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Boas Festas e Bom 2015

por jpt, em 21.12.14

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É uma campanha um bocado para o estapafúrdia, esta que cobre os pacotes de açúcar p'rá bica - para além de estatisticamente grosseira. Em cada pacote uma saudação para os patrícios que, em cada país, "lá fora ganham a vida". Tem sub-texto? Tê-lo-á, talvez, nos implícitos. Mas terá, no registo publicitário, muito mais isso do "onde há português logo há uma bica", conteúdo muito menos rugoso.

 

Enfim, serve isto para que deseje eu um "bom dia" - boa quadra festiva - aos (9224?, onde terão ido buscar o número?) portugueses que vivem em Moçambique. E aos outros todos. E aos d'outras nacionalidades que vivam nesses países. E que por este ma-schamba passem (para que possam receber estes benfazejos votos, claro).

 

E que 2015 seja um bom ano, com café, açúcar e o resto possível. Melhor que 14, caramba! Pelo menos que o meu 14, raisoparta ...

 

publicado às 11:14

Sendo Sancho Pança

por jpt, em 24.03.14

 

 

Entre 2011 e 2013 recebi inúmeros pedidos de ajuda, sob diversas modalidades, de compatriotas meus interessados em trabalharem em Moçambique. Gente conhecida e até amiga. Outros amigos d'amigos ou conhecidos de conhecidos. Outros totalmente desconhecidos, chegados via blog, twitter ou facebook ou, também, google. Procurei responder, pelo menos à maioria (e que me desculpem aqueles a quem não terei respondido). Não terei sido verdadeiramente útil, mas tentei compensar essa inutilidade com algum fumo simpático. 

 

Inútil terei sido pois nem tenho trabalho para distribuir e na minha área não há exactamente um "mercado" pujante de trabalho e "redes" de contactos frutíferas. Mas, repito, tentei botar algo. Acima de tudo porque sempre pensei que quem procura trabalho merece o respeito e a solidariedade possível. 

 

Entretanto os pedidos (de informações, de contactos, de opiniões, de trabalho) findaram, e há já bastante tempo. Talvez por eu ter aqui escrito algumas vezes que nada tenho para redistribuir (laboralmente). Talvez por o fluxo emigratório português ter afrouxado. Talvez porque o 2013 moçambicano foi duro, e muito noticiado. Talvez por tudo isso junto.

 

Ainda assim fiquei sempre com algum sentimento de culpa, de não ter sido mais solidário, pelo menos com os trabalhadores da minha área. 

 

Por isso (re)escrevi um texto, dedicado a compatriotas da antropologia e outras disciplinas primas (na verdade as diferenças não existem), esses que pensam em trabalhar a sul, não obrigatoriamente em Moçambique. Não é um manual de emigração, longe disso. É um rescaldo autobiográfico, de um tipo quase nos 50 anos, que emigrou antes dos que emigram ou emigraram ou emigrarão agora. É longo, é chato, tem os tiques académicos (aquela coisa da notação bibliográfica). Pode ser que seja uma merda. Mas é solidário. 

 

Chama-se "Sendo Sancho Pança. Monólogo para colegas compatriotas sobre olhar em África." (basta clicar para o ler) 

publicado às 23:53

No Feedly (2)

por jpt, em 26.01.14

 

- "Balada da Emigração: para o meu pai", no Domadora de Camalães

 

- Um excelente texto: "Cinco mitos em torno das praxes", no A Terceira Noite.

 

- Idem: "A abjecção das praxes", de José Pacheco Pereira no "Público".

 

- "O tempura, o mores", de Rui Rocha no Delito de Opinião, é uma verdadeira delícia.

 

- Sobre a trapalhada do AO90 fica "O acordo ortográfico que veio simplificar a escrita", de Luís Aguiar-Conraria no A Destreza das Dúvidas.

publicado às 19:33

A emigração em Portugal

por jpt, em 12.12.13

 

De vez em quando resmungo sobre o que se pensa em Portugal da emigração. Como neste meu "O Emigrão". Questão (discursos) na qual se vê, talvez como em poucas, o conservadorismo, reaccionário, que acampou no rincão e se comporta qual escova de para-brisas, varre conscientemente da direita à esquerda e vice-versa. Lembrei-me disso ao encontrar, na rede Pinterest, este cartaz publicitário da TAP, do qual nada mais sei (autoria ou data).

