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O "bom" "povo" português

por jpt, em 17.04.14

 (Comício do Partido Socialista na "Fonte Luminosa" em Lisboa, Julho de 1975: o não-povo de Raquel Varela na rua)

 

Bloguista em pousio Paulo Pinto Magalhães divulga uma crítica de António Araújo ao livro da historiadora Raquel Varela, "História do Povo na Revolução Portuguesa, 1974-75". O texto está no blog do crítico (e em versão mais reduzida no jornal "Público"). Raquel Varela é uma estrela em ascensão no seio dos comunismos portugueses e também, porque por ora conjunturalmente útil, na social-democracia de esquerda. Conheci isso há alguns meses aquando de uma sua desaustinada participação num programa televisivo sobre o "empreendedorismo" (e aludi ao quão descabelada fica a sua imagem, comparando-a com a visão sobre essa matéria tida por um homem com a densidade intelectual e o percurso de cidadania como teve Mário Murteira). Então a truculência de Varela correu a internet portuguesa, colhendo apoios múltiplos, demonstrando que tudo o que se opõe ao actual governo é recolhido como um "must", como se mosto de futuro desejado, mesmo que afinal mero vinagre.

 

Convém ir ler a crítica agora feita. Dois pontos logo me saltaram à vista:

 

a) a forma como a autora delimita ideologicamente o que é o "povo" (um conceito moral, positivo, que na prática [não sei se no livro está explícito mas aposto que não estará] é apenas o velho classe-em-si vs classe-para-si), e como dele expele tudo o que não corresponde ao seu (dela) ideário político revolucionário. Lembrando-me um antigo postal que aqui meti

  

 

Trata-se de um excerto do "Cenas da Luta de Classes em Portugal" de Robert Kramer. A recordar o cerco à Assembleia (Constituinte, então), em 12 e 13 de Novembro de 1975, feito fundamentalmente pelos operários de construção civil. Como notei no postal de então o pequeno trecho de filme tem vários interesses, sendo um dos quais a expressão em viva-voz, nos manifestantes de rua, da delimitação ideológica (e pragmática) do que é o "povo", do que é a "entidade positiva". Como escrevi então (e é mais perceptível para quem tenha paciência para ver o pequeno trecho):

 

"Tem interesse, também pelos sotaques audíveis (que vão desaparecendo). Mas também pelos tons da época, o ódio de um dos locutores (veja-se a partir dos 3.53). Mas o mais interessante nestes pequenos 5 minutos é o facto de apresentar, em versão voz popular, o busílis das reclamações do poder por via das demonstrações de rua. "Isto é povo", é a palavra de ordem incessantemente repetida, a reclamação de que aquela parte é a totalidade (que se casava então com a reclamação da unicidade, coisa da história). O "povo", entidade básica do poder está ali, tudo isso lhe dá a legitimidade. Depois tudo se explica assim. Um manifestante mais radical diz (4.00) "Povo é isto ... Povo é os que trabalham ..." e ao seu lado um outro, talvez confuso, talvez menos doutrinado, complementa "Povo é toda a população portuguesa ..." para imediatamente ser interrompido pelo anterior (4.07) "Qual toda! A população reaccionária não é povo ...".

 

É exactamente, sem mudar uma vírgula, o que Varela, quarenta anos depois e na calma da skholè, pensa. Não pode deixar de surpreender o acolhimento que isto continua a ter, paradoxal mesmo face ao que as pessoas que a aplaudem, realmente pensam e ... praticam. Mesmo que de quando em vez partam para manifestações "indignadas".

 

b) Também espantosa (em discurso de historiadora) a forma como agrega os "retornados" a um não-povo (parte que apenas é referida no texto crítico no blog), "ressaibiado" e "cúmplice da Pide", como tal expulso previamente a qualquer análise, a uma componente positiva da sociedade portuguesa. Lembra-me outro postal antigo meu, feito a propósito de uma polémica sobre um livro brotado do racismo de esquerda português. 

 

Então também deixei algo de que me lembro agora ao ver os tratos de polé que a historiadora dedica à complexidade da sociedade colonial portuguesa. Cito um excerto porque o postal é longo (quem quiser aceder à totalidade bastará clicar):

 

"A construção da memória colonial passou por um discurso explícito à época das independências (e implícito desde então). O qual por um lado denota e por um outro lado procura instalar uma dupla fractura na sociedade portuguesa ...

 

A primeira é topológica: sectores ideologicamente mais ligados ao momento colonial purificam esse passado, reproduzindo o mito do "bom colono" até à exaustão, assentes numa bondosa visão ontológica ou culturalista do "português" (ainda que esta concepção resvale transversalmente - e surpreendentemente? - na sociedade portuguesa, veja-se o influente tardolusotropicalismo de Boaventura Sousa Santos).  

