho"), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas - aprecio o acto). Mas mais do que isso - e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala - de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e - aí sim, lamentavelmente - desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ....

 

onesimo marx e darwin

 

10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este "De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias" (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: "Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude - a arethé grega - que não poderá nunca ser legislado." (125)

 

sporting logo

 

11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão - como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto "Projecto Roquette", é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela "falta de alternativas".

 

fnac

 

12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas "ruas da amargura". Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada "literatura leve", a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma "plana" - em particular expressa nos registos da "exo-ajuda" e do chamado "romance histórico".

 

Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate - aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o "estado da arte" a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:

 

1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O'Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.

 

Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.

 

Charme Discreto da Burguesia 2

 

13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.

 

Ler Dezembro 2009

 

14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna "Booktailoring", de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado...) o texto "Um jogo entre linhas" que aponta os "jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009". Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: "tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica", resmungo-me. Pois na "selecção nacional" deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler... Absurdo. Mas um absurdo sintomático.

 

jornal i

 

15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um "é de direita mas ...". Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta ...

 

Jose Cutileiro Bilhetes de Colares

 

 

16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um "apelo às dádivas". Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção "Horas Extraordinárias" que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo "Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)", "porventura" de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que "Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa." (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: "Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja...". Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos...

 

fontes pereira de melo

 

17. Política. Nenhum dos meus amigos - desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o "fontismo" cansado, travestido de "desenvolvimento", do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?

 

Amalia

 

18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão "de ir às lágrimas". Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso "não aprendi nada". E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?

 

Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito  -  que se pretenderia? -  é atirado para um "posfácio", de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem  modismo para "espantar a classe média baixa". Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz "arte!". Olhar um cilindro branco com espelho atrás, "um artista (Amália) solitário no palco". Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual - com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto "contemporâneo" faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?

 

Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: "ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976"... Xailes no chão?!

 

sahara ocidental

 

19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal "i", anunciando que Marrocos é "o polícia da Europa". O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta "política real". Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo "alqaediano" seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão - como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de "fundamentalismo"/"integrismo" islâmico quando Marrocos  procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.

 

Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o "distante" assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma "causa justa" e pronto. Aliás, prontos ...

 

 

20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande ...

 

 

Liceu Camões

 

21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos "bons tempos" em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de "progressistas", até gente oposicionista germinada no velho Liceu - mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que "eles" até a "doutores" vão.

 

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22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a "punição" que Guevara lhe fez).

 

Korda6Korda5 Mão de Fidel

 

Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu "gigantismo". A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.

 

Korda1 - mulheres

 

Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de "cosmopolitismo" (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do "fidelismo", de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.

 

Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo - que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção "fidelista", obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão - coisas que tão bem "sabem" para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que "a exposição é daquelas que se recebem". E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.

 

gravata

 

23. A gravata. Penso que foi no jornal "Sol", uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos "sossegar", afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.

 

Escaparate

 

24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor - desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: "a literatura é o que tem que ser!". Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta "V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?", ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, "Nenhuma". A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me "queres ouvir isto?" e eu, mais assim como eu, logo riposto: "tira essa merda!".

 

Rolling-Stones-Let-It-Bleed

 

25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da "Fanfarra para um homem comum" e logo surge a  "You can't always get what you want" dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca .... uma castanha assada.

 

coppola tetro

 

26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.

 

jose policarpo

 

27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a "indiferença, agnosticismo e ateísmo" na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre "indiferença" e "ateísmo". Que "indiferença"? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum ...

 

Homem em Furia

 

28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: "Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro."

 

record

 

29. Acordo Ortográfico.Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são "encenadores" que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record - pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da "presença" e "expansão" da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em "desejos pensantes"), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a "escrita é uma convenção" dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a "grafia não influencia a fala", dizem "professores" sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).

 

Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso ...

 

cafe bica

 

30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma "bica" (aliás, "café", "expresso", "italiana") decente. Os estabelecimentos  comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?