 

Que empresa portuguesa se atreveria a fazer um anúncio com este conteúdo? Mesmo que com estética ou referências actualizadas? Seria trucidada.

publicado às 13:24

Joaquim Falé

por jpt, em 20.11.13

 

Saí uns parcos dias e no regresso a Maputo deparo-me com a notícia da morte, inopinada, fulminante, do meu patrício Joaquim Falé, companheiro de geração. Um homem super amável, gentil, disponível, discreto mas sempre armado de um sorriso desarmante. Quando eu cheguei já ele cá estava há alguns anos, depois de ter passado duas décadas na Suíça. Ligado ao turismo, calcorreou o país, reconhecendo disponibilidades turísticas, organizando percursos e acompanhando grupos. E descrevia-o com risonhos olhos de encantado. Nos finais de 90s alguns dos passeios que fiz foram por ele indicados, até organizados. Nos últimos anos esteve ligado à imprensa digital, editor de várias publicações no eixo do Club of Mozambique (Moçambique Hoje, Daily News Updates, e outros). Um percurso profissional cheio, e lembro-me de o encontrar tradutor do interessantíssimo "Os Suíços em Moçambique", o livro de Adolphe Linder (Arquivo Histórico de Moçambique, 2001), uma detalhada história da presença suíça no país.

 

Bem antes, ainda no século XX, o Falé tinha sido pioneiro na divulgação das letras e das artes moçambicanas (e africanas) nos suportes electrónicos, e isto bem antes da disseminação da internet no país (e até da sua expansão internacional), e acho que isso não será muito conhecido. Até porque muitos dos suportes ("sites") dessa longínqua (em termos internéticos) era foram caindo em desuso. Mas fica esta página "Autores Africanos. Do Rovuma ao Maputo" (que encetou em 1996!), com um vasto manancial de referências. Era-lhe um hóbi, denotando um homem sensível, culto sem disso fazer alarde. Quando comecei a blogar, em 2003 era recorrente encontrar referências às colocações  que o Falé fizera. Mas nunca transitou, que eu saiba, para os novos suportes blogais, divulgados já em XXI, porventura devido às obrigações profissionais. E pela sua riqueza: homem de família que era, com uma acarinhadíssima prole. Agora dele orfã e isso bem custa saber.

 

Até já, Falé.

publicado às 15:21

Imigrantes

por jpt, em 09.07.13

 

[Texto para o Delito de Opinião]

 

Com patrícios, na esplanada do Piripiri (Maputo). É época de férias escolares, época dos portugueses irem "à terra", normal é a pergunta "quando é que vais a Portugal?". Resposta da compatriota, enfadada, senhora, "f ... [com hífen e tudo], estão sempre a protestar. Antes era o frio, agora é o calor!". C...(mos) juntos [e ela é uma senhora, repito], pedimos (pede o marido dela), mais uma rodada. E concordarmos, que raio de povo o nosso, na tasca, no emprego, no fb, até no blog, sempre a protestar, com tudo, o tudo tudo. Segue a conversa, para longe disso aí. Depois. Guio para casa, meio toldado, coisas de domingo longo, e vou pensando, altaneiro, "soubessem como era o mundo protestavam menos". Resmungos (ai meu Deus, diz o ateu) constantes. De tão fraca gente. Por causa de tão fraca gente.

publicado às 16:06

 

A última vez que compareci às comemorações oficiais do 10 de Junho em Maputo foi há 10 anos, e sei bem quando foi pois ainda vivia na F. Engels, ali vizinho da residência do embaixador. Cheguei bem tarde, vindo um trabalho entre Boane e Moamba, mas ainda lá fui como sempre o fazia nesta data. Quando cumprimentei o funcionário público que então ocupava as funções de representante, ele ficou a olhar insistentemente para a minha ausente gravata. Eu não lhe disse o impropério que ali mereceu - na época era cooperante, tive que aguentar - mas nunca mais lá voltei. Já agora, os últimos três embaixadores portugueses foram muito fraquinhos, e um tipo, ainda para mais tendo conhecido as verdadeiras excelências que os antecederam, perde a paciência para o mero aparelhismo, mesmo que doirado com o brilho do simbólico. E muito prejudicado com os tiques sociológicos de uma corporação profissional que a torna tendencialmente (muito) renitente à aprendizagem, auto-encerrada, numa "endogamia" intelectual medíocre e incompreendedora. É certo que ao longo dos anos conheci uma mão cheia de bons, até excelentes, diplomatas. Serão esses os que estão socialmente descansados e sociologicamente informados, nisso entendendo que uma república é uma mole de cidadãos e não uma hierarquia de estatutos ontológicos. Mas esses não são, infelizmente, a regra, e isso apouca as competências gerais. Enfim, diz-se que o homem que agora chegou a Maputo é de outro calibre, e ainda bem pois o momento histórico merece e exige. A ver vamos. Se suplanta o que se vem passando e a equipa que tem.

 

Este ano fui à recepção comemorativa. O novo embaixador fez um bom discurso, para além do protocolar. Sublinhou que os portugueses residentes, 23 000 (?, sempre julguei que um pouco mais), constituem um contingente relativamente diminuto se comparado com os emigrantes portugueses em tantos outros países. Certo que o impacto migratório não é apenas estatístico, mas é avisado recordar isso para obstar à ideia da "vaga" de portugueses num país com 23 milhões de habitantes. E deixou dois pontos importantes a reter, quais recados para nós outros, portugueses: a) estamos cá a trabalhar, a ganhar a vida, com o apoio local. No respeito das leis - necessário sublinhar, num contexto em que muito patrício julga que vem gingar diante dos regulamentos. É uma trabalheira, e conspurca a imagem de quantos por cá não o fazem; b) a comunidade portuguesa deixa a política moçambicana para os moçambicanos. Conveniente de lembrar num momento antecessor de um ciclo eleitoral, para acalmar alguns hipotéticos excitados.

