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Ainda a propósito dos últimos acontecimentos e após a confusão e falta de discernimento que se generalizou nas redes sociais, deixo-vos a  reflexão sobre o atentado à revista Charlie Hebdo por parte do filósofo, teórico crítico e cientista social Slavoj Zizek.

zizek-charlie-hebdo.jpg

Para quem não está familiarizado com este pensador, Slavoj Žižek é  pesquisador do Instituto de Sociologia, na Universidade de Liubliania, Eslovênia, e professor-visitante em diversas universidades americanas, Columbia, Princeton, New School for Social Research, New York University, University of Michigan.

O seu trabalho é considerado como vibrante, cheio de humor, deixando de lado diferenças entre formas altas e baixas de cultura e o seu carisma conferiu-lhe o estatuto de 'superstar' no mundo da teoria contemporânea. 

Slavoj Žižek tornou-se amplamente reconhecido como teórico contemporâneo a partir da publicação de 'O Sublime Objeto da Ideologia', seu primeiro livro escrito em inglês, em 1989. As suas reflexões não podem ser facilmente categorizadas e nelas encontramos um retorno ao sujeito cartesiano e à ideologia alemã, especialmente aos trabalhos de Hegel, Kant e Schelling.

Resta também salientar que Slavoj Žižek é ateu e a sua produção crítica não encaixa nas análises teóricas tradicionais. Ao ressalvar que para entender a política de hoje precisamos de uma noção diferente de ideologia, frequentemente costuma ser 'politicamente incorreto' e causar diversas polêmicas em vários círculos intelectuais.

 

VA

 

 

publicado às 10:50
modificado por jpt a 23/1/15 às 02:00

Dia do professor moçambicano

por jpt, em 12.10.14

moça mapa.JPG

 

Hoje é o dia do professor moçambicano. Por isso mesmo, para os meus colegas, agora distantes, que se possam interessar aqui deixo um programa televisivo holandês (legendado em português), algo sumptuoso: "O Belo e a Consolação", 23 entrevistas feitas a grandes mestres, provenientes de várias áreas da reflexão. Todos ali a distribuirem material para que possamos pensar. No último episódio um debate alargado, precioso. Espero que os que aqui passem se agradem com esta partillha:

 

[George Steiner]

[Wole Soyinka]

[Stephen Jay Gould]

[Roger Scruton]

[J. M. Coetzee]

[Vladimir Ashkenazy]

[Edward Witten]

[Gyorgy Konrád]

[Martha Nussbaum]

[Tatjana Tolstaja]

[Gary Lynch]

[Leon Lederman]

 

[Karel Appel]

[Simon Schama]

[Jane Goodall]

[Yehudi Menuhin]

[Rudi Fuchs]

[Richard Rorty]

[Rutger Kopland]

[Elizabeth Loftus]

[Catherine Bott]

[Germaine Greer]

[Dubravka Ugresic]

[Debate Final]

publicado às 10:24

O mundo tal como vai

por jpt, em 16.04.13

 (busto de Voltaire)

 

 Em "O Mundo tal como vai" Voltaire conta-nos que Ituriel é "um dos génios que presidem aos impérios do mundo", tendo a tutela do "departamento da Ásia". Certo dia convoca o cita Babouc, e envia-o a Persepólis, capital da Pérsia, com o encargo de relatar detalhadamente o que lá encontrará, pois na última assembleia dos génios da Alta Ásia houve discussão sobre o destino a dar a esse reino, fartos que estão das "loucuras e dos excessos dos Persas". Estão os génios na dúvida, ou corrigi-la ou exterminá-la.

Lá foi Babouc, encontrando por lá do pior, do mais imoral e corrupto. Mas não só. Após algum tempo chegou o momento de terminar a sua missão: "Afeiçoara-se à cidade, onde o povo era educado, doce e benfazejo, embora imprudente, maldizente e cheio de presunção. Temia que Persepólis fosse condenada; temia o relato que iria entregar. Eis o que fez para apresentar de modo favorável essa descrição. Encomendou aos melhores profissionais de fundição da cidade uma pequena estátua composta de todos os metais, das terras e das pedras mais preciosas e mais vis e levou-a a Ituriel:

-Despedaçareis esta bonita estátua - perguntou Babouc - só porque não é toda de ouro e diamantes?

