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O Povo na Televisão

por jpt, em 20.04.15

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 ... "a televisão tornou-se em definitivo a fanfarra do homem comum. Em vez de alguém dizer ao Zé Ninguém o que ele devia escutar, tratava-se agora de escutar o Zé Ninguém (...) o homem sem qualidades elitistas.". Um texto muito interessante de Eduardo Cintra Torres: "O Povo na Televisão", publicado originalmente em 2010 no livro "Como se Faz um Povo" (organização de José Neves, edição Tinta da China) e agora disponibilizado na conta do autor na rede Academia.edu.

publicado às 09:13

Começo do CONLAB 2015

por jpt, em 02.02.15

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Em sessão na reitoria da Universidade Nova de Lisboa abriu ontem o CONLAB 2015, a 12ª edição do congresso luso-afro-brasileiro de ciências sociais decorrida nos últimos 25 anos. Logo para começo deu para que conhecesse eu o edifício, do qual já ouvira falar, uma imposição bem esgalhada, obra do Guli e do Manuel Aires Mateus e que lhes valeu o Valmor. Boa coisa, ainda que sem abrigo para fumadores, e com uma belíssima sala de conferências (Salão Nobre?, como se chamava dantes?). Valeu a visita, ainda que me tenha ficado no piso térreo e seus arrabaldes. Espero que um dia possa subir o elevador.

 

Há quem torça o nariz a estes congressos académicos, e às vezes também eu, que aos 50 anos estou apenas 4º congresso da minha vida. Porque têm uma dimensão convivencial, turística (uma pobre ética laboral, que impercebe ser isso um factor fundamental do enriquecimento intelectual). E porque alimentam uma visão quantitativa da reflexão (quantos "papers" - o pobre jargão tecnocrático - escreveste este ano?), essa sim questão importante mas que não se dirime barafustando com a existência destes espaços de intercâmbio profissional. Discorde-se pois desse altaneiro menosprezo pela actividade congressista, inócuo pois alheado das questões fundamentais.

 

Este Conlab é, à partida, um sucesso: mais de 1500 participantes locutores, cerca de 150 grupos de trabalho, e isto apesar da ausência dos colegas angolanos, de súbito alquebrados pelo "choque petrolífero" ali acontecido, e dos moçambicanos, estes defrontando a tradicional falta de fundos. Em assim sendo torna-se evidente, e isso foi referido por vários presentes, em particular pelo conferencista Sousa Santos, que a continuidade significante deste tipo de eventos tem que afrontar a assimetria de acesso a recursos entre as diversas comunidades profissionais. De qualquer forma é assinalável a pujança de um evento cíclico que vem reunindo profissionais das ciências sociais dos palop e do pelop, combatendo a constante afronta a este tipo de saber por parte do senso comum mediatizado mais reaccionário (independentemente do tipo de vestes ideológicas com que os adeptos do "cientismo" se ornamentam) e por parte de alguns poderes políticos.


A inauguração foi rica em significados, por algum do explícito e por muito do implícito. A sessão protocolar, vasta em discursos e orlada por folclore, tornou-se matéria-prima para breve ... "paper". As costumeiras, ainda que enviesadas, referências aos "descobrimentos", ao "império", à "história comum que nos une". Vai levar décadas, gerações, até que nós, portugueses, nos expurguemos desta visão de "nós" próprios. O cúmulo foi o episódio "danças e cantares", um grupo de jovens tamboristas e dançarinas (uma batucada, dir-se-ia no tempo do Marechal Carmona) afrodescendentes acompanhados de um músico fadista, um pretenso multiculturalismo com que a organização portuguesa recebeu os participantes nacionais e estrangeiros. Assim como se em Maputo recebêssemos um congresso com um grupo musical da Escola Portuguesa de Moçambique mesclado com um timbileiro de Zavala e se tocasse música de Freitas Branco. Esta candura que se julga multicultural é mesmo o sintoma do mal-estar com a história, como se uma mácula identitária de irreflexão construída, presente em alguns nichos portugueses, e tanto também no campo das ciências sociais. Pois, como diz o sábio povo, "em casa de ferreiro espeto de pau ...". Sei que as duas décadas de Moçambique, parte das quais a aturar a sub-intelectualidade socialista portuguesa, me tornou muito sensível a esta auto-incompreensão patrícia, mas já vai sendo tempo, em 2015, da "gente" se pensar a sério.

