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Bom Dia, Pai.

por VA, em 19.03.14

Quando era pequena, lembro-me de lhe escrever pequenos postais realizados na escola para assinalar o dia. Nos tempos de adolescência, presentava-o com objectos que sabia serem do seu agrado.

Mais tarde, deixei-me disso e dava-lhe beijos. Nos últimos anos, homenageio-o através deste espaço.  

Agradeço-lhe sempre a sensibilidade, a justeza, a veia artística. O facto de colocar-me em contacto com o teatro desde tenra idade. As horas e os dias passados à volta da aparelhagem 'profissional' que mais ninguém possuía. As músicas, o Sinatra e o ter-me ‘apresentado’ os Joy Division quando poderia e/ou deveria ter sido ao contrário. 

E a paixão pela fotografia.

Essa paixão que o levou a montar um laboratório amador para fotografia a preto e branco no sótão dos meus avós e onde eu me extasiava a observar as fotos que apareciam depois do papel ter sido mergulhado nos líquidos reveladores.

Hoje, em jeito de homenagem, partilho convosco algumas experiências que ele fez nesse âmbito. Apesar de ser Dia do Pai não o consigo dissociar de minha mãe, tal é o modo como se amam e se respeitam. Bem hajas, PAPI!

 

 

 

 

VA

 

publicado às 11:06

(Amanhã é o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. Por isso aqui replico um postal que botei há uns meses. Também forma de um pequeno brinde, com rum, com a memória do meu pai, que dele foi grande admirador).

 

 

 

A Câmara Municipal de Lisboa chamou Álvaro Cunhal a uma avenida, neste ano do seu centenário. Resmunguice à parte, o homem foi "bigger than life", como se quer a alguns. Raríssimo, pois assim. Mais raríssimo ainda, se pensarmos no mundo português. Voto sim! Gulags?, Angolas?, Hungrias?, Checoslováquias?, o XX totalitário? Ok. Mas que panache tinha Cunhal. E que dimensão. Voto sim, venha a avenida Cunhal!

 

Depois lembro-me do meu pai António, comunista até à sua morte, "sem culto da personalidade", claro, e como tal "não-cunhalista" como o eram os comunistas da sua geração. Lembro agora que soube da morte do velho líder comunista numa manhã, em plena reunião na universidade. Ao entrar no anfiteatro, único português presente, vários colegas se levantaram para me darem os pêsames. Não, não tenho fama de comunista, alguns até me julgam algo fascista (e talvez não apenas por não ser fan da retórica semi-porno do revolucionarismo hedonista d'hoje em dia). Eram convictas essas condolências, um património simbólico do meu país que partia. Logo fui telefonar para a longínqua casa, "mãe, como está o pai?", "ai, filho, muito em baixo...", morrera pouco antes Vasco Gonçalves, naquele momento o sempre "secretário-geral". As figuras daquela geração. E, para aqueles, esta a maior de todas.

 

Entre esta lembrança de um homem ímpar e do apreço que lhe tinha o meu pai suspendo a vertigem crítica. E para isso nem preciso olhar os anões sôfregos que pululam na cena pública do meu país. Basta-me a memória do homem. Sem perseguir o que quis. Sabendo-o maior do que muito do que quero. E, com toda a certeza, do que os que querem o que eu quero.

publicado às 15:35

38 anos

por AL, em 25.06.13

Foi aos 38 anos que virei a minha vida do avesso. Carreguei o meu passado – escovei o menos bom e dei brilho ao melhor. Olho agora para trás com alegria, contente com os passos que dei.

Moçambique independente faz hoje 38 anos. Infância conturbada, adolescência difícil. Que a idade adulta lhe traga a maturidade e a serenidade que hoje me animam nos altos e baixos de uma vida cheia.

Danço pois com uma velha amiga (aqui na cooperativa já repetente) e encerro o aniversário com um desejo.

AL

publicado às 10:29

Por definição, que me apraz sobejamente, o ma-schamba despreza os dias internacionais e mundiais 'disto e daquilo' e só muito pontualmente assinala este tipo de efemérides.

Hoje, dia 27 de Março de 2013, comemora-se uma vez mais o Dia Mundial do Teatro.