 

PResepio

 

31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, "Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da "família". Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.

 

Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): "ser punk em 1980 ..." (onde é que eu já li isto? ...).

 

enchidos

 

32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao "estado do país", claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num "isto está mau" - mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me "O casamento é um contrato entre dois indivíduos". Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista ... tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.

Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem - e até já veio - exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?

 

PortoVintage

 

33. Ideias Feitas?. "À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao "estado do país", claro. Donde ao casamento homossexual - que o resto foi resumido, como sempre, num "isto está mau" - mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação" [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação - e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar - quando um conviva comensal rematou, glorioso: "vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos".

 

Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre ...

 

bachhaydn

 

34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música - um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia - deixo-me, como sempre, a "olhar" público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada "civilização", forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos - nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais "burgueses" à Praça de Espanha, mais "populares" (menos "cívicos", menos "civilizados") em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.

 

Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.

 

Jornal de Letras 1

 

35. A cremação da dita e ainda das suas primas. Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, "dez anos de letras, artes e ideias". Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das "ideias" ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, "História do Pensamento Filosófico Português", coordenada por Pedro Calafate, "Portugal Extemporâneo" de Carlos Leone). Depois ... Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o "Portugal Medo de Existir" ("os portugueses são ...").

 

Entenda-se, dois artigos sobre "ideias", um sobre "ensaios". Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de ... olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].

 

É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

 

inhamabane

 

36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.

 

jpt

publicado às 17:37

A IURD no poder

por jpt, em 29.09.07

Estes meus amigos, para os quais sempre sou um "reaccionário simpático", estes meus amigos da esquerda que foi revolucionária, que se quer progressista, que se mantêm anti-americana, que promove a desalienação, estes meus queridos amigos que terão dito nesta semana, a de Lula e Edir Macedo (o da IURD) tudo juntos? Estes meus amigos sempre prontos a resmungarem contra ZéDu, o cleptocrata, (ah, a rivalidade angola-moçambique!) como passearão as suas belas e burguesas t-shirts com o guevara ao peito?

 

Quem serão os "reaccionários simpáticos", afinal? Até (meus) "queridos"?

publicado às 13:11

Guevarinhas

por jpt, em 06.03.06

Neste regresso aos blogs vejo que houve um ruidozinho luso sobre o Guevara, isso por causa de um texto a que eu já aqui aludi. Já passou, que isto de blogs é por ondas, e como tal não valerá a pena colectar os elos permanentes. Mas registo um muito certeiro pensamento em alguns dos textos mais desagradados com as críticas ao "Che". Dizem-no, é certo, algo criticável, ou pelo menos aceitam tal hipótese. Mas não deixam de o afirmar "um homem do seu tempo", "um homem das lutas do seu tempo", e isso enquadrando os tais hipotéticos erros ou defeitos que terá tido.

Correctissimo. Muito apreciei estas profundas, e até originais, reflexões. Gente de pendor sociológico (e alguns até são jornalistas, imagine-se, ainda assim gente afinal atreita à reflexão). Aprecio e entusiasmo-me: há gentes nos blogs do meu país que reflecte, e bem. Não se deixa ir em ondas e excitações.

Pois é verdade, e é inacreditável que os críticos manipuladores o escamoteiem: Ernesto Guevara, o "Che", foi um homem do seu tempo. E das lutas do seu tempo.

Belos intelectuais, profundos até, estes guevarinhas...

publicado às 09:07

Obrigado

por jpt, em 27.02.06

Sobre a minha irritação com Che Guevara e os seus seguidores já andei por cá a resmungar. Daí o meu obrigado superlativo a Valter Hugo Mãe pela pedrada atirada.

