Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Acabo de receber via e-mail esta mais refinada crueldade. Humor negro. Vou acreditar que "rir é o melhor remédio", como nas velhas "Selecções".

jpt

publicado às 13:05

O  Bairro Alto depois de Portugal ter ganho aos espanhóis no Euro 2004 era  uma enorme festa. Gostava muito de uma repetição daqui a pouco!©miguel valle de figueiredo 2004

publicado às 20:22

Que Seja Assim

por jpt, em 29.06.10
PSB

publicado às 13:30

2004 ou 2010?

por jpt, em 21.06.10
As equipas nacionais do Euro 2004 e mesmo a do Mundial 2006 - equipas orientadas por LF Scolari - jogando melhor ou pior, tinham uma "certa atitude" e raça. E a do Mundial 2010? Nos "ensaios" nada que se visse, e agora que é a sério, no 1º jogo não mostrou nada, no 2º desafio espetou uma cabazada dita histórica aos pobres norte-coreanos, movidos a urânio empobrecido... Como vai ser daqui para a frente? Esta "Selecção" tem identidade, maturidade, qualidade, classe, vontade, garra?Uma das características das equipas do "Sargentão", goste-se ou não do homem, era o apoio incondicional, empático como não me lembro, do povo. E esta? Vai cativar a rapaziada?Gostava de crer que sim, apesar de não ser, por razões continuadas e parece-me que justificadas, adepto de Queiroz.Se o Kennedy foi "ein berliner", se depois do 11 de Setembro fomos (muitos de nós, pelo menos) nova-iorquinos, podíamos ser todos Portugueses agora. Já agora!Vossomvf©miguel valle de figueiredo (Euro 2004)

publicado às 22:27

Que me perdoem "nuestros hermanos" mas não me posso dizer destroçado com a estrepitosa vitória  por 1 a 0 dos geralmente maçadores helvéticos sobre a "Fùria", campeã europeia em título.

Para perpetuar o momento, fica uma imagem feita durante o EURO 2004, no momento imediatamente a seguir ao golo de Nuno Gomes(!) no jogo Portugal- Espanha  que  mandou os vizinhos para casa mais cedo.

Vosso

mvf

©miguel valle de figueiredo, Estádio José de Alvalade, Portugal-Espanha, EURO 2004

publicado às 02:05

Esta senhora, adepta suíça cuja imagem correu mundo durante o campeonato europeu de futebol de 2004, deve estar muito contente. Só por isso valeu o jogo de hoje. [Que me perdoem as mais militantes da ideologia do género].jpt

publicado às 20:40

A ex-equipa de todos nós

por jpt, em 16.06.10
Luis Felipe Scolari, Estádio José de Alvalade durante o EURO 2004©miguel valle de figueiredo(foto da exposição Estádios de Alma/ Stadium der Seele, Berlim 2006)A selecção nacional portuguesa perdeu a classe, a ambição, a garra, a vontade de ganhar. Em pouco tempo foi o que Carlos Queiroz conseguiu de uma equipa que foi realmente a de todos nós (portugueses) e que era respeitada por tutti quanti.Carlos Queiroz é arrogante, tem mau perder e não sabe ganhar. Carlos Queiroz não tem classe, falta-lhe em ambição o que lhe sobra em prosápia. Carlos Queiroz não é, nunca foi, o líder que gostava de ser. A Carlos Queiroz nunca lhe ouvimos dizer que era responsável por qualquer derrota. A Carlos Queiroz sempre lhe ouvimos culpar outros pelos seus insucessos. A Carlos Queiroz não lhe perdoo os famosos 6-3 do Sporting Clube de Portugal contra o benfica* quando descobriu debaixo de intensa chuvada que o extremo-direito Capucho podia jogar a lateral esquerdo. Foi o que se viu e o que se sabe. Hoje, depois de uma exibição triste e cinzenta da selecção nacional portuguesa, com erros manifestos na distribuição dos jogadores em campo, substituições que não lembram nem ao patético comentador televisivo Rui Santos, seu grande defensor e inimigo figadal de Scolari, o Queiroz, com uma falta de tomates estratégicos notável e montagem confrangedora, assacou a culpa da miserável joga aos rapazes da Costa do Marfim que, diz ele, não quiseram assumir o jogo(!), dizendo disparatadamente e de seguida que Portugal, jogando inteligentemente não foi no engodo (!!), ou seja, ficou-se nas covas a tentar não perder... Já mais tarde, atirou ainda umas pedras à FIFA, aos árbitros - e se eu lá estivesse ou mesmo algum de vocês, cheira-me que não escaparíamos -, dizendo que a protecção braçal de Drogba, blá, blá, blá...Havia e há quem não gostava e não gosta de Luis Felipe Scolari, mas que com ele a equipa era de todos nós e honrava a gasta Pátria, não há dúvidas.Vosso e entristecido mvf*o nome da colectividade em inicial minúscula não é gralha ou distracção :-)