Para bom entendedor, meia palavra basta, e Ituriel resolveu nem sequer pensar em corrigir Persepólis e deixar andar o mundo tal como vai.

- Porque - disse - se nem tudo está bem tudo é admissível."

publicado às 20:30

60 dias de facebooking

por jpt, em 18.06.11

Nunca gostei do sempre-repetido mandamento bloguístico "escreve sobre o que sabes. Link to the rest". Sempre me irritou o prescritivo sobre esta irresponsável actividade, na qual para mim cada-um-como-cada-qual. Os limites do saber próprio (quando este existe) estão no trabalho,  e isto do in-blog é para botar sobre o que vem à respectiva cabeça.

 

Para além disso o weblog é um diário, de impressões, e estas são (ou podem ser) múltiplas, esparsas - um tipo que só se interessa sobre o que sabe, caramba, é um chato. Claro que há os blogs especializados (dedicados), alguns fantásticos. Mas isso é uma saudável opção, não uma obrigação.

 

Mas o mandamento de "link to the rest" está estafado no bloguismo acima de tudo por razões tecnológicas. Com a vertigem imediatista do facebook, aquilo do clic-clic e ligação feita perdeu-se muito da dimensão inter-ligadora (e textual, reflexiva) do bloguismo. Aliás, os sistemas (blogspot, wordpress) terão que integrar essa função supra-ligadora. Ou desaparecem.

 

Como blogar neste contexto? Não sei bem, nem sei se isto tem muito futuro (há anos que se diz que o bloguismo è finito), ainda por cima com a "lentidão" ligadora que tem. Mas, pelo menos, é um sítio e um meio onde se pode escrever ... sobre o que não se sabe. Suprema liberdade potenciada pelo facebook, para onde podemos ir "linkar" coisas, fast-fast, clic-clic, com tanta vantagem ...

 

Uso o FB fundamentalmente como difusor de ma-schamba (a página blog ma-schamba, o grupo ma-schamba [modalidade que perdeu visibilidade nos murais devido às alterações do sistema FB] e o ma-schamba na aplicação NetworkedBlogs). Ainda assim acumulam-se as ligações, seja por réplicas imediatas de outros murais seja provenientes de outros suportes (blogs também). Como exemplo do supra-linkismo facebookista  actual, até vertiginoso, (mas também para meu arquivo, e esperando que alguém se divirta abaixol) deixo os meus dois últimos meses de facebooking, as aventuras nessa likeland reino do clic-clic.

 

A ordem da colocação aqui é inversa da cronológica ...

 

 

64. O (necessário, urgente) elogio da Culinária Moçambicana

 

 

63. Documentário de Werner Herzog sobre pinturas rupestres

 

 

62. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

61. Assange, o wikilikeakista: o facebook é máquina de espionagem! Estes romanos são loucos!

 

60. Constante reprise

 

59. Pérolas do youtube ...

 

58. Um número especial da Science et Vie dedicado ao acidente nuclear de Fukushima (via Klepsýdra)

 

57. Pérolas do youtube ...

56. O Byrne de oiro.

 55. The Clash "Should I Stay or Should I Go?": sem embebimento disponível ... É clicar e ouvir/ver ... 

 

54. Gorongosa. Fauna, Flora e Paisagens, um belíssimo trabalho fotográfico disponibilizado no facebook.

 

53. 30 Postais sobre Moçambique (elo retirado). Vale a pena lavar a vista.

 

52. José Sócrates: "seis anos de batota". Que herança ... A arquivar, para não o esquecer.

 

51. O "vai vir charters" do Paulo Futre. Uma bela peça de marketing mas, muito mais do que tudo, uma lição de rir-se de si próprio. Viva Futre! (o meu candidato ...)