 

[E] um movimento inverso, o da sua demonização generalizada, a imagem do "explorador dos pretos". Essa aversão terá sido causada pela noção social dos custos da guerra e, também, pela muda mágoa da derrota. Nessa invectiva o colonialismo, suas causas e benefícios, foi remetido para a "sociedade colona" e para os reduzidos estratos possidentes (grupos económicos nacionais, na sua maioria também então expropriados via nacionalização, donde culpabilizados).

 

Deste modo o colonialismo foi extirpado da sociedade metropolitana. Trata-se de uma higienização, homogeneizadora e auto-mitificadora, que a apresenta como martirizada pelo fascismo (e pelo próprio colonialismo). Assim o carácter estruturalmente colonial da socioeconomia portuguesa foi torneado. Essa amputação benéfica, até moralizante, traduziu-se na criação de um "Outro" (pouco)interno, o colono. Esta aversão foi e é produzida e reproduzida pelos sectores mais adversos ao Estado Novo colonial, que desse modo simbolizavam e balizavam a sua recusa do passado. Até hoje.

 

Falar dessas memórias tem sido desde esse tempo  não tanto falar do passado recente colonial mas, e fundamentalmente, traçar uma topologia de discursos sobre o Portugal actual. Utilizando a história (quasi-alheia) para nos situarmos "neste" ou "naquele" lado. Quase sempre encastrados na areia.

 

Os discursos sobre o passado colonial (...) levantam reacções acaloradas e adesões inesperadas. Não tanto por uma súbita curiosidade historiográfica, mas porque (ainda!) são motrizes de auto-posicionamentos individuais e colectivos no espectro político. E, porque assim a história surge como mero objecto para manipulação actual, nisso se vai coisificando o passado colonial e, por maioria de razão, coisificando os seus interagentes sociais: os colonos e os colonizados, nas suas multiplicidades contextuais.

 

Mas para além dessa fractura "sistémica" entre o Portugal vítima e o Portugal colono, houve a proposta de uma segunda fractura, sociológica, a identificar. Nesse caminho, nesse "luto colonial" como Alfredo Margarido chamou ao silêncio português sobre África, sublinhou-se uma noção implícita e indita, a da excentricidade da população colona.

 

Por um lado através da afirmação da sua "sobreportugalidade", por parte das vozes mais saudosas da "gesta nacional", considerando-a gente sobrecapaz, agente de grandes feitos, uma imagem que convive (paradoxalmente?) com discursos que afirmam a mediocridade do povo português residente, um contexto político-discursivo que tantas vezes baseia nesse elitismo a sua inimizade à efectiva democraticidade do país.

 

E, por outro lado, pela afirmação a da sua "importugalidade", a da sua bestialização exploratória, ao invés das mais pacíficas (solidárias e exploradas) populações metropolitanas e/ou então imigradas para o mundo industrializado. (...)

 

Essa excentricidade, esse verdadeiro "expatriamento" dos colonos enquanto tal, funcionou e funciona como uma des-identificação. O ónus da "sobreportugalidade" da população colona não é suportável, pela sua evidente inexistência, pela confrontação (esmagadora) que provoca às biografias. E o estigma da "bestialização" (...) é mecanismo de mitificação do passado, sobredimensionando as reacções às construções históricas, sejam elas positivas ou negativas.

 

Nesse sentido o mundo português colonial (pela sua mitificação, positiva ou negativa, pela santificação ou pela demonização, pela sua sobreportugalidade ou pela sua importugalidade) é expelido de Portugal, e o Outro Colonial é reificado. E esses processos funcionam através da mesma metodologia, assentam em generalizações, produtoras e reprodutoras de desconhecimento histórico. Similitudes que cruzam aparentes divergências ideológicas."

 

Não há, realmente, nada de novo sob este sol. Nem na academia "orgânica" ("indignista" hoje, comunista sempre). Nem na fúria "laicadora" dos "indignistas" de agora, tantos deles clientes sossegados do ontem, saudosos do amanhã.

publicado às 10:38

Identidades

por jpt, em 07.06.10

 

Abaixo está uma entrada sobre a campanha publicitária da GALP que importa para Portugal a corneta (vuvuzela) destinada aos campos de futebol e, presumivelmente, seus arredores e locais públicos. O texto é explícito: trato ali da importação de um instrumento, que em meu entender é supra-barulhento, agressivo e desconfortável; para além do futebol trata ainda da mania lusa (mas não só) de adquirir tudo o que vem à rede, o acrítico e desbragado consumismo. Implicitamente - mas esse implícito só pode ser para quem acompanha o ma-schamba, claro - liga-se com o meu enorme fastio com a futebolização do país (abordada por exemplo aqui mas várias vezes depois em tempos mais recentes), que entendo não só como uma forma de distrair o povo mas, fundamentalmente, como uma forma de "fazer pensar". Uma padronização do pensamento do qual o exemplo mais óbvio é o "futebolês" mas que tem coisas bem mais profundas, como a "derbiização" do debate público. Ou seja, gosto de futebol, gosto dos grandes torneios e sou sportinguista (talvez um bocadinho menos do que aquilo que enceno, mas pouco). Mas isto da bola deve ter limites.

