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Cheias a norte

por jpt, em 13.01.15

mocuba.jpg

 (Ponte sobre o Licungo, em Mocuba, desconheço a autoria da foto).

 

Cheias a norte, vejo várias fotografias mostrando efeitos da ira das águas. Aqui o estado actual da ponte de Mocuba que eu conheci assim, 

 

mocuba2.jpeg

 

e sobre a qual, em tempos, botei um postal

 

Isto das cheias a norte lembra-me sempre, com nostalgia, de um trabalho que fiz há muito tempo exactamente durante umas cheias. Há mais de dez anos botei no blog um texto sobre isso, e guardei-o aqui, junto com outros. Repito-o agora: 

 

Nas cheias do Zambeze

 

De Quelimane ao rio Chire quase vai um dia. Dois camiões atolados há já 15 horas vedam a estrada, rodeados de uma meia dúzia que tapa todas as irreverentes opções. A surpresa de aí encontrar um mui recente ministro português, simpatia enérgica a gerar o desentupimento. No contraste com a minha displicência de Rothmans feita sinto os determinismos psicológicos. Há quem tenha o dom do poder e outros, como eu, olhamo-lo, quase sempre de viés. Esperando que milho e madeira desçam das viaturas converso com um indo-descendente, dez anos comerciando entre a Moita, o Laranjeiro e a Costa da Caparica. Ao “porque raio voltaste?” solta um “que sentido tem aquela correria?”: não há-de ser esse cofió a separar-nos, Adam! Algo envergonhado conta-me que, farto da espera, pagou 400 mil meticais para se descarregarem os camiões. E estes, logo que menos pesados metem a primeira velocidade e saem calmamente das suas covas. Rio-me de mim, qual psicologia, qual poder do Grande Homem Branco: “É a economia, estúpido!”.

 

Um padre na estrada, desses de décadas de mandioca e feijão com bicho, guerras, água morna, falhanços, malárias, que fazem este ateu sentir-se um pouco mais pequeno do que já é. Irritado, o velho! Narra o episódio do padre italiano que morreu há dias, arrastado nas cheias ao tentar levar doentes ao hospital. E do seu colega partindo em busca do corpo, irregulares caminhos, margens lamacentas, atolado vezes sem conta, o cansaço sem desespero da gente de fé. E do seu regresso, ainda sem sucesso, onde a polícia o multa em um milhão de meticais, que isso de nas buscas ter caído a chapa da matrícula…até pode ser verdade mas não apaga a ilegalidade.Determinismos culturais? Tradição, culto dos mortos, ritos prescritivos, enterro lá no lugar dos antepassados? Que idealismo, “é a economia, estúpido!”.

 

 

Perto de onde era o batelão do Chire, pequena travessia por roldanas, é agora uma infindável planície de água, bordejando a aldeia Pinda. As primeiras casas distam 50 metros planos do rio. Felicidade pela inesperada presença de Ventura, o meu motorista, pastor da igreja evangélica que aí professam. Numa pobre capela de pau-e-pique uma breve e alegre oração conjunta. Faço um apelo a que partam para zonas mais altas, pois as chuvas a oeste e as descargas vão aumentar. Já o administrador o disse mas não vislumbram razão para tal, nas cheias de 1978 as águas não ultrapassaram aquela árvore acolá, guardiã da secura a 20 metros da povoação. Empirismo puro, para racionalista aprender! Intercedo junto de Ventura para que os convença. Responde que não o fará, aquela gente não tem tecto noutro sítio e as suas machambas estão ali. Para onde irão?Fatalismo, inconsciência? Mais uma vez, “é a economia, estúpido!”.

 

Para trás ficou Quelimane, onde a beleza das mulheres até magoa. E testemunha, sem essas coisas do genoma, que a mistura das gentes é bonita. Nas esplanadas da cidade vou indagando como vivem as meninas que passam. Perguntas cujo caroço, vejo-o agora, é o sentimento de que dói menos uma mulher menos bela ser prostituta do que uma mais bela. Imoral moralismo! Que não, dizem-me, mesmo sendo ali porto isso não é mais generalizado do que noutros lugares por esse mundo fora. Mas lembram que muita rapariga procura um marido que a tire dali. Lembro o Primeiro Dia de Mafra, com o longínquo aspirante Boieiro aos berros, qual vedeta de Hollywodd, apelando à rusticidade pois os piores classificados iriam parar às ilhas “de onde virão casados”. E o frémito de horror que percorreu o ainda informe pelotão, imaginando o casamento com uma açoriana. É o mesmo, a troca do isolamento geográfico por outros isolamentos. Neste combate à lonjura, “é a estúpida economia” dos afectos, estúpido!