Seja por questões emocionais - o teatro é a minha paixão primeira - seja porque é num teatro que a minha actividade laboral se desenrola, ou seja ainda porque uma das mais importantes manifestações deste dia é a difusão da Mensagem Internacional, escrita tradicionalmente por uma personalidade de dimensão mundial convidada pelo Instituto Internacional do Teatro para partilhar as suas reflexões sobre temas de teatro e paz entre os povos e lida perante milhares de espectadores antes dos espetáculos nos teatros do mundo inteiro, hoje é a minha vez de praticar a excepção à regra.

 

 

Este ano a mensagem foi solicitada ao italiano Dario Fo. Nascido em 1926, Dario Fo é actor, dramaturgo, director, cenógrafo, activista político e Prémio Nobel da Literatura em 1997. O seu contributo, sempre irónico, reza assim:

 

"Já faz muito tempo que a forma de resolver o problema da intolerância para com os comediantes era expulsá-los do país. Hoje, os atores e as companhias de teatro têm dificuldades em encontrar teatros, praças públicas e espectadores, tudo por causa da crise.

Os governantes, portanto, não estão mais preocupados com os problemas de controlo sobre aqueles que se expressam com ironia e sarcasmo, já que não há lugar para atores, nem existe um público para assistir.

Ao contrário, durante o período do Renascimento, na Itália, os que estavam no poder tinham que fazer um esforço significativo para manter em seus territórios os Commedianti, uma vez que estes desfrutavam de um grande público.

É sabido que o grande êxodo de artistas da Commedia dell'Arte aconteceu no século da Contra-Reforma, que decretou o desmantelamento de todos os espaços do teatro, especialmente em Roma, onde foram acusados de ofender a cidade santa. Em 1697, o Papa Inocêncio XII, sob a pressão de insistentes pedidos do lado mais conservador da burguesia e dos expoentes do clero, ordenou a demolição do Teatro Tordinona, em cujo palco, segundo os moralistas, tinha encenado o maior número de performances obscenas.

Na época da Contra-Reforma, o cardeal Carlo Borromeo, que era ativo no Norte de Itália, havia se comprometido com o resgate dos "filhos de Milão", estabelecendo uma clara distinção entre a arte - como a mais alta forma de educação espiritual, e o teatro - a manifestação de palavrões e de vaidade. Em uma carta dirigida aos seus colaboradores, que eu cito de improviso, ele se expressa mais ou menos da seguinte forma: '(...) em relação à erradicação da erva do mal, fizemos o nosso melhor para queimar textos que continham discursos infames, para erradicá-los da memória dos homens, e, ao mesmo tempo, a processar também aqueles que divulgaram tais textos impressos. Evidentemente, no entanto, enquanto estávamos dormindo, o diabo trabalhou com astúcia renovada. Como penetra na alma mais do que o que os olhos vêem, o que você pode ler nos livros desse tipo! Assim como a palavra falada e o gesto apropriado são muito mais devastadores para as mentes dos adolescentes e jovens do que uma palavra morta impressas em livros. É, portanto, urgente livrar nossas cidades de fabricantes de teatro, como fazemos com as almas indesejadas.'.

Então, a única solução para a crise está na esperança que uma grande "expulsão" seja organizada contra nós e, especialmente, contra os jovens que desejam aprender a arte do teatro: a diáspora nova de comediantes, de fabricantes de teatro, que, certamente, a partir de tal imposição, terão benefícios inimagináveis para uma nova representação."

Dario Fo

 

(a tradução apresentada acima é a versão brasileira, bastante mais fidedigna do ponto de vista formal)

 

VA

publicado às 16:59

Meio século, hoje

por jpt, em 05.10.12
Meio século depois do lançamento do primeiro disco (dizia-se "single"). Hoje.jpt

publicado às 21:35

Agradecimento à cinéfilo

por jpt, em 12.09.12
 

Tenho tanto a agradecer pelo ano de vida que passou, que nem sei por onde começar. Primeiro que tudo tenho que agradecer as inúmeras mensagens de parabéns que me encheram a caixa de entrada do FB. Muitos amigos, antigos colegas, mas sobretudo desconhecidos, pessoas que conheço somente da interacção virtual. Estou lentamente a tentar responder a todos; ao fim de dois dias ainda tenho mais de 400 mensagens por responder. Nem vou falar da comoção que me avassalou; fica sub-entendida.A minha família, exemplar e presente como sempre não deixou de comparecer ao repasto que a matriarca preparou. Os netos (Benjamim, Teresa e Maria Francisca) trouxeram a alegria do caos e dois tempos verbais novos: já fizei e não trazei. A A trazou memórias do nosso tempo de guerra; N a lealdade de uma amizade de infância que nada deita abaixo. P veio com 7 retalhos que selam um projecto de vida.Bem-haja a todos; sem vocês e eles nada disto teria sido possível.(Levanta-se agora a sala em aplauso, eu sorrio, limpo uma lágrima ao canto do olho, agarro na cauda do vestido comprido e saio pela esquerda enquanto Billy Crystal entra pela direita do palco com novo envelope na mão)AL 