 

O ma-schamba está ligado no facebook e aí, nos comentários a esse texto, gerou-se um resmungar contra as cornetas [qualquer falante médio de português interpreta bem a extensão semântica jocosa do termo "corneta"], e na conversa mais entre-amigos gerei um grupo contra o raio da .... corneta em Portugal, uma catarse contra a imbecilização (neste caso via publicidade, mas quem dera que fosse só esta a causa): Eu Não Vuvuzelo. A este propósito uma jovem senhora que eu conheço publica isto: "The portuguese are creating vuvuzelas hate groups on FB. If that is the attitude they better not come to the World Cup!". Ou seja, "os portugueses" (eu, jpt) criam "grupos de ódio" contra a merda das cornetas (não só em Portugal, o que dá sumo à invectiva). Seria de pasmar se não se soubesse que a interpretação é uma decisão. Tem níveis de análise? Tem. Estamos a falar de "vuvuzelas" (cornetas, trompas?)? Não. O que surge a um nível superficial é o paradigma "democrático" que se quer dominante: não tens só que respeitar a minha "cultura", aceitar a minha "cultura", tens que viver a minha "cultura", tens que viver como a "minha" cultura vive. Em não aceitando isto é-se um agente de discriminação, e pelo ódio.

 

O que nos ensina o fait-divers da corneta: é que se toca a corneta em Umtata tem que tocar em Marco de Canavezes. Senão são (os de Marco) uns porcos fascistas odientos. Pois isto tem um outro nível de análise, mais profundo, o das identidades. Eu, desde que não me pluralizem, vou bem. Português, claro, e pelo que parece muito dado a "hate groups". Quanto às identidades dos outros é com eles, não é meu assunto. Mas também não quero ser alimento delas.O que uma mera corneta nos faz lembrar.

 

jpt

publicado às 00:57

Bhowani Junction

por jpt, em 30.11.09

 

Bhowani Junction cartaz

 

Em registo leve-leve um pouco dedicado ao olhar cinematográfico sobre o mundo colonial. Pois acabo de rever este delicioso Bhowani Junction (1956) - e vejam as imagens seguintes, porventura recordem-nas. O que me fez lembrar os entre-comentários aqui acontecidos, e alguma acidez com que um olhar crítico (ou seja, tentando analisar) sobre o acto cinematográfico foi recebido.

 

A obra foi filmada no Paquistão, adaptação do livro Bhowani Junction, de John Masters, oficial do exército colonial britânico. Livro que nunca li e como tal é-me impossível traçar o que no filme deriva da sua adaptação, feita por Sonya Levien e Ivan Moffat, dois argumentistas veteranos de Hollywood. Sendo dedicado ao final do Raj britânico, centra-se na história da mestiça anglo-indiana Victoria Jones (Ava Gardner), integrada nos serviços administrativos do exército, e dos conflitos identitários (afectivos) que a situação política lhe provoca. Ou seja, o cenário do filme é a ascensão da independência mas é um cenário motriz da complexidade da personagem, as suas deambulações não são mera ilustração, pretexto, dos eventos narrados ... Assim, e para além da presença (e que presença!) da semi-deusa Ava Gardner, o que o torna interessante é o exemplificar da complexidade que pode (podia) haver no acto cinematográfico sobre o contexto colonial.

 

Por um lado como o cenário é construído pelo olhar anglófilo. A narração do fim do regime colonial é ancorada nos episódios ligados ao conflito que originaria a formação dos estados da Índia e do Paquistão - e é muito interessante ver, ainda que com os cuidados necessários face ao comparativismo selvagem, que o olhar britânico sobre a descolonização na Índia tanto se centra no conflito hindu-islâmico (neste caso mesmo tantas décadas passadas), um implícito sobrevalorizar da "ordem" anterior (colonial) assim evocada, algo muito similar a tantos discursos portugueses sobre os conflitos pós-independências africanas. É notória a ligação ao discurso inaugural sobre as ocupações, então (e demoradamente) anunciadas como "guerras de pacificação". Ou seja, uma visão do colonialismo entendido como "pacificação" dos locais e dos nativos, imersos num hobbesiano mundo a ser ilustrado pela civilização. E, obviamente, do seu final como o da despacificação nativa, a erupção dos díspares (e irracionais) conflitos.

