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Heaven's Gate

por jpt, em 14.09.15

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Levei umas décadas para finalmente ver este Heaven's Gate, o monumental flop de Michael Cimino, o filme que lhe custou a carreira (críticas actuais no The Guardian e no The Telegraph). Não me porei a escrever sobre o filme, que não sou cinéfilo para isso, sou só daqueles do "gosto"/"não gosto". Mas assim sai nota d'amador: está lá tudo, daquilo do "maior que a vida" que se pede ao cinema. Muito interessante é outra coisa: o filme aborda um conflito real entre capitalistas (criadores de gado com ligações estreitas ao poder político, e etnicamente correctos [WASP]) e imigrantes paupérrimos (agricultores desvalidos, oriundos da Europa central e de leste [refugiados, dir-se-ia hoje em dia]). Isso, mesclado com a transumância sexual e afectiva da prostituta representada pela belíssima Isabelle Hupert, é absolutamente revolucionário. Se sublinhado pela figura do aristocrata em aliança de classe com os camponeses e tudo isto embrulhado no final infeliz, torna-o objecto ali único, quase um ícone m-l. E mostra como o cinema americano tanto mudou de então para cá. Ou melhor dizendo, desmudou. Pois nem será de imaginar nestas últimas décadas uma grande produção com esta linha, tão pouco ligada ao mito americano.

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publicado às 02:05

Matthew Mcconaughey

por jpt, em 03.09.15

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Matthew Mcconaughey é um actor que vi em comédias levezitas, apanhadas na tv em pleno zapping (ainda hoje o meu canal preferido), dando-lhe pouca atenção. Falta-me jeito para avaliar a beleza masculina - não é um manifesto hetero (straight no linguajar lisboeta actual), é apenas eco dos apupos que as minhas preferências estéticas no que a homens diz respeito provocam nas mulheres de quem sou próximo. Ainda assim achava-o um rapaz bem parecido, com um sorriso traquinas decerto que atraente às proto-balzaquianas d'hoje (aka cinquentonas tímidas demais para cougarices) e a algumas adolescentes mais tardias e menos proactivas. 

 

Agora, de repente, fico fan. Ontem vi um tal de Clube de Dallas onde vai soberbo. E isto na sequência de um folhetim televisivo que acompanhei há meses, absolutamente fabuloso. Daqueles marcos de década a década, acho, como se o Singing Detective, ainda que tão diferente, desta época que cruzamos: o True Detective (agora já não está na moda traduzir o nome dos filmes e folhetins em inglês, ficam no original como dantes os títulos dos discos LPs). Se este último filme lhe permite brilhar o folhetim é glorioso e muito se lhe deve. É, a partir de agora, para os próximos tempos e até ver, "o meu homem". E como recusar o apreço por alguém que, ainda por cima, se casou com uma Camila Alves?! Brinde-se a isso ...

 

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Então fiquem com uma entrevista com o homem, 40 minutos e picos

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publicado às 00:12

O Pátio das Cantigas

por jpt, em 18.08.15

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Fui ver, em app pai de família, apesar das críticas negativas (sempre liguei pouco às críticas de cinema). Agora, depois, nem concordo com muito do que li, há condimentos do filme que me agradam: um feixe de actrizes portuguesas muito bem torneadas e agradáveis à vista, um actor reencarnando Ribeirinho em versão DJ internacional que vai bem - contrariamente a todos os outros, em particular os mais consagrados Cavaco e Guilherme, quase tétricos (o que me desiludiu mas não me surpreende assim tanto, desde José Pedro Gomes e António Feio que não vejo um único actor de humor em Portugal). Também gostei da cor do filme. E do final, a lembrar-me o The Second Best Exotic Marigold Hotel, em versão teatro amador. 

 

O filme é fraquinho, a fazer-me lembrar algumas das comédias fílmicas daquelas décadas de 40 e 50, as "gloriosas" costuma-se dizer quando se esquecem as mais esquecíveis de então. Tem acima de tudo um defeito: o argumento é muito frágil. Desconexo. Se calhar preguiçoso ou apenas destalentoso. E incapaz de esconder que o humor é muito difícil. E que, para o ser, tem que parecer fácil.

 

Vale a pena ir ver? Vi-o no cinema Alvalade (City, chamam-lhe agora, sei lá porquê). O declive da sala é bom. E tem um menu: por 9 euros refeição, bebida e bilhete (eu não comi mas reparei). Why not? Vale bem mais do que um prato de caracóis.

