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Regularmente os mais desiludidos ou mais irados com o andar deste Portugal convocam as citações de Eça de Queirós, assim invectivando esta "choldra" de país e gente, como lhes parece ser timbre do escritor. É precioso este naco que reli há pouco, isso de como Eça pintava o "choldrismo" e os invectivadores da "choldra". Esses que ainda polvilham o país, nos seus ridículos ademanes próprios de quem vem de Celorico.

 

Pois Ega, esse que sempre anunciando a obra que mudará o panorama português, “O Atomo”, mas que nunca virá a surgir, acaba de chegar a Lisboa, vindo de Celorico por súplicas da mãe, convicta que ele ali, nos seus modernos modos, convocava as pragas, provocando a epidemia de “anginas diphtericas” que por lá surgiu, e narra a Carlos da Maia: “e minha mãe vem pedir-me quasi de joelhos, com a bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que não esteja alli chamando a ira divina …” (160).

 

Carlos olha o amigo recém-chegado: “mirava aquellas luvas do Ega, e as polainas de casemira; e o cabelo que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na gravata de setim uma ferradura de opalas … um Ega dandy, vistoso, paramentado, artificial e com pó d’arroz” e com um “extraordinario casaco”. Pois “Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliça, uma sumptuosa pelliça de principe russo, agasalho de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados à Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tysico uma rica e fôfa espessura de pelles de marta.

 

- É uma boa pelliça, hein?, disse ele logo, erguendo-se, abrindo-a, exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss … Benefícios da epidemia.” (160-1)

 

Depois segue a conversa (é quando se introduzem as personagens Craft e o casal Cohen). De súbito Ega "Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu em peitilho de camisa.

 

- O quê! Tu não trazias nada por baixo? – exclamou Carlos. Nem collete?

 

- Não, então não a podia aguentar … Isto é para o effeito moral, para impressionar o indígena … Mas, não ha negal-o, é pesada!” (165)

 

Pouco depois, nesses trajes então menores, Ega reflecte e diagnostica Portugal e seus portugueses: - “Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem mulheres, importam-se que é em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo, industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos carissima com os direitos de alfandega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas … Nós julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thomé se suppõem cavalheiros, se suppõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha de patrão … Isto é uma choldra torpe. Onde puz eu a charuteira?” (166-167)

publicado às 06:19

2013: a guerra do Afeganistão

por jpt, em 28.12.13

 

Isto de entrar nas estantes paternas e nos exemplares avoengos é sempre interessante. Agora um "Cartas Bárbaras", uma segunda edição de 1907, comprado pelo meu avô paterno em Coimbra em 1911. Eça é espantosamente contemporâneo, e não apenas no desvendar da mesquinhez lisboeta:

 

 

“Os inglezes estão experimentando, no seu atribulado imperio da India, a verdade d’esse humoristico logar commum do seculo XVIII: “A Historia é uma velhota que se repete sem cessar”.

 

O Fado ou a Providencia, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episodios da campanha do Afghanistan em 1847, está fazendo simplesmente uma copia servil, revelando assim um imaginação exhausta.

 

Em 1847 os inglezes, “por uma Razão d’Estado, um necessidade de fronteiras scientíficas, a segurança do imperio, uma barreira ao dominio russo da Asia …” e outras cousas vagas que os politicos da India rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes – invadem o Afghanistan, e ahi vão aniquilando tribus seculares, desmantelando villas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornaes têm telegrafado a victoria, o exercito, acampando á beira dos arroios e nos vergeis de Cabul, desaperta o correame, e fuma o cachimbo da paz … Assim é exactamente em 1880.

 

No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes energicos, Messias indigenas, vão percorrendo o territorio, e com os grandes nomes de Patria e de Religião, prégam a guerra santa: as tribus reunem-se, as familias feodaes correm com os seus troços de cavalaria, principais rivaes juntam-se no odio hereditario contra o estrangeiro, o homem vermelho, e em pouco tempo é todo ou um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a estrada da India… E quando por alli apparecer, emfim, o grosso do exercito inglez, á volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito secco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquella massa barbara vola-lhe em cima e aniquila-o.

 

Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exercito refugiam-se n’alguma das cidades de fronteira, que ora é Ghasnat ora Candahar: os afghans correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientaes: o general sitiado, que n’essas guerras asiaticas pôde sempre communicar, telegrapha para o viso-rei da India, reclamando com furor reforços, chá e assucar! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou ha dias este grito de gulodice britannica; o inglez, sem chá, bate-se frouxamente). Então o governo da India, gastando milhões de libras, como quem gasta agua, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colllinas de assucar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, rebanhos de cavallos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa … Foi assim em 1847, assim é em 1880.

