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Na próxima quarta-feira, 26 de Novembro, assinalar-se-á em Lisboa o cinquentenário da publicação de "Nós Matámos o Cão Tinhoso" de Luís Bernardo Honwana, livro crucial na literatura moçambicana. Na Faculdade de Letras será apresentada uma reedição (comemorativa), editada pela Alcance. E acontecerão conferências e conversas dedicadas ao livro e seu contexto, contando com várias participações, entre as quais Fátima Mendonça, Maria Alzira Seixo ou Luís Carlos Patraquim.

 

Quem quiser consultar o programa das actividades, que decorrem durante todo o dia, bastar-lhe-á para isso clicar aqui. Até quarta-feira.

 

 

 

publicado às 13:48

 

 

Uma preciosidade, verdadeira, apresentada anteontem em Coimbra. Esta apurada colectânea das crónicas de João Albasini, trabalho de Fátima Mendonça e de César Braga-Pinto, publicada pela editora moçambicana Alcance. O livro será apresentado hoje, domingo, no Porto (Feira do Livro, Jardins do Palácio de Cristal, Galeria da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, às 19 horas).

 

João Albasini (1876-1922) é uma personagem crucial da história intelectual moçambicana. E já foi eleito como protagonista literário, por João Paulo Borges Coelho no seu recente "O Olho de Hertzog". O livro integra dois artigos contextualizadores, cada um deles escrito por um dos organizadores, a luso-moçambicana Fátima Mendonça e o brasileiro Braga-Pinto. Integra 97 crónicas, anotadas, publicadas nos célebres e fundacionais jornais de Lourenço Marques, "O Africano" (1908-1918) e o "O Brado Africano" (1918-1974).

 

No contexto da edição moçambicana e na bibliografia sobre a história de Moçambique este livro é um verdadeiro luxo. Um monumento imperdível. 

 

Agora vou lê-lo.

publicado às 09:37

Fátima Mendonça emprestou ao Ma-schamba o texto "Ovídio e Kafka nas Margens do Lúrio", com o qual apresentou "Campo de Trânsito" de João Paulo Borges Coelho (Ndjira/Caminho, 2007). Ei-lo, sendo de referir que modifiquei a pontuação, introduzindo alguns parágrafos, de molde a facilitar a leitura em ecrã. Que me desculpe a autora.

 

 

Ovídio e Kafka nas margens do LúrioPor Fátima MendonçaLisboa, 4 de Julho de 2007

 

Em 2005, aquando da apresentação de Setentrião na Associação dos Escritores Moçambicanos em Maputo, admiti sem constrangimento que, embora tenha o privilégio de partilhar com João Paulo Borges Coelho uma profissão (docente) em área com afinidades com a sua e, de para além disso, nos unirem laços de amizade, não me sinto na posição incómoda, de o meu papel - aqui e agora - poder ser interpretado como acto 'tribal', ritualizado sob a forma de panegírico. Podendo mesmo ter como agravante o facto de desde a sua revelação como escritor de ficção ter tido o privilégio de ler nos seus formatos iniciais os originais que vieram dar origem aos já com este, seis livros publicados desde 2003. Tal como disse na altura e repito aqui em espaço e a um público totalmente diferentes daqueles a que nos habituaram estes actos em Maputo, não sinto constrangimento por legitimar publicamente o meu entusiasmo pelo aparecimento, nas letras moçambicanas, de uma voz diferente, que tentarei aqui descrever, guiada pela consciência de ser, tão somente e parafraseando António Cândido, intermediária entre a obra e o leitor, sendo o meu papel secundário relativamente à obra que comento e podendo apenas servir de impulso para que os leitores participem, por conta própria, nessa extraordinária aventura de liberdade que é a literatura.