 

A conferência de abertura foi muito significativa. Carneiro da Cunha, antropóloga brasileira que eu desconhecia e a quem os meus colegas muito apreciam, desaproveitou a ocasião, entendendo-a como espaço para uma charla introdutória à diversidade cultural, sob postura ética (mas, pior do que tudo, chamando "ciência" aos conhecimentos empíricos, o maléfico "autoctonismo-indigenismo" ideológico do qual urge libertar-nos), como se se estivesse a abrir um curso de licenciatura. Esta parte do meu diário é antipática mas é também política. Pois este tipo de desaproveitamento, por simpático que pareça, pois alimentado do "exotismo", reforça a sensação de irrelevância social da antropologia face às outras disciplinas, e isso influencia o acesso a recursos, humanos, económicos e até estatutários. E é isso mesmo que notei no discurso de um  dos presidentes das instituições organizadoras, a agradecer aos colegas do seu instituto que organizam o evento, nomeando-os, e a nisso elidir o nome dos antropólogos tão cruciais nesta enorme tarefa. Não se resume isso a uma qualquer malvadez pessoalista - "coisas lá entre eles, lisboetas", as mesquinhas tricas no eixo da Junqueira (ISCPS) às Forças Armadas (ISCTE/ICS), passando pela Berna (Nova). Para quem está de fora, num evento ritual internacional de cariz tão multidisciplinar, só pode ver nessa elisão o enquistamento epistemológico, as compitas disciplinares, a anti-ciência, em suma, o hábito estratégico da desvalorização da antropologia.

 

Sousa Santos também falou, brevemente, um rescaldo deste quarto de século, fazendo um apanhado das diferenças e similitudes contextuais entre o momento do primeiro congresso (1990) e agora. Natural que assim o fizesse. Há muitos que não o apreciam (e outros tantos que o idolatram, já agora). Mas, e independentemente do que se possa pensar das suas ideias muito revolucionárias (que eu me abstenho de comentar), o certo é que este espaço internacional profissional nasceu e cresceu dos seus esforços, e da sua equipa. Criticáveis algumas das suas ideias? Sim, decerto. Mas louvável, e muito, esta iniciativa, esta vontade de abrangência e de estabelecimento de conexões. Ontem alertou, e muito bem, para as diferenças de capacidades económicas entre os diversos contextos nacionais quanto às ciências sociais, e o quanto isso desequilibra estas participações, e referiu a rígida estratificação sociológica na prática científica nos países africanos. Recordou o peso das ditaduras, e das suas heranças no contexto das ciências sociais: o Estado Novo, o colonialismo, a ditadura brasileira. Mas há uma higienização no seu discurso, talvez não só "en passant", um "us and them" que perpassa. Pois as sociedades africanas (e suas práticas científicas) foram apresentadas como se apenas pós-coloniais. E se as ditaduras europeia (e sua emanação colonial em África) e americana são vistas como cientificamente influentes porque não referir as influências das autocracias (para não dizer mais) nos estados africanos? Mas o que da sua comunicação mais retiro é o seu remoque: esperaria que em 2015 o congresso apontasse para um reflexão sobre os 40 anos das independências dos países africanos. As efemérides servem para isso, para chamar a atenção reflexiva. Mas o pendor luso-brasileiro, sociologicamente determinado, esqueceu isso. Não ele, e isso ficou-lhe, acho, muito bem.

 

Borges Coelho fez uma rica intervenção. Uma análise do processo das ciências sociais em Moçambique nos 40 anos nacionais. E da sua articulação/confronto com o "campo político" e também, nas últimas décadas, com as pressões do mercado. Nisso desmontando a ideia de um processo linear de afirmação e autonomização de um "campo científico" - uma ideia que grassa, e que nada mais é do que um avatar da crença no "progresso". Foi uma belíssima intervenção que decerto será publicada e que deverá ser lida pelos profissionais, um documento para reflexão. Pontapeou ainda os malefícios para a ciência social, contruída no uso da língua, da trapalhada colonial do Acordo Ortográfico.