 

A festividade em si própria foi interessante. Para mim, a permitir-me rever conhecidos, já raro convívio dado o meu ensimesmamento e o nosso envelhecimento. E continuo a espantar-me com isto de ver os patrícios, quando em algo oficial, a vestirem-se todos com fatos azuis. Qua aquele velho "azul Carris", o dos uniformes dos motoristas e revisores de autocarros. Acham que vão finos, assim. Não vão. Mas enfim, é o que conseguem. E se se esforçam é de louvar. Mas não deixa de ser um uniforme. E isso não é lá muito bom, que a cidadania não se uniformiza. Tornando o cada um como cada qual num cada todo como cada quais. E isso não é bom, principalmente hoje, a precisar de mais cores.

 

Para o ano há mais. E até lá há muito para percorrer. Muito mesmo.

publicado às 20:57

Imigrações

por jpt, em 06.03.13

 

O meu texto no Canal de Moçambique de hoje, naquela coluna por demais irregular, a "Ao Balcão da Cantina":

 

Imigrações

 

A semana passada o “Canal” publicou três textos dedicados à questão da imigração em Moçambique: um editorial do Diário de Moçambique, com um âmbito mais alargado; uma já célebre “carta aberta aos portugueses”; e uma outra “carta aberta” que intenta responder à argumentação ali levantada. Enfim, os textos já têm um mês mas a questão está um pouco para além da mera actualidade.

 

Ao ler o jornal fiquei um bocado … ciumento. Pois eu também escrevera a propósito da carta de Núria Negrão, e fui aqui “esquecido”, remetido para o “banco de suplentes”. Decerto que castigo por me ter ausentado desta coluna, devido a viagens realizadas. Como todos sabemos não há pior sentimento do que o ciúme, que nos leva às mais irracionais decisões. E é ele que me faz colocar aqui essa minha resposta à "carta aberta aos portugueses" ... [anteriormente colocada no ma-schamba]

publicado às 10:42

 

Dado que aqui em Maputo se continua a discutir questões ligadas com a imigração ocorre-me partilhar este artigo: segundo relatório do Banco Mundial os imigrantes africanos são os que mais pagam para enviar dinheiro para países de origem. Por exemplo, no mínimo são taxados duas vezes mais do que os sul-asiáticos, e até bastante mais - 3,5 vezes mais quando imigram para a África do Sul, o grande receptor de mão-de-obra do continente. Sendo mais do que presumivel que são também eles os mais mal pagos e os que partem de contextos originários mais empobrecidos.

 

As coisas são sempre mais do que parecem. À primeira vista. E a quinquagésima vista, também. Teria muito mais interesse discutir coisas destas. "Coisas destas" entenda-se como "desenvolvimento".

 

publicado às 08:41

A carta aberta aos portugueses

por jpt, em 30.01.13

 

Há um ano escrevi aqui (e no Canal de Moçambique) sobre a actual imigração portuguesa para Moçambique, e no meio deixei: "Muitos portugueses a chegarem, a fugir à crise nacional e europeia. Três pontos: a) como qualquer vaga migratória isso vai levantar questões no mercado de trabalho (que aqui assumiram, assumem e vão assumir uma linguagem que remete para as realidades históricas do racismo e do colonialismo). É assim, será assim; b) muita gente chega mal preparada ou seja, com a atitude errada. Altaneira, entenda-se (é também o maldito “complexo do Equador”, que torna “doutor” quem o atravessa – coisa que não é de agora). Muita gente não a tem, vem trabalhar e viver. Esta última leva por tabela, catalogada como “tuga” (ou xi-colono) devida à tonta arrogância de uma parcela de patrícios que não percebem onde estão (“senhor(a), você está no estrangeiro” é coisa que muitas vezes me (nos) apetece dizer); c) e há gente patrícia mais antiga aqui a resmungar contra os que chegam agora, “que raio de gente, etc e tal", como se fossem laurentinos enjoados com os colonos rurais, transmontanos ou madeirenses, vindos para o Chockwé nos tempos idos. Esquecem-se, obviamente, que também chegaram um dia (há dois anos, cinco, quinze – como eu – ou, poucos, há mais anos ainda)."