 

Gurué, verde montanhoso na falsa beleza da monocultura. Modernos rumores de futura indústria de capulanas bem nas nascentes do Licungo, todas essas tintas navegando até ao Índico, dando de beber às gentes, colorindo a Província. “É a economia, estúpido!”. Avaria madrugadora, marcho durante horas provando o envelhecimento. Uma moto passa e há-de voltar já liberta do pendura, um miúdo que me transportará para a cidade. À proposta de lhe “pagar o combustível” o jovem extensionista rural de Mocuba ri-se e diz-me “ó seu estúpido, nem tudo é economia”, que um dia o hei-de safar algures. Obrigado Felix dos Santos, pela boleia e pelo alívio.Por todos estes sítios se encontram europeus.

 

Cooperantes, velhos cooperantes, ex-cooperantes, neo-cooperantes. Ali e acolá um comerciante, até um empresário. Tal como no sul toda essa gente vai partilhando cereais destilados e a opinião que a actual cooperação não ajuda o futuro do país, que algo tem de mudar. Estarão eles enganados, tal como os moçambicanos que de o acharem até já estão fartos de doadores? Sem respostas nestas noites distritais, lembro-me do meu pai e trunco-lhe as palavras: “a democracia é o alcatrão e a electricidade!”.Mas vai-se dizer isso, arriscar os empregos de expatriado ou os clientes de dolar no bolso? Deixar andar, “é a economia, estúpido!”.Risonhos, vêm centenas de homens na estrada. Logo procuro saber que se passa e do aglomerado ouço, espantado, “Maharishi”. Desde há alguns meses 1700 jovens meditam 4 horas diárias em troco de 270 mil meticais mensais. Pasmo, que raio, receber para meditar! Resquícios cristãos, a noção de que o transcendente exige pagar ao intermediário com o(s) espírito(s). E porquê assim, porque não o contrário? De facto, “é a economia, estúpido”, como tirar os homens do trabalho sem os compensar, quando vivem no limiar da economia de subsistência? E face aos que ainda agitam uma idílica agricultura tradicional vejam a sua desnaturalização, pois meditar potenciando equilíbrios pressupõe os desiquilíbrios. E talvez possibilite outros sincretismos, renovações, transformações. Por eles, coisas bem locais. Porque a mentalidade, essa “economia, estúpido”, coisas feias e bonitas, agradáveis ou não, está aí omnipresente. É deixá-la ir, e ainda bem que auto-meditada.

 

Tenho que partir, mas a vontade é quedar-me por lá! Fica a esperança no sucesso desta ideia. Repito-me, se aliada ao “alcatrão e electricidade”, parece bem mais promissora que tanto “desenvolvimento” semi-importado.A norte, onde o Zambeze só dá o nome à província, o Alto Molocué, pequena vila dividida por esse rio. Vizinho da pequena ponte o Fotógrafo Soares, “fotografia tipo B.I”. Não resisto, desço as escadas, minto-me de colega e peço para fotografar. O velho fotógrafo, com o caudal em casa, dá-se à imagem junto dos seus. Proponho que saia dali, é visível que as águas vão subir. Calmamente aponta umas frágeis canas, habitual limite do rio, e às quais em breve este retornará pelo que não vê necessidade em partir. Respeito, mudo a conversa, responde-me que o negócio vai normal, mas que não chega para nova casa de tijolo. Ficará acompanhado da família, feita dique moral. De novo, “é a economia, estúpido!”.A casa desabará meia hora depois, a água cobre a ponte. Lembro o padre e, aqui inútil, cruzo-a rumo ao Maputo, à Inês. E à notícia da morte de C. Geffray. Fica este país, agora desprovido de longínquo e magoado saber, mais pobre. Porque nem tudo, estúpido, é economia.