 

50. O excelente Nkwichi Lodge no Lago Niassa, um verdadeiro eco-lodge e com gente porreira à frente, foi escolhido como um dos 101 melhores hotéis mundiais [Já lá estivemos e sobre isso botei, deslumbrado].

 

49. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

48. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

47. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

46. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

45. Directório de blogs expatriados. Aqui a secção Moçambique.

 

44. Um ascensão fulgurante, dançarinos moçambicanos integram o último trabalho de Beyoncé.

 

43. João Pereira Coutinho, no fim de José Sócrates, o pior dos políticos portugueses, com o tique máximo da anti-democracia: "um político que prefere negar a realidade e confunde uma crítica ao governo com uma crítica ao país". Que nunca mais volte, é um desígnio nacional, apesar das suas ameaças "em andar por aí".

 

 

42. O excelente sítio Buala a trabalhar sobre Ruy Duarte de Carvalho.

 

41. O Da Casa Amarela a comemorar o aniversário de Dylan

 

40. A AL é uma emérita coleccionadora de cartoons e tem um mural FB fantástico nisso.

 

39. No 70º aniversário de Dylan, ele sobre Elis Regina

 

38. Forever Mickey

 

37. Água Vumba premiada, a minha bebida moçambicana preferida. (Sim, apesar de militante da dupla 2M - Manica)

 

36. A propósito da crise, versão pop-pirosa ...

 

35. 3XMiles

 

34. The Guardian a olhar para a imprensa moçambicana e seu impacto social. O elogio do jornal "Verdade", o popular primeiro gratuito, que tanto modificou a paisagem mediática aqui. E que é líder na imprensa informática, com o vigor que coloca - celebrizando-se na cobertura dos acontecimentos de 1 e 2 de Setembro de 2010.

 

33. Dexter, via MVF - que tem um refinado mural FB. E talvez por isso tão pouco aqui culime ...

 

32. Mitos industriais perversos, via A Arte da Fuga, um bom pontapé no guevarismo e, mais globalmente, no acriticismo.

 

31. Um céu limpo global, fruto de um projecto fotográfico de grande monta.

 

30. Uma nova supernova. A página da National Geographic dá-nos maravilhas diárias ...

 

 

29. Naipaul por Naipaul - agora aflorando a "escrita feminina". Um elefante em loja de femininismos ...;

 

28. Aquando das eleições portuguesas uma reflexão sobre as aldrabices das sondagens políticas portuguesas. Já nas últimas eleições isso se discutiu no bloguismo - o peso simbólico (académico, como se científico, e mediático-televisivo) dos sondageiros, alimentado pela idolatria da numerologia continua a permitir a subsistência e sobrevivência gente. Urge o ostracismo moral. Para todos ..

 

27. No país da Dirty Dilma: também ler um Que fazer?;

 

26. Sobre os telemóveis. Cancerígenos ou não?, via De Rerum Natura. Questão de "estação estúpida"? Ou bem pior do que isso? E que efeitos nos fanáticos twitteristas?

 

25. Chegou o icloud da Apple, e deve mudar bastante as coisas - como por exemplo nunca mais perder os ficheiros por corrupção dos "discos-afinal-moles".

 

24. Notícia da publicação do Caderno de campo na Guiné-Bissau (1947) de Orlando Ribeiro. Para a agenda de compras quando em Portugal ...

 

23. Lou Reed Forever

 

22. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

21. Bela galeria fotográfica de arte moderna

 

20. Kare Lisboa, na Lx Factory: gente família a lutar bem com a crise. E nós de longe a torcermos pelo sucesso, bem-merecido.

 

19. Lembrei-me da gentil guitarra do Beatle. (um Beatle nunca é ex).

 

18. Bjork, Venus as a Boy: lembrei-me do vulcão islandesa, mas sem direito a partilha (a função "embeber" foi retirada do youtube para este filme). É clicar para ouvir/ver ..