 

E terminou, em grande, evocando António Quadros (Grabato Dias, Mutimati Barnabé João), como exemplo da interdisciplinaridade frutífera para pensar e imaginar o mundo - pedagogo, cientista, empirista, poeta, artista plástico, cidadão livre. Recordando-me a ideia de que o silêncio sobre o extraordinário António Quadros (e a sua ileitura) é o sinal mais evidente do défice cultural, de modismos e escaparates feito, em Portugal e em Moçambique. Mas não só aí. Vale sempre ouvir Borges Coelho. Ontem ainda mais.

 

Post-scriptum: no fim houve um beberete, sempre simpático. Num país em que a produção de vinho tanto tem melhorado nas últimas décadas, e onde se adquire vinho tinto muito bebível a preços muito acessíveis, é espantoso que se sirva uma zurrapa daquelas, imbebível literalmente falando. O AICEP ou uma qualquer junta de turismo ou de produção vinícola não pode ajudar quem organiza eventos internacionais destes, bons para promover a exportação de vinhos e quejandos?

publicado às 09:23

2015: política

por jpt, em 02.01.15

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Começo o ano com (re)lendo o grande Raymond Boudon (a breve súmula mais do que recomendável "O Relativismo", Gradiva, 2008). A sua usual pertinência, sempre antipática para o aconchego constitutivo dos grupelhos de boas-causas: 

 

"... a compaixão é frequentemente a pior das conselheiras políticas." (p. 39).

 

A não esquecer no ano que aí vem.

 

 

publicado às 11:20

Os grafitis

por jpt, em 10.11.14

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O lamentável affaire Análise Social vai evoluindo. Um erro grave do director da instituição, em verdadeira falha democrática. Pois a democracia é mesmo isto: temos que aceitar aquilo de que não gostamos e o que com que discordamos, não há volta a dar-lhe. Desde que seja legal, claro. E, depois, protestamos e/ou explicitamos o nosso apartar de águas, se realmente acharmos necessário. Ou produtivo. Por isso mesmo se gerou um protesto público de cientistas sociais que já conta com imensas assinaturas de vários países: está aqui. Fui ver e lamentei não ver nenhuma assinatura de colegas moçambicanos, talvez por desconhecimento, talvez por desinteresse com as coisas lusas (eu não posso assinar, pois ali se requer a filiação institucional e estou desempregado).

 

Mas enfim, erros há sempre, leio no Público que é provável uma decisão colegial interna no Instituto de Ciências Sociais que faça sair a revista. Melhor exemplo de funcionamento institucional democrático não haveria: decisão errada, protesto público, consulta colegial, reversão. Pareceria um manual de ciência política.

 

Entretanto vi uma série de colegas (e alguns dos meus melhores amigos) partilharem imensos "grafittis" (assim, em estrangeiro como é aqui usual) portugueses de incidência política, adversos ao governo, aos capitalistas e a estes banqueiros que assaltaram o país (e esta vai sem ironia). É normal que assim seja, que assim façam. A gente não tem outra forma de olhar o real, temos que o seccionar (bisturizar, gosto de dizer), de escolher o que nos parece relevante para o que queremos dizer. Mas tem riscos, isto de tomar a parte (a "partinha") pelo todo.

 

Mas para além dessas questões epistemológicas, e porque solidário com a causa democrática - e ainda por cima antigo aluno de João Pina Cabral, o director da revista atingido por esta cena toda, por quem tenho muito respeito intelectual e também amizade, a possível entre quem se vê de década a década  - saí às ruas lisboetas com o meu blackberry para captar imagens para utilizar neste protesto em rede, mostrando os grafitis (assim, sem duplo "t") políticos que preenchem a cidade denotativos da repulsa popular pelo avatar neo-liberal que nos domina.

 

Só encontrei coisas destas, pura poluição visual, que emerda Lisboa e arredores.

 

Decerto que o meu bisturi analítico deve estar embotado. Ainda assim partilho as imagens. A minha maneira de deixar um abraço ao director da Análise Social. E de expressar o meu apreço pelos órgãos colegiais do ICS quando, quando repito, tomarem a única decisão possível.

 

Quanto à cidade continuará cagada com vem estando. Até porque estas demonstrações pictóricas são sumamente significantes, identitária e artisticamente. E porque, como dizia o Bloco de Esquerda quando existia, "é proibido proibir".

