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Há anos que a secção "cultural" do Savana é uma delícia. Acredito que tal se deva a uma extrema crueldade dos responsáveis do jornal, que à secção obrigam alguns trabalhadores, os quais para seu ganha-pão (e quão difícil é este) são assim votados a uma semanal demonstração de si mesmos. Acredito que nas suas andanças literárias, prosadoras, poéticas e, mais-que-tudo, críticas, muito se devem desmoralizar.

Esta semana o "crítico" residente Armando Nenane investe mais uma "crítica literária". O alvo é um jovem poeta, Eusébio Sanjane, recém-inaugurado com um "Rosas e Lágrimas" (Ndjira). Não o li, não opino. Chegaram-me ecos de muito jovem aspiração poética, promessas de algum talento. E de grande alarido na edição (patrocínio MCel, imensa publicidade que o patrocinador não brinca em serviço, lançamento com grande pompa, grandes encómios da editora). Como dois assistentes leitores me diziam nada melhor para matar um jovem poeta que tamanha campanha e tanto elogio. Se à MCel taL não se criticará já a editora enfim ... mas quem sou eu, isso é coisa entre poetas.

Mas esta nota é sobre a crítica. Não sobre o seu "rico palavrear" entre erro ortográfico (já agora! quem poderá ensinar ao crítico grandiloquente a difícil arte da acentuação?). Mas sim sobre um momento delicioso. Nenane decide obrigar o jovem poeta a ser "poeta de geração" - "esperámos [ai o magestático] encontrar algo que mostre que a sua geração tem razão de ser como é, ou que talvez não, mas que a obra seja como que um espelho da sua geração ...", tal e qual Craveirinha o foi (!), diz. E por isso Nenane muito se insurge contra o aspirante Sanjane, que escreveu:

"E sobre a metrópole / erguem-se teias de tijolo / atravessando o céu / e rompendo o espaço ..." (Selvas de Pedra)

Sim, muito se irrita o "crítico": "Como pode, (sic, a vírgula é sic) um poeta do século XXI, falar de metrópole (sic, o negrito é sic)? Onde está, em Sanjane, algo que nos faça sentir, e não perder de vista, que ele é um poeta do século vinte e um e não dos anos sessenta ou de há mais décadas atrás?".

Por muito que se leiam jornais há sempre surpresas. Neste caso até agradáveis, que umas boas gargalhadas inesperadas (e depois partilhadas com amigos a quem se chama a atenção para esta pérola) são sempre bem-vindas.

Mas, caramba, há que denunciar a continuada crueldade do director e do editor do Savana. Que isto de obrigarem à crítica literária quem nem conhece os significados da palavra "metrópole" é demais. Desumano até. Há limites para a maldade, senhores. Nem que sejam os do ridículo.

publicado às 15:05


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