Não esquecendo um excelente texto no ido Comprometido Espectador. Junto ainda os meus. Tanta coisa, não haja dúvida, uma irritação de estimação.

publicado às 12:37

O grau menos muito da argumentacao

por jpt, em 26.10.05
(assim tipo Bloguitica)

Das presidenciais portuguesas não digo. Aliás, já disse: não voto. Se votasse não votaria em Manuel Alegre. Nem desgosto, é mais por causa daquele livro "CHE" (Caminho, 1996):

A serra está em nós. Começa
em certas noites no nosso próprio quarto
irrompe subitamente sobre a mesa de trabalho
pode aparecer à esquina
em plena rua

...

Inútil discutir estratégia ou táctica.
Inútil saber se entre a serra e a cidade
há ligação ou não.
O que importa é o impulso que vem de dentro
subir a uma montanha dentro de si
olhar em frente e dizer:
"Sejamos realistas
exijamos
o impossível"

...

Há uma possibilidade de Che em cada um

...

De todos os guerrilheiros
ele é o único insepulto
nem sequer se sabe se ressuscitou
ao terceiro dia.
Não está em parte nenhuma
o que significa que pode estar em toda a parte



Não critico a poesia, quem sou eu. E nem por esse guevarismo o afasto. Do que está no poema, dessa "serra", quem me dera subi-la, vivê-la. Não é por isso. É mesma coisa de geração, Che é-lhe como a tantos coisa ícone, símbolo de melhorar, mudar, rasgar. Pena que "inútil discutir estratégia ou táctica", porque é mesmo isso que é útil. Ícone dele, ajudar-lhe-á a sentir e pensar, ele e alguma da gente dessa era. Eu venho depois, minhas coisas ícones foram mais Kiff the Riff, Rust Never Sleeps e o Lou Reed a chutar-se em palco, serras outras ou se calhar não. Eu não me chutava, mas estes guevaristas e os alter-guevaristas de agora também de guerrilheiros só quando saem do sofá em excursão a Porto Alegre (Viva PT, viva Lula): estamos na mesma?

Nem tanto, pelo menos com Alegre. Ele ainda no Guevara e eu não me imaginando aos 50 e tal anos a escrever loas aos chutos alive. Coisa de arranjar novos ícones, talvez. Ou de me desiconizar. Toda a diferença. Uma serra de diferença.

****

A propósito de quê o arrazoado? É que ao ler a ordinarice no A Praia (sem elo, momento higiénico) deu-me uma urgência de Alegre a Presidente. E lembrei-me da história dos colos de Santana Lopes. Que isto das ordinarices, e eu sei-o bem que as pratico e quem cá vem sabe-o bem, quando se têm são mesmo propositadas. Que gaffe, isso é outra coisa.

Diante desta gente o que há é uma cordilheira de diferença. Não de nascença. É mesmo na vida.

publicado às 08:41

Che Guevara na Feira Popular

por jpt, em 12.06.05

Hoje uma saída nocturna, uma incursão nesse afinal não mito daqui, o "sexta-feira, dia dos homens". E, para mim, algo tão raro nos tempos actuais, e nunca o imaginaria assim há alguns anos. Combinámo-nos ali à praça da OMM, o meu amigo quer-me apresentar a um bar quase novo, até "complexo" ao que parece, local de companheiro seu e dele visita prometida e já muito adiada. Ali o encontrarei, um aperitivo e "depois se verá" quais as nossas paisagens para conversa e maldizeres.

 

Sou o primeiro mas nem espero, coincidência pontual, ei-lo ali. A apresentar-se numa das suas t-shirts estampadas com o tal Che Guevara, elegâncias nele até tardias, conquistas de recentes viagens do turismo académico, este sempre, e por mais óbvio que pareça ser o destino, coisas do bazarismo político. Não lhe perdoo estas vestes da ironia, bem sabe ele que abomino esse neo-ícone, em tempos de qualquer coisa facistóide e assassina, agora a querer-se dietético, "light", fresco de uma moda assim muito alter, alterglobalização chamam-lhe até, em óbvios requebros. Não lhe perdoo, já disse, reajo à óbvia provocação, tal como o faço sempre que me invade a casa em propósitos semelhantes, que hoje não é a primeira afronta risonha. E daí o meu imediato "Foda-se, meu cabrão, agora fazes-me andar aí na rua com um comuna". E ele a rir-se, é mesmo de propósito, a invectivar-me "que queres, é a revolução necessária!!", a cutucar o tuga reaccionário, mesmo que para ele branco simpático, qual negativo do Sidney Poitier, a modos que branquinho bonzinho. E assim nos ficamos, nos obrigatórios insultos, a marinarem coisas de uma amizade.