 

É certo que a gente também pode comer qualquer coisa em casa:

 

 

[Esta semana começa um ciclo de Jacques Tati no Nimas: imperdível].

publicado às 09:33

Colonial?

por jpt, em 26.06.15

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É um colóquio académico, coisa internacional aqui em Lisboa. Nada tenho a dizer mas vou visitar, escutar, há até um fim de manhã dedicada a textos sobre a zona de língua macua, antropólogos estrangeiros a falarem, de meus colegas patrícios nenhum na audiência, da disciplina apenas um, eu mesmo. Sorrio, sarcástico: enredados nas questões das "masculinidades", dos transgendeirismos ou destes folclorismos d'agora, desses a fazerem-se ao património unesco, nenhum saiu do gabinete para ir ouvir sobre uma zona onde vivem mais pessoas do que neste Portugal, e numa azáfama de permanências e transformações. Que o mundo é grande como o caraças sabe-o qualquer aldeão que se atreva a ir ver o mar, faltam é aldeões atrevidos lá pelas academias ...

 

 

A sala coloquial está composta, gente de outras disciplinas. Almoço na cantina da universidade, aqueles três euros e tal a que me reduziu este todo desajeito em vida. Uma colega, jovem estrangeira aqui vivendo, simpática e competente, sei-o porque a li e até já ouvi, vinda de outras disciplinas ("prima", posso dizer) senta-se à minha frente, nestes breves diálogos tão típicos destes eventos.

 

Com afabilidade diz-me que me vai lendo, os textos longos na minha conta na rede Academia.edu, e também este palrar no ma-schamba. Agradeço-lhe, até encabulado. E pergunta-me se sou de Moçambique. Eu esclareço-a, que sou português. Ela riposta, que o sabe. Mas não serei eu lá nascido, ou a minha família de lá? Se somos retornados?, sumarizo-lhe. Que não, não sou, nunca lá estive antes de 1994, que os meus pouco por lá passaram e em nada moldaram o "meu" Moçambique, mais do que tudo porque nunca foi verdadeiro assunto lá em casa. Mas, interrogo-a, porque me pergunta isso? De onde lhe vem a dúvida?

 

Sorri, até bonitamente, com elegância, avançando que ao ler-me lhe parece que eu sou de lá, "há qualquer coisa" no que digo e escrevo, talvez vinda daqueles tempos. Sou eu agora que sorrio, repetindo a negação. Percebendo-a mas deixando correr, o tom dela é afável, não há necessidade de discutir, ainda para mais com uma jovem senhora. Mas sei-lhe, é visível, o perfil. O ideológico, frise-se. O desta esquerda conceptual, enredada. Percebo-a, está-me a perguntar se não serei eu um "colonial". Não tanto um "colono" e nem mesmo um "colonialista", que tudo isto que me diz vem com até amizade. Mas, vá lá, não serei eu um "colonial"?

 

Apetece-me responder, claro, mas deixo cair. Deixo passar o momento ainda que logo ali saiba como lhe explicar a coisa. Deixo passar uns meses. E venho esclarecê-la, com o que então me apeteceu dizer. Apelando ao Clint, claro, o Eastwood, o tal tipo de direita. Este de "White Hunter, Black Heart", um filme de 1990 (um ano após a queda do muro comunista, já agora).

 

O filme é uma eulogia, sem dúvidas, de John Huston, a propósito do seu "Rainha Africana" (com o herói Bogart e a deusa Hepburn). Para além das peripécias da realização daquele filme em África, do retrato do idiossincrático realizador e sua relação com o mundo de Hollywood, centra-se na sua paixão pela caça: a personagem hustoniana quer matar um elefante "porque é um pecado" e ele o pode fazer, tem para isso poder, uma cena liminar, excelente.

 

 

Mas há muito mais, numa sublime aparente contradição, o húmus do filme. O avatar de Huston é um democrata, antifascista (retratam-se os anos 1940s). Insulta uma colona inglesa anti-semita (a cena acima), provoca uma desigual luta com um colono racista inglês, por isso sendo espancado - e explicita a semelhança das atitudes, as do racismo nazi e do colono. É, como a minha prezada colega o é dezenas anos depois, um democrata, de "esquerda" ("liberal", dir-se-ia nos tempos lá na América), certo que em tom blasé mas basto empenhado. Depois vai à caça, cria uma ligação com o seu guia. Que conduz, patrão paternalista, à morte. É no fim do filme que Eastwood explicita o título, os tamboristas tamborilando "caçador branco, coração preto". Apesar das boas causas, daquilo de "esquerda", da atitude (e do álcool), da aparente generosidade e solidariedade.