 

17. Tomai lá com o Bach, em Lisboa disse uma velha-amiga

 

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Flying in a motorized paraglider over one of the most diverse continents in the world, George Steinmetz captures in his photographs the stunning beauty, potential and hope of Africa's landscapes and people. See the project at http://mediastorm.com/publication/african-air

16. África em vista aérea, uma galeria sumptuosa a mostrar o  trabalho de George Steinmetz, "fotógrafo americano que percorreu e fotografou as paisagens africanas ao longo de 30 anos. Sobretudo do ar, a bordo de um parapente motorizado":

 

 

15. Uma dupla de Siouxie, a última das moicanas ...

 

14. Lago Niassa declarado reserva natural pelo governo de Moçambique, uma boa notícia enquanto há rumores de que empresas se preparam para acelerar a exploração dos "recursos" minerais existentes.

 

13. Ads of the World: conhecer o inimigo. Para melhor o combater.

 

12. Canal de Moçambique, o mais belo título dos jornais moçambicanos, a abrir a sua página no facebook;

 

11. Imperdível, textos sobre Arte Contemporânea africana;

10. Eu lembrei o Tony de Matos e logo uma amiga-FB completou ...

 

9. O Grande Tony de Matos - que eu sempre recordo a actuar no Coliseu dos Recreios em meados dos anos 1980s, então sala-nobre de Lisboa e como tal vedada aos cantores populares. Foi "special guest star" de Vitorino e levantou o público à ... entrada. Um sucesso, uma reparação. 25 anos depois honra ao Vitorino que provocou o momento ...

 

 8. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"...

 

7. Da enorme série "recomendações dos amigos-FB"..

 

6. Uma série apaixonante, a ir ver: Closer To The Truth

 

5. Uma sumptuosa série sobre filósofos, disponível no youtube, ao qual chego via Crítica. Blog de Filosofia;

 

4. Vasco Palmeirim - um delicioso humorista dos novos tempos em Portugal que venho conhecendo via youtube ...

 

3. O silêncio dos livros, um belo blog mostrando leituras.

2. Retirado o título [o grau de doutorada] a deputada europeia [alemã] Silvana Koch-Mehrin que plagiou - informa o Diário de Notícias exactamente no dia em que deixei o resmungo sobre o posfácio dos plágios (e lembrando outro meu lamento mais dorido);

1. Stellarium, um fantástico programa informático que nos põe o planetário em casa (como qualquer miúdo da minha geração teria sonhado).

 

jpt

publicado às 13:10

Consequências da Crise. Outras

por jpt, em 18.03.11

Geoge Steiner, ensaísta, crítico literário e professor e professor em Cambridge, considera, em entrevista a Revista Ler, de que a crise pode ter consequências muito positivas:

 

"Quando as coisas estão mal, muito mal, as pessoas começam a ler com seriedade, a ler melhor. Ouve-se mais e melhor música, por exemplo. (…) Os jovens começam a ter fome de algo mais substancial do que a pastilha elástica momentânea da pop. Já foi assim. Durante a guerra, a Blitz, as pessoas regressaram aos clássicos, leram-se os grandes romancistas vitorianos, os grandes poetas." E sugere: "O meu currículo oficial imaginário, se estivesse no poder, consistiria nas seguintes disciplinas: Música (toda a gente deveria ouvir, conhecer, aprender, mesmo que não seja para isso especialmente dotado. A Música combina a Matemática e a emoção humana), Arquitectura (toda a gente deveria aprender Arquitectura, porque esta combina a Engenharia, a Física, as Ciências do Meio, a Sociologia, a História e até a Política. Construir um edifício – e estamos num período de grandes obras de arquitectura – é um acto político de grande complexidade) e, claro, a Matemática. Então, Música, Arquitectura, Matemática e, de repente, dou por mim a falar de Platão."

