Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Colonial?

por jpt, em 26.06.15

clint huston.jpg

 

É um colóquio académico, coisa internacional aqui em Lisboa. Nada tenho a dizer mas vou visitar, escutar, há até um fim de manhã dedicada a textos sobre a zona de língua macua, antropólogos estrangeiros a falarem, de meus colegas patrícios nenhum na audiência, da disciplina apenas um, eu mesmo. Sorrio, sarcástico: enredados nas questões das "masculinidades", dos transgendeirismos ou destes folclorismos d'agora, desses a fazerem-se ao património unesco, nenhum saiu do gabinete para ir ouvir sobre uma zona onde vivem mais pessoas do que neste Portugal, e numa azáfama de permanências e transformações. Que o mundo é grande como o caraças sabe-o qualquer aldeão que se atreva a ir ver o mar, faltam é aldeões atrevidos lá pelas academias ...

 

 

A sala coloquial está composta, gente de outras disciplinas. Almoço na cantina da universidade, aqueles três euros e tal a que me reduziu este todo desajeito em vida. Uma colega, jovem estrangeira aqui vivendo, simpática e competente, sei-o porque a li e até já ouvi, vinda de outras disciplinas ("prima", posso dizer) senta-se à minha frente, nestes breves diálogos tão típicos destes eventos.

 

Com afabilidade diz-me que me vai lendo, os textos longos na minha conta na rede Academia.edu, e também este palrar no ma-schamba. Agradeço-lhe, até encabulado. E pergunta-me se sou de Moçambique. Eu esclareço-a, que sou português. Ela riposta, que o sabe. Mas não serei eu lá nascido, ou a minha família de lá? Se somos retornados?, sumarizo-lhe. Que não, não sou, nunca lá estive antes de 1994, que os meus pouco por lá passaram e em nada moldaram o "meu" Moçambique, mais do que tudo porque nunca foi verdadeiro assunto lá em casa. Mas, interrogo-a, porque me pergunta isso? De onde lhe vem a dúvida?

 

Sorri, até bonitamente, com elegância, avançando que ao ler-me lhe parece que eu sou de lá, "há qualquer coisa" no que digo e escrevo, talvez vinda daqueles tempos. Sou eu agora que sorrio, repetindo a negação. Percebendo-a mas deixando correr, o tom dela é afável, não há necessidade de discutir, ainda para mais com uma jovem senhora. Mas sei-lhe, é visível, o perfil. O ideológico, frise-se. O desta esquerda conceptual, enredada. Percebo-a, está-me a perguntar se não serei eu um "colonial". Não tanto um "colono" e nem mesmo um "colonialista", que tudo isto que me diz vem com até amizade. Mas, vá lá, não serei eu um "colonial"?

 

Apetece-me responder, claro, mas deixo cair. Deixo passar o momento ainda que logo ali saiba como lhe explicar a coisa. Deixo passar uns meses. E venho esclarecê-la, com o que então me apeteceu dizer. Apelando ao Clint, claro, o Eastwood, o tal tipo de direita. Este de "White Hunter, Black Heart", um filme de 1990 (um ano após a queda do muro comunista, já agora).

 

O filme é uma eulogia, sem dúvidas, de John Huston, a propósito do seu "Rainha Africana" (com o herói Bogart e a deusa Hepburn). Para além das peripécias da realização daquele filme em África, do retrato do idiossincrático realizador e sua relação com o mundo de Hollywood, centra-se na sua paixão pela caça: a personagem hustoniana quer matar um elefante "porque é um pecado" e ele o pode fazer, tem para isso poder, uma cena liminar, excelente.

 

 

Mas há muito mais, numa sublime aparente contradição, o húmus do filme. O avatar de Huston é um democrata, antifascista (retratam-se os anos 1940s). Insulta uma colona inglesa anti-semita (a cena acima), provoca uma desigual luta com um colono racista inglês, por isso sendo espancado - e explicita a semelhança das atitudes, as do racismo nazi e do colono. É, como a minha prezada colega o é dezenas anos depois, um democrata, de "esquerda" ("liberal", dir-se-ia nos tempos lá na América), certo que em tom blasé mas basto empenhado. Depois vai à caça, cria uma ligação com o seu guia. Que conduz, patrão paternalista, à morte. É no fim do filme que Eastwood explicita o título, os tamboristas tamborilando "caçador branco, coração preto". Apesar das boas causas, daquilo de "esquerda", da atitude (e do álcool), da aparente generosidade e solidariedade.