publicado às 20:45

O rancho da cooperativa

por jpt, em 01.06.12

[Pescador da Inhaca por Miguel Barros]

 

Não me lembro exactamente da data de estreia do nosso grupo – ma-schamba – no Facebook, mas parece-me relativamente recente. Pouco meses depois estamos, hoje, com 5599 membros. Número redondo, bonito. Em pares. Juntam-se a estes os 1743 subscritores da página blog ma-schamba, também no Facebook.Mistificada que estou com tamanha adesão – não somos profissionais da pena, não escrevemos em jornais ou revistas, não somos “estabelecedores de tendências” e tampouco somos “fazedores de opinião” – agrada-me saber o ma-schamba querido de tanta gente. Digam o que disserem e modéstia à parte, é bom sentir que somos lidos; é bom ouvirmos o eco das nossas teclas. Estreei-me no ma-schamba com uma fotografia do nosso amigo Miguel Barros; aproprio-me hoje de um quadro dele – Pescador da Inhaca – para vos agradecer a vós, que estais do lado de lá deste écran. Em nome do colectivo, bem-hajam!

 

AL

publicado às 19:17

A fotografia como expressão artística sempre me fascinou. Seja ela uma impressão, uma ideia ou a captação de um momento que, em última análise, é sempre descontextualizado, a fotografia, para além de possuir a capacidade de nos fazer crer no ‘real’, também  permite a projecção de imaginários escondidos, mundos e submundos outros. É uma espécie de pintura ‘ao vivo’, um cenário ‘real’, uma ideia concretizada.

Neste sítio que tenho o privilégio de partilhar, a presença de dois fotógrafos conceituados e talentosos inibe-me de alvitrar um pouco mais sobre esta arte.

Mas HOJE, dia 19 de Março de 2012, atrevo-me a mostrar uma experiência de captação do momento ali ao Cais do Sodré há alguns anos atrás.

Também porque faz HOJE um ano que visitei o ‘atelier’ de Alfredo Munoz de Oliveira (ver aqui http://f8fotografia.zenfolio.com) na Figueira da Foz e tive o prazer de o conhecer pessoalmente.

E finalmente, porque HOJE a plataforma da CP que outrora fotografei  encontra-se plena de comboios rumo a destino desconhecido. Ahoje é Ahoje!!!

VA

publicado às 14:12
modificado por VA a 16/12/13 às 23:12

Menina, moça, mulher (re-post)