 

PSB

publicado às 14:32

Escroque

por jpt, em 19.04.07
Anda por aí um escroque, partilha comigo a nacionalidade. Cada um como cada qual, e "os bons espiritos sempre se encontram". Do seu acolhimento pelos nao-patrícios ser-me-á indiferente, crente que sou na certeira fabula do escorpião. Que sejam pois picados. Mas espanta-me que instituição nossa, e a qual tanto lesou, o acolha. Formal ou informalmente, isso e indiferente. Apenas concluo, repito, "os bons espiritos sempre se encontram". Mas ainda assim, tão óbvio aquilo surge ...“O olhar deve estar voltado para a pessoa com quem se fala, mas este deve ser calmo, franco e não denotar nem descaramento nem maldade. Fixar os olhos no chão, como faz o catoblèpas* leva a supor uma má consciência; fitar alguém de viés é testemunhar-lhe aversão.”

*Nota (de Alcide Bonneau, 1847): segundo Plínio (Hist. Nat., VIII, cap. XXII,) um touro de África, cuja cabeça contém uma grande quantidade de veneno e que se vê obrigado a deixá-la pender constantemente para o solo – o que é uma sorte para aqueles que com ele se cruzam, porque um só dos seus olhares bastaria para matar um homem! Elieno diz praticamente o mesmo (Hist. Animalium, livro VII)], (Erasmo de Roterdão, A Civilidade Pueril, Lisboa, Editorial Estampa, 1978. Tradução de Fernando Guerreiro)

publicado às 10:56

Erasmo et al

por jpt, em 08.08.06
Albrecht Dürer, 1526. Philipp Melanchthon, Staatliche Museen Kuperstichkabinett, Berlin [imagem reproduzida aqui]


Lucas Cranach, o Velho, Philipp Melanchthon




[Albrecht Durer, Erasme de Rotterdam, 1520. Fusain sur papier, 37,3x27,1 cm. Paris, Musée du Louvre, Cabinet des Dessins (imagem reproduzida de John Berger, Durer. Aquarelles et Dessins, Taschen, 1994)]


[Albrecht Durer, Portret van Erasmus, 1526. Rijskmuseum (imagem reproduzida daqui]


[Hans Holbein, the Younger, Erasmus of Rotterdam, About 1538. Woodcut, 11 3/16 x 5 7/8 in. (28.4 x 15.0 cm), National Gallery of Art, Washington, D.C. (imagem reproduzida daqui)]


[Hans Holbein, o Novo, Erasmus, 1523. Oil on wood, 43 x 33 cm. Musée du Louvre, Paris (imagem reproduzida daqui)]


[Hans Holbein, o Novo, Erasmo de Roterdão, 1523. (imagem reproduzida daqui)]


[Hans Holbein, the Younger, Erasmus of Rotterdam, c. 1528-1532. Oil on wood; 7 3/8 x 5 3/4 in. (18.7 x 14.6 cm). Robert Lehman Collection, 1975 (1975.1.138)]

publicado às 23:54

Dois tomos, em fase inicial (e prometem):

 

"Na circunstância, isso significa que o "discurso crítico" que caracterizamos como intervenção intelectual pública, na Europa dos séculos XVI a XIX, em defesa da instituição social de um conjunto de liberdades modernas é o mesmo "discurso crítico" que veremos desenvolver-se em Portugal ao longo do século XX. Mas se a função social deste tipo de intervenção foi a mesma na Europa dos séculos XVI a XIX e no Portugal do século XX, isso não deve ser motivo para fantasiar identificações entre autores de tempos e contextos tão diversos. Tal como neste trabalho não se "antecipa" o século XX português, também .... não se fala em nenhum "Montaigne português" ou num qualquer "nosso Espinosa". ... "Portugal Extemporâneo" significa que Portugal permaneceu fora do processo de modernização da Europa Ocidental quando este decorreu (e nestas páginas se verá como para Montesquieu e Wollstonecraft, entre tantos outros, esse barbarismo foi notado) e só fez o seu próprio e isolado caminho tardio para a modernidade no século XX. Se a transformação cultural é funcionalmente equivalente, tratando-se de uma mudança sobretudo de praxis e não apenas de mentalidades, isso não é motivo para confusões vagas. Só identificando, pelo estudo do discurso crítico, o que foi a Modernidade europeia se pode compreender, pelo estudo do discurso crítico, o que é a modernização contemporânea de Portugal." [itálicos do autor]

 

Carlos Leone, Portugal Extemporâneo, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, pp. 14-15

publicado às 11:26

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Manuel Maria Carrilho, Elogio da Modernidade (Presença, 1989).

