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Cinema colonial em Lisboa

por jpt, em 22.01.15

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Ontem na Cinemateca (Lisboa) uma interessante sessão com quatro filmes intitulada "Colecção colonial da cinemateca". Incluiu o documentário "Um safari fotográfico nas coutadas da Safrique" (1972) e o ensaio "Streets of Early Sorrow" (1963), ambos de Manuel Faria de Almeida, nome crucial da história do cinema em Moçambique. E também Monangambée (1968) de Sarah Moldoror, e o documentário Le Portugal D'Outremer Dans Le Monde D'Aujourd'Hui (1971), de Jean Leduc. Um conjunto muito diversificado de abordagens, uma panóplia de textos e sub-textos riquíssima, entre a adaptação de Luandino Vieira ao propagandismo explícito de Leduc, uma diversidade inclusa nas obras rarissimamente apresentadas do realizador  Faria de Almeida, um percurso profissional exemplificativo dos contrangimentos sofridos pelos autores face aos poderes, em particular os autoritários.

 

Em suma, uma sessão louvável. E que espero prenunciar muitos mais mergulhos neste eixo de produção cinematográfica. O pior foi a seguir. Eu fui em grupo, tendo desafiado um conjunto de amigos, interessados nestas coisas. Outros encontrei lá. Tinha acorrido bastante público, tanto que a sala de projecção foi alterada para uma maior, que albergasse tanta gente. O que demonstra haver um público algo conhecedor da questão e bastante interessado.

 

Ora no final havia um espaço para apresentações orais, o que erradamente julgáramos "debate" (no sentido de momento conversacional). O director da Cinemateca muito bem apresentou os desejos da instituição em alargar esta linha de investigação sobre o acervo cinematográfico em tempo colonial, em articulação com os centros de investigação e as cinematecas dos países ex-colónias. E seguiram-se as intervenções de algumas investigadoras. Confesso o meu incómodo, até desabrido. Estava presente o realizador Faria de Almeida, seria natural que fosse locutor privilegiado - até em modo de homenagem, que tão raramente são os seus filmes visionados, mas não só. Qual quê! Tínhamos visto um conjunto interessantíssimo e variado de abordagens, seria normal que as discutíssemos, seus conteúdos e contextos. Mas, pelo contrário, encetou-se um processo de auto-apresentação, dos respectivos projectos académicos, como se ontem à noite fosse um colóquio, um seminário, um congresso, em suma um painel qualquer ... Não ouvi tudo, ali pelas nove horas da noite, quando uma das académicas iniciou, diante daquele público que cruzara Lisboa no fim da tarde, hora de ponta, para ir ver cinema do tempo colonial, ou seja gente interessada e sensibilizada para o assunto, a leitura de um texto sobre a "importância do arquivo" como se face a uma turma do 12º ano a necessitar de orientação profissional, a gente entreolhou-se e baldámo-nos na via de Campo de Ourique para jantar, em processo que outros incautos pós-espectadores também cometiam, cada um com seu destino.

 

Pode aparentar que estou a resmungar contra as dificuldades dos académicos, por muito competentes que o sejam, em falar fora do seu contexto profissional, em abordar o "público", com ele comunicar. Mas não é isso. Somos gerações, principalmente as ligadas às ciências sociais, profundamente marcadas pela denúncia do etnocentrismo. E um corpo cinematográfico como o visto ontem é matéria-prima magnífica para discutir o peso que esse etnocentrismo tem na configuração do mundo tal qual o vemos. Mas, e apesar do dissecar dos efeitos dessa componente intelectual não estar concluído (em minha opinião nunca o poderá estar, é obrigatoriamente estruturante, mas isso é outra discussão), é tempo de anunciarmos e reclamarmos um outro combate-crítica intelectual, e o legarmos às gerações seguintes: a luta contra o egocentrismo. Este "me, myself and I" amando o espelho, recorrente, transversal, constante. Que ontem foi pungente. A impelir-me esta antipatia, egótica sim, mas quanto muito egodestrutiva.

 

publicado às 12:11


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