 

Nos últimos dias recebo várias mensagens com uma "carta aberta aos portugueses", a qual vejo também reproduzida no facebook e na comunicação social. Ecoa o mal-estar com esta imigração e termina com um conselho explícito: que mantenhamos a bola baixa. Sucede-se a algumas outras discussões de facebook (vi algumas, contam-me outras) que realçam o desagrado com a situação actual. Umas explicitando o porquê desse desagrado (mais ligadas às questões da imigração ilegal), outras aludindo a uma generalizada má-vontade dos recém-chegados. E outras pura e simplesmente, considerando os portugueses aqui prejudiciais ("os portugueses são todos mal-educados" li recentemente, e engoli).

 

Esta carta chega-me, e em tons de concordância, por parte de amigos moçambicanos (alguns do grupo socio-etário da sua autora, até dela amigos pessoais), e por parte de amigos portugueses aqui há longo tempo residentes ou ex-residentes de longo prazo. E também por outros patrícios, entre o incomodados e o até receosos, sobre o que isto significa, o que pode induzir. Não se exagere, é um fenómeno normal, também no nosso país, e em tantos outros, a chegada de imigrantes provoca reacções de incómodo. E, em particular, quando estão inseridas num tipo de relacionamento histórico como este, ex-colonial.

 

A questão desta "carta aberta" ultrapassa o seu conteúdo ou mesmo o contexto sociológico muito particular da sua realização. E até mesmo o facto de eclodir na sequência da questão recentemente levantada dos vistos de entrada, cujo incremento de controlo advém da mais normal, e salutar, actividade administrativa. A questão central será até mais a da sua recepção e reprodução (partilha electrónica e conversacional).

 

Alguns pontos gostava de deixar, em corrida, pois por demais atarefado para textos sistematizados:

 

a. Em finais de XX também houve afluxo de portugueses, normalmente quadros ligados a grandes ou médias empresas, ou pequenos e médios investidores. Uma menor dimensão quantitativa e com outras características sociológicas (para facilitar chamo-lhes "expatriados", no sentido de melhor situação socioprofissional e com lugares de recuo). A reacção foi, e as pessoas esquecem-se, bastante mais adversa. Não só porque isto significava a chegada de capital (financeiro, fundamentalmente) português, e nisso parecendo assumir contornos do "neo-colonialismo". Mas também porque as memórias do período colonial, da guerra de independência (e da civil) eram mais vivas. E ainda porque a "classe média" urbana tinha menores disponibilidades e sentia mais o peso competitivo dos quadros estrangeiros. E a questão de Cahora-Bassa não estava ainda terminada, pois continuo a pensar que o final desse processo significou um "degelo" nas relações entre países e, por arrasto, entre sociedades.

 

Quando falo em "reacção adversa" falo de discursos públicos, de personalidades conhecidas. E das "cartas de leitores" aos jornais (e quão célebre era a correspondência, vera e fictícia, no jornal "Notícias"). Alusões e acusações a desmandos e maus tratos (e a escândalos económicos) juntaram-se. Umas teriam fundamento (a mácula de uma grande aldrabice bancária foi terrível) outras nem tanto (a primeira vez que escrevi num jornal moçambicano foi para defender um amigo, administrador de uma empresa, que estava a ser, prolongada e injustamente, escalpado no jornal "Savana". E ainda hoje lembro a gratidão ao Augusto Carvalho por ter intercedido no "Domingo" para que ali me publicassem o justíssimo desagravo).

 

Interessante no processo actual, bem menos intenso, é que se centra no mundo do "facebook", evidenciando a força do novo espaço de discurso público em Moçambique. E fazendo notar que neste espaço, muito menos hierarquizado, as vozes descontentes que se expressam estão mais entre os cidadãos comuns do que nas personalidades da elite político-cultural. Haverá, ponho como hipótese, menos "política" neste expressar do desagrado.

 

b. A sociedade portuguesa indiscutiu o colonialismo. Ou seja, manteve a sua histórica inconsciência colonialista, muito baseada no velho mito do "modo especial de ser português", aliás, do "modo especial de ser colono". Isso implica a manutenção, fluída, de estruturas mentais sociais que condicionam categorizações e relacionamentos, as quais subsistem, como é óbvio, numa multiplicidade de conteúdos - entenda-se, "cada um como cada qual", ou seja, as perspectivas individuais não são determinadas mas são, isso  sim, influenciadas.

 

Esta "inconsciência", este impensar do passado, não num sentido automortificador mas sim com uma veia prospectiva, continua a ser sublinhada por discursos dominantes. O actual pico da literatura "leve" que evoca a "boa África colonial" ajudará, a continuidade da ideia da "lusofonia" como espaço comum (e com a sua excrescência mal-cheirosa Acordo Ortográfico) é disso motor. A ideia de que as realidades históricas eram brutais desvanece-se. E quase inexiste a ideia que essa brutalidade era sistémica, como lhe chamou Sartre. Estas coisas estão escritas, e há muito. Pegue-se no "O Fascismo Nunca Existiu" (1976) de Eduardo Lourenço e vejam-se os luminosos textos dedicados ao (im)pensamento português sobre a relação colonial com África (escritos entre 1959 e 1976!!!) e está lá quase tudo, numa poderosa análise que as décadas seguintes só vieram sublinhar.  Lourenço é muito falado, premiado, elogiado. Mas parece ser pouco (re)lido. A dimensão sistémica colonial da sociedade e economia portuguesa (e metropolitana) está explícita em textos pioneiríssimos de José Capela ainda do início de 1970s, e depois demonstrada no excelente "Fio da Meada" de Carlos Fortuna, um marco já nos anos 90s. Mas dá a sensação que não ultrapassam o meio académico que os respeita. Os extraordinários textos de Grabato Dias (António Quadros) são esquecidos, que de "leves" e "miríficos" nada têm.