 

(Março 2001)

publicado às 07:40

2014: programa televisivo do ano

por jpt, em 30.12.14


 

Bigelow no Daily Show sobre o extermínio dos elefantes.

publicado às 21:36

2014: filme do ano

por jpt, em 30.12.14

publicado às 21:34

2014: sítio do ano

por jpt, em 30.12.14

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 Last days of ivory.

publicado às 21:31

O massacre de rinocerontes e de elefantes em África tem recrudescido, e também em Moçambique. Algumas esperanças na preservação ecológica que as últimas décadas tinham permitido desvaneceram-se nos últimos anos. A crescente população, a falta de rendimento, de oportunidades de trabalho são alguns dos factores. A inexistência ou fragilidade das instituições também o serão, mas mesmo na África do Sul, onde estas existem e funcionam, a invasão furtiva tem tido efeitos devastadores. E, claro, o ressurgimento de alguns pólos orientais do comércio internacional é turbo desta desvario assassino. A extinção das espécies é uma ameaça real, dolorosa.

 

Moçambique tem sido particularmente afectado. Chegam constantemente relatos de massacres de elefantes, os rinocerontes foram extintos. Diante de uma incapacidade da sociedade em obstar a este comércio - que ainda para mais é uma tradição secular, ainda mais difícil de combater. Amanhã há uma "Marcha Mundial pelos Elefantes e Rinocerontes" e em Maputo haverá uma concentração e desfile. Espero que possa sensibilizar a administração pública e a "sociedade civil" para uma muito maior actividade em defesa destas espécies. Para depois, no mesmo eixo, se afirmar a defesa das malhas florestais, retorica (politicamente?) reduzidas a "recursos naturais", nisso devastadas exactamente devido aos mesmos factores. Um processo tétrico, letal.

 

A marcha é global. Acima o mapa das cidades onde decorrerão actividades. Talvez que o google não esteja totalmente actualizado, espero bem. Pois olhando-o vejo, com tristeza, que aqui em Bruxelas, a Brasília da União Europeia, não há qualquer acção. Não comento, ainda não conheço a sociedade, mas lamento pois seria um palco fundamental para influenciar instituições.

 

Mais lamento, mas nem estranho, a inexistência de qualquer actividade em cidades portuguesas. Num país onde as gentes se mobilizam por várias questões, normalmente corporativas ou futebolísticas. Ou das agremiações partidárias. Mas onde não há, 50 tipos que fossem, gente capaz de se juntar num parque a dizer "não" a esta barbárie global. Não há duas ou três escolas secundárias - e tão aguerridos são os seus professores quando são referidos os seus estatutos e remunerações - que se associem no largo da paróquia ou do pelourinho. Não há meia dúzia de associações de estudantes universitários que interrompam o exaltante vomitar pós-praxes.

 

Nem há uma câmara municipal que o dinamize, dessas que tanto se geminaram (gemelaram, como se diz em Moçambique) com municípios africanos, em viagens autárquicas pejadas de camarão, caranguejo, e prostitutas baratas para as bolsas europeias. Uma Évora geminada com a Ilha de Moçambique, ambas Património UNESCO (e não as espécies forma fundamental de património mundial?). Um Porto que manda os autocarros velhinhos para a Beira? Uma Vila Pouca de Aguiar onde o seu presidente, dinaussauro nada-excelentíssimo, organizou uma geminação com 18 (dezoito) municípios moçambicanos numa reunião ali em Maputo? Nada ... Um país onde há décadas subsiste a farsa (roubando dinheiro do erário público) de um partido fantasma no Parlamento, falsificando o espírito constitucional, dito "ecológico os verdes", que nem para isto se mexe. 

 

Amanhã em Maputo e em tantas outras cidades haverá gente, que o é, a sair à rua, por esta razão, nobre e pura. Os outros são o que são ..., desgente.

publicado às 10:03

Facim 2013: Niassa

por jpt, em 02.09.13

 

A tradicional Facim (Feira Internacional de Maputo) decorreu na passada semana. A azáfama do costume, ao que me dizem os auto-mártires que têm a santa paciência para se deslocar a Marracuene. Mas é a grande mostra económica do país, compreende-se a vontade dos maputenses.