 

Mas ainda mais significante quanto à "marca do olhar" que encena a obra é o contraste apresentado entre os mundos psicológicos em confronto - nesse sentido a cena crucial (que está no trailer abaixo) é a do sit-in na estação de caminhos-de-ferro, onde é notório o contraste entre a fleuma "máscula" (segundo o arquétipo), racional, britânica simbolizada no protagonista coronel Savage (Stewart Granger), e no seu culto do individualismo meritocrático, mas também presente nos próprios indianos que com ele ombreiam - obviamente "disciplinados" corporal e psicologicamente, "assimilados" às posturas correctas - e a excitação histérica do lider independentista, não só "feminina" mas também obscurantista, enredado nos preconceitos de casta, desvirtualizadores do valor "indivíduo". Esta é uma oposição estruturante no cinema de então, basta atentar na quantidade de histéricos - quantas vezes dionísicos - "mexicanos" do mundo "western" vergados ao peso dos pilares apolíneos wasp's, aka cow-boys. Para os pouco crentes na presença desta dicotomia estruturante do universo cinéfilo atentem na quantidade de vozes em falsete das personagens masculinas não wasps ao tempo da Velha Hollywood.

 

 

É hoje uma trivialidade dizer que George Cukor foi um cineasta de mulheres, exponenciando as habilidades das suas actrizes. Também deste Bhowani Junction se poderá dizer isso, Ava Gardner ascende ou, pelo menos, mantém-se no panteão no qual reina desde essa era. Se cinquenta anos depois podemos vê-la já com uma distância que permite reconhecer um tipo de representação de época (contextos ...), algum do que aquilo que em português se define como "over-acting", dela provém ainda um encanto avassalador - seja no avatar exótico de caqui british colonial, seja no do igualmente excêntrico sari hindu - que presumo à época ter sido absolutamente arrebatador.

 

Ava G bhowani junction

 

Mas não se trata de um passeio da actriz, uma passerelle de sedução. A personagem tem uma evolução provocada pelo processo descolonizador.  A desordem política implica a desordem afectiva de Victoria Jones (Ava Gardner), a explosão da sua sensualidade e a complicação da sua afectividade, um processo até tardio (ela já é um pouco velha, como lhe dirá a episódica sogra sikh). Sensualidade e afectividade que são vistas como processos identitários, nunca reduzidos ao melodramático. E é este o interesse do final, que vai para além dos maniqueísmos, caricaturas ou paternalismos que navegam outras obras.

 

Victoria é uma figura de charneira, um interstício colonial. Sem pureza rácica e pedigree social, filha de um ferroviário - salientando a imagem do proletariado colonial como produtor da mestiçagem. Objecto social de assédio por parte da elite colonial - a tentativa de violação sofrida, climax do filme, às mãos de um oficial britânico não é escudada num qualquer desvario psicológico deste último. O coronel Savage explicita mesmo que era prática essa violência sobre as "raparigas euroasiáticas". Nesse sentido a convulsão política de então despoleta um feixe afectivo e sensual em torno de Victoria e nela mesmo.

 

O desordenar político, e os conflitos que daí ocorrem, retiram-na da relação certa, do casamento "endogâmico" - com outro mestiço, pois este excessivamente "anglófilo". E projectam-na numa tentativa de reinstalação identitária, num casamento sikh, uma ruptura identitária, uma desordem crassa, do qual foge durante a própria cerimónia matrimonial (a parte menos conseguida do filme). E rompe de novo com a ordem prescrita ao envolver-se com o seu comandante, Savage (Stewart Granger) - "que artigos do regulamento acabámos de violar?", perguntará ela - que lhe trará a sedimentação da identidade britânica - ainda que ele próprio quase um "pied-noir", bisneto de militar do exército da Índia, tem o estatuto social e a pureza rácica que acalmarão as angústias, as desordens de Victoria. Factores que não serão suficientes, pois ela rompe a relação no fim, no happy ending. Fica a busca, no local.

 

[Para quê este texto? Pois, quando se vê os flamingos, a "África" do "bwana", em particular das décadas recentes, o espectador pode torcer o nariz. Porque já houve filmes, certo que de época, certo que com olhares muito marcados, mas que exploraram muito mais a complexidade das relações coloniais. Não como documentos, sim como cinema (vá lá, abusivamente, até como literatura). Ou seja, bem para além dos Oscares e da "bela fotografia" um espectador pode patear. Ou encolher os ombros, enquanto cospe o milho duro das pipocas.]

 

(Página com ligações para a galeria dos intervenientes.)

 

jpt

publicado às 02:06


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