por jpt, em 08.03.12

Menina (13/2/2009)Chama-se Teresa, a minha neta, mas podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é! São três semanas de vida que cabem nas palmas das minhas duas mãos; quase três quilos de gente em 50 cm de presença. É ainda pequenina a minha neta, mas compensa em genica o que lhe falta em tamanho.É delicada a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é. Pigarreia duas vezes num “preparem-se” bem educado e só depois nos brinda com o pranto anunciado.A minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é tem o rosto em forma de coração; acaba num queixinho que se adivinha voluntarioso e prenunciador de carácter. Os olhos são de um azul profundo, como os da tia-avó Jú; franze o sobrolho ao jeito da avó Antónia. As sobrancelhas e pestanas, foi buscá-las à tia Joana e o pescoço alto copiou da mãe. No equilíbrio dos genes revela bem ser filha de seu pai e a honra da sua mãe.O cabelo da minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, é claro e arruivado e remata numa madeixa branca enrolada em remoinho rebelde. São as marcas da avó Ana, a madeixa e a rebeldia. É pequenina a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, mas enche-nos a vida e deslumbra-nos o coração.Cresceu já dois anos a minha neta e com ela a madeixa e a rebeldia. Ainda podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é, mas já não cabe nas minhas mãos; caibo agora eu nos braços dela! MoçaQueria ser médica; a mãe era doente e o sonho dela era estudar muito e ser médica e descobrir um remédio que tirasse a mãe do sofrimento em que vivia.Apurava-se nas aulas e veio um dia um senhor do Ministério da Educação que lhe falou da escola especial que havia lá na capital, para meninas como ela, que queriam ser médicas. Os pais desconfiaram de tanta esmola, mas ela insistia. Afinal o senhor não era um qualquer, era do Ministério da Educação, instituição idónea do governo que os libertara do jugo colonial. Os pais ainda renitentes quiseram conhecer o tal senhor. Sim, era verdade, tratava-se de um programa especial para jovens futuros quadros. Mostrou credencial e identificação. Ela chorou, insistiu, amuou, usou todas as armas que os catorze anos lhe punham à disposição até que, por fim, lá partiu rumo à capital embalada no sonho da escola de medicina pela voz do senhor do Ministério da Educação.O edifício era grande, imponente, rodeado de altos muros. Para protecção, disseram-lhe, que o país ainda estava em guerra. Entrou. Era afinal um quartel, fez instrução militar e lutou durante 10 anos numa guerra que não entendia. Foi desmobilizada sem mais instrução que a que tinha aos catorze anos. Mas não desistiu. Afinal tinha agora 24 anos, era nova e tinha vontade.Com mais instrução que a maioria das mulheres guerrilheiras, arregaçou as mangas e lutou pelos seus direitos e pelo reconhecimento do papel destas mulheres no destino do país. Matriculou-se no ensino à distância; aprendeu inglês; tirou um curso de assistência social. Casou e teve três filhos – dois meninos e uma menina, todos a estudarem. Aprendeu a escrever propostas de financiamento, a falar com doadores, a argumentar com políticos, a discursar em seminários e conferências. Aos fins-de-semana ainda se junta com as amigas no pátio das traseiras da sua casa, onde se enfeitam com tranças e penteados, enquanto desenrolam as histórias da vida que lhes aconteceu. Conheço-a: é minha amiga e diz-me que foi a guerra que lhe deu força para ser quem é! MulherCom grande pena minha não a conheci como gostaria de ter conhecido e poucas foram as memórias que comigo partilhou. Mas a riqueza das suas histórias e a frontalidade com que as contou são-me inesquecíveis.Fruto do seu tempo e da sua época, enfrentava inimigos e críticos de peito aberto, acção em riste e palavra pronta. Não perdoou afrontas nem insultos, mas nunca fechou a generosidade a quem dela precisava. Indiferente à popularidade da causa, empenhava-se a fundo nela se nela acreditasse. Fiel a si mesma e aos princípios pelos quais viveu, nunca se rendeu a facilitismos nem se escondeu atrás de justificações ocas. Amou África; em África nasceu, viveu, lutou e morreu… mas foi Moçambique a sua grande paixão!Não concordei certamente com muitas das suas opiniões, mas sempre lhe reconheci a coragem com que se bateu e a honestidade com que viveu. E por isso a admirei e por isso lhe criei amizade. Senhora de uma memória de elefante leva consigo uma história que fica por contar, deixando-nos a todos por isso mais pobres.Pessoas há que parecem maiores que a Vida; era assim a Lucinda! Tenho duas filhas e uma neta e meia; matriarcas nos batemos para que o mundo delas seja diferente.AL

publicado às 17:12

BOM ANO BOM 2012

por jpt, em 27.12.11

Depois das comemorações natalícias, este ano deveras familiares, agradavelmente generosas e francamente afortunadas, vem aí o novo ano…

Seguidamente a rechear peru, cozinhar tarte de castanhas e confeccionar demais acepipes (sem falsa modéstia, confesso que até me desembaraço bem nestas lides) e após ter falhado os oficiais votos de BOAS FESTAS BOAS ma-schambeiros, antecipo-me e DESEJO A TODOS OS MA-SCHAMBEIROS - excelsos co-bloguistas e prezados leitores - um BOM ANO BOM 2012 tendo em conta que as previsões são de um ano basto iluminado (‘shining’ para os anglófonos).