 

Quase 2 500 anos de reflexão a ocidente, sobre a palavra escrita e as suas potencialidades retóricas remetem-nos, hoje, para posicionamentos que privilegiam o acto de leitura como meio para completar, ou mesmo materializar, essas intenções textuais que comumente designamos por significações, sendo o seu resultado múltiplo e variado, visto que depende em grande medida do lugar em que nos colocamos enquanto agentes, mas também sujeitos dessa leitura. Este Campo de trânsito é um dos bons exemplos em que se pode apoiar esta formulação teórica. De facto creio poder antecipar diferentes situações de entendimento deste estória, consoante as e vivências pessoais de quem lê e respectivas expectativas de leitura. O que relata este livro? Onde se localizam e o que são os três espaços/campo de trânsito/campo antigo e campo novos onde decorre a narrativa? Que paralelos estabelecer entre as bizarras personagens que a modelam e o universo das nossas experiências?Resposta tanto mais difícil quanto o autor, - como diria José Craveirinha - nos dribla permanentemente, obrigando-nos a um exercício de pesquisa que nos reenvia tanto para a memória colectiva como para o conhecimento individual da História e Geografia do país (Moçambique?) onde - supomos nós - decorrem os acontecimentos. E esta suposição decorre apenas do facto de o autor ser moçambicano e de como leitores estarmos munidos do preconceito de que o espaço da narrativa é o espaço de origem do escritor. O que também não significa que não seja. O que pretendo mostrar é que o autor se furta a essa identificação biunívoca de forma quase provocatória, utilizando alguns deliberados e ardilosos mecanismos.

 

Começo pelo registo do narrador entidade privilegiada deste romance pelo seu caracter omnisciente: já nas anteriores narrativas de Borges Coelho nos deparávamos com uma uma expressão linguística de cristalina limpidez, avessa a exibições exóticas, retomando um campo da literatura moçambicana (do qual andamos distraídos) que tem os seus antecedentes em textos referência como Nós Matámos o Cão Tinhoso de Luís Bernardo Honwana e Contos e Lendas de Carneiro Gonçalves, pela sua ordenação ática, reduzida à expressão do essencial, substância pura quase, que se pode dizer clássica em todos os sentidos. Neste romance vai mais longe no manejo da língua, trocando-nos a nós leitores as referências de lugar: de facto, se observarmos algum do léxico utilizado só podemos concluir que o efeito produzido é de ocultação e não de revelação.

 

Recusando o chamado lugar comum que desde a antiguidade se insere na lógica de encaminhamento da leitura, esta escrita introduz pois a indeterminação na construção pelo leitor do espaço da narrativa. Fugindo aos registos lexicais da língua falada em Moçambique, o autor opta sucessivamente por registos neutros que não correspondem a determinadas expectativas de leitura: onde seria normal o uso de machamba, aparece repetidas vezes horta, o mesmo acontecendo com frigorífico que substitui a moçambicana geleira; onde o mortífero crocodilo nos ajudaria a localizar a massa de água no Zambeze, surge o genérico sáurio, onde os marcados dumba-nengue ou chungamoyo nos encaminhariam para o nosso quotidiano mercado informal, dá-se preferência à neutra feira e onde nos pareceria lógico que a mulher do professor plantasse milho, surgem anódinas couves, o mesmo acontecendo com inesperadas alcachofras e espargos. Que provavelmente crescem em Moçambique mas zonas fronteiriças com o Zimbabwe mas que não correspondem a lugares comuns já consagrados na literatura moçambicana e por isso afastam a narrativa da referencialidade.

 

Esta estratégia de distanciamento produz pois alguns efeitos na leitura: por um lado faz o texto escapar ao fascínio antropológico que tanto parece seduzir alguns estudiosos das literaturas africanas, aspecto criticado duramente pelo escritor nigeriano Chinua Achebe, como sendo uma desvalorização destas literaturas. Obrigamo-nos assim a ler esta narrativa por aquilo o que é, ficção literária, furtando-se até à obrigatoriedade editorial dos clássicos glossários, esse exercício de tradução, inutilmente explicativo, que transforma o texto de ficção em objecto antropológico.

 

Por outro retira-lhe as possibilidades de relação directa com factos históricos. Sabendo nós que o autor faz investigação histórica numa área coincidente com o ambiente que envolve a trama do romance - defesa e segurança - e que por isso tem um visão privilegiada dos respectivos comportamentos individuais e colectivos, teremos de admitir que esse trabalho hermenêutico possa também servir como matéria prima de uma engenharia criativa.