 

É nisto que já estamos no tal aperitivo tornado vários, pois gente algo conhecida a surgir à mesa e por isso conversa vária, às vezes mole outras nem tanta, como é assim nestes assins. Depois lá chega o nosso "e agora?" e eis-nos a jantar na Feira Popular, fieis ao que aqui vai vigorando, isso de que, apesar do outro tudo, "para restaurantes não há como os portugueses" – e é aqui que lhe lembro a expressão que ouvi ao Rangel, mas que me diz ser de Samora, essa pérola do "só não descolonizei o estômago", devaneio que logo nos dá para a teorização, nele deformação profissional, em mim prosápias de provocador: se há lusofonia o que ela é mesmo é gastronómica....e futebolística, acrescentamo-nos de rajada.

 

Enfim, lá avançamos o nosso jantar, bera diga-se, a injustificar o apreço universal pela tasca lusa, entre os tais maldizeres, as políticas que sempre vão mal, como é de sua natureza ou das nossas manias não sei, a eterna uma ou outra mulher do "ai se pudéssemos", o "como está ele...?" sobre parcos amigos, trabalho e trabalho, livro ali e livro acolá, vá lá, para nos darmos o toque. "E agora?", digestivos digeridos, "e agora?" Discoteca? bar? jazz? mas já?, se avançámos tanto que nem meia-noite é, e há que gozar a noite, arrastá-la. "Agora?", e sou eu que desafio, "já que estamos aqui no portão então vamos passear na feira", sei que ali uma miséria felliniana mas ao qual atribuí encanto, talvez mesmo por isso, no domínio da insensibilidade, sei-o, a do mais querer olhar.

 

E lá vamos, em vagares, a esmoer os pavorosos jantares, um par de quarentões, eu oscilando a rotunda barriga, nítido tuga desses matrecos até recém-chegados, ele escondendo a sua na brilhante t-shirt guevarista e, nem que seja por esta, óbvio "estrutura" local, deste modo a rejuvenescer-se com velhas ideias, a esquecer-se do hoje. E nisso caminhamo-nos para além do Coqueiro, o zambeziano quase fronteira, que o império não-familiar começa por aí, é-nos um passeio a demorar a decadência da decadente Feira, mais fechadas as barracas restaurantes, vazias as discotecas-bordéis. Mas isso é o do todas as vezes por aqui, que esta sempre parece pior do que antes. Mas continua, impávida e, portanto, decerto lucrativa.

 

Nisto do ir andando cruzamos duas raparigas, jovens, bonitas, bem postas como se dizia antes do nosso tempo, que nos saúdam, sorrisos largos, e mais a mim, num "boa noite, como estás?", ao que respondo, simétrico, em palavras e sorriso mas continuando a andar, nisso decerto menos afável. Mas uma delas, mais decidida, avança e interrompe-me, os dois beijos lestos, sempre ditos "beijinhos", a surpreender-me, e eu no arquear de sobrancelhas "Nós conhecemo-nos?", a interrogar-nos, que isto de ser professor, e algo distraído ainda para mais, traz constantes surpresas. Mas que "sim, conheço-te do Piri-Piri, costumo ver-te lá", "ah", sossego, a aferir o registo e então deixo-lhe o meu melhor gentil "então boa noite, obrigado, até à vista", um adeus que é logo barrado num ainda mais simpático "Vocês não querem companhia?" e nós, sempre sorridentes, num coro de "não, obrigado, não é preciso", e eu acrescento, para não lhes ferir as susceptibilidades, e já agora também para auto-justificação, a explicar a recusa, "somos amigos, viemos só passear", que isto não é por causa delas, não é desprezo, não senhora, ao que a mais primeira, à tal reclamação de amizade, confirma "sim, eu sei, costumo ver-vos juntos no Piri-Piri", e aqui já está a inventar, reunir ambiente, numa insistência do oferecimento. E eu a repetir-me, no sorriso e no "não estamos a precisar", as meninas que não levem a mal, somos só amigos a ver passar a noite, e esta mais atrevida logo num "oh!!" duvidoso, que melhor companhia poderemos nós esperar mais à frente?