publicado às 01:24

Em coisas de futebol

por jpt, em 16.10.05

a única coisa que realmente me surpreende é a pouca atenção, o reduzido eco e o nulo respeito que têm recebido os notórios dotes oraculares deste Ma-Schamba, amplamente comprovados desde o Euro-2004 (os cépticos que visitem o arquivo Ma-Schamba da época) .

Razões para tal desprezo? Primado de um racionalismo setecentista alhures? Cristo-ateísmo fundamentalista? Recusa do multiculturalismo? Mera cegueira? Incómodo?

publicado às 11:52

Feitiçaria para a bola

por jpt, em 08.07.04

De Mavalane a casa e ainda nem tomei banho...e fico-me, sorrindo, mas triste, com esta ideia. Não sei quantos reais leitores passam por aqui. De alguns amigos certo, de uns poucos comentadores idem. Mas quantos mais? Mas nem um me comentou "V. está parvo?".

 

Enchi o Ma-schamba de feitiço, curandeiros, dizendo-os em apoio à selecção da bola portuguesa. Antecipei-me (mas era um a priori muito fácil) ao misticismo que caiu sobre Portugal. Não a magia mariana (Fátima, que horror), mas mesmo o tão vilipendiado "paganismo" (a palavra está aqui pesada, para traduzir todos esses preconceitos que escondem as semelhanças tão evidentes).

 

Da minha ironia aqui (pouco vista é certo), de todas as bandeiras (que alguns intelectuais assumiram como "recuperação moderna dos símbolos nacionais, antes cativados pelo serôdio Estado Novo" - meu Deus, diz o ateu, estupefacto com o argumento), de todas as velas, das idas a Fátima (viva Jorge Andrade, o central iluminista que não foi lá, "que tinha mais que fazer"), das rezas nos estádios, da senhora de caravaggio, das ironias com gravatas e camisas da sorte, das ausências ou presenças benéficas no estádio, de tudo isso fica uma ideia sobre o meu Portugal.

 

A que há uma profunda ideia de que os actos humanos influem à distância no devir das coisas, neste caso num jogo de bola. Não a crença religiosa, da intervenção divina no destino (com muitas matizes, mas sempre presente). Não a crença científica da manipulação causal influenciando efeitos. Apenas a da indução aleatória.

 

Amante de futebol torci pela selecção. Fiquei doente nas derrotas. Ia-me dando uma coisa má no jogo com a Inglaterra. Mas não posso deixar de sorrir, amargo, com todo esse misticismo. Sociologicamente transversal. Um misticismo cuja comunhão com mistificação não é apenas etimológica. É política.

 

E nem um "V(s). não está(ão) parvo(s)"?

