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Como já referimos o "grupo ma-schamba" no facebook cresceu bastante e tem acolhido alguns longos e interessantes debates a propósito dos postais do blog - e às vezes cheios do bom humor que vem faltando deste lado do blog.

 

Agora, no debate sobre "O Acordo Ortográfico (que antecedeu este "Ainda o Acordo Ortográfico), Francisco Belard deixou um comentário que quero realçar. Por isso o transcrevo:

 

Quanto ao princípio de não uniformização (subentenda-se forçada) entre formas de pronunciar e de escrever, concordo com o Manoel Carlos Pinheiro. Mas não tanto nos exemplos que dá. Tranquilo e ideia pronunciam-se em regra da mesma forma nos nossos dois países (tendo ou não acentos gráficos). Não dizemos o 'ei' de ideia ou de boleia da mesma maneira que o dizemos em epopeia, feia, leia, meia, etc. Claro que se passássemos a escrever Antônio dificilmente o leríamos como o António que usamos. Luandino nasceu em Portugal, e se a sua escrita foi voluntariamente angolana, nas duas ocasiões em que o ouvi não notei na sua fala diferenças em relação ao português de Portugal; até as noto maiores entre regiões deste pequeno país). Também não noto no falar de Mia Couto diferenças mais relevantes do que as existentes dentro do próprio português europeu (compare-se o de algumas ilhas açorianas com o do Alentejo, ou ambos com o do Porto, etc.). A escrita, essa sim, no Mia é não só moçambicana, por ele em parte construída, como muito pessoal, e ele luta por isso, mas aí estamos a falar mais de sintaxe e de léxico, não de pronúncia. Além disso, o «acordo» uniformiza pouco (e mal) e estabelece diferenças onde não existiam; os brasileiros e nós temos escrito recepção, ruptura e outros vocábulos da mesma maneira, só agora querem que as escrevamos (nós portugueses e também angolanos e moçambicanos) diferentemente. É uma pseudo-uniformização, sem base linguística séria e sem interesse prático, cultural ou económico. Para todos, um abuso de poder por parte de algumas figuras de duas academias patrocinadas por dois Estados. Em vez de uniformização (que não me parece nada desejável), o acordo quer impor (como o Manoel observou lucidamente) «tantas e desnecessárias alterações» que não pode «correr bem», digo eu, e não pode «dar certo», como se dirá sobretudo no Brasil. Se ao menos os artífices desse negócio obscuro garantissem que essa era a via para o maior conhecimento dos autores e das culturas dos dois lados do Atlântico, poderíamos parar um minuto para saber como e em quê. Mas nem isso; estão pensando em reais, dólares, euros, não em autêntico intercâmbio cultural, que assenta em conhecimento do outro país e na circulação de livros ou de filmes ou de músicas da comunidade que se exprime em português e noutros idiomas, ainda não ou já mutuamente ininteligíveis. Sabemos que não é por autoritarismos, vindos de novos ou velhos príncipes, que nos reaproximaremos. Será por evolução natural e popular, pela influência dos mestres, pela leitura dos vossos e nossos clássicos e modernos, será mesmo pelos vossos e nossos músicos e cantores de várias épocas, lugares, regiões e tradições que estas comunidades se reconhecerão, articularão e se expandirão, mas nunca em atitude imperial de quem tudo sabe, determina, impera e dita. Isso passou, agora temos democracias, agora temos cientistas, que têm distintas especialidades na Linguística e por serem sérios e competentes não vão concordar logo com tudo o que outro disse. Mas também não vão subordinar-se nem à ignorância ou falta de estudo dos problemas, nem a interesses obscuros ou mal esclarecidos de alguns sectores das nossas sociedades, nem à prepotência de ministros ou deputados que se recusaram a ouvir técnicos e cientistas, e obviamente não procuraram saber quais as vantagens que os povos reconheceriam em reformas que não fossem falsas, tolas, nem feitas à pressa. Escrevi de mais, mas tentei reflectir com os que antes escreveram. Um pseudo-acordo, com defeitos e erros científicos, vai complicar tudo e só «simplificará » no sentido precário e ilusório em que palavras ou construções que eram erradas serão «benzidas » como correctas. O português, na sua unidade essencial e nas suas intangíveis diversidades, nada ganhará com essa espécie de «acordos» entre dois ou três «craques» de duas «potências» que ignoraram os restantes países interessados no uso oficial e escolar, cultural e internacional, desta língua comum.


jpt

publicado às 04:02


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