 

É talvez por isso que nunca Clint entra nas notas de rodapé dos "papers" sobre a "colonialidade" ou sobre o "colonialismo". E por isso que a "esquerda" sempre tâo solidária o diz de "direita". E, também, por isso que um tipo que lhe vê os filmes tem qualquer coisa de  ... "colonial".

 

 

publicado às 23:09

Clint, "o faxista"

por jpt, em 09.06.15

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Revi ontem na TV "The Enforcer" (1976), o terceiro filme da série dita "Dirty Harry". Um tipo só e sozinho a olhar na tv para um filme que já viu ene vezes distrai-se e põe-se a barafustar com os tipos que ali o rodeiam. Antes de tudo o filme parece ter envelhecido imenso. Ou por outras palavras, Clint (mesmo que não seja ele o realizador) nunca foi um realista - como o prova a célebre cena do boneco-bebé do último filme, que fez os parvos ulularem. Por exemplo, agora aquelas perseguições a pé, a quererem-se labirínticas ao som de um smooth free-jazz, não provocam qualquer frisson, apenas o carinho que a visão de uma antiquíssima paixão provocará. Já para nem falar dos tiroteios ou da rigidez do próprio Harry quando se movimenta ...

 

Depois um tipo fica a olhar a ideologia que ali anda. O lonerangerismo, a coisa western, que é uma constante do cinema americano e do individualismo constitutivo do país. Nisso o culto do Magnum 44, arma contra os patifes, contra os criminosos de delito comum (street wise) mas também - indirectamente - contra os possidentes, burocratas e políticos (white-collar). Uma deriva populista? A ver vamos.

 

Qual o verdadeiro conteúdo deste filme (de 1976, repito)?

 

a) Harry Callahan, o dirty inspector, perde o seu parceiro, este assassinado (os duetos policiais são estruturantes, tal como o são em alguma banda desenhada). Recebe, contra a sua vontade, uma mulher como parceira (protagonizada por Tyne Daly, que depois se celebrizou num folhetim policial). Destrata-a, misógino machista, vil. E logo (no espaço de uns breves dias) criam uma parceria crucial, celebrando o pundonor e competência da nova inspectora, heroicamente martirizada no final, sem que tenha perdido a sua vertente feminina (tão expressa nas vestes que usa) - ou seja, a extrema competência sem nunca precisar de mimetizar o estereótipo masculino. Quer-se mais, ainda para mais num "filme de género", como gender bias? Este, ainda para mais daquele tempo e no registo que assume, é o filme radicalmente mais feminista que já vi.

 

b) Os criminosos reclamam-se Força de Ataque Revolucionária do Povo, etc e tal. Na prática são uns revolucionários de pacotilha, em busca do vil metal, white trash se se quiser. Os burocratas e políticos que comandam a polícia logo acusam um grupo de reclamação dos direitos negros (o filme é dos anos 70s, birepito). Cujos membros Clint/Harry já contactara, com a particular falta de elegância que o caracteriza, e já com eles se associara (uma associação que continuará no filme seguinte da série), percebendo-os como firmes contestatários mas não criminosos (enfim ... alguns desvios de mobiliário, uma pequena posse de droga, coisas de homens do mundo), e inocentá-los-á. Dá para compreender? Não só a dimensão "racial" do texto explícito como também a ideológica?

 

40 anos depois? O Clint é "faxo", dizem-me os/as enfeitiçada/os com o falo Magnum 44, como se este realidade falocrática e violadora ... Que pobreza. Até erótica.

publicado às 17:36

No feedly (35)

por jpt, em 06.06.15

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Moçambique 40 anos 4 fotógrafos, no Alexandre Pomar.

 

A (última) carta de Virginia Woolf, no O Homem que Sabia Demasiado.

 

O Acordo Ortográfico e sua ideologia, ditos no Abencerragem.