 

É talvez por isso que nunca Clint entra nas notas de rodapé dos "papers" sobre a "colonialidade" ou sobre o "colonialismo". E por isso que a "esquerda" sempre tâo solidária o diz de "direita". E, também, por isso que um tipo que lhe vê os filmes tem qualquer coisa de  ... "colonial".

 

 

publicado às 23:09

Clint, "o faxista"

por jpt, em 09.06.15

The_Enforcer.jpg

 

Revi ontem na TV "The Enforcer" (1976), o terceiro filme da série dita "Dirty Harry". Um tipo só e sozinho a olhar na tv para um filme que já viu ene vezes distrai-se e põe-se a barafustar com os tipos que ali o rodeiam. Antes de tudo o filme parece ter envelhecido imenso. Ou por outras palavras, Clint (mesmo que não seja ele o realizador) nunca foi um realista - como o prova a célebre cena do boneco-bebé do último filme, que fez os parvos ulularem. Por exemplo, agora aquelas perseguições a pé, a quererem-se labirínticas ao som de um smooth free-jazz, não provocam qualquer frisson, apenas o carinho que a visão de uma antiquíssima paixão provocará. Já para nem falar dos tiroteios ou da rigidez do próprio Harry quando se movimenta ...

 

Depois um tipo fica a olhar a ideologia que ali anda. O lonerangerismo, a coisa western, que é uma constante do cinema americano e do individualismo constitutivo do país. Nisso o culto do Magnum 44, arma contra os patifes, contra os criminosos de delito comum (street wise) mas também - indirectamente - contra os possidentes, burocratas e políticos (white-collar). Uma deriva populista? A ver vamos.

 

Qual o verdadeiro conteúdo deste filme (de 1976, repito)?

 

a) Harry Callahan, o dirty inspector, perde o seu parceiro, este assassinado (os duetos policiais são estruturantes, tal como o são em alguma banda desenhada). Recebe, contra a sua vontade, uma mulher como parceira (protagonizada por Tyne Daly, que depois se celebrizou num folhetim policial). Destrata-a, misógino machista, vil. E logo (no espaço de uns breves dias) criam uma parceria crucial, celebrando o pundonor e competência da nova inspectora, heroicamente martirizada no final, sem que tenha perdido a sua vertente feminina (tão expressa nas vestes que usa) - ou seja, a extrema competência sem nunca precisar de mimetizar o estereótipo masculino. Quer-se mais, ainda para mais num "filme de género", como gender bias? Este, ainda para mais daquele tempo e no registo que assume, é o filme radicalmente mais feminista que já vi.

 

b) Os criminosos reclamam-se Força de Ataque Revolucionária do Povo, etc e tal. Na prática são uns revolucionários de pacotilha, em busca do vil metal, white trash se se quiser. Os burocratas e políticos que comandam a polícia logo acusam um grupo de reclamação dos direitos negros (o filme é dos anos 70s, birepito). Cujos membros Clint/Harry já contactara, com a particular falta de elegância que o caracteriza, e já com eles se associara (uma associação que continuará no filme seguinte da série), percebendo-os como firmes contestatários mas não criminosos (enfim ... alguns desvios de mobiliário, uma pequena posse de droga, coisas de homens do mundo), e inocentá-los-á. Dá para compreender? Não só a dimensão "racial" do texto explícito como também a ideológica?