 

Porquê este rodeio bibliográfico? Porque o desconhecimento das realidades históricas e a armadilha da "língua comum" produzem em Portugal uma visão de África(s) e categorizações menos actuais do que se pensa, portanto menos úteis, menos utilizáveis, menos propensas a um relacionamento desmaculado (o "imaculado" não é uma palavra ... humana). E implica também muita surpresa, o deparar com ambientes menos propícios aos portugueses do que quantas vezes se pensa, se antevê. Ambientes diversos sociologicamente e diversos nacionalmente, pois não há uma una relação "portugueses-ex-colónias". Mas é tudo, como não poderia deixar de ser, bem menos fraterno do que o nosso (português) senso comum produz.

 

E talvez este tipo de discursos posssa servir, empurrar, para que se pense melhor. Não "de bola baixa". Mas de "bola alta".

 

c. A polémica carta pega em excertos discursivos de portugueses sobre Moçambique (recolhidos aquando das polémicas no facebook sobre o fim da atribuição de vistos de entrada nas fronteiras). São entendidos como significativos, os discursos na internet baseando uma indução sobre os portugueses. Para mim este é também um ponto interessante, pelas novas dinâmicas do discurso público e das suas utilizações e interpretações, que demonstra. Pois ao longo dos anos acompanhei os discursos electrónicos sobre Moçambique, em particular no bloguismo. Com a fantástica colaboração do Paulo Querido, organizei o directório "ma-blog", continuado depois com o Vitor Coelho da Silva no PNetMoçambique. Conheci centenas de blogs moçambicanos e sobre Moçambique. Muitos, muitos mesmo, escritos por portugueses. E vários destes por portugueses em Moçambique, voluntários, missionários, cooperantes, turistas, imigrantes, investigadores (como exemplo muito actual este Beijo-de-mulata, recentemente editado em livro em Portugal).

 

E o que me foi sempre notório, até como analisável, é o facto da (re)produção do encanto nesses blogs. Um encantamento, solidário com as pessoas, embrenhado na natureza, curioso com a história, preocupado com o real e o futuro. Quantas e quantas vezes ingénuo, namorando o exótico, até pa/maternalista, e eu face a isso resmungando. Mas um generalizado tom nos discursos electrónicos portugueses aquando em Moçambique. Oposto, até inverso, ao produzido em discussões de facebook que quase de certeza têm locutores sociologicamente distintos, e na sua esmagadora maioria bem longe do país, cruzando ainda as dores de um "luto colonial", de teimosia imorredoira. E nisso muito mais ligados às concepções (históricas) que acima refiro.

 

Deste modo, também por tudo isto, assentar a tese da malevolência portuguesa (ou da significativa malevolência portuguesa, mesmo que não universal) no "picanço" a la carte desses exemplos mais ultramontanos (ainda que eles sejam, porque o são, recorrentes em alguns contextos electrónicos) me parece francamente letal. Para quem escreve. Não para quem ouve e lê.

 

d. Depois, e por fim, o óbvio e mais importante. Moçambique como "terra de oportunidades"? Como penúltimo passo deste generalizado "go south" africano? Como espaço de mineração e garimpo? Como país que vive uma continuada pacificação e um anunciado desenvolvimento? Como terra de gás e petróleo? Esta é a realidade das representações que o país tem, de momento, no contexto internacional. O problema são os imigrantes portugueses (com as suas características)? Ou é a capacidade do país conviver com o fluxo tão diversificado de imigrantes e de migrantes? O qual foi, inclusivamente, saudado há pouco por um membro do governo como dimensão do desenvolvimento e globalização sentidos no país.

 

A classe média maputense choca-se com a imigração portuguesa, legal e ilegal. E tem razões sociológicas para tal, deixemo-nos de exagerados prudidos. Expressa-as publicamente (jornais, redes sociais). Mas se cruzarmos a sociedade nas suas várias dimensões encontramos outras preocupações com tantos outros núcleos estrangeiros. No norte com os "tanzanianos", nos pequenos comerciantes com os "nigerianos", generalizadamente com os "indianos", em tanta gente com os chineses (sem aspas, pois são realmente chineses contrariamente aos outros universos), nos quadros também com os "sul-africanos", há alguns anos no centro do país com os "zimbabweanos". Etc.