 

A (já longa) série de textos agregados sob o título "Grécia Antiga" no Delito de Opinião, cruel iniciativa de Pedro Correia lembrando o vácuo patois dos opinadores portugueses dedicados ao estado da arte europeia. Imperdível.

 

Sobre isto do blogar, no Depressão Colectiva.

 

Bravura, no Ana de Amsterdam.

 

Tolerância é inteligência, pois "A pior coisa que uma pessoa pode fazer pela sua postura, é entregá-la empacotada como um julgamento moral", no Cantar das Miríades.

 

e

 

O corpo barroco de Orson Welles, uma hora de conversa com Lauro António sobre o cineasta, no À Pala de Walsh.

publicado às 18:06

Clint Eastwood, 85

por jpt, em 31.05.15

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Leio que hoje é o seu 85º aniversário, e logo ele que há décadas vem falando (filmando) como ninguém sobre o envelhecimento. Ao longo dos anos aqui lhe dediquei alguns modestos postais. De todos os vivos é o meu cineasta preferido e, também, o meu pensador preferido. Tanto que um dia escrevi "E compreendo que nos filmes dele (...) fico feliz, suspendo todo o juizo crítico. Ora, não é isso o amor?". 

 

Segue ele pensando o mundo com uma intensidade e uma densidade ímpares, incompreensíveis para os "bem-pensantes" das ideologias lites e muito para além dos pobres boçais que dele retiram o culto de colts, magnums ou drones. Julgo que a paupérrima apreensão da obra de Clint é mesmo o espelho do superficialismo militante do hoje em dia.

 

Comemoro o aniversário revendo o "Unforgiven" pela enésima vez - vira-o há seis meses e botei sobre isso. E saio, como sempre, feliz. Sonhando-me cavalgando atrás dele, entre esta gente maculada, sem causa, preconceituosa, humana. Pois com alguma centelha ...

publicado às 16:48

No feedly (34)

por jpt, em 30.05.15

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- A apresentação de "Nau Negra" de Fernando Relvas, enquanto não é publicado o livro, no Divulgando Banda Desenhada

 

- Irracionalismo: uma muito interessante reflexão sobre "Uma arquitectura diligentemente empenhada em oferecer ao visitante o êxtase perante a sua própria obesidade.", no A Barriga de um Arquitecto.

 

- Afurika monogatari (1980), de Susumu Hani e Simon Trevor, no À Pala de Walsh: a fazer(-me) conhecer Hani, cineasta japonês.

 

- Luz e Som, um delicioso texto sobre a nossa visão e a nossa audição, no De Rerum Natura.

 

- Atul Gawande: uma ciência com sentido: excerto de uma poderosa reflexão sobre o envelhecimento, no A Dignidade da Diferença: " ...A nossa relutância em analisar honestamente a experiência do envelhecimento e morte agravou o mal que infligimos às pessoas e negou-lhes os confortos básicos de que mais necessitam ..."

 

- The Shooting: viagem ao coração da noite, (Monte Hellman, 1966), um belo texto sobre o filme e sobre o universo western, no À Pala de Walsh.

 

- Eugénio Lisboa Contra o Acordo Ortográfico, no Provas de Contacto.

 

- Populismo Cultural, no O Fragmentário.

 

- Irrelevâncias 6, sobre o hábito de publicar livros de discursos presidenciais, no Herdeiro de Aécio.

 

 

Surviving an Alcoholic, sobre a viuvez no New York Times.

publicado às 10:29

O centenário Orson Welles

por jpt, em 06.05.15

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Hoje é o centenário de Orson Welles. Se se diz que o cinema é (ou deve ser) "bigger than life" Welles foi, e de que maneira, "bigger than cinema". Da sua obra e da personalidade há muito para acompanhar (por exemplo ver este Wellesnet, com ligações e notícias sobre o cineasta). Após a radical autonomia inicial em "Cidadão Kane" foi balizado, estreitado, pela indústria, em conflitos ferozes e que apoucaram a sua obra. A esse propósito será (marginalmente) interessante v(l)er quantos daqueles que agora, a propósito da efeméride, lamentam tais tenazes mas que sempre resmungam contra os financiamentos ao cinema, à liberdade criativa dos realizadores, como sendo luxo social desnecessário. Enfim, contradições do rame-rame opinativo.