 

40 anos depois? O Clint é "faxo", dizem-me os/as enfeitiçada/os com o falo Magnum 44, como se este realidade falocrática e violadora ... Que pobreza. Até erótica.

publicado às 17:36

Clint Eastwood, 85

por jpt, em 31.05.15

clint-eastwood.jpg

 

Leio que hoje é o seu 85º aniversário, e logo ele que há décadas vem falando (filmando) como ninguém sobre o envelhecimento. Ao longo dos anos aqui lhe dediquei alguns modestos postais. De todos os vivos é o meu cineasta preferido e, também, o meu pensador preferido. Tanto que um dia escrevi "E compreendo que nos filmes dele (...) fico feliz, suspendo todo o juizo crítico. Ora, não é isso o amor?". 

 

Segue ele pensando o mundo com uma intensidade e uma densidade ímpares, incompreensíveis para os "bem-pensantes" das ideologias lites e muito para além dos pobres boçais que dele retiram o culto de colts, magnums ou drones. Julgo que a paupérrima apreensão da obra de Clint é mesmo o espelho do superficialismo militante do hoje em dia.

 

Comemoro o aniversário revendo o "Unforgiven" pela enésima vez - vira-o há seis meses e botei sobre isso. E saio, como sempre, feliz. Sonhando-me cavalgando atrás dele, entre esta gente maculada, sem causa, preconceituosa, humana. Pois com alguma centelha ...

publicado às 16:48

Monoteísmo ...

por jpt, em 12.04.15

pyw.jpg

O pai mostra à filha esta canção, e ir-lhe-á contar o seu porquê. Que é de um filme muito "incorrecto", uma poliândrica Jean Seberg partilhando vida com dois garimpeiros no wild west, o belo jovem Clint e o velho e magno Lee Marvin. Este, percebendo que o tempo do alegre triunvirato se esgota, decide partir deixando o futuro ao jovem casal. Sai, másculo, mas com aquela amargura consolável pela vida. E canta esta "I was born under a wandering star", um must, um cume ...

 

 

 

O youtube começa ...

 

Pai: ouve isto ...

 

Youtube: orquestra ....

 

Filha: .....

 

Youtube: (canta lee marvin ...)

 

Filha: porque é que já não há vozes assim?

 

Pai (muito reaccionário): porque já não há homens ...

publicado às 01:05

Clint, "Atirador americano"

por jpt, em 23.01.15

AmericanSniper1.jpg

Estreado hoje o "Atirador americano" de Clint Eastwood. É majestoso. É o grande filme sobre a guerra desde que Kubrick se debruçara em "Full Metal Jacket", refutando-a. Há aquela coisa da fantasia realista, que sobre o assunto Spielberg mimetizara nos frenéticos e abissais primeiros minutos do "Soldado Ryan" - mas que destroçara logo de seguida no patrioteirismo de rebuçado do resto do filme. Mas agora Clint, o maior de todos nós, humanos, ultrapassa os discursos alheios. Sim, a realização de cume, de um realismo ríspido, cruel, coloca-nos no palco da guerra, como se seus agentes e não meras vítimas. Mas muito, muitíssimo, mais do que isso, e muito mais ainda do que os filmes de mensagem, ali está uma reconstrução cultural fantástica, um etnógrafo assombroso, o cinema antropológico levado ao inultrapassável, um filme sobre "maiorias indígenas" exagero eu. Diz o herói - e como podem os amantes da Ilíada e da Odisseia refutar os textos actuais sobre heróis, e sua ira até semi-divina? - que luta por "Deus, Pátria e Família"  E nós sabemos, até porque os diálogos logo ali o negam, que o seu "deus" quase inexiste e também que a família se lhe desvanece. Fica, apenas, mas um Apenas maiusculizado, a "pátria", essa que, afinal também canibal, o devasta na guerra, e tão mais aos seus circundantes, desde o irmão à última e esquiva, mas determinante, personagem do filme. É por isso que Clint é não só o Cineasta mas o grande intelectual deste virar de milénio, há décadas a afirmar a ambivalência, a rugosidade e, acima de tudo, as crostas e  pústulas dos valores que perseguimos e afirmamos. Sem que isso tudo implique que os abandonemos. E é essa (sua) adesão consciente à ambivalência que se chama coragem. E é isso que o cada vez mais ancião nos lega, em formato de partilha, constante, filme a filme. 