 

              

 BOM ANO 2012

 

VA

publicado às 19:44
modificado por VA a 16/12/13 às 23:19

 
Sala do Nobel da Paz
Escrevo. Apago. Hesito. Re-escrevo. Dividida e entristecida que estou neste dia que devia ser de alegria. Alegria por ver mulheres reconhecidas, celebradas e agraciadas com o que é para mim o prémio dos prémios. Desconsigo alegrar-me e festejar. Como celebrar um prémio Nobel da Paz atribuído a Ellen Johnson Sirleaf quando ela se associou politicamente a Prince Johnson? Como celebrar um prémio Nobel da Paz atribuído a Leymah Gbowee, compatriota de Ellen e activista dos direitos humanos no seu país, quando ela, sendo quem é, aceita este prémio sem denunciar tal associação? Como celebrar um prémio Nobel da Paz atribuído a Tawakkol Karman, activista iemenita de quem nada sei mas que assim associa o seu nome a figuras duvidosas no mínimo, criminosas no pior dos casos. Que dizer do enorme silêncio mediático sobre a associação de Sirleaf a Prince Johnson, não vá qualquer denúncia estragar a festa?Para mim, calar-me e celebrar este prémio seria negar os sacrifícios da Saquina, da Jacinta, da Eunice, da Flora, da Lídia, da Paciência, da Justina, da Vitória e de outras, tantas, tantas, tantas outras mulheres que na luta pela Paz marcaram corpo e alma. Sem prémios. Por elas e para elas este prémio devia hoje ter sido de alegria. E será certamente. Porque é importante reconhecer o esforço e contributo destas mulheres.Devo ser eu o problema. Serei eu certamente o problema. Desconheço os sacrifícios que se fazem em nome da Paz. Diletante que sou...AL

publicado às 17:24

Mandei-te uma carta ....

por jpt, em 17.10.11
 

Uma iniciativa CESNOVA/ Faces de Eva, em colaboração com a UMAR - Leitura Colectiva - Novas Cartas Portuguesas

Terça-feira, 25.10.2011 as 18:30, no Centro de Cultura e Intervenção Feminista (CCIF), Rua da Cozinha Económica, Bloco D, 30-M e N, Alcântara, Lisboa.
“ o preácio à edição (Francesa) de 1974, escrito por Evelyne Le Garrec e Monique Wittig, expõe o trajecto das Novas Cartas Portuguesas no país e no estrangeiro e as relações que se estabeleceram entre as autoras e o movimento feminista em França. (...) No prefácio é ainda relatado que no dia 25 de Outubro, em Paris, durante a Noite das Mulheres num teatro e numa assembleia composta, pela primeira vez, unicamente por mulheres, se ouviu a leitura de excertos das Novas Cartas Portuguesas.”Feminismos, Manuela Tavares (p 191-192) No ano em que celebramos 40 anos sobre a escrita de Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, nasceu uma vontade de (re)ler esta obra, sempre nova, sempre histórica, sempre feminista. O processo instaurado às autoras, depois da apreensão do livro, em 1972 provocou uma onda de solidariedade internacional. Foram várias as manifestações feministas de apoio às “Três Marias”, nome pelo qual o processo ficou conhecido, uma delas aconteceu a 25 de Outubro de 73, num teatro de Paris, onde excertos das Novas Cartas Portuguesas foram lidos por uma assembleia composta, pela primeira vez, apenas por mulheres.Inspiradas por esta acção de solidariedade para com as autoras, vamos então ler a obra, em conjunto, e (re)descobrir o prazer de uma leitura feita assim, colectivamente. Estão todos convidados a participar neste momento único.
AL