 

Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras columnas de tropa india, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora: d’ahi começa uma marcha assoladora, com cincoenta mil camelos de bagagens, telegraphos, machinas hydraulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornaes. Uma manhã avista-se Candahar ou Ghasnat – e n’um momento, é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exercito afghan, com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneraveis codubrinas do modelo das qu’outrora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Candahar está livre! Hurrah! – Faz-se imediatamente d’isto uma canção patriotica: e a façanha é por toda a Inglaterra popularisada n’uma estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com vehemencia, no primeiro plano, entre cavallos empinados e granadeiros bellos como Apollos que expiram em attitude nobre! Foi assim em 1847; ha-de ser assim em 1880. (…)

 

E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriotica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa n’uma pagina de chronica … (…)

 

No entanto a Inglaterra goza por algum tempo a “grande victoria no Afghanistan” – com a certeza de ter de recomeçar, d’aqui a dez annos ou quinze annos, porque nem póde conquistar e annexar um vasto reino, que é grande como a França, nem póde consentir, collados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanaticos, batalhadores e hostis. "Politica" por tanto é debilital-os periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades de um grande imperio. “

 

[Eça de Queiroz, “Afghanistan e Irlanda” in Cartas de Inglaterra. Porto: Livraria Chardon, 1907 (2ª edição), pp. 1-5] – adquirido em Coimbra em 1911

publicado às 15:40

[Eça de Queiroz, Por Obséquio Retire-se do Meu Personagem, Babel, 2010]

 

 

Uma "Carta a Pinheiro Chagas", datada de 14.12.1880 - destrutiva do destinatário - que é um verdadeiro manifesto. De uma actualidade radical, apesar do tom de optimismo pedagógico da época.

 

"Em nós outros não é por gorjeios de rouxinol parlamentar, por apóstrofes balbuciadas aos pés das Molucas, por soluços de um peito sufocado de êxtase, por serenadas e endechas, que se traduz o amor do país; é por emoções pequeninas, triviais e caseiras, que pouca relação têm com a estrondosa tomada de Ormuz: emoções de burguês que vive no estrangeiro, ao canto solitário do seu lume solteirão." (45)

 

"É que há duas espécies de patriotismo, meu caro Chagas.

 

Há em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a pátria, não dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos corações fortes. Respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para trás as glórias que ganhámos nas Molucas ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas estas nobres qualidades elevá-la entre as nações. Nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração: vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos - ciência e justiça. (...)

 

Dão-lhe [à pátria] sobretudo o que as nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes. Não a adulam, não a iludem: não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calecut, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. (...) Eis o nobre patriotismo dos patriotas.

 

O outro patriotismo é diferente: para quem o sente, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna - mas a outra pátria, a que há trezentos anos embarcou para a Índia, ao repicar dos sinos, entre as bênçãos dos frades, a ir arrasar aldeias de mouros e traficar em pimenta. Esse, a sua maneira de amar a pátria é tomar a lira e dar-lhe lânguidas serenadas. Esse sobe à tribuna de Parlamento ou ao artigo de fundo, e de lá exclama, com os olhos em alvo e o lábio em luxúria (...) - Deixa lá ... Tu tomaste Cochim.

 

É esse patriotismo que, quando alguém salta uma verdade, acode de mão à cinta (...) - Olá, que injúria é essa à pátria? Pois não sabes tu, ignorante, que nós somos ainda temidos na Índia? (...)

 

Este patriotismo (...) eu chamar-lhe-ia entre nós patriotice." (32-35)

 

Essa patriotice tem no ma-schamba levado este nome.

 

jpt

publicado às 07:34

Eça e os discursos sobre a crise

por jpt, em 25.06.08

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Talvez por sub-reptícios ecos a memória de "Esmaltes e Jóias" apeteceu-me reler, vinte e tal anos depois, as desventuras de Artur Corvelo no "A Capital", de que tanto tinha gostado. E há belas páginas, especialmente aquela noite de esbórnia enquanto a tia agoniza. Belas no tom ao tema, que no som fica sempre o encanto com Eça, desde o meu liceu, mesmo quando andou a ser acompanhado pelo calhamaço de A. J. Saraiva e O. Lopes, muito respeitável mas então tão sofrido.