 

Quem me dera poder bradar "Clint rules". Mas cada vez mais me parece que não, que neste mundo facetado, tantos o tresvêem, impercebendo-o como o verdadeiro iconoclasta de XXI.

 

publicado às 00:22

Diário de Lisboa (3)

por jpt, em 15.10.14

clint e.jpg

 

Regresso a Lisboa, quase vinte anos depois, ainda que apenas de passagem mas a tentar ancorar-me. Manos, manas, ainda os tenho (afinal?), a darem a mão, a partilharem as pistas que têm, num "anda cá", a ver, a empurrarem até, se ainda há caminho para este mais-velho. Eternamente grato, digo eu vero falsário, sei bem que nos esquecemos do bem que nos fazem, eu não diferente dos outros.

 

E, porque é este o nosso meio, o profissional, a fazerem-me entrar num para mim outro mundo, a darem-me a conhecer pessoas, colegas mais-novos ou mais-recentes, eu já a ouvi-los nos seus dizeres, ecos de um mundo que talvez teria sido o meu se tivesse aqui ficado, mas ao qual agora chego tarde, espero, e sinceramente, que tarde demais. Pois mundo gente de certíssimas certezas, decerto algumas vasculhadas em muito mais textos do que eu conheci nestas décadas, outras talvez brotadas das juventudes ainda exercidas. Ou de outras leituras porventura, ou outras, se calhar menores, andanças talvez. Daí, e neste pouco tempo profissional, nem semana é, já me anunciaram várias vezes o "local" do mal, desse deduzindo-se o do bem. Assertivos, assertivas.

 

Angustio-me. Sou antropólogo, um dos tipos que falam dos poços de água, dos pequenos tribunais locais, de que tipo de escolas ou como escolas, das medicinas locais para além da química, do fomento, agrícola piscícola pecuário, das tantas "pequenas" coisas da vida de milhões de pessoas. Isso da ciência "aplicada" tão desprezada no rincão, pelos funcionários do estado, resguardados nos seus pequenos privilégios do "compromisso histórico" daqui - ao qual chamam "modelo", sem interrogarem, sem duvidarem, cerceando-lhe quaisquer arestas que incómodas ao prazenteiro.

 

Angustio-me. Sou antropólogo, um dos tipos que não falam só dos poços de água, dos pequenos tribunais locais, de que tipo de escolas ou como escolas, das medicinas locais para além da química, do fomento, agrícola piscícola pecuário, das tantas "pequenas" coisas da vida de milhões de pessoas. Isso da ciência "aplicada" tão desprezada no rincão, pelos funcionários do estado ... Pois a gente fala também, ou deveria falar, do mundo, do relâmpago. Ou da síntese, geológica. Incertos bardos. Incómodos.

 

Se na actualidade há bardo por aí, encontrei-o aqui, e há muito. Em "Unforgiven" - neste trecho do seu final crucial a partir dos 16 segundos - Clint diz "é melhor que enterrem Ned [Morgan Freeman] decentemente ... que não mutilem as putas", e volta-se para trás (para a mole, a "demos", escondida na noite chuvosa, a quem já ameaçou matar famílias e queimar propriedades) e culmina "ou eu regresso e mato-vos a todos, seus filhos da puta", e é aí que a bandeira americana, semi-obscurecida pela intempérie noctívaga, surge, ela sempre ícone do eastwoodianismo, e não só dele - signo ali para a desinterpretação dos militantes profissionais.

 

Clint está a abandonar a cidade, acabou de matar seis homens, um desarmado a sangue-frio (o dono do bar), outros cinco em duelo. No rescaldo matou Gene Hackmann a total sangue-frio, em tiro queima-roupa de sem-misericórdia (e mesmo que em filme já de 1992 isto de uma estrela como Eastwood abater deste modo uma outra estrela cinéfila magna como Hackmann é uma ruptura com o cânone, que um filme de Eastwood não é uma inútil pantomina tarantiniana, tem a grandeza de moldar, é produção de mundivisões).

 

É um momento único, uma síntese antropológica crucial: não só o trivial (aqui na gasta pátria desconhecido e desensinado) de que o real não é bi-cromático, pobre. Mas sim da complexa ética fundamental, de que o mal é constitutivo, essencial, um valor, plástico, melhor, úbere. Bem.