 

O meu parceiro decide intervir, decerto sabedor que é mais este branco que as acicata, mais dados aos dolares fáceis somos nós, ao que se diz e deve ser verdade. E que por isso ser-lhe-á mais fácil resolver aquele nada impasse, apenas coisa de gentileza bem-disposta, do continuar a andar sem desagrados, do sempre tratar bem as mulheres, ainda para mais neste aqui, "sabes, é isso mesmo, somos amigos, estamos só a passear", o que até é, e mais pelo tom, um agradecimento a tão simpática oferta.

 

Mas nessa sua insistência vem ele mudar o ambiente, a brotar um gelo no olhar da rapariga, aquela mais provocante, súbito um diálogo entre ambos, eu de imediato de fora, estrangeiro excluído, "São amigos? Claro, vê-se! É por isso que andas com a cara dele na t-shirt?", ao que ambos estancámos, um abismo de surpresa, deliciosa para mim, nem tanto para ele agora rubro (sim, rubro) de espanto, e ela a avançar, agora ácida, o desprezo à solta "E tu não tens vergonha? Não tens vergonha de andar com essa t-shirt", e eu, até cruel, já me estou a rir, ele com um embaraço gigantesco, tentáculos na voz, sem mesmo balbuciar, o que poderá ele dizer?, e eu, malévolo, a sublinhar, "é isso mesmo ... somos amigos, eu é que lhe fui eu que lhe ofereci esta minha t-shirt, ele gosta de mim e usa-a", e o meu amigo, ali desgraçado, resmungando (a implorar-me o silêncio?), a necessitar de uns passos à frente para também ele se poder rir desse seu Che Guevara, afinal na sua terra, às suas vizinhas, ícone coisa tão outra.Ainda nos estamos a rir, gargalhadas, quando entramos na primeira porta, refúgio mesmo. E eu já com a esperança que se tenha perdido aquele altercomunista, voltemo-nos burgueses. Aliás, a noite está aí, é certo que assim voltaremos.

publicado às 17:39

O Guevara e a Jóia Vitaphor

por jpt, em 04.02.05
Abaixo, citei Lobo Antunes, um verdadeiro Átila no seu "poster do Guevara...e que funciona um pouco para mim como uma espécie de jóia magnética Vitaphor da alma:.".

Perguntei então se alguém saberia o que é (era) essa Vitaphor. Alguns leitores corresponderam a este meu anseio, e aqui os coloco (é assim como no Abrupto).

Via email, Eduardo Domingos informa que o meu sistema de comentários não funciona (vá lá, uma boa desculpa para não ter comentários) e propõe que o tal Guevara seja Vitaphor - Mediaphor GmbH, D-33106 Paderborn, abrindo caminho para toda esta teoria

Wie wir Menschen brauchen auch unterschiedliche Pflanzen ganz individuelle
Nährstoffe. Mischen Sie sich Ihren perfekten Spezialdünger selbst, ganz
individuell abgestimmt auf Ihre Pflanzen mit dem BaukastenDünger Vitaphor: Für
25o verschiedene Pflanzen, zum Beispiel Rosen, Rhododendren, Geranien, Kräuter,
Zitruspflanzen, Kakteen, Funkien, Bonsais, Hydrokulturen, Tomaten, Erdbeeren und
viele mehr. ...(tomar ao deitar)