 

Depois o sempre lembrado olhar desiludido sobre o país e sua gente. Um agravo em duas camadas que é muito citável. E muito citado, mas quase sempre só para a primeira camada, essa que dá jeito para a lamúria, afinal também ela personagem queiroziana:

 

" ... e as vozes abafadas davam um tom de conspiração às acusações, às injúrias lançadas ao Governo: atribuía-se-lhe unanimemente a decadência vil da nação; num círculo, de onde se elevava uma fumaça de cigarros, cada um expunha "uma grande vergonha" - a ruína económica, o baixo preço dos salários, o compadrio dos empregos, o abandono das colónias; falava-se por generalidades vagas: era uma choldra! O País estava perdido! Nada, nada, nada! Tudo uma canalha! - e ombros encolhiam-se com tédio, faces chupavam-se, aspirando o fumo do tabaco. Mas, em geral, a irritação contra as pessoas excedia a hostilidade às instituições: atacava-se a vida imoral dos ministros, contavam-se ao ouvido anedotas da Corte, grunhia-se contra o abaixamento dos jornalistas conservadores, um indivíduo magro, cheio de espinhas carnais, parecia atribuir todos os sofrimentos da humanidade ao administrador do Bairro Central, que decerto odiava. Outros, então, contavam despeitos pessoais. E como justificação daquelas cóleras, voltavam constantemente as afirmações humanitárias, "a miséria dos operários", "a indignidade dos ricaços". Os mais incultos formulavam a sua indignação política com um termo de calão ou uma obscenidade de taberna; os mais ilustrados declamavam vagamente, falando com gravidade na corrupção do "baixo-império". Ninguém parecia ter uma noção exacta de reformas definidas: mas todos, vagamente, confiavam que da República escorreria a felicidade pública, penetrando todas as classes, até os mais obscuros casebres, com a fecunda universalidade que cai de um astro." (255)

 

Mas agora fica-me também a minha desilusão de quarentão. Não só com os afinal apenas típicos Meirinho, Videirinha (ainda assim, um traste com alguma substância decadente), Melchior e afins. Mas porque Eça, lá no final, por via do seu candidato a literato, deixa cair no meio de tanto estafermo algum carinho pela velha Tia Sabina. Mas, vendo bem, não seria ela também uma infecunda beata imbecil, tal e qual o resto da galeria? Cedência ruralista, nada mais.

 

***

 

Em 1985 nos finais de Agosto vindo da Escócia cheguei a Leicester tarde demais para a estação da colheita de maçã. Sem dinheiro e sem trabalho. Dormi ao relento, clandestino num jardim dessas casinhas de arrabalde. Na alvorada pulei de novo a cerca e fui para a estrada pedir boleia, para regressar a Londres. Logo parou um carro, bons tempos em que a boleia era fácil, um vizinho a ir para o trabalho, tipo simpático. Saíu a normal conversa "de onde vens, para onde vais?" e ao meu "I'm portuguese" o homem logo num supreso e entusiasmado "Português?! Eu estou a traduzir "A Capital" de Eça de Queiroz!", e ainda mais ficou quando o mochileiro mal-cheiroso lhe disse já ter lido esse e vários outros. Pena que o cruzamento chegasse rápido, não chegou para que me pagasse ele o bom pequeno-almoço que logo ali imaginei, tão esfomeado que estava. Ainda hoje o lamento. Seria ele este John Vetch?

publicado às 09:20

 

Em Junho de 1871 o então jovem Eça de Queiroz escreveu assim, enquadrando o seu manifesto artístico-literário. Interessará regressar? Tamanha a aparente homologia com a actualidade, se quisermos assumir a mesma atitude intelectual, ou melhor, o cansaço. Ainda que as analogias históricas sejam nada mais do que armadilhas à análise aqui transcrevo, mas esperançoso. Pois se tanto decadentismo não se cumpriu, para quê assumi-lo agora? Não será isto condição, processo, e não crise, queda?

 

Mas acho avisado ir-lhe até ao final, a isso convido os visitantes. Pois ainda que nesse sentimento decadentista brotou então projecção acertada. Como será (seria) hoje? Sem tais escapatórias?

 

"O paiz perdeu a intelligencia e a consciencia moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por unica direcção a conveniencia. Não há principio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguem se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens publicos. A classe media abate-se progressivamente na imbecilidade e na inercia. O povo está na miseria. Os serviços publicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprêzo pelas idéas augmenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indifferença de cima abaixo! Todo o viver espiritual, intellectual parado. O tedio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruina economica cresce, cresce, cresce... O commercio definha. A industria enfraquece. O salario diminue. A renda diminue. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.

 

N'este "salve-se quem puder" a burguesia proprietaria de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.

 

 

De resto a ignorancia pesa sobre o povo como um nevoeiro. O numero de escholas só por si é dramatico... A população dos campos, arruinada ... trabalhando só para o imposto por meio de uma agricultura decadente, leva uma vida de miserias, entrecortada de penhoras. A intriga politica alastra-se por sobre a somnolência enfastiada do paiz....

 

Não é uma existência, é uma expiação.

 

E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciencias. Diz-se por toda a parte: "o paiz está perdido!". Ninguem se ilude. Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens. E que se faz? Attesta-se, conversando e jogando o voltarete, que de norte a sul, no Estado, na economia, na moral, o paiz está desorganizado - e pede-se cognac! ...