 

E isso confunde. Não  esta gente, a assertiva. Mas o mundo, lá fora.

publicado às 04:34

Os óscares no blogosistema Sapo

por jpt, em 01.03.14

 

 

Quem tem blogs no sistema Sapo entra no sistema blogal e tem algumas simpáticas comunicações da empresa acolhedora, tão simpáticas que um tipo até se sente na obrigação de as partilhar. Uma delas é a "provocação" inspira-me: a empresa propõe um tema para que sobre ele se faça um tema. Uma coisa abrangente, necessariamente "lite" para cobrir as múltiplas sensibilidades. A pergunta que está agora em cima da mesa é um "curio": se estivéssemos na próxima cerimónia de entrega dos óscares ao lado de quem gostaríamos de estar sentados? Ao intervalo do Sporting, para combater o nervoso escatológico, fui ver o que se passava. Algumas bloguistas (presumivelmente balzaquianas) suspiram, nada surpreendentemente, pelo tipo da Nespresso. Outras, decerto que ainda infantes, optam por algumas figuras por mim desconhecidas que aparentam ser da idade daquele Justin Bieber, para o qual já nem a minha filha tem paciência.

 

Hesito. E eu?, se lá fosse. Envergonho-me. Pois estou certo que se um qualquer acaso me transportasse para lá provocaria um esgar de desgosto (que tão doloroso me seria) à Ana ou à Eva, se com alguma delas ficasse cadeiras meias. E ainda mais certo estou que as minhas coronárias não aguentariam essa coalizão (temporária que fosse) com a Angela. Por outro lado temo que conviver com a Susana ou a Jessica seria penoso, no desvendar dos opti-lons nelas afixados, que não deve haver pior do que encontrar uma deusa que não se percebe imortal.

 

Bem, mas ao lado de quem é que eu gostaria de me sentar na cerimónia dos óscares? De facto não gostaria de me sentar ao lado de ninguém. Verdade, verdadinha, nem que fosse só durante aquelas horitas, adoraria cavalgar atrás deste:

 

publicado às 22:25

Mais uma série, esta para coisas mais longas. Há tesouros, espantosos, acessíveis. Só falta chegar a eles.

publicado às 20:11

Entre Doha e Joanesburgo

por jpt, em 17.01.13

 

Literalmente nas nuvens. Ele (Clint, o Magno) termina a apanhar o autocarro. Eu a vê-lo no "bus" lá em cima.É o maior. Sempre a (co)mover-me.

 

jpt

publicado às 02:55

Teclados de aluguer

por jpt, em 04.01.13

É um dos dois filmes da minha vida, este Os Sete Magníficos, de John Sturges. Vi-o no Verão de 1972, no cinema de São Martinho do Porto, naqueles meus oito anos foi a minha excitadíssima primeira sessão nocturna e o meu primeiro filme adulto, levado pelo meu irmão João e sua mulher. Só muitos anos depois o soube réplica de Sete Samurais, de Akiro Kurosawa, e só o voltei a ver - nesses já longínquos tempos pré-vídeo - no início dos 1980s, numa emocionada sessão no Apolo 70. Ficou-me para sempre o fascínio, cultor de westerns, todos eles por maiores que sejam apenas chegados depois deste.

A história é simples: uma aldeia mexicana vive oprimida por bandoleiros, que ciclicamente saqueiam as parcas posses dos aldeões e os aterrorizam. E ali se decide contratar pistoleiros, americanos, para enfrentar os bandidos. Atravessado a fronteira é contactado um veterano (Yul Breyner) que organiza um grupo, apesar da ridícula remuneração proposta e da dificuldade da missão. Depois surge o combate entre o bem e o mal, e um bom fim. Mas há mais. Sempre dali retirei a noção da falsa liberdade dos mercenários (os míticos pistoleiros). Os seis veteranos surgem - uma galeria individualmente apresentada - alquebrados, varridos pela miséria, pela inexistência de objectivos, pela doença, pela angústia, pelo alcoolismo, pela mitomania. Ou pela indiferença. Símbolos da virilidade, de uma aparente liberdade, mas devastados. Por isso se embrenham nesta até paradoxal missão, quase (?) suicidária, em prol de camponeses, e se estes na sua humildade sedentária surgem já por si desprezíveis na cosmologia aventureira, quanto mais o são na sua condição de católicos hispânicos. Neste quadro que buscam estes mercenários, estas armas de aluguer, que não seja a remissão? O apagar, temporário que seja, da culpa? A culpa do que fizeram e, mais do que tudo, a culpa pelo que não têm, não alcançaram, não realizaram?