 

Analisando António Sérgio, com inclemência, mas deixando algo de âmbito mais vasto:"Particularmente interessante é ver que o ensaísmo, "género" que por vezes se identifica entre nós com o sergianismo, carece quer de nitidez estratégica quer de determinação epistemológica. Procurando cobrir todas as disciplinas e áreas do saber e ambicionando efeitos não só pedagógicos e filosóficos mas também sociais e políticos, o ensaísta surge como uma figura omnipresente que não se encontra em parte alguma, instaurando assim um universo de "múltiplos ecos que insinuam que de outro lado poderá vir sempre um suplemento compensador das carências, insuficiências ou imprecisões que num texto ou domínio se detectem, ou, inversamente, um suplemento de suspeita que dificilmente facilitará uma abordagem que, para lá da crítica, pretenda não recusar a adopção de uma perspectiva ou o risco de uma avaliação" (80)

publicado às 22:26

A educação, em Merquior

por jpt, em 25.05.06

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José Guilherme Merquior, A Natureza do Processo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982) [Artigo relacionado aqui]

"...a melhor maneira de corromper um jovem é ensiná-lo a considerar mais aqueles que pensam igual do que aqueles que ousam pensar diferente." (pp. 208-209)**"A educação", disse Lord Brougham, "torna um povo fácil de governar mas impossível de escravizar". Tudo o que foi exposto, ou melhor, lembrado, neste livro sobre o progresso da civilização, supõe que o sentido e valor do processo histórico radicam num substancial aumento da liberdade. Aumento quantitativo: liberdade para muitos mais do que antes; e aumento qualitativo: liberdade múltipla e diversificada. Mais liberdades, e mais gente livre. Em última análise, a natureza do processo é o progresso da liberdade.Claro que, no processo, a presença, e até o papel, da violência são inegáveis. Mas a questão é saber se o seu vulto na sociedade cresceu ou diminuiu a partir da civilização burguesa que criou o industrialismo - e se o status cultural da violência, interna ou externa, foi reforçado ou minado." (198-199)"O problema é saber que significamos com a palavra "educação". De que se trata, fundamentalmente - de cultura, ou simplesmente de instrução? ... Sem instrução popular, é impossível estimular a cultura moderna, individualista por natureza..." (200)"A mensagem da história contemporânea é clara: cultura sem instrução colectiva é uma vã nostalgia conservadora; instrução sem cultura, uma atrofia do desenvolvimento." (207)"Já se observou que o único verdadeiro objecto da educação é deixar um ser humano em condições de fazer permanentemente perguntas. Justamente porque nossas massas industriais instruídas são geralmente incapazes dessa vigilância crítica é que prosperam as superstições leigas sobre a sociedade (marxismo) ou a psique (freudismo e dissidências). Uma educação crítica (expressão no fundo tautológica) produz naturalmente agnósticos aptos a recusar racionalmente os gnósticos extraviados na modernidade e propensos a transviar a cultura liberal da democracia e do progresso." (209)"..."revoluções