 

A questão é bem mais vasta. E apaixonante. É a de incrementar a capacidade administrativa para dirimir este desafio que a imagem de progresso do país provoca, o fluxo imigratório. E de fazer coexistir isso com desenvolvimento económico e com justiça social - sim, atentando que nestas mobilidades os défices de capital cultural ou económico dos cidadãos nacionais podem ser (podem ser, sublinho) prejudiciais para a justiça social. Ou seja, os desafios do país são enormes, não são os "200 portugueses por mês" (que Núria Negrão, autora da "carta aberta", afirma) - por piores que estes sejam, que nós sejamos.

 

Por tudo isto, ver os meus amigos intelectuais, académicos, empresários ou funcionários burgueses, a maioria deles auto-situando-se "à esquerda" (no espectro político moçambicano esta polaridade inexiste, mas na linguagem autodefinidora funciona), até ecoadores do "indignismo" globalizado, a aplaudirem textos sociologicamente tão débeis, generalizações a roçarem o mero preconceito, e invocações do "respeitinho", do "bater a bola baixa", que aludem ao mais medonho do autoritarismo, é-me doloroso.

 

Até porque, e ainda que não esquecendo (daí a arenga histórica acima colocada) o particular contexto histórico desta imigração portuguesa, a construção de sociedades democráticas é também a defesa de que os imigrantes, não deixando de ser estrangeiros, "batam a bola alta", sejam cidadãos. Metecos, como este blog se reclama. Desajustados, até mal-criados, se calhar. Mas não rasteirinhos.

 

Oxalá.

 

jpt

publicado às 17:52

A debandeirada total

por jpt, em 11.11.12

Há um mês, nas cerimónias oficiais do feriado de 5 de Outubro, a bandeira portuguesa foi hasteada de modo invertido . Dado o estado abrasivo da cena política e social portuguesa o caso deu brado . Como então referi a Ana Leão produziu então a imagem nacional do dia, amplamente reproduzida, in-FB, in-blog, in-mídia.

Francamente, mais a frio, nestas coisas mais vale afivelar um sorriso, mesmo que encabulado. Agora mesmo o meu amigo FR teve a maldade de tirar esta foto, ali à Julius Nyerere, no cruzamento com a Eduardo Mondlane. E vai avisando, pérfido, que se em Portugal anda tamanha a crise quetanto  se vai de cabeça ao contrário, os patrícios aqui imigrados pedem para não nos enviarem más influências ... Ao que a amiga FJ comenta, em genial momento polissémico (absolutamente genial, luxuosamente polissémico): "é a debandeirada total". [eu acho que leva o Óscar para o melhor comentário do ano]

Aqui fica a fotografia (e o comentário-mor). E acompanho-a com os meus cumprimentos ao(s) funcionário(s) que hasteiam, diariamente, a bandeira. Acontece.

Ou, de outra forma, só não acontece a quem não iça.

jpt

publicado às 20:54

Abro as mensagens do facebook. Tenho 5 pedidos de informações sobre o "estado da arte" em Moçambique, pedem-me conselhos sobre possibilidades de trabalho em determinadas áreas, enquadramentos jurídicos, enquadramento de modos e níveis de vida. Duas pessoas pedem-me ajuda mais explícita, que lhes arranje casa. Não conheço nenhuma delas, são ligações estabelecidas em torno do grupo ma-schamba - que me parece estar a desiludir muito gente, pois não providencia informações, para além das do meu ensimesmamento e de raras incursões dos companheiros (ainda mais ensimesmados? ou totalmente entimesmados?).

Já por duas vezes aqui referi a aridez do que posso dizer (ou fazer) a quem quer imigrar. Sei que é antipático, as pessoas cobram o que acham ser falta de interesse ou solidariedade. Não me passa pela cabeça menosprezar quem precisa de ajuda para trabalhar. Mas não vou estar com rodeios, pouco tenho a adiantar. E não vou interromper o meu vácuo para procurar casa ou informações para um colectivo, crescente.

Aos patrícios que querem imigrar. Boa sorte. Coração ao alto. Para mais informações gerais vejam este artigo recente no jornal "i". Oito opiniões de portugueses residentes, escolhidos entre a burguesia e os funcionários públicos (muito pobres os critérios da jornalista Isabel Tavares), a maioria dos quais conheço (conheço 5 dos 8 entrevistados). Opiniões diferentes, algumas das quais até surpreendentes - um tipo que diz que pagou à polícia "mas que tem tudo em ordem", só para não ficar retido é um caso, radical, de autismo. Um tipo que diz que Maputo em 1997 "era um inferno", enfim, merece quando morrer ir para o purgatório. Mas os caminhantes que leiam as opiniões, já podem imaginar um quadro geral.