Tudo se sublinha no final quando o jovem debutante (Horst Bucholz) , que suplicara a inserção na carreira, e que se apaixonara na aldeia, hesita na partida. E como os dois outros sobreviventes, Yul Breyner e Charles Bronson - eles próprios ícones de uma supra-masculinidade heróica, e rostos que décadas depois se diriam "multiculturais", assim denotando a universalidade das questões que simbolizam -, o despedem, uma secura carinhosa do "vai lá", para os braços da amada. Deste modo anuindo, aqueles mercenários cansados, que a vera coragem é aquela, a da quotidiana monotonia, do amanhar a terra, prender-se à machamba, ombrear uma única mulher. Nisso, nessa aparente mediocridade, ser senhor de si mesmo, mesmo que de chapéu roto nas mãos, trémulo diante do opressor.

No "Os Sete Magníficos" fica expresso que até do fim da escala se pode esperar algo transcendente. Desse fim, dessa gente mercenária, brotou algo. Esses que sempre abaixo das prostitutas - e quão bem são elas elevadas no mundo da aventura e do western, por vezes surgindo gastas, bebidas, engordadas, até histriónicas, outras sublimes símbolos de mulher. Muito mais tarde chegou Unforgiven, de Clint Eastwood, já em regime de obra-prima, também sobre a remissão da culpa, e contendo um louvor à mulher-prostituta. Mas sempre fica explícito, apesar do mito do "gunman" que é ele o sopé da escala. Principalmente quando sob contrato. Pior do que isso, apenas é o mercenário "freelancer", apontador de outros, perseguidor de outros. Incapaz de se alcandorar acima de si mesmo.

Esses meus tempos eram também do Tintin semanal, e dos álbuns de BD. Então reinava Goscinny, o génio que nos foi amputado pela cruel morte precoce, o qual dialogava como ninguém com o imaginário cinéfilo, com o "mundo das aventuras". Foi a época do extraordinário "O Caçador de Prémios", aventura de Lucky Luke:

O mercenário, a arma a soldo, e o pior deles todos, o "freelancer" que busca o prevaricador, o "caçador de prémios", é este. Pode, caso seja necessário, em urgência, cavalgar com os outros, até a isso ser convocado, arma extra para minorar défices. Mas, e como acontece aqui a Elliot Belt, não bebe nem come com os "homens bons".

É este o destino dos teclados de aluguer.

Por isso, e apesar de tão louváveis e estimáveis parceiros que lá tive, e de tanto gostar de ali residir, e de tão urgente me parecer escrever sobre o meu Sporting, tanto me irritei no És a Nossa Fé!. E de lá saí. Não para cavalgar solitário rumo ao ocaso. "Apenas" de regresso às machambas, à aldeia. Onde só mora gente livre. Deixo aqui o meu abraço a esses dignos parceiros, em especial ao Pedro Correia, que em tempos me "contratou" para essa ... plantação.

jpt

publicado às 04:43

 

e ainda uma cena antológica:

 

.

 

Isto a propósito de uma conversa na caixa de comentários abaixo

 

jpt

publicado às 02:33

Invictus, de Clint Eastwood

por jpt, em 18.04.10

Mãos amigas trouxeram-me o filme. Que delas voou para o DVD. Tinha maus pressentimentos face a ele: a história de Nelson Mandela, o melhor dos políticos (dos homens?), e do mundial de râguebi, o melhor dos jogos, pelas mãos e olhos de Clint Eastwood, o melhor dos cineastas (e único alter ego). Expectativas muito altas, medo de me desapontar. Mas não, não se tratou de um desapontamento. Foi apenas um engano, trouxeram-me outro filme, enganaram-se na capa.