 

publicado às 12:31

O tédio

por jpt, em 31.10.14

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Apanho alguns livros preciosos a meros 3 euros cada, diz-me a livreira ("Ler Devagar", na Fábrica Lx [nome oficial em inglês,claro, para ter "pinta", ser "cool"]) que devido à falência da distribuidora. O mal de uns é o bem de outros, por isso e assim venho com alguns, este um desses. Transcrevo um excerto, que me toca por me ser tão actual nesta minha mudança biográfica, o caldeirão aqui:

 

"A cultura pós-moderna, diferentemente da moderna, não é crítica nem rigorista, é performativa e transgénica, híbrida e permeável, quase já só tem corpo e sexo. O resultado: um enorme tédio, porque não se pode ir mais longe do que o corpo, e porque a banalização do gesto pretensamente extremo nos deixa cada vez mais indiferentes." (42)

 

publicado às 15:56

O "bom gosto"

por jpt, em 30.10.14

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Nos finais dos anos 80s o filme Pato com Laranja, uma coisa absolutamente anódina, foi censurada na RTP televisão estatal, por motivos do gosto directivo e de temores de ofensas à moral pública. A gente lembra-se disso de vez em quando, hoje por exemplo, mostra do quanto mudaram os costumes e de como há gente ridícula que ascende a postos - gente de quem rapidamente esquecemos os nomes (quem seriam os tipos que interromperam a difusão do filme? ...). Mas que, enquanto podem e enquanto os deixam, vão subsistindo, influenciando, manobrando. Neste pequeno registo-regime dos grupelhos de interesses, modus vivendi nacional.

 

Alimentam-se, sempre, do medo alheio. Que, como bem sabemos, abunda.

  

 

Fica aqui um bocadinho do rabiosque da Vitti - para dar hoje alento aos cientistas sociais portugueses.

publicado às 00:17

Diário belga (2): grafitos

por jpt, em 29.10.14

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É o meu primeiro fim-de-semana em Bruxelas, algo frio ainda que mo digam caloroso, e é dia da bicicleta, dia sem carros. Saímos, calcorreamos um pouco até Montgomery (em versão estátua lá está o general, qual nosso Wellesley, dito também Wellington), avançamos até ao acolhedor Parque do Cinquentenário, encimado pelo Arco do Triunfo e edifícios adjacentes, um conjunto-calhau imponente no tamanho e desengraça.

 

Nos dias anteriores, que cheguei na terça, tenho caminhado por aqui, supreendido com a afabilidade das pessoas (talvez porque vim arrepiado com a rudeza lisboeta, confesso), agradado com a limpeza da cidade, não impolutamente ascética, mas vivida com elegância. Também das suas paredes, ainda que lá mais para os arrabaldes na via do empobrecimento encontre alguns, parcos, resquícios do desnorte dito afirmativo.

 

Aqui já no parque, no "arco triunfal" da colonial Bélgica (qu'aquilo é de 1880, do cinquentário da independência do país), entre os tantos passeantes que cruzam o marmóreo edifício noto, ainda ao longe, esta mancha. Estanco. É, nesta Brasília da Europa, a capital administrativa da UE, o primeiro traço português que encontro. O escarro grafitado ... "slb" em vermelho vivo. Arrepia-me, tanto como se outro qualquer clube note-se. Resmungo-o para a família, e para os amigos que nos ombreiam. Aproximo-me, telemóvel na mão, registando. 

 

Ali, no impoluto monumento, entre o aprazível prado que é o grande parque, vou encontrar mais resquícios dos meus patrícios, mais ditos grafitados. Fotografo-os, enojado com as minhas gentes. Os boçais que por aqui andaram. E eu não terei sido o primeiro português aqui a passar, decerto que avisadas foram instituições portuguesas, as quais poderiam tratar, em registo de afabilidade, de se oferecerem para limpar isto (o próprio Benfica, congenerizando-se com o Anderlecht; a Câmara de Lisboa, ainda que  o seu presidente navegue numa cidade grafitada, e ele próprio induza esta "expressão artística"; até a secretaria de estado da cultura, se por acaso ainda subsiste). Não como se substituindo-se aos de lá, apenas mostrando que nem tudo nem todos somos assim.