O que tenho a dizer? O meu único luxo actual é o Peter Stuyvesant azul, 75 meticais (2 euros). Já tentei o Pall Mall, o velho Palmar (35 meticais, 1 euro) mas provoca-me enxaqueca. Sei que há que não acredite, a maioria proveniente de um grupo sociologicamente confinado e que de quando em vez, nestes oito anos de bloguismo, me surgem a resmungar: os que partiram há décadas e que continuam a ilegitimar a história, em particular nós, malandros, que estamos onde eles não estão. Para eles um tipo que aqui está está a enriquecer. Quem me dera. Mas não, o nível de vida está cada vez mais baixo, a tornar-se difícil. Falo da burguesia. Da dieta europeia.

E uma coisa podem aprender comigo. Aprendam a comer folhas. Nhangana, "ma-couve" (e este nome é cá de casa, deve ter outro), cacana, mboa, matapa. Usem farinha de milho. Moelas, cabrito. Não é preciso comer trinca (o arroz mau), que é o que o povo está agora condenado a comer.  Ou seja, seja-se emigrante em Moçambique como se fosse noutra "frança" qualquer. Pois assentar praça em general é coisa de expatriado. Sei bem do que falo, também o fui.

 jpt

publicado às 11:02

O consulado português de Maputo

por jpt, em 14.05.12

Contrariamente a algumas pessoas, até amigas, tenho boa opinião dos funcionários públicos diplomatas portugueses. Não só no sentido global (Portugal tem tido uma política externa bem sucedida ao longo das últimas décadas). Mas também no seu desempenho individualizado. Conheci vários diplomatas de grande qualidade. O homem mais sagaz e mais decente com o qual trabalhei foi um diplomata, o Embaixador António Valente, cuja memória muito acarinho. Um príncipe da república, sem qualquer hipérbole.

Certo que a imagem pública da "carreira" (como os próprios lhe chamam) é algo afectada. E muitas vezes pela própria "afectação" que conduz os passos de muitos dos seus membros, a excessiva personalização da "gravitas" necessária à representação do estado e ao acompanhamento das relações políticas internacionais. Haverá também, algumas vezes, tiques sociológicos, de "elitização" ou de "ascensão social", como se uma absorção do simbólico dos poderes dos quais são vizinhos, nisso criando fossos face àqueles a que servem, nós. Algo, creio, que mudará com a passagem das gerações de uma democracia republicana. Mas, grosso modo, é uma profissão onde há gente de grande qualidade, e ao qual o país muito deve. [Entre eles, consta e fazem constar, são tenebrosos, um autofagismo corporativo. Coisa que derivará das modalidades de exercício da profissão, pequenos núcleos expatriados, e das formas de organização interna, onde as redes pessoais são ainda mais determinantes do que na restante administração pública]

Vem estre preâmbulo a propósito da Petição que acabo de receber, onde se solicita ao MNE que abra uma excepção à normal rotação dos diplomatas e mantenha em funções a actual consulesa-geral* em Maputo, Graça Gonçalves Pereira. A qual é uma mulher incomum. Desde logo porque a sua concepção de "função pública" é a de "serviço público", algo que não está bem arreigado nos hábitos nacionais. Enérgica, criativa, exigente, disponível. O seu período em Maputo correspondeu ao crescimento da população portuguesa por cá e, como tal, de incremento das responsabilidades consulares. Dinamizou e acompanhou múltiplas actividades, congregando a "comunidade" (como se costuma dizer), procurando criar espaços comuns, de conhecimentos e de interacção.

Apaixonada pelo seu serviço e interessada pela realidade no qual decorre, entendeu como ninguém que a forma de dinamizar as formas de sociabilidade não era induzindo o auto-fechamento português, mas sim a compreensão e o apreço que nós-todos podemos ter do país em que vivemos e trabalhamos. Criou relações com inúmeras instituições e organizações moçambicanas. Dinamizou o "seu" consulado como verdadeiro centro cultural (nisso contrastando com o marasmo intelectual do Instituto Camões, seu vizinho), tornando-o um espaço de verdadeiro diálogo e interacção entre as múltiplas "comunidades" aqui existentes. Algo de um simbolismo profundo. Com tudo isso mostrou-se diplomata, forma de política. Ou seja, atenta, inteligente e culta.

Pela abertura, pela vontade, pela arrasadora disponibilidade e, acima de tudo e por tudo isto, pela sua inteligente clarividência, Graça Gonçalves Pereira recolhe a admiração dos portugueses (e de muitos moçambicanos), sempre prontos a resmungarem com os nossos diplomatas e com o nosso Estado, tantas vezes de modo injusto. E daí o meu preâmbulo - pois apesar de ter uma boa ideia, grosso modo, da diplomacia portuguesa tenho que sublinhar o carácter e a competência verdadeiramente únicos da nossa actual consulesa.

Desconfio muito que o espartilho burocrático dos "movimentos diplomáticos" impeça que esta Petição para a sua continuidade em Maputo venha a obter o efeito desejado. Mas talvez sim, daí que a assinei. E convido os patrícios que por aqui passem a assiná-la. Intentando a que se possa criar uma situação excepcional, a da renovação do seu posto. E, também, homenageando o seu desempenho. Pois nós, portugueses, somos também parcos em verdadeiras homenagens.