 

Aqui deixo dos trechos que mais me marcaram, ainda hoje: esta sequência do meu filme preferido de Welles

 

 

E para corolário a célebre cena de "O Terceiro Homem", súmula de filosofia política que o actor Welles meteu no argumento - e pouco importa se historicamente errada - um momento inesquecível:

 

 

publicado às 11:00

Silverado

por jpt, em 25.04.15

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Será o espelho desta mania de opinar, de assim blogar. Há onze anos (re)vi o Silverado, o western de Kasdan. E resmunguei: "envelheceu, e muito mal". 

 

Tudo isto é mero estado de espírito - acredito que há especialistas, e até em blogs, que opinam com fundamentos. Quanto ao resto é apenas ao sabor das marés da disposição. Pois agora mesmo acabo de rever o filme, aqui sozinho em casa. E (re)gostei imenso. Tem tudo o que um western tem que ter, e mais uns pós de si mesmo para ser único.

 

Mais valia ter estado calado, naquela outra vez. E, decerto, em tantas outras ...

 

 

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publicado às 01:23

Monoteísmo ...

por jpt, em 12.04.15

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O pai mostra à filha esta canção, e ir-lhe-á contar o seu porquê. Que é de um filme muito "incorrecto", uma poliândrica Jean Seberg partilhando vida com dois garimpeiros no wild west, o belo jovem Clint e o velho e magno Lee Marvin. Este, percebendo que o tempo do alegre triunvirato se esgota, decide partir deixando o futuro ao jovem casal. Sai, másculo, mas com aquela amargura consolável pela vida. E canta esta "I was born under a wandering star", um must, um cume ...

 

 

 

O youtube começa ...

 

Pai: ouve isto ...

 

Youtube: orquestra ....

 

Filha: .....

 

Youtube: (canta lee marvin ...)

 

Filha: porque é que já não há vozes assim?

 

Pai (muito reaccionário): porque já não há homens ...

publicado às 01:05

Clint, "Atirador americano"

por jpt, em 23.01.15

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Estreado hoje o "Atirador americano" de Clint Eastwood. É majestoso. É o grande filme sobre a guerra desde que Kubrick se debruçara em "Full Metal Jacket", refutando-a. Há aquela coisa da fantasia realista, que sobre o assunto Spielberg mimetizara nos frenéticos e abissais primeiros minutos do "Soldado Ryan" - mas que destroçara logo de seguida no patrioteirismo de rebuçado do resto do filme. Mas agora Clint, o maior de todos nós, humanos, ultrapassa os discursos alheios. Sim, a realização de cume, de um realismo ríspido, cruel, coloca-nos no palco da guerra, como se seus agentes e não meras vítimas. Mas muito, muitíssimo, mais do que isso, e muito mais ainda do que os filmes de mensagem, ali está uma reconstrução cultural fantástica, um etnógrafo assombroso, o cinema antropológico levado ao inultrapassável, um filme sobre "maiorias indígenas" exagero eu. Diz o herói - e como podem os amantes da Ilíada e da Odisseia refutar os textos actuais sobre heróis, e sua ira até semi-divina? - que luta por "Deus, Pátria e Família"  E nós sabemos, até porque os diálogos logo ali o negam, que o seu "deus" quase inexiste e também que a família se lhe desvanece. Fica, apenas, mas um Apenas maiusculizado, a "pátria", essa que, afinal também canibal, o devasta na guerra, e tão mais aos seus circundantes, desde o irmão à última e esquiva, mas determinante, personagem do filme. É por isso que Clint é não só o Cineasta mas o grande intelectual deste virar de milénio, há décadas a afirmar a ambivalência, a rugosidade e, acima de tudo, as crostas e  pústulas dos valores que perseguimos e afirmamos. Sem que isso tudo implique que os abandonemos. E é essa (sua) adesão consciente à ambivalência que se chama coragem. E é isso que o cada vez mais ancião nos lega, em formato de partilha, constante, filme a filme. 

 

Quem me dera poder bradar "Clint rules". Mas cada vez mais me parece que não, que neste mundo facetado, tantos o tresvêem, impercebendo-o como o verdadeiro iconoclasta de XXI.