 

Entretanto um teclado amigo enviou-me estas fotografias. Tiradas no stand do Niassa. Lá estão as peles dos animais, que urge extinguir. E as presas dos elefantes (na foto abaixo outras presas com a indicação do peso, não vá o passante julgar-se enganado).

 

Enquanto os animais vão sendo chacinados a representação do Niassa na "Nação" acha que é este o património que deve mostrar. Para quê comentar? As pessoas, realmente, acham que é assim que deve ser.

publicado às 08:50

Fauna Bravia em casa

por jpt, em 17.08.13

publicado às 15:44

Desflorestação

por jpt, em 10.07.13

 

É uma velha e generalizada história, a do abate demencial de árvores. Em Moçambique também. O desmatar por via da agricultura (sector familiar), potenciada pelo crescimento populacional, pela baixa produtividade e pela escassez de insumos produtivos. E a razia "industrial", destinada à exportação. Estará já quase tudo dito sobre o assunto e muito pouco feito para controlar isso, bem à imagem de tanto outro recanto pelo mundo. É uma desgraça. Não há outra palavra para definir tudo isso.

 

E a propósito desta exportação de madeira ocorre-me esta canção de Neil Young.

 

 

"I'm trying to save the trees, I saw it on TV, They cut the forest down, To build a piece of crap"

 

Piece of crap


Tried to save the trees

Bought a plastic bag

The bottom fell out

It was a piece of crap

 

Saw it on the tube

Bought it on the phone

Now you're home alone

It's a piece of crap

 

I tried to plug in it

I tried to turn it on

When I got it home

It was a piece of crap

 

Got it from a friend

On him you can depend

I found out in the end

It was a piece of crap

 

I'm trying to save the trees

I saw it on TV

They cut the forest down

To build a piece of crap

 

I went back to the store

They gave me four more

The guy told me at the door

It's a piece of crap

publicado às 20:21

 [E.O. Wilson na Gorongosa]

 

E. O. Wilson é um gigante no mundo da ciência. E é também uma das poucas "estrelas" entre os cientistas, figura popular, autor mui vendido. Para nós, antropólogos, é também o tipo da sociobiologia, aquilo que nos faz franzir o nariz. Enfim, um homem fascinante, um sábio. Veio à Gorongosa pela primeira vez em 2011 e fascinou-se, com o que considerou o "parque mais diversificado do mundo". Ali trabalhou. Sobre o parque tem falado, e deixo pequeno filme-resumo.

 

E agora publicou, na edição de Junho de 2013 da popularíssima National Geographic um longo artigo sobre o parque "O Renascimento da Gorongosa" (versão em inglês). 

 

Obrigatório para os amantes e os curiosos (ou seja, futuros amantes). O eco desta publicação será tão grande, tanto no mundo do conservacionismo ecológico como no da opinião pública mundial (a National Geographic é um real produto global) que se trata de um momento verdadeiramente emocionante para todos os que ... se interessam. Muito em particular nestes momentos em que, seja por razões militares seja por razões auríferas, as imediações do Parque ameaçam ameaçar este fabuloso renascer. 

 

A versão inglesa da revista está disponível há dias, a portuguesa vende-se a partir de hoje. Espero que cheguem exemplares a Maputo. Daqueles para saudar, ler acarinhando e guardar. E também divulgar. "Divulgar, divulgar, sempre ...". Nunca esquecendo que um grande baluarte da conservação é a opinião pública (e o turismo que dela decorre, é certo, mas não apenas). Movendo-se contra tantos interesses, incúrias e (in)culturas omnívoros com que desgraçadamente convivemos.

 

Como diz Wilson, e tantos outros especialistas que por lá têm trabalhado, o Parque tem uma enorme diversidade ecológica. Os nossos olhos de amadores esquecem algo que tem fascinado os cientistas, a fantástica fauna de insectos, tantos deles a serem agora descobertos.