publicado às 07:23

Nojo pátrio

por jpt, em 08.07.04
Há momentos assim. Súbito, e quando menos se espera, a vergonha de ser português.De vergonha, de repúdio por uma ordem jurídica imbecil, laxista. De uma corja de profissionais e legisladores eunucos, preguiçosos, miserandos. De vergonha de ser daí, de um país incivilizado.Onde alguém pode estar preso mais que um ano sem ser acusado. E onde, ao mesmo tempo, num extremo de incoerência teórica, filosófica, prática, um qualquer filho-da-mãe pode cometer um público desmando e sair incólume. Garantido no garantismo, nos aparentes direitos do cidadão.Esse garantismo que logo no caso a seguir será violado à última. Consoante as preguiças do Legislador.Este indivíduo [abaixo transcrito] vai ter lucros, simbólicos, afectivos e se calhar económicos. Vai lucrar com a sua indecência. Mas acima de tudo vai lucrar com a sua ilegalidade.Uma ordem jurídica que é incapaz, que está desarmada, de punir severamente um troglodita destes, não é ordem. Durante anos discute-se a violência no futebol, durante anos se preparou o Euro. Ninguém legislou contra uma invasão de campo? Porquê? Estiveram "ausentes do plenário, reunidos em comissão"?Há dias como estes. Por causa de um quase nada, envergonho-me de onde venho. Da sua incivilização. Da sua falta de amor-próprio.Imagine o leitor este exemplo ficcional: o jogador Paíto, internacional moçambicano ao serviço do Sporting rescinde contrato e assina pelo Benfica; passados anos vem ao estádio da Machava jogar pela sua selecção, um encontro decisivo (p.ex. apuramento para o CAN, Campeonato de África das Nações). Em momento culminante do jogo, súbito aqui o Zé Teixeira, em acesso furibundo de idiotice, entra em campo, finta a polícia, e vai agredir/gozar/perturbar o jogador.Se chegaram até aqui, façam ainda o favor de imaginar a trabalheira que advogados variados, embaixada, consulado, amigos, conhecidos e colegas, mais o psicólogo, o psiquiatra e o padre contratados, todos eles juntos, iriam ter para safar o tal idiota Zé Teixeira dos trabalhos em que se tinha metido.Lá embaixo terminei um texto com uma bela e festiva foto alusiva ao Europeu, e que muito apreciei. Reza ela "ser português é um orgasmo". Bastaram dois ou três dias para, com este caso, voltar à realidade: é um orgasmo sim, mas precoce.
CATALÃO JIMMY JUMPDe louco a herói bastou um saltoJaume Marquet, aliás Jimmy Jump, o catalão que atirou a bandeira do FC Barcelona à cara de Figo, foi posto em liberdade pelas autoridades portuguesas e já se encontra em Espanha. Ontem, divertia-se na famosa festa de San Fermin, em Pamplona, no País Basco.Saiu de Lisboa de carro com uma multa para pagar (a "peña" Juan Gamper, de Santander, já se ofereceu para o fazer) e para já tem escapado aos jornalistas catalães que o querem entrevistar na qualidade de novo herói dos adeptos "culé".Apesar das palavras em contramão do presidente Joan Laporta, recriminando a utilização do símbolo do clube naquele tipo de acções, o sentimento geral na Catalunha é de puro agradecimento ao "louco" Jimmy, um saltador de barreiras, como se auto-intitula, apesar de parecer muito pouco provável que tenha entrado no Estádio da Luz sem bilhete, como querem os jornais fazer crer.Para Jimmy Jump - na vida real trabalha numa imobiliária -, tudo faz parte de uma lenda. "O salto é o meu tesouro, a fama a minha liberdade, a força minha lei, o vento a minha única pátria". O poema, da sua autoria, serve de introdução ao seu "site" na Internet.Pai orgulhosoNa ausência de Jimmy, contactámos o pai em Barcelona, que pediu aos portugueses para não levarem o filho a mal: "Ele não tem nada contra a selecção portuguesa. Só contra Figo. Este plano já estava formado há muito tempo e nunca pensou em fazer mal a alguém. Queria apenas atirar à cara de Figo a sua própria vergonha."Contou ainda que este ímpeto anormal de Jaume já vem da infância: "Sempre foi muito traquinas. O que faz é inato. Em pequeno, frequentou um colégio da Opus Dei e os padres não o deixaram acompanhar os colegas a Roma para ver o Papa. Tinham medo do que podia fazer."Defende que o filho "não é um louco" e diz sentir-se orgulhoso, "independentemente do que alguns dizem". "Não faz mal a ninguém e todos se divertem", sublinha. Pois, todos menos Luís Figo, pelo menos.

publicado às 07:17

Ainda o golo do Maniche

por jpt, em 06.07.04
Das desventuras televisivas nos grandes momentos desportivos portugueses esta saltou-me logo à memória.

Nos Jogos Olímpicos de Montreal (1976) tudo era Carlos Lopes. Há décadas que Portugal não ganhava nenhuma medalha olímpica. E, ainda por cima, as longínguas derradeiras vinham da pouco conhecida e muito elitista vela. Hoje é difícil recordar a importância que uma medalha olímpica tinha nesses tempos, tempos de inêxito, sorumbáticos. Um país virgem de vitórias, era o que era.

Ainda no tiro veio uma medalha de prata, totalmente inesperada, mas que pouco mais foi do que o aperitivo para a vitória no atletismo, então a começar a ser desporto de todos. O país Portugal parou para ver o seu Campeão. Lopes perdeu para Viren, o finlandês sprinter, espantoso corredor de então.