Já o Manuel encontrou a casa dos comentários aberta (afinal?!) e botou: "Ah, mas quanto à jóia Vitaphor, posso dizer que era amplamente divulgada na TV. Era daquelas com propriedades magnéticas e o diabro a quatro, que proporcionava um excelente bem-estar a quem a adquirisse.Também havia as pulseiras magnéticas...Será que ainda há?Um abraço"

Estou na dúvida, até porque a mim o alemão custa-me a entender...Mas está lançada a angústia, afinal que era o Guevara?

publicado às 23:44

Lobo Antunes e Che Guevara

por jpt, em 04.02.05
Já agora, e como aqui escrevi (e fotomostrei) várias vezes sobre a moda Che Guevara, não resisto a este pequeno trecho de "Os Cus de Judas" de Lobo Antunes (Círculo de Leitores, 1984, p. 30), que há pouco descobri:

"Duas coisas, minha boa amiga, continuo a partilhar com a classe de que venho, desapontando o poster do Guevara, esse Carlos Gardel da Revolução, que pendurei sobre a cama a fim de que me proteja dos pesadelos burgueses, e que funciona um pouco para mim como uma espécie de jóia magnética Vitaphor da alma:..."

(O que seria uma jóia Vitaphor?)

publicado às 20:46

Fidel e o espelho mágico

por jpt, em 05.12.04
A Lolita do Blogame Mucho escreveu há dias sobre Fidel, rematando: "Fidel é um ditador, mas não é um mau ditador: é um ditador puro. Com o que isso tem de mau, também. Forcem-no, nada conseguem. Respeitem-no, reparará erros." Eu permiti-me discordar e resmungar acerca dessa óbvia simpatia pela personagem. Não quero eternizar a discussão, cada um como cada qual. Mas como tive resposta agradeço-a com alguns pontos na "volta do correio":

[actualizado com adenda]

1. Será pouco importante para a questão, mas como a Lolita usou o Maquiavel eu citei-a. Diz ela que desajeitadamente, enquanto (me) explicita o real sentido da sua obra, acessível "a quem conhece, ainda que pela rama a sua obra". Lamento pois tê-lo utilizado, ainda por cima de forma tão grosseira: confesso que tendo-o lido, e a alguns dos seus comentadores, não apreendi uma certeza sobre o que realmente quis dizer. Terei a minha ideia, a minha interpretação. Mas muito pouco assertiva. Meu defeito de compreensão, decerto, que essas não são as minhas áreas.


2. Associei aquela visão sobre Fidel, e volto a fazê-lo, à (já) velha teoria comunista explicativa da queda do "mundo socialista", aquela que consagrava como causa os "erros e desvios" (a maldita "natureza humana"?), uma nada marxista explicação na boca e na tecla desses veros marxistas (leninistas). E para que não se pense que abuso das palavras, esses "erros e desvios" foram não só recorrentes como ainda consagrados em documentos de pelo menos um congresso do PCP nos inícios dos 90s. Será talvez abusivo associar a Lolita ao PCP, e lamento se a desagradei, mas lendo-lhe a crítica ao Estado da Nação onde todos "comem pela medida grande" com a excepção implícita do "partido", não pude deixar de o fazer. Não conhecendo a bloguista não lhe estou a imputar militâncias ou simpatias (muito legítimas, diga-se), mas permito-me associar discursos e modos de pensamento que surgem comuns.

3. Diz ainda que "o JPT, [...] quis confrontar-me com as minhas contradições". Mais um lamento meu, aqui pela minha falta de clareza, a tal "molhada" que denuncia. Pois o que procurei realçar não foram as contradições do pensamento da Lolita, eu quis sublinhar foi a sua total coerência, explícita em dois textos políticos, um valorizando o PCP o outro valorizando Fidel. E o quanto eu discordo dessa coerência, da qual todas as questões "morais" são meros corolários [da ligação entre moral e política necessitaria de outro (e enorme) post, passo].