 

Mas não me parece pacífico afirmar que este romance tem como assunto os campos de reeducação surgidos pouco depois da independência de Moçambique, na lógica de procedimentos análogos noutros lugares e épocas, baseada na crença da possibilidade da construção do Homem Novo, e que constituiriam mais tarde uma reserva de recrutamento para a Renamo. Julgo que esse facto histórico ou elementos com ele associados poderão ter funcionado como sugestão para a criação de ambientes (por ex. a forma como se fazia a chamada dos prisioneiros e a aceitação passiva da sua situação, as elucubrações ideológicas do professor, a organização burocrática do Director do campo de trânsito). Mas o romance passa ao lado da recuperação histórica desses factos porque astutamente o romancista se separa do historiador. E não me parece que o faça para evitar melindres, tratando-se embora de um assunto ainda hoje incómodo nos meios militares e políticos de Moçambique.

 

Fá-lo, quanto a mim, porque há no romancista que é João Paulo Borges Coelho essa capacidade essencial de galgar os limites da racionalidade manipulando sabiamente as categorias de Tempo e de Espaço de acordo com critérios só admitidos pela Arte. Com fragmentos da História (re) institui um cenário ficcionado, onde cabem todas as situações possíveis de confronto e aliança entre os aparelhos de um Estado totalitário - no romance representados pelo Director, o Bexigoso e o Professor e os resíduos da organização social que o precedeu - representado pelo Chefe da aldeia e o agente duplo que descobrimos ser o Vendedor de chá. Estado totalitário em que a massificação - traduzida na uniformização das categorias dos prisioneiros da cada um dos campos - reduz os indivíduos a um colectivo de onde se vai ausentando a marca do humano.

 

Reduzidas a números ou a funções as personagens metamorfoseiam-se na consciência singular de Mundau, fundidas numa animalidade emergente a partir das mãos (as dos Director são aranhas, as dos prisioneiros do campo antigo são a lesmas, a mão mutilada da mulher do professor é uma pinça de insecto) ou a um estado natural (as mãos do chefe da aldeia são raízes e as da filha talos). E não me parece ocasional o facto de ser o estado natural - floresta animais e água - que prevalece nas descrições do narrador, sobrepondo-se na sua pujança aos humanos seres massificados ao serviço de uma Ideia.

 

Na visão do narrador essa organização totalitária só aparentemente está condenada, pois tal como anuncia no final, embora autodissolvida pela rebelião dos prisioneiros do Campo antigo e do Campo novo, irá renascer, restando-nos, como no início, um qualquer Mundau, culpado sem culpa e um Bexigoso acusador sem acusação. Até que uma nova ordem se instale e tudo recomece em ciclo fechado como nos Mitos: Revolução permanente ou caos niilista?

 

O efeito de perplexidade a que nos conduz o narrador perante a realidade descrita/narrada, que se recusa permanentemente a ser captada de forma imediata decorre quanto a mim dessa estratégia discursiva de distanciamento relativamente a qualquer possível realidade e conhecida, porque só isso vai permitir a entrada no campo das analogias. O resto e evoco de novo José Craveirinha são coincidências. Já os antigos sabiam disso e Kafka, mais próximo do nosso Tempo melhor que ninguém. Trata-se pois aqui de contar uma história verosímil - que poderia ser relatada como reportagem ou notícia -, e que poderá eventualmente ter como substracto, factos ou acontecimentos ocorridos, com recursos narrativos que a conduzem ao absurdo e a transformam numa narrativa portadora de uma forte consistência ontológica, aberta a simbologias várias, e por isso resistente a uma leitura marcada pelos pressupostos do realismo. Com uma linguagem deliberada e ostensivamente depurada, reveladora de um domínio absoluto sobre a escrita, o que vem colocar definitivamente a ficção narrativa no mesmo nível de maturidade da poesia que desde Craveirinha e Knopfli até Heliodoro Baptista, Eduardo White ou Luís Carlos Patraquim se instituiu como um dos pilares da moderna cultura letrada moçambicana.

 

publicado às 19:38

Poema(s) Erótico(s)

por jpt, em 25.05.05

Matutinos gemidos em gerúndio
pronunciavam meu nome em surdina
aos cúmplices ouvidos da almofada.



[José Craveirinha, Poemas Eróticos, Moçambique Editora/Texto Editores, 2004 (edição póstuma, sob responsabilidade de Fátima Mendonça)]

publicado às 13:31

Descarada mas não enganosa esta minha publicidade. Se ainda não esgotou a bolsa natalícia...
 