Terrível desilusão. Passados minutos a RTP interrompeu a emissão para "compromissos publicitários", a render o peixe, que anunciantes e empresa esperariam ser aquele momento de glória e contavam, certeiramente, que todos estaríamos presos à espera da bandeira a subir (ainda que sem hino, que o 2º lugar não o dá).

A pior campanha publicitária de sempre. Pois o anúncio do


impediu-nos de ver em directo a "cerimónia protocolar" dos 10 000 metros, o grande Lopes lá em cima, ainda que à direita do vencedor. E como ele tinha sido esperado.

Vinte e oito anos depois posso afiançar, sob palavra de honra, que nunca comprei ou consumi uma caixa que fosse do Atum Tenório.

publicado às 07:09

...

por jpt, em 06.07.04
Permanências. Recorrências. Até ininteligências. Vitória da Grécia. Consta que o povo reagiu bem, tamanho o ânimo acumulado que sobrou para aguentar. Com elegância e sem choros de "morte na praia", que ninguém se afogou.

Mas nem todos. Quem escreve e fala público protesta. Como se a posse da palavra pública lhes exija algum tosco "dever nacional".

Feito troiano esse coro, lúgubre, grita tragédia, a morte da bola. Até traição, apontando o "cavalo" defensivo dos gregos. Cobardia deles, claro está. Outros rogam imprecações, amaldiçoam a protecção dos deuses helénicos: nestes dias de racionalismo chamam-lhe, envergonhados, motivação.

[é muito interessante ver como na actualidade as imputações causais mágico-religiosas foram substituídas pelas psicologistas, estas cheios de aparência científica]

Um carpir que me regressa aos antepassados. A lamúria aquando dessa outra grande e inesperada derrota. Também ela injusta. O adversário não corria, (só) se defendia e, pérfido, atacava de um só golpe, traiçoeiro. Sem qualquer mérito diante do nosso Cavaleiro.

publicado às 07:08

...

por jpt, em 05.07.04
A Vitória é Divina. A Derrota é Humana, (talvez) demasiado Humana. Viva Figo.

publicado às 06:53

História recente de Portugal

por jpt, em 04.07.04

Querem sociologizar a bola? Então...olhar para trás que o presente não é tudo.

Na 2ª metade dos 1970s, quando finalmente o país se abriu ao mundo e ao século XX, em Portugal havia ídolos do "lá fora":

Agostinho, um campeão do povo ainda que parco em títulos absolutos, que a grandeza vinha-lhe da têmpera mais do que das vitórias;

Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho (ou Garrancho), Xana e Livramento, campeões num hóquei a que só nós dávamos toda a importância, mas que até por isso era gigante, porque era "nosso". Outros tempos, não há dúvida.De repente veio Carlos Lopes, o primeiro a ganhar coisas grandes. A orgulhar num país pobre e ignorante.

Confundido no fim da longa imbecilidade paroquial/imperial e na curta ignorância revolucionária.

Foi nesse país que Lopes veio mostrar que se podia vencer, veio fazer sonhar ganhar. Que efeito a sua saga teve sobre uma população ainda de "chapéu na mão": o querer de um homem humilde; o duro, longo, e or-ga-ni-za-do trabalho; a esperança e o sofrimento [o atropelamento pré-Olimpíadas de 1984 tem contornos completamente lendários] ; o mestre-pai sabedor, rigído mas amigo (Moniz Pereira, um ícone da competência humanista); e finalmente, até já inesperada, a recompensa da vitória total, do sucesso, da liberdade.Um efeito que Mamede quase teve,

afinal campeão odiado por trair as aspirações ao sonho dos portugueses, pois tão igual ao comum era ele, tão pouco enorme parecia no momento decisivo. [A grandeza do falhar não colhe junto de quem sonha subir].

E também o efeito que Eriksson veio ter no início dos anos 80, terminando definitivamente (apesar de Pedroto) o paradigma do "brilharete" :

re?)ensinou o país a competir ao ataque. Matando (em parte) a pequenez circundante, injectando ambição.

E, depois, Rosa Mota, a libertar as mulheres (seria possível que hoje alguém imbecilizasse "quotas para homens" se não fossem todas as vitórias da "menina da foz"?).