 

 

Este renascer do Parque é obra de muitos, mas não tantos assim que não se possam identificar. Um deles é o fantástico Vasco Galante, que do Parque vai animando a divulgação do seu conteúdo e das suas actividades. A página da Gorongosa é espectacular, um manancial de sonhos e delícias. E nela se pode ler um artigo sobre "os bastidores" da realização do artigo de E.T. Wilson. Tudo articulado com o vibrante e muito completo, belíssimo Blog da Gorongosa. E quem anda no facebook tem a página Gorongosa (no facebook), publicada em múltiplas versões linguísticas. E nos seus 22 000 leitores tem mais 3 mil do que a do Kruger, esse empório do turismo, o que demonstra a qualidade e empenho com que é feita. Nesses suportes habitam um largo conjunto de notícias, artigos, filmes e fotografias. À nossa disposição. 

publicado às 14:24

Simpósio bloguístico

por jpt, em 01.04.13

 

Deixo aqui a nota, referindo o simpósio bloguístico acontecido em Maputo na passada semana. Uns queijos e presuntos, uma parca taça de vinho, uma longa e prazenteira conversa que eu (ali como representante do ma-schamba) tive com o Vasco Galante (representando o maravilhoso Blog da Gorongosa).

O VG, que então conheci, é um tipo supra-simpático e superlativo na paixão que tem pelo seu (local de) trabalho, obviamente um homem de mão-cheia. O problema é deixá-lo partir, sem o seguirmos. Foi ele à sua vida, que tinha que ser, e ficámos (ficamos) nós num "e agora?!", cheios de necessidade de apanhar a estrada até ao Parque da Gorongosa.

Em breve, em breve ....

Entretanto, e estou a cometer uma inconfidência, anunciou que a National Geographic, edição mundial, terá em Julho próximo um sumptuoso artigo sobre o parque e seu ecossistema. Algo verdadeiramente importante. Pois a defesa deste parque (e dos outros) passa pela sua celebrização, verdadeiro muro contra a cupidez humana.

publicado às 16:30

O dente de elefante

por jpt, em 13.03.13

AP/Bullit Marquez

 

(Fotografia AP/Bullit Marquez)

 

O meu texto na coluna "Ao Balcão da Cantina" na edição de hoje do "Canal de Moçambique". Vai dedicado aos que divulgam as notícias da matança internacional dos paquidermes e de tantas outras desgraças ecológicas que nós-outros, distraídos, desacompanhamos nos nossos pobres quotidianos de mastigação.

 

 

O Dente de Elefante

 

Os elefantes são animais de farto alimento, todos os dias percorrem uma larga área e comem imensa vegetação. Estão confinados, em estreitas áreas cada vez mais exíguas, “reservas ecológicas” ainda não devastadas pelos gafanhotos bípedes, esses museus do mundo que testemunham a nossa demência omnívora e histriónica. Pois se os elefantes comem muito os homens são glutões desvairados.

 

Em sendo preservados os elefantes tornam-se excedentários nessas, afinal reduzidas, zonas que habitam. Reproduzem-se, crescem e, repito-me, comem. Por isso por vezes se intenta a difícil transferência de alguns indivíduos para outras áreas. Ou abatem-se excedentários, para evitar a sobre-exploração dos recursos alimentares (e espaciais).

 

Que fazer com o precioso marfim, com os dentes dos elefantes abatidos? Há quem defenda que deve ser vendido, um recurso. Há quem diga – e diz com razão, e nem sequer o discuto, é-me dogma – que o marfim das presas dos elefantes não é um recurso, não deve ser vendido. Ou seja, que não é precioso, pois não tem preço. Mesmo que o abate controlado seja necessário, o marfim não é um bem transaccionável, não é um bem utilizável.

 

E talvez essa seja a grande questão, bem para além dos elefantes: o necessário combate a essa histórica e demencial ideia de que tudo o que nos rodeia é um recurso, consumível. Comercializável. Em suma, que tudo é taco … que tudo é dólar. Mas enfrentar esta ideia ultrapassa as forças do meu teclado e o espaço deste jornal. Mesmo num país Moçambique em que, por quase todo o lado, essa ideia de preservação (até sagrada) de áreas de flora e de espécies de fauna existe nas “visões do mundo” das populações. Mesmo que o crescimento populacional e a baixa produtividade agrícola as empurre para o constante destroncar, para as descontroladas queimadas, a ideia de que tudo é recurso apropriável e comerciável vive muito mais nos compêndios de Gestão e similares, nas almas dos (candidatos a) PHDs e nas dos grandes possidentes, do que nas práticas de quem vive da terra e convive, conflituando, com os animais.