E por isso levei com uma grande pepineira! Trouxeram-me, afinal, um tele-filme com os maus tiques todos, as analepses para evitar o génio narrativo, as câmara-lentas para nos "fazer-sentir" (a câmara-lenta em cinema é o equivalente ao baralho marcado da mesa de jogo, com hipotética excepção do que às vezes aconteceu a Sam Peckinpah), uns excertos de râguebi ridiculamente mal jogado, por "jogadores" quase tão preguiçosos como o raio do argumentista (há uns pontapés de abertura que fariam rir um espectador menos furibundo), uma sucessão de inanidades, tudo previsível. Salva-se apenas o sotaque do actor que representa Nelson Mandela, um tal de Morgan Freeman. Actor que merecerá, pareceu-me, sair do registo televisivo e começar a fazer verdadeiros filmes de cinema.

O que terá acontecido? O que explicará isto? Pirataria?

jpt

publicado às 18:40

Clint - o homem da luz

por jpt, em 07.02.10

[Blood Work]

Agora que espero Invictus, de Clint Eastwood a angústia assalta-me. Coisa da idade, a descrença. Essa que me leva a duvidar (a desesperar?) de que ali cumprirei as minhas expectativas. Pois não poderiam elas ser mais altas. Como?, se se trata do modelo de realizador (o homem que sempre alumia), do melhor dos políticos (e dos homens?), do maior dos jogos?

Por isso vou acalmando a expectativa na companhia deste magnífico livro, que mão muito amiga me trouxe há algum tempo e que vivamente recomendo:

[Maria João Madeira (org.), Clint Eastwood: Um Homem com Passado, Lisboa, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2008]

Nele uma bela entrevista a Clint Eastwood (realizada por Nicolas Saada e Serge Toubiana), um conjunto de suas declarações sobre vários dos seus filmes (seleccionadas pela organizadora do livro), uma excelente "cinebiografia" do mestre também da autoria de M.J. Madeira ("O Contador de Histórias"), a sua cinematografia. E múltiplas fotografias. E ainda sete outros textos - os quais ainda não terminei - dedicados a Eastwood, e que chegam com a autoria de Manuel Cintra Ferreira, Fabien Gaffez, João Bonifácio, Vasco Câmara, Kent Jones, Luis Miguel Oliveira, Joana Ascensão (neste último caso um belíssimo texto em fotogramas) . Edição da Cinemateca, quem não tem o livro (nem as minhas maravilhosas amigas ofertadoras) faça o favor de ir lá comprar.

jpt

publicado às 23:52

Tecnocracia

por jpt, em 23.11.09

clint

"Queria sobretudo proteger-me dos quadros dos estúdios e das suas eternas discussões. Têm sempre tantas ideias sobre a forma como se devem fazer os filmes. (...) Quando estamos ligados a um estúdio, temos que aturar uma enorme quantidade de pretensos especialistas, que não sabem grande coisa do cinema, nem da sua história. Os jovens quadros da indústria não conhecem um décimo dos filmes de que lhe falamos, de pequenos filmes ou até de filmes médios. (...) Essas pessoas, os quadros, os que decidem, só se preocupam com o presente. Não sabem nada de história. Mas como é que se pode trabalhar no presente se se ignora o passado? Isso não impede de fazer coisas, de filmar imensos filmes ... que até podem ter êxito, com um pouco de sorte. Mas acho que se perde muito ignorando tudo o que está para trás." (42)

[Maria João Madeira (org.), Clint Eastwood: Um Homem Com Passado, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2008]

jpt

publicado às 15:24

Será Amor?

por jpt, em 26.09.09

Uma magnífica sexta-feira à noite revendo este ""White Hunter, Black Heart" de Clint Eastwood. E compreendo que nos filmes dele (até naquele "Madison County") fico feliz, suspendo todo o juizo crítico. Ora, não é isso o amor?

publicado às 00:04


Bloguistas




Tags

Todos os Assuntos