4. De lamento em lamento tenho ainda que referir o quanto me desgosta esta minha tendência, por ela sublinhada: "Não se deixem levar pela simplória, mas eficaz, estratégia americana recorrente: ou estás comigo ou estás contra mim.". É uma fragilidade, aborrecida ainda que humana, isto de torcer o nariz à pureza de um ditador só porque os americanos não gostam dele. Sendo franco, é mesmo uma imbecilidade. Reconheço-me simplório produto.

5. Lamento pois não ter essa habilidade reflexiva. Essa que, apesar de algumas semelhanças de pensamento com alguns movimentos sociais e políticos (naturais, não somos ilhas), permite à Lolita afirmar "Não me agradam moralismos lineares; prefiro pensar sozinha, no remanso do lar, a ler a mais e a deixar-me intoxicar de propaganda", algo que lhe permite uma superior compreensão sobre o mundo que a rodeia.

Quanto à auto-sapiência e à teoria da relatividade curvo-me, expectante de futuras lições.

6. Finalmente lamento ainda não possuir tal espelho mágico, em que me visse tão culto, livre e despreconceituoso. Cantando, qual filho de Hergé, "rio-me de me ver tão belo neste espelho". Ainda que cobiçoso é meu sincero desejo que nunca se lhe parta o espelho.

Adenda:

1. A Lolita ripostou dizendo-me conjecturando sobre onde a colocar ideologicamente. Sim, um elogio a Fidel e os termos em que foi desenvolvido, causam-me estupefacção. E em meu entender são concepções que têm linhagem, um contexto. Apontei-o, interpretei-o. Não falei, como se queixa, de si, falei daquele que me parece ser o contexto da sua percepção. Não se reconhece nesse campo político em que a integrei, tudo bem. Quantas vezes ecoamos ou recriamos perspectivas de outrém sem que isso signifique uma associação. E que a houvesse, seria legítima e não da minha conta. Para mim realmente importante foi reconhecer os traços estruturais de um apoio actual a Fidel, e de como eles se assemelham a um já antigo discurso sobre o "mundo socialista" que considero acima de tudo autofágico. E isto não é um discurso "ad hominem".

2. Num outro âmbito Lolita expressa o seu desagrado pois pessoalizei, improdutivamente (e deselegantemente?), a questão, atacando-a e negando-me ao que realmente lhe interessava, discutir Fidel e Maquiavel.

De Maquiavel diz-me fazendo "meta-crítica". Mas que fique claro, às vezes as palavras valem o seu sentido literal. Não tenho certeza sobre o que o autor quis dizer. Não há qualquer meta-crítica. Mas sobre isso interessa-me perceber como é que pessoalizei/rebaixei a questão.

Sobre Maquiavel Lolita escreveu, eu usei isso e recebo esta resposta à "molhada" que entende ter eu realizado: "Quem conhece, ainda que pela rama, a sua obra sabe que Maquiavel ..."; por favor, isto é uma locução retórica em que não só se afirma o pensamento do autor como se exclui qualquer hipótese de contradição, pois basta-o "conhecer ainda que pela rama". Discutir então para quê? Para mais não o tendo eu usado neste último sentido (aliás, usei-o no sentido em que Lolita o tinha referido) é óbvio que se depreende pelo seu texto que o utilizei sem o ter lido nem que seja pela rama, que o usei na ignorância. Não está portanto somente a falar de um autor mas também a afirmar a ilegitimidade deste locutor (o tal JPT) que o utilizou. Sim, eu sei que as intenções retóricas são infalsificáveis, mas esta, até pela sua recorrência, é óbvia.

Uma discussão sobre Maquiavel? Pelo contrário, uma asserção sobre Maquiavel e uma pessoalizada ilegitimação do interlocutor.