* Consulesa ou Cônsul? A "doutrina" divide-se e eu tenho hesitado no termo. "Consulesa" tem sido utilizado para nomear a mulher do cônsul, tal como "embaixatriz" designa a mulher do embaixador. Deixemo-nos de coisas, actualizemos a linguagem: não há forma de ser republicano, cidadão e inteligente e manter estas definições. As cônjuges não têm postos - mesmo reconhecendo que em muitos casos cumprem trabalhos associados aos respectivos cônjuges, por adesão pessoal. Ou seja, "embaixatriz" é um termo a tornar vácuo, a inexistir, e "consulesa" deve destinar-se à mulher que ocupa um posto. Não é apenas uma questão de português. É de república.

jpt

publicado às 17:10

Passos Coelho em Maputo

por jpt, em 09.04.12

Passos Coelho estará dois dias em Maputo, consta que com a agenda ligada aos desenvolvimentos de Cahora-Bassa. Informaram-me que, apesar da agenda carregada, e como é habitual, o primeiro-ministro terá um encontro com os portugueses residentes na região. O qual ocorrerá na próxima terça-feira, ao fim da tarde, na Escola Portuguesa. É sempre de saudar esta disponibilidade. Estou certo que, como não poderá deixar de ser, o PM deixará palavras de incentivo aos imigrantes que encontrará. Muito provavelmente os seus oponentes rugirão, de novo, que ele quer fazer emigrar os portugueses: uma falsidade contra a qual já resmunguei e que bem demonstra o pequeno espírito da oposição "indignável".

Já assisti a vários encontros deste tipo (com PM e PR) da "comunidade portuguesa", momentos de conjugação, onde se congregam milhares de patrícios. Que me lembre nestes quinze anos só falhei uma recente visita de José Sócrates (acontecida no Indy Village, do grupo Visabeira): nem o supremo apelo da chamussa me fez acorrer a tal personagem. Mas cada visita destas aviva-me memórias. Sobre essas visitas e encontros deixei pequenos apontamentos no ma-schamba: um sobre muito antigas visitas de Estado (de Eanes a Sampaio e Guterres); um outro sobre visita mais recente (de Durão Barroso). Perderam, com toda a certeza, a actualidade. Mas ao relê-los percebo o quão diferente (não digo melhor, digo diferente) é o conteúdo sociológico dos patrícios que encontramos nestas reuniões. Os mais veteranos perceberão o meu sorriso. Concedo, algo aliviado.

jpt

publicado às 01:33

Nós, portugueses, e a emigração

por jpt, em 14.03.12

 

Também aqui se tem falado de emigração portuguesa. E, mais recentemente, da que vem acontecendo para Moçambique. Neste assunto é comum referir-se a tradição portuguesa de galgar mares, um "modo português de estar no mundo", a predisposição para emigrar, um "àvontadismo" como se que cosmopolita. Dois dedos de conversa sobre o assunto e já estamos de novo no Camões e no antanho de ouro, como se a história marcasse o ser e o estar do futuro, dos homens de hoje. Conversas culturalistas, que valem o que valem (para quem não estudou destas coisas, o culturalismo é uma teoria científica que consiste em afirmar que "prognósticos só depois do jogo").

Nisso de se olhar o passado, e nele se ver inscrito uma tendência estrutural portuguesa para a emigração, um "fado", se se quiser, ocorre sempre o argumento literário. A mim, e por isso mesmo, ocorre-me citar Bocage. E cito-o, também para pensar o hoje:

"Despedindo-se da pátria, ao partir para a Índia

Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado, Mansa corrente deleitosa, amena, Em cuja praia o nome de Filena Mil vezes tenho escrito e mil beijado:

Nunca mais me verás entre o meu gado Soprando a namorada e branda avena, A cujo som descia mais serena, Mais vagarosa, para o mar salgado:

Devo enfim manejar por lei da sorte Cajados não, mortíferos alfanges, Nos campos do colério Mavorte;

E talvez entre impávidas falanges Testemunhas farei da minha morte Remotas margens, que humedece o Ganges."

ou ainda

"Vendo-se longe da pátria e perseguido pela fortuna

Já por bárbaros climas entranhado, Já por mares inóspitos vagante, Vítima triste da fortuna errante, 'té dos mais desprezíveis desprezado:

Da fagueira esperança abandonado, Lassas as forças, pálido o semblante, Sinto rasgar meu peito a cada instante A mágoa de morrer expatriado:

Mas ah! Que bem maior, se contra a sorte Lá do sepulcro no sagrado hospício Refúgio me promete a amiga Morte!

Vem pois, ó nume aos míseros propício, Vem livrar-me da mão pesada e forte, Que de rastos me leva ao precipício!"

jpt

publicado às 12:56


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