publicado às 21:42

Quando nem a morte rasto nos deixa

por jpt, em 10.10.11
    Foi o meu amigo Giovanni Diffidenti, na altura ainda fotógrafo de guerra, quem primeiro me falou da S-21 e do impacto que nele teve quando pela primeira vez lá entrou pouco depois da queda dos Khmer Rouge. Actualmente um museu, foi centro de detenção e tortura do regime de Pol Pot. Dos cerca de 30.000 detidos não sobreviveu mais que uma meia dúzia. Quando em 1979 os Khmer Rouge fugiram do exército vietnamita, apesar do fogo ateado na tentativa de apagar os rastos burocráticos do genocídio aí perpetrado, sobreviveram na S-21 cerca de 6000 fotografias a preto e branco, semi-queimadas algumas, rasgadas outras. Empilhadas em gavetas, espalhadas pelo chão, juntas por um elástico. Homens esquálidos, mulheres com bébés de colo, crianças, casais, idosos, famílias inteiras num último registo fotográfico perante a morte. Muitos com sinais visíveis de tortura; todos com o medo e o sofrimento estampados no rosto e de identidade apagada num número. Da sua existência nada mais resta senão estas imagens, legados pungentes do inaceitável.Dos muitos livros, documentos e testemunhos que hoje abundam sobre a S-21 gosto particularmente de Binh Danh, jovem fotógrafo cambojano-vietnamita cujo trabalho explora a “mortalidade, memória, história, paisagem, justiça, evidência e espiritualidade”. Binh Danh imprime em folhas vivas estes retratos da  morte.Hoje é o dia 10 de Outubro e assinala-se o Dia Mundial contra a Pena de Morte. Assinalo-o eu aqui com estes mortos sem sentença, mortalha ou nome. Invocados na vida de uma folha e falados na palavra de um jovem poeta português.#Ah, finalmente o sonoa estranha morteo chão desconfiado rente ao corpoum lençol de linho à minha sorte.# Joaquim E. OliveiraAL

publicado às 22:47

 

["Rio Zambeze (AL)"] 

Quem somos, senão o que imperfeitamente 
sabemos de um passado de vultos 
mal recortados na neblina opaca, 
imprecisos rostos mentidos nas páginas 
antigas de tomos cujas palavras 

não são, de certo, as proferidas, 
ou reproduzem sequer actos e gestos 
cometidos. Ergue-se a lâmina: 
metal e terra conhecem o sangue 
em fronteiras e destinos pouco 

a pouco corrigidos na memória 
indecifrável das areias. 
A lápide, que nomeia, não descreve 
e a história que o historia, 
eco vário e distorcido, é já 

diversa e a si própria se entretece 
na mortalha de conjecturados perfis. 
Amanhã seremos outros. Por ora 
nada somos senão o imperfeito 
limbo da legenda que seremos. 


Rui Knopfli - Quem somos 
Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

Mia Couto - Identidade


 

AL

publicado às 23:17

Pela pena dos poetas anglófonos

por jpt, em 12.09.11
 
Memorial day.  Bitter salt is dressed upas a little girl with flowers.The streets are cordoned off with ropes,for the marching together of the living and the dead.Children with a grief not their own march slowly,like stepping over broken glass.
Memorial Day for the War Dead by Yehuda Amichai  
The towers are incidental.What are these ashes?Here is the hateThat does not travel.Here is the robeThat smells of the nightHere are the wordsRetired to their booksHere are the stonesLoosed from their settingsHere is the bridgeOver the waterHere is the placeWhere the sun came upHere is a seasonDry in the fireplace.Here are the ashes.The days are beautiful.
Hum by Ann Lauterbch 
After the thunder wilder than thunder,after the booming ice storm of glass from the great windows,after the radio stopped singing like a tree full of terrified frogs,after night burst the dam of day and flooded the kitchen,for a time the stoves glowed in darkness like the lighthouse in Fajardo, like a cook's soul.Soul I say, even if the dead cannot tell us about the bristles of God's beard because God has no face,soul I say, to name the smoke-beings flung in constellationsacross the night sky of this city and cities to come.Alabanza I say, even if God has no face. Alabanza. When the war began, from Manhattan to Kabultwo constellations of smoke rose and drifted to each other,mingling in icy air, and one said with an Afghan tongue:Teach me to dance. We have no music here.And the other said with a Spanish tongue:I will teach you. Music is all we have.
Alabanza: In Praise of Local 100 by Martin Espada(poema dedicado ao pessoal do restaurante Windows of the World no topo da torre norte to World Trade Centre) 
I wonder if it hurts to live – And if They have to try – And whether – could They choose between – It would not be – to die –
I Measure Every Grief I Meet by Emily Dickinson 
Surely some revelation is at hand;Surely the Second Coming is at hand.The Second Coming! Hardly are those words outWhen a vast image out of Spiritus MundiTroubles my sight: somewhere in sands of the desertA shape with lion body and the head of a man,A gaze blank and pitiless as the sun,Is moving its slow thighs, while all about itReel shadows of the indignant desert birds.The darkness drops again; but now I knowThat twenty centuries of stony sleepWere vexed to nightmare by a rocking cradle,And what rough beast, its hour come round at last,Slouches towards Bethlehem to be born?
The Second Coming by W B YeatsAL 

publicado às 00:45


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