E, só depois, as vitórias da bola. Acima de tudo o título de 91, já o crisma dos "meninos de Queirós", feitos símbolos de um novo país, o da "democracia de sucesso". Organizámos e ganhámos. Batota claro, todos sabiam, a começar por Queirós, que os avançados eram mais velhos (Toni e Gil eram sobre-21, como o futuro veio a provar, se dúvidas houvesse). Aquilo tudo, visto a frio, foi uma vergonha. Mas foi uma mudança.Lembro o estádio da Luz, ainda o dos 120 000 lugares, apinhado de um público diferente, não aquele que pouco antes acompanhara as aventuras europeias de Benfica e Porto. Pois a festa do campeonato foi a das cores diferentes, a de um entusiasmo nada doentio, assumido por jovens e mulheres, estas definitivamente fugidas dos carros onde até então tricotavam as tardes de domingo, esperando de transístor ligado o regresso dos maridos "bons chefes de família".

O mundial de 91 foi o da juvenilização e da feminização do público da bola. A haver uma "revolução cultural" ela brotou aí. E foi, exactamente por isso, um radical impulso na futebolização nacional, sempre em crescendo desde então.

Em 1996, o Euro desses "meninos", já se vivia a euforia da bola conjugada com as televisões privadas. Nessa campanha inglesa surgiu uma novidade, o da popularização do discurso. A filmagem constante dos adeptos a emoldurar horas e horas televisivas em torno do futebol, o microfone à disposição dos "populares", a sensação de que todos podem opinar (gritar, balbuciar) na tv, agora sim o ecrã total. E, elevado ao cúmulo, a filmagem ritual das festividades rituais, o supra-boçalismo do "quem não salta é ...."qualquer coisa"". A ilusão do microfone aberto, a encenação da comunhão colectiva.

Os ingredientes estavam aí todos. Daqui de longe não vejo nada de novo. Em natureza, que em grau parece não haver limites nesse país, no meu país. Ou talvez haja, agora traços de um misticismo total, assumido, colectivo. Diferente da promessa individual da romagem mariana. Explicitando agora a crença, num país onde antes sapos mortos e alhos variados seguiam envergonhadamente escondidos nos intra-muros.

Alienação nesta futebolização? Também alienação. Mas muita mudança, que nada é preto ou branco, e as gentes não tão estúpidas que não percebam o fim do jogo.

Mas acima de tudo desruralização. Um povo que deixa de ser pastoril, um povo ainda de fundo lavrador e pastor agora finalmente em "desmacambuzização"*. E, apesar da perfídia da futebolização nacional, isto é muito, mas muito bom:

*"macambuzi" significa pastor em algumas línguas bantús, presumo que por swahilização, assim sendo decerto que por influência árabe. Dizer mais?

publicado às 06:33

O Golo do Maniche

por jpt, em 04.07.04

(um canto, o jogador corpo reclinado, a mão sobre sobre a bola, um óbvio "canto curto" de marcação rápida: no sofá onde nos acotovelamos entre beatas, garrafas e acepipes vários, grito à passagem para uma tonta "câmara lenta" - "o jogo está a correr...", e logo logo, golo, ouço-o até no rádio da rua)

Uma "repetição" num canto, toda a gente sabe que não se faz. Nunca. E principalmente numa meia-final do euro, não falo do marítimo-penafiel (é sabida a tradição da rtp-madeira em falhar os golos nos Barreiros). Mas não o sabe Rogério Borges, o realizador que esteve até ao momento à frente de nove jogos da competição e terá a seu cargo a partida da final no estádio da Luz. E mais, ainda tem a desfaçatez de se justificar: "Houve uma bola fora e nestes momentos tentamos passar repetições, que fazem parte do espectáculo" (!!!!, pois!!!). "Mas trabalhamos em cima de brasas, as escolhas têm que ser feitas em segundos" (pois, isso já se sabe). E, cúmulo, culmina "Quando acabou o jogo estava um bocado frustrado por não ter televisionado o golo todo de Maniche" [um bocado???!!!!].

Em qualquer país civilizado este homem seria imediatamente preso, depositado nas masmorras das Berlengas locais, onde durante alguns anos seria roído por ratazanas, torturas, fomes e tuberculoses variadas, até que por indeterminada decisão seria estrangulado ou decapitado, os restos mortais esquecidos em vala comum. A família, confiscados todos os seus bens, definharia num sítio ermo em total miséria, propícia esta ao alquebrar moral de qualquer filho varão, impedindo-lhe devaneios de conspirações vingativas. Atingida a idade adulta seria, ainda assim, desterrado nos mais desgraçados locais para que febres ou atentados viessem a exterminar o nome de família.