 

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Já o disse, é o dia sem bicicletas. Passearemos todo o dia, por esta Bruxelas central. Sem grafitis, ou grafitos ou lá como gostam de dizer. O único lixo que encontro é este, o dos patrícios que se sentem "livres", livres de se expressarem, de serem significantes. Sendo, realmente, insignificantes. Como insignificam aqueles a quem foi delegado o poder de lhes balizar a "expressão" legítima.

 

NOTA: Este postal estava em "rascunho". Coloco-o hoje quando tomo conhecimento da inaceitável retirada de circulação de uma revista "Análise Social" devido a incluir um artigo sobre grafitis em Lisboa. Mas tendo consciência de que se esta atitude é completamente contrária ao "ethos" científico e democraticamente errada temos que nos perguntar, até com acinte, sobre esta tendência analítica, tão recorrente: a de bisturizar o real social para dele retirarmos os conteúdos que nos permitam panfletizar os nossos propósitos ideológicos. Mas atenção, isto, este mero panfletarismo (típico do esquerdismo-providência português) é denunciável. Até censurável - no sentido de criticável. Mas nunca censurável - no sentido de apagável. 

 

Pois para apagar há muito. Este lixo visual que cobre Portugal. E, já agora, a infecta mancha colocada no monumento estrangeiro por uns imbecis que levam a nacionalidade portuguesa.

 

 

 

 

publicado às 14:57

Dia do professor moçambicano

por jpt, em 12.10.14

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Hoje é o dia do professor moçambicano. Por isso mesmo, para os meus colegas, agora distantes, que se possam interessar aqui deixo um programa televisivo holandês (legendado em português), algo sumptuoso: "O Belo e a Consolação", 23 entrevistas feitas a grandes mestres, provenientes de várias áreas da reflexão. Todos ali a distribuirem material para que possamos pensar. No último episódio um debate alargado, precioso. Espero que os que aqui passem se agradem com esta partillha:

 

[George Steiner]

[Wole Soyinka]

[Stephen Jay Gould]

[Roger Scruton]

[J. M. Coetzee]

[Vladimir Ashkenazy]

[Edward Witten]

[Gyorgy Konrád]

[Martha Nussbaum]

[Tatjana Tolstaja]

[Gary Lynch]

[Leon Lederman]

 

[Karel Appel]

[Simon Schama]

[Jane Goodall]

[Yehudi Menuhin]

[Rudi Fuchs]

[Richard Rorty]

[Rutger Kopland]

[Elizabeth Loftus]

[Catherine Bott]

[Germaine Greer]

[Dubravka Ugresic]

[Debate Final]

publicado às 10:24

 

Uma entrevista de Richard Price, fundador da Academia.edu, feita há alguns meses quando a rede tinha sete milhões de inscritos. Bem interessante sobre o processo científico e sua dimensão económica e editorial. Passados alguns meses, em Junho passado, o número cruzou os 10 milhões.

 

(Na coluna da direita ligações para nossos [Ana Leão, Fernando Florêncio, José Teixeira e Vera Azevedo] perfis naquela rede).

publicado às 16:00

O futebolismo

por jpt, em 15.05.14

 

 

 

Esta coisa do futebol tem piada, mostra muito vazio. Mas mostra mais: a incapacidade de absorção geral dos bons produtos das ciências sociais em Portugal. Apanho blogais e facebuqueiros que se desunham em afixar notas sobre o "seu" Camões, o "seu" Graça Moura, o "seu" Torga, o "seu" Manuel da Silva Ramos, a "sua" Fiama Hasse Pais Brandão (que nome magnífico!), o "seu" Rodrigues dos Santos, o "seu" Agualusa, a "sua" Natália Correia, o seu "etc.", completamente opacos à leitura das ciências sociais (ainda que, presumo, comprem os livros editados pelo Pingo Doce).

