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Ernest Hemingway

por jpt, em 06.07.11

 

Não se consegue acompanhar isto das efemérides. O melhor é esquecê-las. Ou então passar pelos jornais (e blogs) e reparar um bocado. Agora cumpriram-se 50 anos da morte de Hemingway. E fui reler outra vez o Fiesta (o meu primeiro "Fiesta" chamava-se assim, assim fiquei). Cada um tem os seus livros e os seus autores. E algumas personagens. Em muito jovem fiz-me, exagerada e até doentiamente, Jack Barnes. E assim andei um tempo demasiado. Até me convencer a ser libertado por Tom Fowler. Enfim, tudo isto para dizer que o meu Hemingway está ali, não na sua sua personagem ou na Espanha em chamas ou nas caçadas africanas. Em cada releitura deste Fiesta (para aí quinquenal) é comigo que falo, um regresso a mim - também tipo, "o que é que me deu naquela altura?". Mas sempre inebriando-me no livro, na forma de inventar e narrar, e tantas vezes do aparente nada fazer tudo. De cada vez fico-me em nacos diferentes. Porque fui ficando (felizmente, caramba) diferente.

 

 

 

Agora? Por exemplo com transições como esta, onde cabe o mundo:

 

"Depois revia-a subindo a rua e metendo-se no automóvel, tal como a vira pela última vez, e é claro que não tardou que me sentisse metido no inferno. É tremendamente fácil a gente fazer-se forte de dia, mas de noite é outra coisa.

 

CAPÍTULO V

 

Pela manhã desci o boulevard até à Rua Soufflot para tomar café e um brioche. Estava uma manhã linda. Os castanheiros dos jardins do Luxemburgo estavam em flor. Sentia-se a agradável expectativa de um dia quente. Com o café, li os jornais e depois fumei um cigarro. As floristas vinham do mercado, compondo o fornecimento quotidiano. Estudantes subiam a rua para a Faculdade de Direito ou desciam para a Sorbona. O boulevard estava cheio do movimento dos carros e de gente a caminho do trabalho. Meti-me num autocarro S e fui até à Madeleine, de pé na plataforma traseira. Da Madeleine, passeei-me pelo Boulevard des Capucines até à Ópera, e dirigi-me para o meu escritório. Cruzei-me com o homem das rãs saltadoras e o homem dos bonecos que jogam o boxe. Desviei-me para não passar por cima do fio com que a rapariga ajudante fazia mexer os pugilistas. Ele nem olhava, segurando o fio nas mãos fechadas. O homem incitava dois turistas a que comprassem. Três turistas mais tinham parado a ver. Segui atrás de um homem que empurrava um cilindro que imprimia a palavra "CINZANO" no passeio, em húmidas letras. Passava gente para o trabalho, constantemente. Sabia bem ir para o trabalho"

 

[Ernest Hemingway, O Sol Nasce Sempre (Fiesta), Livros do Brasil, pp. 54-55, tradução de Jorge de Sena]

 

jpt

publicado às 01:42


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