Em Portugal o tal de Borges estará amanhã pronto a repetir dislates.

(sobre o indivíduo ver o excelente texto, publicado no Público e abaixo transcrito, do Cidadão Manuel Correia Fernandes. Haja gente assim.)

As Deficientes Transmissões

Sábado, 03 de Julho de 2004

Público

As televisões têm que estar atentas ao fenómeno do futebol e tirar dele o maior rendimento. Mas devem fazê-lo com sentido profissional e com qualidade de espectáculo. Que não são a mesma coisa. O primeiro mede-se pelas regras que são impostas; o segundo pelo atenção a avaliação do público espectador. Um bom profissional pode não ser um bom informador ou disponibilizador de boa informação. Pode fazer o que deve (isto é, o que lhe mandam), mas não o fazer bem, ou pode isso não ser o bem. Ou fazer bem, mas não mostrar o que deve.

Nas transmissões dos jogos do Europeu temos assistido a processos verdadeiramente inconcebíveis. Substitui-se o essencial pelo acessório; o geral pelo pormenor, as jogadas fundamentais por um pequeno nada que apenas interessou à avidez vácua do homem da câmara ou à pretensão exibicionista do seleccionador de imagens. Desta forma, ao longo de um desafio, vemos dúzias de cuspidelas, centenas de costas de jogadores, não raros palavrões agressivos e malcriados, saltos de treinadores, os grandes gestos universais. Deixamos de ver jogadas interessantes para nos ser mostrado um inútil pormenor técnico. Já se têm dado casos em que, para apresentar pela terceira vez uma repetição, se esquece que o jogo está em andamento e às vezes em lances perigosos ou interessantes.

Nisto, parece que a pior estação tenha sido até agora a RTP, que abusa destes processos, talvez porque possa dispor de mais meios técnicos. O que mostra que nem sempre a técnica é produtora de qualidade ou de sensibilidade televisiva.

Ora importa pensar que também neste aspecto o futebol é um jogo de equipa, e não uma exibição de pormenores individuais. Tudo o que é excesso de individualismo prejudica o espectáculo. As condições dos estádios agora (o que não acontecia em alguns estádios dos clubes portugueses, cujas transmissões eram ridículas e desgostantes pela má colocação das câmaras) permitem planos que ajudam o espectador a avaliar o jogo de conjunto. Os planos de pormenor devem reduzir-se ao necessário para esclarecer uma jogada, para confirmar ou infirmar um julgamento do árbitro ou outro dado que seja relevante, por exemplo, da reacção da assistência, e como regra fora do andamento da partida.

O que vemos durante as transmissões ronda o imbecil: um jogador não pode dar um pontapé que não vá uma câmara atrás dele; quando a jogada se desenrola junto às linhas laterais, lá tem que correr a câmara ali colocada atrás dos pés do jogador, em vez de mostrar o desenrolar global da jogada, cujo sentido ou intencionalidade se perde. Parece verificar-se uma busca de originalidade pacóvia nestes procedimentos. Não falemos já daqueles planos tirados do topo dos campos, que podem ser óptimos para mostrar marcas publicitárias, mas são inúteis e deploráveis como esclarecimento do espectador, porque fazem perder a noção do sentido dos movimentos e provocam a ilusão na avaliação do lance ou do movimento da equipa.

O futebol é um jogo de equipa, de conjunto, de interacção. A televisão tem obrigação de ser fiel a essa sua qualidade. Desviar para o pormenor é desvirtuar a beleza do jogo.

Por isso proponho: Reduzam os meios e invistam na qualidade; prefiram o geral ao particular, a visão de conjunto ao excesso de individualismo. Ponham menos câmaras no estádio, para que cada uma faça melhor o que deve; substituam a quantidade pela qualidade. Talvez assim se encontre mais gente agradada com as transmissões futebolísticas.

NOTA - Este texto foi escrito antes de a RTP não ter transmitido em directo o segundo golo de Portugal contra a Holanda. Apenas o mais grave de um erro de todos os dias.

Manuel Correia Fernandes

publicado às 06:13


Bloguistas




Tags

Todos os Assuntos