 

Duas importantes edições D. Quixote, organizadas por Nelson Saúte: "As Mãos dos Pretos. Antologia do Conto Moçambicano" (2001) e "Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana" (2004).

 

Panoramas muito completos, e legítimos, do conto do século XX em Moçambique, de Orlando Mendes a Orlando Muhlanga, e da poesia de XX e inícios de XXI, de Rui de Noronha à mais recente produção poética, mantendo ao fim o mito de Mutimati Barnabé João (António Quadros).

 

Antologias que juntam o interesse literário ao histórico-documental, e dizer isto não é desprimor estético. E que nelas encerram a vontade de problematização e mesclização do que é a "literatura moçambicana", processos em que Nelson Saúte, com Francisco Noa entre outros, foram e continuam a ser pioneiros. Aqui ainda discussão em aberto, por um lado já explícito pela relação que o património literário tem com a produção da imagem nacional. E por um outro lado, ainda quase-mudo, pelo relativo silêncio face à oratura, e articulação de ambas (mas a essa ainda irei antes do Natal).

 

Mas que estas considerações não assustem, isto são questões a propósito dos livros, nestes não estão os ensaios de tendência fastidiosa. Concisos e contextualizadores prefácios do organizador, e literatura.

 

Para além do mais são também livros ofertáveis em quadra, "ficam bem", e não os estou a desvalorizar, bem pelo contrário.

 

 

Livros objecto? Nada, livros para ler.

 

Muito ofertável será também, mas já muito raro, a anterior colectânea organizada por Fátima Mendonça e Nelson Saúte, "Antologia da Nova Poesia Moçambicana" (Associação dos Escritores Moçambicanos, 1988).

publicado às 16:08

Marcelino dos Santos / Kalungano

por jpt, em 09.06.04

Marcelino dos Santos acaba de comemorar o seu 75º aniversário. Por essa ocasião Fátima Mendonça produziu este texto sobre o poeta e político, apresentado na homenagem que a Associação dos Escritores de Moçambique então promoveu.

Muito agradeço à Fátima Mendonça a intenção de aqui o reproduzir, ainda para mais sendo este um texto de arcaboiço académico. A dar brilho ao Ma-schamba.