 

Esta decadencia tornou-se um habito, quasi um bem-estar, para muitos uma industria. Parlamentos, ministérios, ecclesiasticos, politicos, exploradores, estão de pedra e cal na corrupção ...

 

O povo, esse, reza. É a única cousa que faz além de pagar ...

 

A realeza é accusada por tudo: pelas despesas que faz e pela pobreza em que vive; pela sua acção e pela sua inacção; por dar bailes e por não dar bailes ...

 

Apesar d'isso, a esta politica infiel aos seus princípios, vivendo n'um perpetuo desmentido de si mesma, desauctorizada, apupada, pede ainda uma multidão innumeravel de simples a salvação da "cousa publica". É tragico, como se se pedisse a um palhaço de pernas quebradas mais uma cambalhota ou mais um chiste.

 

A burguezia invejosa e desempregada fala na "federação", na "republica federativa", na "extincção do funccionalismo", na "emancipação da classe operaria"; mas entende que o paiz pode esperar por estes beneficios todos se no emtanto lhe derem a ella logares de governadores civis ou de chefes de secretaria. Uma plebe ardente fala em beber o sangue da nobreza; mas ficaria satisfeita se a nobreza, em vez de lhe oferecer a veia, mandesse abrir "Cartaxo".

 

Tanto se conciliam todos! É assim que o egoismo domina. Cada um se abaixa avidamente sobre o seu prato...

 

 

Nas sociedades corrompidas a ordem chega assim a reinar. É a ordem pelo desdem. Outros diriam pela imbecilidade...

 

[O país] Paga para ter ministros que não governam, deputados que não legislam, soldados que não o defendem, padres que rezam contra elle. Paga áquelles que o espoliam, e áquelles que são seus parasitas. Paga os que o assassinam, e paga os que o atraiçôam. Paga os seus reis e os seus carcereiros. Paga tudo, paga para tudo. ...

 

Portugal não tendo príncipios, ou não tendo fé nos seus principios, não pode propriamente ter costumes. Fommos outr'ora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Comprehendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana; e fizemos muitas revoluções para sair della. O "caldo da portaria" não acabou. Não é já como outr'ora uma multidão pittoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, que o vem buscar allegremente, no meio dia, cantando o "Bemdito"; é uma classe inteira que vive d'elle, de chapéo alto e paletó.

 

Este caldo é o Estado. Toda a nação vive do Estado. Logo desde os primeiros exames no lyceu a mocidade vê n'elle o seu repouso e a garantia do seu futuro. A classe ecclesiastica já não é recrutada pelo impulso da sua crença; é uma multidão descoccupada que quer viver á custa do Estado. A vida militar não é uma carreira, é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietarios procuram viver á custa do Estado, vindo a ser deputados a 2$500 réis por dia. A propria industria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive tambem do Estado. A sciencia depende do Estado. O Estado é a esperança das familias pobres e das casas arruinadas....

 

É uma nação talhada para a dictadura - ou para a conquista."

 

[Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, Lisboa, Companhia Nacional Editora, 1890, pp. 11-43]

publicado às 17:21

Eça e "a influência"

por jpt, em 24.09.05

 

"No meio d'isto agita-se um dos typos caracteristicos da provincia, o influente de eleições...

 

O influente ordinariamente é proprietario ... Antigo cavador de enxada, enriqueceu, tem ambições, quer ser da junta da parochia, da junta de Repartidores, e mais tarde, n'um futuro glorioso, vereador! Já não usa jaqueta, nem tamancos. Tem uma casa pintada de amarello, calça um par de luvas pretas, e fala na soberania nacional. Em vesperas de eleições todos o vêem, montado na sua mula pelos caminhos das freguezias, ou, nos dias de mercado, misturado entre os grupos, gesticulando, berrando, com uma importância tremenda. Dispõe ordinariamente de 200 ou 300 votos: são os seus creados de lavoura, os seus devedores, os seus empreiteiros, aquelles a quem livrou os filhos do recenseamento, a bolsa do augmento da decima, ou o corpo da cadeia. A auctoridade passa-lhe a mão por cima do hombro, fala-lhe vagamente do habito de Christo. Tudo o que ele pede é satisfeito, tudo o que ele lembra é realisado. As leis afastam-se para ele passar. As suas fazendas não são collectadas à junta: é o influente! Os criminosos por quem se empenha são absolvidos: é o influente! Se são prohibidos no concelho os arrozaes, elle pode tel-os: é o influente! Se são prohibidos os portes de arma, elle é exceptuado: é o influente! Só elle caça nos meses defesos: é o influente! Só a sua rua é calçada: é o influente! ...

 

Ele reina, e o seu reino assenta sobre a cousa que ... é ainda a mais solida - a corrupção."

 

(Junho 1871)

 

[Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, Lisboa, Companhia Nacional Editora, 1890, pp. 89-90]

publicado às 01:50


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