educacionais" que se limitem a ampliar o acesso à instrução são saltos desenvolvimentistas de fôlego muito curto. A universidade de massa, produtora em série de "idiots savants", não é uma resposta eficiente ao desafio desse desenvolvimento contínuo que é o destino do industrialismo. Pois uma população de "idiots savants" será sempre fácil presa do generalismo charlatão, assim como um mundo instruído mas inculto será indefeso ante as revelações profanas de pseudoculturas messiânicas, salvacionistas ou apocalípticas." (208)"Chesterton captou nada menos do que a essência da cultura no velho sentido humanístico da palavra: cultura como autocultivo, cultura como fenómeno eminentemente perfectivo." (212)**"...aspecto muito frequente dos humanismos antimodernos: sua aglutinação em seitas ideológicas. A história dos humanismos nos últimos cem anos prova que é bem alta a taxa de convergência entre o que chamamos de "humanismo excludente" e uma formação sociocultural bastante peculiar: a vanguarda. ...vanguardas foram os diversos grupos artísticos e literários que criaram o euromodernismo em luta contra o espírito dos tempos modernos, erigindo a ideologia estética em antítese da ideologia social. Vanguardas são ... muitas delas herdeiras confessas do rejeicionismo cultural euromodernista.Essas coincidências ... revelam, de um ângulo sociológico, o parentesco de todos esses humanismos: a sua natureza gnóstica, isto é, de conhecimentos "superiores", fora do alcance do homem comum - que essas ideologias se propõem justamente orientar, guiar e "salvar";" (196)"Somente o teor crítico da genuína educação poderá resgatar a arte do nosso tempo da mentalidade niilista em que ela mergulhou, ao exarcebar o impulso antinômico das vanguardas euromodernistas; niilismo sempiternamente repetido a cada nova proposta de (anti)arte, a cada novo idioleto repassado de preconceitos e crendices contraculturais, e cansativamente saudado por esse santuário do conformismo intelectual que é a crítica neólatra de arte, de literatura ou de espectáculos ... essa arte "radical" - como seus equivalentes literários - representa o ponto mais baixo, o nadir, de uma cultura estética que se deixou colonizar pelo rancor "humanista" contra a civilização moderna. ... Uma arte que grita "pereat mundus" à história social não tem como enriquecer seu conteúdo - condena-se ao autismo da antiforma. Da desumanização da arte passa-se faltalmente à insignificância da arte, a uma produção artística cada vez mais irrelevante e supérfula, cada vez mais isolada da conversação inteligente e sensível da humanidade consigo mesma". (210-211)***"A lição de todos os grandes modernizadores ... consistiu em acreditar na eficiência de certas instituições, desmentindo implícita ou explicitamente quantos atribuíam [as] deficiências a factores étnicos ou psicoculturais. ... acreditar nas instituições não é uma fé cega. Não consiste em abdicar da consideração crítica de seus efeitos, limites e implicações. Por isso ... vivendo na atmosfera de livre exame inerente à sociedade aberta, exige o primado da moral de responsabilidade sobre a moral da convicção." (213)