 

Cada vez que gozo com o Benfica ou o Porto (o qual, infelizmente, não me dá grandes razões para gozar) lá me aparecem conhecidos e desconhecidos a exigir-me uma "ética nacionalista" ou, mesmo, uma "ética nacionalista pública" (vícios privados públicas virtudes nacionalistas, exactamente assim). Técnicos, tecnocratas, intelectuais, funcionários, académicos, pedagogos, empresários e empregados, gente mais ou menos letrada. Todos versando, de forma mais ou menos abrupta, sobre a necessidade de defender e apoiar o que é português no estrangeiro, um cerrar fileiras. Um nacionalismo face ao estrangeiro, qual reacção ao Ultimatum ou um ombrear com o Mestre de Aviz. A bola como produtora de uma unicidade nacional indiscutível, subordinada ao irenismo. E, por vezes, um seu alastrar até à solidariedade radical ("torcer") com tudo que emana do ex-Império, um fluído tardocolonial disfarçado de "amizade" que as pessoas não entendem que exalam.

 

Há um ano meti aqui um desabafo, em registo ligeiríssimo, sobre como ver isto no eixo de uma ritualização das diversidades internas, nem-sequer-conflituais. Nada de particular à sociedade portuguesa. Via que não esgota, claro, os termos em que se pode olhar para o futebol (ou outros grandes desportos), enquanto modalidade de construção da nação, da naturalização do nacionalismo. 

 

A trapalhada do Euro-2004, que fez explodir este futebolismo, este trogloditismo nacionaleiro vivido através do jogo da bola, deixou alguma legado. Os estádios, alguns deles verdadeiros "elefantes rosas", construídos para alimentar a cleptocracia socialista portuguesa.

 

Mas deixou algumas pequenas coisas interessantes, brotadas naquele contexto. Este é um exemplo: "A Época do Futebol. O Jogo Visto Pelas Ciências Sociais", organizado por Nuno Domingos e José Neves (Assírio e Alvim, 2004), uma colectânea de textos olhando a história social do futebol e suas agremiações em Portugal, reflectindo como é utilizado para a construção do tal nacionalismo, como in-discutidor do real. Textos discutíveis, como é normal, contextualizáveis. Mas produtores de conhecimento. Sobre a questão da bola. E, muito mais importante, sobre a questão da nossa relação com a bola e do que ela comporta.

 

Em vez da trapalhada furibunda da futebolada verbal, da ética de pacotilha que agitam, os locutores poderiam ir ler um bocado. Até podiam "partilhar" no facebook, colectar uns laiques e tudo, até mesmo um ou outro comentário.

 

Não os "curará" (a mim não curou) da paixão clubística, do ardor futebolístico. Não lhes diminuirá (a mim não diminuiu) o patriotismo. Não os tornará (a mim não tornou) melhores pessoas. Mas atrapalhar-lhes-á a convicção no asneirar [a falta que faz a palavra "asneirame"].

publicado às 15:15

Haddock e os flibusteiros

por jpt, em 26.03.14

 

 

"Mais-velho, por que te irritas(te) tanto?" perguntam-me colegas-amigos, até incompreendendo o meu haddockismo espontâneo, como se ontológico. E eu, ali de boca seca, depois de tanto perdigotar e sem Loch Lomond à mão de semear, perdão, de beber. Assim sem conseguir meter em palavras a ira diante dos flibusteiros engalanados. O estatuto tudo permite?

 

"Mais-velho, por que te irritas(te) tanto?", trago para casa. E os ecos da "lecture" que acabo de receber, como se dela necessitasse, sobre a malevolência colonial de "vocês, portugueses", para além da "nossa verborreia". Enquanto resmungo sobre isso de intelectuais a manipularem o sentido da iconografia (como posso eu dizer a um aluno que não deve plagiar se lhe meto à frente uma aldrabice fotográfica?) para que tudo caiba nas suas vontades e argumentos, vou gaguejando.

 

"Mais-velho, por que te irritas(te) tanto?", trouxe para casa. E lembro-me da causa. Já a havia escrito no ma-schamba, há anos, neste postal sobre um livro de Katherine Mansfield. Onde encontrei, entre outras coisas, a "Descrição do ambiente pequeno-burguês alemão ... dissecado com ironia cruel que chega ao sarcasmo. Não lhe perdoa o arrivismo de ideias e maneiras ... E o grosseiro preconceito anti-britânico (a autora é neo-zelandesa e obviamente ali assimilada à Grã-Bretanha), sempre expresso na rudeza, até inconsciente, dos pequenos actos e ditos - denunciando o vigor do germanocentrismo, que logo provocaria a guerra mundial."