O entrelugar da escrita: entre Marcelino ideólogo e Kalungano poetaPor Fátima MendonçaEm 14 de Janeiro de 1950 publicava o jornal O Brado Africano, uma carta enviada de Lisboa por um jovem estudante moçambicano em que se lia : "( …) Há dois anos que me encontro aqui em Portugal. Tenho constatado que o jornal se tem transformado lentamente (leio avidamente). É claro que o jornal é o exemplo. É por isso que devemos trabalhar juntos. É necessário que nos instruamos, cultivemos, eduquemos, para que o nível de vida e cultura se eleve; É necessário que os interesses particulares se subordinem aos interesses gerais, colectivos (…)". A carta era assinada por Marcelino dos Santos, então com 19 anos, e nela se pode vislumbrar já o "timbre" combativo e convicto que viriam caracterizar o militante político. Terá sido porventura esta curta missiva o marco fundador de uma vida dedicada à causa da luta anticolonial e do nacionalismo africano, favorecida pelo seu próprio contexto familiar e vivência social.De facto teve Marcelino dos Santos em seu pai Firmino dos Santos, membro da direcção de O Brado Africano nos finais da década de 40, o exemplo de posicionamento de grupo que permitiu que, desde a década de 20 se tivessem produzido nos diversos espaços colonizados em África, um conjunto ainda disperso de idéias reinvindicadoras assentes em dois núcleos: pertença a um espaço Outro (africano, fora do quadro civilizacional europeu) e estatuto de cidadania (por onde perpassavam exigências de igualdade de direitos cívicos e acesso à instrução para os africanos). Esta seria a geração de autodidactas letrados que Mário Pinto de Andrade viria a designar por Protonacionalistas, os quais no seu entender produziram um corpo de ideias que, embora contraditórias e discontínuas representavam a primeira forma colectiva de estar com o seu tempo. Fossem eles, activistas políticos como João Albasini, jornalistas com Estácio Dias ou Tomé Agostinho das Neves de São Tomé, romancistas como o angolano Assis Júnior, poetas como Rui de Noronha ou operários dos Caminhos de Ferro como Firmino dos Santos, foi toda uma geração que participou na empresa de consciencialização pan-africana, primeira forma de modernidade do mundo afro.Que a geração que se lhes seguiu, e da qual emerge a personalidade singular de Marcelino/Kalungano, problematizasse as suas opções e lhes opusesse uma nova visão de África - a das independências -, não foi mais do que o resultado da dinâmica subjacente a todos os conflitos geracionais e ao desenvolvimento da própria História.Creio pois que é desse substrato que resulta o desdobramento que me parece existir no percurso deste poeta que aqui homenageamos: por um lado a personagem política, o da estratégia e acção, orientadas pelos princípios que regeram os nacionalismos em África, que o conduziram à participação e a um relevante protagonismo em todas as organizações que antecederam a constituição dos Movimentos de Libertação (refiro-me ao MAC, FRAIN e CONCP), a qual por sua vez já tinha sido antecedida pela ligação com o MUD Juvenil (Organizacão unitária controlada pelo Partido Comunista Português) e Partido Comunista Francês. Finalmente, como todos sabemos, a sua participação na fundação da FRELIMO e subsequentes papéis desempenhados no interior do movimento até à Independência e nos anos que se lhe seguiram, até à sua quase retirada da vida política oficial (eu diria que ele é hoje um político informal). Estamos aqui com a a persona, no sentido que lhe atribuiram os trágicos gregos, Marcelino dos Santos a quem nem os seus detractores negam a virtude da coerência.Do outro lado temos Kalungano a personagem que se exprime poeticamente, mas que tal como o Platão de há quase 3 000 anos parece ter tal consciência do poder incontrolável das palavras que se deixa vigiar pelo seu Outro, obrigando-se a conjugar real e imaginário, de tal forma, que por vezes se torna difícil distinguir o ideólogo do poeta.Esta opinião poderia ser tida como especulação da minha parte se a legitimá-la não estivesse algumas declarações suas dispersas em entrevistas e até nas conversas informais que pratica e a que não se furta que, de resto, o distinguem do formalismo da maioria das personagens políticas deste país.Duma dessas conversas, tidas com estudantes da Universidade Eduardo Mondlane, retenho uma frase sua (relativamente recente) a propósito do poeta francês Louis Aragon: "De Louis Aragon ficou-me aquela frase: "acreditar no céu ou não, o que interessa é amar a mesma bela França"; isto para mim resumiu-se em ser ou não ser, o que interessa é lutar". Recuando um pouco mais no tempo vem-me ainda à memória uma sua metáfora mais antiga (Tempo, 26/6/85) : "A Arte deve fuzilar todo o inimigo da revolução".Os antecedentes desta visão utilitária da arte remontam a passados remotos. Mas se considerarmos como ponto de partida o mundo moderno, podemos dizer que é a revolução francesa quem a desencadeia com as primeiras canções revolucionárias dos "sans-cullottes". Mais tarde a Comuna de Paris e Vitor Hugo, pai fundador da poesia como arma e do poeta como soldado do futuro, que nas literaturas portuguesa e brasileira vão repercurtir-se em Antero de Quental e Castro Alves. O Império dos Czares é extinto em 1917 e assiste-se à criação do primeiro Estado chamado de poder popular, onde a literatura aparece a legitimar a revolução. Maiakowski futurista torna-se Maiakowski militante. Maximo Gorki (de vida errante e boémia) ocupa-se em dar forma ao realismo socialista ("A Mãe"). Esta nova atitude sobre a arte como