 

publicado às 00:22

Cinema colonial em Lisboa

por jpt, em 22.01.15

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Ontem na Cinemateca (Lisboa) uma interessante sessão com quatro filmes intitulada "Colecção colonial da cinemateca". Incluiu o documentário "Um safari fotográfico nas coutadas da Safrique" (1972) e o ensaio "Streets of Early Sorrow" (1963), ambos de Manuel Faria de Almeida, nome crucial da história do cinema em Moçambique. E também Monangambée (1968) de Sarah Moldoror, e o documentário Le Portugal D'Outremer Dans Le Monde D'Aujourd'Hui (1971), de Jean Leduc. Um conjunto muito diversificado de abordagens, uma panóplia de textos e sub-textos riquíssima, entre a adaptação de Luandino Vieira ao propagandismo explícito de Leduc, uma diversidade inclusa nas obras rarissimamente apresentadas do realizador  Faria de Almeida, um percurso profissional exemplificativo dos contrangimentos sofridos pelos autores face aos poderes, em particular os autoritários.

 

Em suma, uma sessão louvável. E que espero prenunciar muitos mais mergulhos neste eixo de produção cinematográfica. O pior foi a seguir. Eu fui em grupo, tendo desafiado um conjunto de amigos, interessados nestas coisas. Outros encontrei lá. Tinha acorrido bastante público, tanto que a sala de projecção foi alterada para uma maior, que albergasse tanta gente. O que demonstra haver um público algo conhecedor da questão e bastante interessado.

 

Ora no final havia um espaço para apresentações orais, o que erradamente julgáramos "debate" (no sentido de momento conversacional). O director da Cinemateca muito bem apresentou os desejos da instituição em alargar esta linha de investigação sobre o acervo cinematográfico em tempo colonial, em articulação com os centros de investigação e as cinematecas dos países ex-colónias. E seguiram-se as intervenções de algumas investigadoras. Confesso o meu incómodo, até desabrido. Estava presente o realizador Faria de Almeida, seria natural que fosse locutor privilegiado - até em modo de homenagem, que tão raramente são os seus filmes visionados, mas não só. Qual quê! Tínhamos visto um conjunto interessantíssimo e variado de abordagens, seria normal que as discutíssemos, seus conteúdos e contextos. Mas, pelo contrário, encetou-se um processo de auto-apresentação, dos respectivos projectos académicos, como se ontem à noite fosse um colóquio, um seminário, um congresso, em suma um painel qualquer ... Não ouvi tudo, ali pelas nove horas da noite, quando uma das académicas iniciou, diante daquele público que cruzara Lisboa no fim da tarde, hora de ponta, para ir ver cinema do tempo colonial, ou seja gente interessada e sensibilizada para o assunto, a leitura de um texto sobre a "importância do arquivo" como se face a uma turma do 12º ano a necessitar de orientação profissional, a gente entreolhou-se e baldámo-nos na via de Campo de Ourique para jantar, em processo que outros incautos pós-espectadores também cometiam, cada um com seu destino.

 

Pode aparentar que estou a resmungar contra as dificuldades dos académicos, por muito competentes que o sejam, em falar fora do seu contexto profissional, em abordar o "público", com ele comunicar. Mas não é isso. Somos gerações, principalmente as ligadas às ciências sociais, profundamente marcadas pela denúncia do etnocentrismo. E um corpo cinematográfico como o visto ontem é matéria-prima magnífica para discutir o peso que esse etnocentrismo tem na configuração do mundo tal qual o vemos. Mas, e apesar do dissecar dos efeitos dessa componente intelectual não estar concluído (em minha opinião nunca o poderá estar, é obrigatoriamente estruturante, mas isso é outra discussão), é tempo de anunciarmos e reclamarmos um outro combate-crítica intelectual, e o legarmos às gerações seguintes: a luta contra o egocentrismo. Este "me, myself and I" amando o espelho, recorrente, transversal, constante. Que ontem foi pungente. A impelir-me esta antipatia, egótica sim, mas quanto muito egodestrutiva.

 

publicado às 12:11

Cinema, filmes e audiências

por AL, em 13.01.15

Avisa-me a net, com algum atraso é certo, que celebramos este ano 120 anos de cinema. Nesta veia comemorativa fui dar ao sítio da Tandem Entertainment que, em jeito de celebração, compilou uma breve história do cinema mostrando o deleite de audiências cinéfilas em diversos filmes. Gostei da ideia e do pequeno filme que dela nasceu.Celebremos então 120 anos de cinema com esta delícia!

 AL

 

publicado às 16:27
modificado por jpt a 8/11/15 às 18:13

2014: filme do ano

por jpt, em 30.12.14

publicado às 21:34


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