 

Pouco interessa as nacionalidades dos vícios de pensamento. "Mais-velho, por que te irritas(te) tanto?". Por me confrontar com o facto de que não tenho a perícia e a argúcia que Mansfield teve para borrar com sarcasmo os arrivismos flibusteiros. Só por isso. Resta-me, assim, o perdigotar.

publicado às 15:48

As ciências em Portugal

por jpt, em 26.01.14

 

 

Isto da "necessária ligação da ciência com o mundo real", com a "produção" e a "indústria", bem como isso da "inutilidade" das "ciências sociais", é conversa antiga, e bem para além de Portugal. Muita gente a toma por "evidência" ("é assim mesmo"). E é um discurso que pasta na verrina contra os doutores - "somos um país de doutores" sempre se resmungou no Portugal de tão poucos doutores -, algo muito devido à cagança doutorista dos sôsdotôres, esta também possível pelo facto de estes serem (relativamente) poucos. Por isso a actual remodelação dos custos e procedimentos com a ciência em Portugal não traz argumentações novas nem verdadeiramente surpreendentes - mesmo o historiador Rui Rocha invectivando o despesismo (que soa sempre bem) e o clientelismo político-científico (se calhar com alguma razão) quando considera que o investimento científico produz uma sociedade obscurantista (algo que tanto chocou tantos ouvintes) é uma "actualização" pouco inovadora do (tão rico, se visto na sua densidade) discurso "Counter-Enlightement". Sim, há alguma razão na oposição ao "produtivismo" científico, com a avaliação quantitativa e com algumas temáticas bizantinas (e neste mundo de ideologia identitarista o que não faltam é, literalmente, pesquisas bizantinas). Mas é (também) disso que se faz a ciência.

 

Há gente muito mais capaz para dissertar sobre isto. Mas deixo algumas ligações a textos sobre a polémica actual, com particular atenção à crítica contra a (utilidade e pertinência) das ciências sociais, também de quando em vez elevada em Moçambique. Dois exemplos de que o sarcasmo, por vezes, pode ser uma boa arma: Salvaguardo já alguma pequena incorrecção mas ouvi isto na rádio (sabe o que é? aquele aparelho que tem no carro que lhe dá as notícias e o trânsito? já ouviu falar de Maxwell? Foi a investigação dele na teoria do campo eletromagnético que deu origem à invenção do rádio, sabia?), escreve, letal, a astrónoma (e analista de negócios) Paula Brochado ao ministro da Economia. No Macroscópio está a transcrição do texto de Diogo Ramada Curto, publicado no Público, e a acertar no alvo. 

 

No Público a jornalista Ana Cristina Pereira deixa um artigo sobre as ciências sociais, que permite reflectir para além das evidências (já agora, um dos papéis das ciências sociais é esse).

 

O populismo que reinou em Portugal nas últimas décadas tornou o país num "comboio descendente", parece(u)-me óbvio. Desesperadamente óbvio. A memória é muito selectiva. Os socratistas que ainda andam por aí (louvando os dotes regeneradores do PEC 4, por exemplo) fazem por esquecer que "crise global" explodida o caudilho ainda queria fazer TGVs e aeroportos, e disso não falam, que não convirá ao "mind-lifting" que pretendem.

 

Mas uma coisa é tentar tornar sustentável um modelo civilizacional, entre os constrangimentos internacionais e as pressões clientelares internas. Outra, bem diversa, é o obscurantismo anti-científico. Que brota por lá.

 

 

publicado às 09:09

Em Portugal vão surgindo vários protestos relativos aos concursos para investigação organizados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. São oriundos de diversos júris organizados para o efeito. Tudo denotando que há um grande desnorte, provavelmente a coberto de alguma deriva de austeridade. Inaceitável.

 

Leio agora a reclamação proveniente do júri que se debruçou sobre os projectos de Antropologia (tendo-lhe sido imposta uma modalidade "inovadora", que se poderá, com sarcasmo, considerar "interdisciplinar"). A autora da carta é Susana Matos Viegas, investigadora de gabarito, antiga presidente da Associação Portuguesa de Antropologia. Nesta área é alguém incontornável. Ainda por cima conheço-a há trinta anos, é alguém muito confiável, e também isso me leva a indiscutir as afirmações que produz. O documento está aqui, e o que nele consta é espantoso e triste.

