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Filimone Meigos

por jpt, em 31.03.09

CICLO DE SEMINÁRIOS INTERDISCIPLINARES EM CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

DINÂMICAS DAS ARTES PLÁSTICAS EM MOÇAMBIQUEO ARTISTA, O ESTADO E O MERCADO: UMA CONVIVÊNCIA ATRIBULADA

FILIMONE MEIGOS

(Departamento de Sociologia, UEM)

QUARTA-FEIRA, 01.04.2009,ANFITEATRO 1501, FLCS

Resumo

Este texto reflecte sobre o fenómeno artes plásticas em Moçambique, estabelecendo as relações funcionais que ocorrem entre o artista, a obra de arte, os públicos e outros agentes legitimadores das artes plásticas moçambicanas. Analisamos o período que vai desde 1977 a 2007, estudando a arte a partir da relação incrustada entre o Estado, o Mercado e a Cultura, numa perspectiva da sociologia da arte, no contexto da pós colonialidade.

Num país onde a Sociologia é uma área científica relativamente nova, para não falarmos da quase inexistente sociologia da arte, esta abordagem faz sentido na medida em que o fenómeno artístico, por exemplo, está na base da acção do político (como fenómeno social) que se sobrepõem ao artista e seu respectivo campo, servindo-se deste para fins programáticos. Assumindo, por hipótese, que particularmente em Moçambique, o campo político tem primazia sobre qualquer outro, faz sentido estabelecer esta relação com a arte, captando as suas relações em termos de policy making. Por outro lado, a acção artísticacontribui para a renda do segmento societal dos artistas e, nalguns casos, quando se transforma em indústria cultural, contribui significativamente para o produto interno bruto (PIB). Para não falar do sentido simbólico da arte, e o que os artefactos artísticos representampara o entendimento do quotidiano moçambicano.

A relação entre o Estado, o Mercado e a Cultura é bem ilucidada pela teoria da incrustação (Granovetter,1985). Aplicar tal teoria ao campo artístico implica dizer que este se estrutura numa relação de interdependência funcional, que clama por uma compreensão e explicação multidisciplinar, particularmente da sociologia, que deve captar as dinâmicas que o enformam, numa perspectiva de pós-colonialidade. Por isso, urge compreender para explicar como se estrutura e se constrói o campo das artes plásticas moçambicanas, nesse quadro pós-colonial, este que não designa um conceito histórico ou diacrónico, mas antes um conceitoanalítico que reenvia às literaturas (artes plásticas no caso), que nasceram num contexto marcado pela colonização europeia: “No campo dos estudos e da instituição literários são ainda frequentes posturas (quem sabe, involuntárias?) mais ou menos paternalistas, que por vezes escondem sérios preconceitos de visão ainda subliminarmente imperial (e racial), e que condescendem no reconhecimento minoritário e periférico destas novas escritas (a área das artes plásticas também pode ser aqui incluída)” (Leite, 2004:24).

A perspectiva dos estudos pós-coloniais não só ajuda a discussão sobre os efeitos culturais docontacto Norte-Sul, entendido como países ditos desenvolvidos, e, em vias de desenvolvimento, respectivamente, como também propicia a reinterpretação da discursividade hegemónica e dominante do Norte, particularmente no campo das artes plásticas moçambicanas. Concomitantemente, somos remetidos para a afinidade entre osestudos culturais e pós-coloniais o que permite uma reflexão sobre a transmigração das teorias, sobre a relação entre o local e o global, assinalando uma análise das práticas culturais do ponto de vista da sua imbricação com as relações de poder. E, tal como diz Hall, "O "pós-colonial" seria um "discurso" epistêmico e cronológico, que não se trata apenas doposterior, mas de ir além do colonial." (HALL, 2003, p. 118) Um discurso que opera sobrasura, no limite de uma episteme em formação, não como um paradigma convencional,(HALL, 2003, p.121) mas como episteme que opera entre uma lógica racional sucessiva e uma desconstrutora. Uma resposta à necessidade de superar a crise de compreensão produzida pela incapacidade das velhas categorias de explicar o mundo (HALL, 2003, p.124).

Portanto, participando das epistemologias do Sul, isto é, tendo em conta a produção do saber contra-hegemónico produzido nos chamados países em vias de desenvolvimento, reflectimos na senda iniciada por Said (1979) e Bhabha (2001) sobre a “invenção de outras culturas”. O objectivo é compreender e explicar esse complexo processo ambivalente e negocial que ocorre entre actores singulares ou colectivos, e entre a teoria e a pesquisa social, tal como nos assevera Palmary: “The relationship between social research, social theory,(...) and popular perceptions is complex. It is seldom (probably never) causal with one feeding nearly into the other and we cannot very easily anticipate how our research and theory will be used. For the social sciences to be necessary for the future this complexity needs to be grappled with more explicitly and we need to be able to adapt to, learn from, and influence popular discourses ”1 ( 2005:125). Por conseguinte, “what has been described here would strike the South not as modernist, but a post colonial, dilenma” (Chapman, 2006:9).

É esse dilema pós colonial que estrutura os artistas, as suas interacções e o seu meio que queremos captar com o presente estudo, uma vez que essa situação redefine tanto o colonizado quão o antigo colonizador, particularmente nas artes plásticas que, em últimainstância são o produtor e o comprador respectivamente. De facto, e no dizer de (Kane,1995) a complexidade da realidade social africana é feita da relação ambígua que o continente tem com a modernidade (entenda-se, todo o arsenal material e ideológico resultante do empreendimento colonial). Na verdade, e no dizer de Kasfir (1999), África como um todo digeriu o Ocidente. No entanto, prossegue, “na realidade a arte contemporânea em África foi construida através dum processo de “bricolage” à partir de estruturas e cenários pré existentes, donde, os géneros de arte precolonial e o colonial foram erigidos” Kasfir, 1999:9)2. Assim, a arte contemporânea africana é, na sua essência pós colonial, em termos de datas, atitude e hábitos, na medida em que ela revela esse contacto ambíguo e processual como moderno, por via da colonização. Quer dizer que, a arte contemporânea africana não pode ser explicada ou adequadamente descrita sem referência ao seu contexto histórico assente na modernidade perversa que a caracteriza. O acto da colonização, e seus efeitos estruturantes, como traço da modernidade e contemporaneidade africana, é um fenómeno a tomar em consideração quando nos referimos às dinâmicas das artes plásticas em Moçambique. Importa, pois, ter em conta essa realidade, esse quadro no qual o carácter ambivalente da experiência moçambicana de modernidade e colonialismo se insere e, presumo, avente hipóteses para a explicação de como os artistas moçambicanos produzem e definem o seu social.

1. A relação entre a pesquisa social a teoria social e as percepções populares é complexa. Raras vezes (provavelmente nunca) é causal e por isso, se torna difícil antecipar como a nossa pesquisa e a teoria serão usados. Para que as ciências sociais sejam pertinentes no futuro tal complexidade deve ser explicitada e nós devemos ter habilidade suficiente para adaptar, aprender e influenciar os discursos populares. (tradução minha).2.A tradução livre é da minha autoria ir ver original pp 9 e colocar aqui

publicado às 09:39


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