publicado às 22:21

O liberalismo, de Merquior

por jpt, em 23.05.06

merquiorliberalismo

José Guilherme Merquior, O Liberalismo. Antigo e Moderno (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, p. 57):

"Na cosmologia clássica da ideologia cívica, a praxis, a acção de homens livres, foi colocada muito acima da poiesis, a produção do trabalho manual. Por que motivo? Porque enquanto o objectivo da poiesis reside no produto e, portanto, em algo que ultrapassa a actividade que o produz, a praxis ou acção é um fim em si mesma. Smith foi o primeiro teórico social de importância a inverter essa valorização: em A Riqueza das Nações, a práxis de políticos, juristas e soldados é redondamente depreciada, enquanto a produção passa por cima. O comércio e a manufactura, e não a prática da política ou a actividade guerreira, proporcionaram o modelo da actividade meritória. E esta mudança de valores implicava o abandono da propensão elitista incorporada à saudade cívica."

publicado às 21:58

O liberalismo, de Sandel

por jpt, em 23.05.06

sandel

 

Michael J. Sandel: O Liberalismo e os Limites da Justiça (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005, pp. 12-13)

"Uma ... maneira de amarrar a justiça a concepções do bem sustenta que, para sua justificação, os princípios da justiça dependem do valor moral ou do bem intrínseco das finalidades que servem. Nesta perspectiva, o argumento para o reconhecimento de um direito depende da capacidade de se demonstrar que esse direito honra ou promove um bem humano importante. Não será decisivo saber se um tal bem é amplamente apreciado ou se encontra implícito nas tradições de uma comunidade. Esta ... maneira de ligar a justiça a concepções do bem não é, portanto, e em sentido estrito, comunitarista. Uma vez que baseia a justificação dos direitos na importância moral dos objectivos ou das finalidades que promovem, deverá, com maior propriedade, ser classificada de teleológica, ou (no calão da filosofia contemporânea) perfeccionista. A teoria política de Aristóteles é um exemplo desta abordagem. Antes de podermos definir os direitos de um povo, ou indagar sobre a "natureza da constituição ideal", escreve, "temos primeiro que determinar a natureza do modo de vida mais apetecível. Enquanto isto permanecer obscuro, a natureza da constituição ideal permanecerá necessariamente obscura também." (Aristóteles, The Politics of Aristotle, 1323a14, ed. e trad. de Ernest Baker, London, Oxford University Press, 1958, p. 279)"Os argumentos acerca da justiça e dos direitos acarretam inevitavelmente um juízo de valor. Os liberais, que crêem que a defesa dos direitos deve ser neutral relativamente às doutrinas morais e religiosas substantivas, e os comunitaristas, para quem os direitos devem decorrer dos valores sociais dominantes, cometem o mesmo erro; ambos procuram evitar emitir um juízo de valor sobre as finalidades promovidas pelos direitos. ... a justificação dos direitos depende da importância moral das finalidades que estes servem."

publicado às 21:53

Poesia

por jpt, em 02.04.05

"Assim, também a Musa inspira ela própria e, através destes inspirados, forma-se uma cadeia, experimentando outros o entusiasmo. Na verdade, todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esse belos poemas; e igualmente os bons poetas líricos ...

Com efeito, o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir oráculos. Assim, não é pela arte que dizem tantas e belas coisas sobre os assuntos que tratam, como tu sobre Homero, mas por um privilégio divino, não sendo cada um deles capaz de compor bem senão no género em que a Musa o possui ... Nos outros géneros cada um deles é medíocre, porque não é por uma arte que falam assim, mas por uma força divina, porque se soubessem falar bem sobre um assunto por arte, saberiam, então, falar sobre todos.

E se a divindade lhes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas e dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nós que ouvimos ..."

[Platão, Íon (tradução de Victor Jabouille)]

publicado às 08:55

Poesia

por jpt, em 02.04.05

"Na minha opinião, estas conversas acerca de poesia assemelham-se muito aos banquetes de pessoas medíocres e vulgares. Incapazes, pela sua ignorância, de fazer as despesas da conversa num banquete, com a sua voz e os seus discursos, encarecem as tocadoras de flauta, pagando por alto preço um voz estranha, a voz das flautas, por meio da qual conversam uns com os outros."

[Platão, Protágoras, tradução de A. Lobo Vilela]

publicado às 08:53

Para além da História

por jpt, em 28.03.05

"O novo problema reside sempre naquilo em que não vemos uma saída imediata. Estamos sem saída porque os métodos existentes já não são adequados. Se um destes métodos servisse, seríamos capazes de solucionar o problema. Portanto quando nos encontramos mentalmente bloqueados apercebemo-nos de que estamos numa situação em que a história não pode simplesmente repetir-se.

Esta situação sem precedente é, de facto, extremamente estimulante porque, seja o que for que descubramos ... esta descoberta leva-nos muito para além de um passado conhecido. Assim a história de uma ideia não é, no fundo, essencial para nos revelar como se dão os fenómenos ... o único teste válido em física radica nas nossas experiências - a história é, fundamentalmente, irrelevante. (89)

A única ciência que não admite qualquer indagação histórica é, com certeza, a física. Costumamos dizer que nesta área científica há sobretudo leis. Eis aqui as leis actuais!, dizemos. Nunca nos detemos a perguntar a maneira como chegaram a ser formuladas ... supomos simplesmente que as leis existiram sempre nessa forma, sempre as mesmas leis...

Assim, pode ser, afinal de contas, que mesmo na física, estas leis não sejam idênticas ao longo do tempo e que haja, sim, um aspecto histórico ou evolucionário." (98)

[Richard P. Feynman, Uma Tarde Com o Sr. Feynman, Lisboa, Gradiva, 1991]

publicado às 11:35


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