 

Realço, aguçando o apetite dos interessados, algo verdadeiramente inenarrável: "De fa[c]to, sem qualquer consulta aos membros do júri, os resultados da avaliação foram alterados por funcionários administrativos da FCT." Noutros contextos poder-se-ia dizer incrível. Agora, ali lá, é crível.

 

 

publicado às 09:55

A propósito da morte de Eusébio

por jpt, em 21.01.14

 

Começou este 14 com a morte de Eusébio, na data exacta em que se cumpriam três anos do fim de Malangatana, uma triste coincidência a assinalar a partida destes legendários moçambicanos. Muito foi dito e escrito, em regime de luto oficioso e de (justificadíssimos, penso) panegíricos. Passados estes dias os interessados nestas matérias desportivos e dos seus contextos sociais poderão agora dedicar-se à leitura de algo mais contextual. Trata-se do último exemplar, que só agora me chega às mãos, da revista do Centro de Estudos Africanos de Lisboa (o qual, finalmente!!!!, se vai passar a chamar Centro de Estudos Internacionais, abandonando a vetusta e intelectualmente inadequada denominação), o "Caderno de Estudos Africanos". Pois este número está dedicado às "Práticas Desportivas em África" (e basta seguir a ligação, pois os textos são de acesso livre), integrando alguns textos sobre o período colonial e outros sobre a actualidade.

 

Faço esta associação com a morte de Eusébio (e com o interesse recrudescido na sua carreira) por motivos que serão óbvios a quem visitar a revista. Nela constam alguns textos relativos ao contexto de formação do jogador e sua carreira: uma entrevista "Dos Subúrbios da Lourenço Marques Colonial aos Campos de Futebol da Metrópole. Uma Entrevista com Hilário da Conceição", feita por Nuno Domingos (um dos organizadores do volume, conjuntamente com Augusto Nascimento, o qual deixa um interessante texto sobre a história do futebol em São Tomé e Príncipe").

 

Há ainda um outro texto: "Following the ball: African soccer players, labor strategies and emigration across the Portuguese colonial empire, 1949-1975", de Todd Cleveland, dedicado à inserção de jogadores das ex-colónias portuguesas, em particular de Moçambique, no futebol europeu, referindo, é claro, Eusébio. Confesso que não gostei muito, é um texto de tese, ou seja, parte desta e tudo a confirma. Para além de nele habitar essa ideologia (no sentido de "falsa consciência", sim, a la Marx) americana do "one-dropismo", que resulta na desatenção à complexidade identitária (e das barreiras sociais e identitárias) das sociedades colonizada e metropolitana. Empobrecendo, e muito, a análise tentada.

 

Para os interessados na história de Moçambique está ainda um texto verdadeiramente precioso: de Eduardo Medeiros o "Etnia e raça no desporto beirense na época colonial. O caso dos "sino-moçambicanos". Uma bela descrição (o que despertará o interesse dos não especialistas mas amadores da "coisa beirense") assente em argúcia teórica. A ler também pelos que se querem dedicar a estas coisas das identidades (no tempo colonial e não só).

 

Depois há também outros textos, alguns bem interessantes (realço um sobre o desporto na Namíbia colonial da chegada a XX), outros sofisticados mas um pouco forçados (como um sobre segregação racial no actual râguebi sul-africano, que não me entusiasmou apesar da parafernália metodológica).

 

Fica aqui o convite para a leitura. 

publicado às 09:47

Rede de textos

por jpt, em 19.08.13

 

Já aqui referi esta rede social Academia.edu [onde também tenho uma conta pessoal]. Dedicada à partilha de textos académicos ou quase. Tem vindo a crescer e vem sendo reforçada com algumas funcionalidades interessantes, que facilitam a comunicação e até a interacção. E é notória uma crescente participação de colegas moçambicanos, em particular de muitos recém-licenciados. É bom isso, em particular porque num país onde escasseiam as revistas e o acesso livre às bibliotecas informáticas internacionais. 

 

Para mais, na vertente rede social, tem duas grandes vantagens: nada cacofónica; sem ponta de "memeísmo" (indignista ou não).

publicado às 19:47


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