elemento participante das transformações sociais, base sobre a qual assentaram os princípios do realismo socialista viria a influenciar o aparecimento de movimentos como o neo-realismo, tal como este se manifestou em Alves Redol, Gracilano Ramos ou Jorge Amado, ou ainda mudança de perspectiva, como aconteceu com Paul Eluard, e Louis Aragon que passaram de surrealistas a poetas da resistência ao nazismo.Finalmente já em plena guerra fria será Mao Tse Tung, o último timoneiro da arte programática, quem invade, a partir dos anos 60, o imaginário ocidental.De toda esta herança se apropriaram muitos escritores africanos que, desde o final da II Guerra Mundial, integraram a sua produção artística no discurso nacionalista africano, atitude que se prolongou para além das independências políticas e que em alguns casos combinou essa herança de forma original.Portanto essa visão da arte, privilegiadora do ético, assumida pela personagem Marcelino dos Santos vai interferir permanentemente na voz do esteta Kalungano o que poderia ser problematizável [à luz de outros conceitos de Artel, se à sua poesia e faltassem virtualidades reconhecidas como pertencentes ao campo literário.A sua identificação negativa com não poesia (que por vezes transparece em mal alinhadas críticas) só pode ser entendida pelo facto de formas atrofiadas de percepção de algumas das correntes estéticas relacionadas com o conceito de arte pela arte, e com as teorias criticas oriundas do formalimo russo, terem elegido durante algum tempo o conceito de literariedade como condição única a absoluta o reconhecimento da obra literária. Tem razão Carlos Reis quando, a propósito de Gaibéus de Alves Redol (que, pelas suas intenções programáticas pode equivaler ao que entre nós se convencionou designar por poesia de combate, onde se insere a poesia de Kalungano) ao chamar a atenção para o facto de quando Roman Jakobson afirma a literariedade como condição essencial do discurso verbal de cunho estético, se estar a colocar num plano de generalidade que só pode convir a uma aproximação igualmente global do fenómeno literário.Considero que tem havido ligeireza na forma como se passou a identificar esse conceito vago de literariedade com valor, o que trouxe como consequência a confusão entre gosto (que é sempre relativo e determinado pelo espaço cultural e ideológico em que nos situamos) e competência literária isto é a capacidade discernir num texto os elementos estruturantes, que só uma organização orientada para a produção de um efeito (aquilo que num jargão académico se designa como sobredeterminações) torna possível. Estas são passíveis de análise com o auxilio de instrumentos operatórios e critério próprios da teoria literária a que os textos devem responder. Esta promiscuidade entre literariedade e gosto tem levado à marginalização de correntes estéticas, géneros literários, ou formas de expressão individuais, que em determinados momentos históricos não se enquadram nos cânones vigentes, o que de resto, está suficientemente comprovado na ainda curta história literária de Moçambique.É este quadro que pode ajudar a explicar a razão por que a produção poética de Kalungano (tal com a de Noémia de Sousa e a de José Craveirinha) foi praticamente ignorada em Moçambique durante o período colonial (a sua não inclusão em manuais e programas escolares até 1975 é significativa), contrastando com a projecção que lhe foi dada nos países que apoiaram os Movimentos de Libertação.Essa ocultação tinha por base a estruturação temática dessa poesia a qual vinha trazer à superfície dos textos a imposição de novos sentidos às sucessivas imagens desqualificadoras de África produzidas até então pela literatura ocidental.No caso da Kalungano destes novos sentidos é possível deduzir alguns núcleos de significação: identificação com as forças genesíacas da terra, recuperação de um passado mítico, tópicos preferenciais da poesia da negritude, rapidamente ultrapassados pela construção utópica da nação e de um modelo de sociedade modeladas pela prática revolucionária. Em geral estes feixes de significação estratificaram-se naquilo que me parecem ser os principais vectores temáticos da sua poesia associados à forma como se processa a enunciação, quiçás a sua mais original característica.Desta conjugação resulta ora uma vertente lírica, marcada pela subjectividade, pouco assinalada pela crítica, de que resultam poemas como Tempo Amargo, uma vertente épica em que o sujeito da enunciação se confunde com o seu próprio objecto dando forma a uma voz colectiva, de que é paradigma o extenso Para uma Moral ou ainda uma fusão das duas atitudes em poemas como Canto de Amor Natural ou os posteriores Cancão do Amanhecer ou Nampiali. Se ainda tivesse algumas dúvidas sobre o que acabo de propor como leitura da relação entre o ideológo e o poeta entre Marcelino e Kalungano, bastava-me a imagem que a TVM me devolveu deste "adolescente" de 75 anos (como diria José Craveirinha), erguendo a sua voz solitária em defesa de um projecto derrotado - o Socialismo - contra as novas barbáries dos nossos dias. A um poeta tudo é permitido, principalmente construir Utopias, e Kalungano está aqui para o provar.1. Carlos Reis - Da literariedade em Gaibéus". In A construção da leitura. Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica , 1982 p. 171- 175.2. Cf. Marcelino dos Santos - Canto do amor natural: Maputo:AEMO, 1984.Associação dos Escritores MoçambicanosMaputo, 26 de Maio de 2004

publicado às 23:41


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