 

Em suma, retirar totalmente as presas de elefante do mercado, impedir a sua utilização, é a única forma de tentar evitar a sua extinção. Evitar o comércio. E punir a sua utilização. Punições legais, claro. Mas, e se calhar acima de tudo, as punições morais. A desvalorização de quem usa os enfeites ou outros produtos delas derivadas. Nesta questão eu sempre uso o mesmo exemplo: há décadas no Ocidente era costume as mulheres usarem peles de leopardo. Caríssimas, bens de luxo. Ou imitações. Acontece que as vestes de pele de leopardo (ou a sua imitação) passaram a ser associadas a mulheres de mau porte, “profissionais do sexo” entenda-se. Terá sido a melhor forma de as desvalorizar.

 

Recordo que há alguns anos, ainda nos 1990s, acompanhei um simpático patrício, aqui professor universitário, ao “mercado do pau”, a feira de artesanato dos sábados na Baixa. Era ele muito dado ao bric-a-brac, coleccionador de artesanato, dele conhecedor e pesquisador. E foi-se a comprar um pequeno artefacto de marfim, uma obra belíssima. Resmunguei, sabia ele da minha dogmática oposição, e a modos que a desculpar-se disse-me “bem, o bicho já está morto”. Pois, respondi, “mas não estou preocupado com o elefante. A questão é que quem usa marfim é, literalmente, um filho da p …”, mas juntei-lhe as letras todas. Não percebi bem porquê mas ofendeu-se, como se o ofendido não fosse eu, ainda para mais ali a ver e a acompanhar aquela miserável indignidade.

 

Bem, mas isto são pequenas memórias, talvez até indignas de ascenderem a um jornal. Vêm elas a propósito das notícias que explodem. Da razia na fauna africana, nos últimos anos a caça furtiva (?, será mesmo furtiva?) a rinocerontes, estes agonizantes, próximos da extinção. E na devastação das populações de elefantes. Em poucos anos os países africanos perderam mais de metade dos elefantes (atenção, não é dos “seus” elefantes como a língua nos leva a dizer, atraiçoando-nos o pensamento. Pois os elefantes não “são” de ninguém, pessoas ou países).

 

Não falo dessa torpe “caça desportiva”, homens endinheirados que atravessam o mundo para ejacularem munições abatendo grandes mamíferos, indefesos diante da tecnologia e do saber dos caçadores profissionais, esses que ladeiam os “másculos” da frouxa aventura. Uma pobreza mental, uma miséria moral, coisa há pouco exemplificada pelo espanhol Juan Borbón, em fotos que cruzaram o mundo devido à sua posição profissional. Apenas um entre muitos.

 

Mas o problema fundamental é a caça desenfreada, o abate comercial. Que tem causas actuais. O crescimento económico chinês é uma delas, potenciando o apetite pelo marfim, fazendo explodir a sua importação, como o denunciam as notícias internacionais. Uma sociedade rapidamente enriquecida e que não tem sensibilidade ecológica (nem legislação, ao que parece). Vê-se na devastação própria, com as suas cidades radicalmente poluídas demonizando a vida do seu próprio povo, uma insensibilidade até suicida. Se estão num momento histórico desses ir-se-ão preocupar com os elefantes ou rinocerontes do estrangeiro? Ou com as madeiras raras, que vão comprando até à extinção e desflorestação radical? Que interessa tudo isso diante do apetite de boas mobílias e lindos objectos decorativos, esses que por lá há poucas décadas eram privilégio do topo dos “apparatichks”?

 

Sei que aqui logo alguém dirá “sim, mas vocês europeus …”, ilegitimando o discurso. Sim, os países industrializados devastaram o que puderam, e continuam a devastar. Mas alguns deles conheceram o desenvolvimento de concepções ecológicas, tiveram e têm conflitos sociais sobre a matéria. Neles se tenta, por legislação e práticas, impedir a destruição total do que tanto tem sido destruído. Seja em casa própria seja no restante mundo. Os gigantes emergentes, e a China é o cume disso, não têm esse percurso. E são, agora, vorazes.