3. Discutindo Fidel Lolita é explícita, aqueles que discordaram do seu post deixam-se "levar pela simplória, mas eficaz, estratégia americana recorrente: ou estás comigo ou estás contra mim.". Estamos a falar de Fidel? Não, estamos a falar dos medíocres (simplórios até) mecanismos de compreensão e análise utilizados por aqueles que consigo discordam.

Uma discussão sobre Fidel? Pelo contrário, uma desvalorização pessoalizada dos interlocutores.

Em absoluta e explícita contraposição a essa frágil postura intelectual daqueles que a criticaram Lolita apresenta-se: "Não me agradam moralismos lineares; prefiro pensar sozinha, no remanso do lar, a ler a mais e a deixar-me intoxicar de propaganda. Tento, isso tento.". Perdão, há mais pessoalizar do que isto? A afirmação implícita mas clara de uma superioridade de metodologia intelectual e moral: esta não lhe é linear, implícita contraposição aos que a criticaram; pensa sozinha, de onde se estabelece que os seus críticos não o fazem, pensa no remanso do lar, os outros porventura não só no colectivo mas também no meio da turba, lê mais, os outros decerto nada ou pouco, e não se intoxica de propaganda, o que os outros fazem, não só pelo pensamento colectivo a céu aberto, linear, mas também pelo já acima anunciado "simplório" procedimento.

4. Depois de escrever todas estas afirmações, menorizando os métodos pessoais de pensamento e apreensão da realidade daqueles que com ela discordam, Lolita regressa protestando a pessoalização da minha resposta, lamentando-lhe a falta de elevação da argumentação.

Se nos conhecessemos talvez tivesse consigo o à vontade para lhe dizer o coloquial "é preciso ter lata!". Como não é o caso fico-me no muito mais desagradável, ainda que mais polido, termo desfaçatez.

Quanto ao tal espelho ainda acredito que se reler bem o que ripostou às críticas que lhe fizeram talvez conceda que não é cá em casa que habita. Ou talvez não o conceda, mas isso já é consigo. Passo.

Cumprimentos

publicado às 00:21

No muito apreciável Blogame Mucho o Besugo defende o Polga (coitado, diz ele) e (quase) empresta o Beto ao Estrela da Amadora. Enfim, discordo mas que fazer? Por exemplo ler com atenção o dito blog.

Regresso ao fim (ao hoje) e a Lolita com sarcástica prosa sobre o "estado da nação" portuguesa, bate forte e feio no "populismo da coligação, "no Vitorino (a) pensar por Sócrates", no Marcelo "espécie de Pelágio intelectualizado", no "Cavaco Silva" exarcebado, no Sampaio pois "Maquiavel está mais actual do que nunca e Sampaio agradece. Sai pela porta grande, de Janeiro a um ano", e no "que remanesce [pois] são bloquistas e populares, coloridos e inconsistentes, activistas dos gritinhos ensaiados e das patetas lições de vanguardismo e/ou de reformismo".

Bela prosa. E até ironiza "Mas em política importantes são os fins, não os meios.". Assim de repente parece que não fica pedra sobre pedra, é malhar nesse Estado da Nação. Como convém, não há nada como os livre-pensadores.

Depois sigo ecrã abaixo, direcção dos dias passados, e ei-la, súbito teorizando que "Mas em política importantes são os fins, não os meios.". Blogando assim "Fidel é um ditador, mas não é um mau ditador: é um ditador puro. Com o que isso tem de mau, também. Forcem-no, nada conseguem. Respeitem-no, reparará erros".

Ah, afinal é isso! (volta-se ao post acima e, claro, claro, faltava algo, aquele algo.). Não há dúvida "Maquiavel está mais actual do que nunca..." como afirma. Vê-se, com esta retórica.

Fico-me com esta, a da semana. Fidel, o Puro. Os princípios bons e os meios que se lixem. E depois, do cimo de tanta moral, de tão bons princípios toca de dar porrada nos outros. Impuros, claro está. Que coisa...Passo.

publicado às 12:42


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