 

As notícias desta vaga assassina chegam agora de Moçambique. É a Rádio Moçambique que informa o massacre dos elefantes no Cabo Delgado e Niassa. Milhares deles foram abatidos nos últimos dois anos. Redes internacionais de comércio de marfim alimentam este processo. Que não é, ao contrário de que alguns “contextualizadores” que querem “compreender”, fruto da acção de populações empobrecidas, em busca de sobrevivência. Trata-se da renovação de uma longa tradição, de séculos, de redes de comércio internacional de marfim, agora alimentado com altas tecnologias (caça-se de helicóptero, ao que parece). É uma velha história em terrível embrulho moderno.

 

E nada vai sobrar. Agora aproveitam alguns, poucos, uns milhares de dólares, nem grande coisa será. Que se extinguirão. Tal como os grandes mamíferos.

 

Os outros, todos nós, ficaremos por cá. Mais sozinhos. Mais pobres. E mais feios. É uma desgraça. E é uma desgraça, também, que nem nisto todos concordemos.

 

 

publicado às 08:06

Cheias, ao Chockwé

por jpt, em 24.01.13

Ontem em Maputo conversei com um amigo patrício da agricultura, agora trabalhando pela área do Xai-Xai, depois de mais de uma década pelo norte e extremo norte do país. Avançou, preocupado, que a zona do Limpopo estava a sofrer com as chuvadas, as culturas (machambas familiares, o fomento comercial e as plantações) possivelmente perdidas, e que a barragem de Massingire já abrira, mais alagando as terras (até a gigantesca plantação chinesa, de 25 000 ha férteis, afastados da população). Disse-me tudo aquilo com um desembaraço profissional, com detalhes de pluviosidade, áreas, percursos, médias e modas, tão facilmente como outros falam de futebol ou de outras coisas. E culminou, preocupado, para o meu espanto de leigo, "se a maré estiver cheia lá em Xai-Xai aquilo alaga, que as águas fluviais estancam".

Hoje, no mural facebook de Dmytro Yatsyuk, encontro estas e várias outras fotografias (não sei se da sua autoria) do Chockwé, na bacia do Limpopo, de hoje mesmo. Em Maputo estamos distraídos. A falar pouco disto. E a perceber pouco as interligações.

jpt

publicado às 17:11

Homens do Ano: em Moçambique

por jpt, em 27.12.12

Todos os que defendem e reanimam o Parque Nacional da Gorongosa. Obrigado.

jpt

publicado às 04:02

Sobre as cheias no Zambeze

por jpt, em 20.12.12

 

Nenúfares

 

Na minha conta na rede social Academia acabo de colocar uma versão de um antigo texto sobre as cheias no rio Zambeze, que não tem registo de blog. E aqui fica a nota para os que se possam interessar seja por esse tipo de literatura seja pela área em causa.

 

jpt

publicado às 12:15

Importação de madeira pela China

por jpt, em 08.12.12

 

Comércio Ilegal de Madeira realizado pela China from EIA on Vimeo.

 

Não se trata de considerar a China como o "papão", culpada dos males do mundo. Esse frisson muito "ocidental". O desenvolvimento dos grandes países dos antigos "segundo" (aquele que nunca era referido) e "terceiro" "mundos" tem custos ecológicos dramáticos. Como o desenvolvimento do antigo "primeiro mundo" teve. Só que a situação mundial é diversa, a consciencialização ecológica também, a riqueza societal mundial e as alternativas tecnológicas também o são. Daí que muita coisa tétrica possa ser evitada. E combatida. Esta devastação provocada pelo crescimento chinês é uma delas.

Em Moçambique (dolorosamente focado no filme após 8.30 minutos: sem rodeios, o que ali se vê e ouve deveria ser inaceitável para todos), onde sistematicamente somos confrontados com histórias sobre a fúria destrutiva da extracção de matérias-primas, é urgente entender o verdadeiro suicídio que é esta cedência ao comércio de curto prazo. Caramba, a "Pátria Amada" chora as suas chagas, esventrada que está a ser. Controle-se isto. A bem de todos nós, e também dos chineses.

jpt

publicado às 15:17


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