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A mulher do pm português, Laura Ferreira, tem um cancro. Os tratamentos provocaram-lhe, como é habitual, a queda do cabelo. Viajou com o marido e foi fotografada, calva.

 

Dantes escondia-se esta maleita e, até postumamente, referia-se-lhe como uma "doença prolongada" e sussurrava-se a sua presença em corpos alheios. Hoje em dia não. Pois a doença se vem tornando menos letal. Porque a robustez psicológica dos pacientes vem sendo considerada como factor de resistência. E, mais do que tudo, porque vem mudando a ideia de dignidade, integrada do estado doente - a doença não é uma vergonha, um pecado ou uma praga.

 

Mas agora algo flutua:  a "esquerda" socialista rejubila com um escabroso texto de Estrela Serrano, doutorada no ISCTE (em que raio de casa me fui eu meter, que gradua este tipo de gente) e professora de jornalismo (não surpreende o "estado daquela arte"). No qual critica o pm e a sua mulher por terem decidido expor a doença. A esse seu lixo chama, arrogante, "análise crítica dos media", enquanto manipula o seu próprio "pensamento" intitulando de ignorante qualquer leitor que "confund[a]e uma crítica ao jornal com uma crítica ao primeiro-ministro", como se não fosse este (e a sua  mulher) directa e explicitamente visado(s) no texto que botou.

 

A "esquerda" socialista, sempre pressurosa em afixar o "orgulho homossexual", a dignidade da sexualidade, escandaliza-se gritando "demagogia" se alguém afixa (dolorosamente, decerto) a dignidade da doença. A "esquerda" socialista, sempre lesta em solidariedades com o "género" e mais o transgenderismo, escandaliza-se e grita "demagogia" se uma mulher cancerosa surge calva, sem lenço (um hijab sanitário?) ou cabeleira. Mas nada dirá, nem nunca disse, se um homem canceroso aparecer calvo. Em suma, uma mulher, se doente, não se deve "expor" mas sim resguardar-se, decerto que por poluente (da razão alheia, daí a acusação de demagogia, de aproveitamento político). Nada disso com um homem.

 

Mais ainda, aos da "esquerda" socialista, sempre ufanos da sua "lusofonia", da sua "ligação privilegiada" com África, lusófona e solidária, nem lhes ocorre que, para alguém que tenha nascido e crescido em África (como é o caso de Laura Ferreira), tão mais normal seja uma mulher de cabelo rapado, sem o ónus da excentricidade que ainda tem na Europa.

 

Finalmente, aos da "esquerda" socialista, sempre tão "republicanos", nem lhes ocorre que se alguma crítica há neste caso é a de que numa república não há qualquer justificação (nem prática, nem simbólica nem mesmo protocolar) para que os governantes se desloquem em funções acompanhados dos cônjuges. Todos o fazem (começando por todos os presidentes), todos assim violando o espírito da república.

 

E é gente desta que se diz (doutorados ou não, professores ou não, jornalistas ou não) a reflectir sobre o país. A querer-se poder.

publicado às 11:09

Sempre

por AL, em 28.06.14

Tenho esta mania, eu, que sou pessoa atenta e bem informada. Depois vem a vida e dá-me um estalo. Ou, como eu digo, uma lição de humildade. Tantos anos a conversar e a conviver com mulheres de tantas nacionalidades e diferentes formas de vida, só agora que as tenho como objecto de estudo me dou verdadeiramente conta do imenso fosso existente entre elas e os seus direitos. Olhar selectivo até agora, dirão alguns. Nada!, digo eu, que nem de escolha se tratou; foi olhar cego mesmo!

Vem isto, por portas travessas, a propósito de uma tendência (trend diriam os mais bem informados) da publicidade nos Estados Unidos em abordar questões de género nas mensagens comerciais (como hoje em dia se chamam os anúncios). Sim, sim, eu percebo que são quase sempre artigos para mulheres nestes anúncios, o que daria matéria para mais elaborações, mas não me apetece. Gostei e por isso partilho aqui três deles: o primeiro a pensos higiénicos; o segundo a produtos para cabelo; o terceiro a uma empresa de tecnologia.  

 

AL

publicado às 07:42
modificado por jpt a 11/7/14 às 04:22

McLintock?

por jpt, em 08.06.14

 

McLintock, um western menor de 1963, protagonizado por John Wayne, que também o co-dirigiu com Andrew V. McLaglen, um realizador algo secundário mas de linhagem, filho do oscarizado actor Victor McLaglen, habitual nos filmes de Ford e por vezes contracenando com o próprio Wayne (ganhou em 1936, em The Informer, de John Ford, e ainda foi nomeado em 1952, também em filme de Ford, The Quiet Man). Também este seu filho foi assistente de realização de Ford, e ainda que bastante activo até finais dos 80s, foi particularmente reconhecido como realizador de séries televisivas. No papel de candidato a/e futuro genro da personagem de Wayne surge o seu filho, Patrick Wayne, que com o pai fez cerca de uma dezena de filmes. O argumento é de James Edward Grant, um veterano da poda, com cinquenta filme escritos entre os 1930s e 1971, doze dos quais com/para Wayne, entre os quais “The Alamo” (1961) e “Comanchero” (1962) que este dirigiu e co-dirigiu (o segundo, com Michael Curtiz). Todas estas referências para frisar: em McLintock estamos no centro, o “gang” de Wayne convocada, e ele naturalmente a impôr-se, personagem central da indústria, amada pelo público: John Wayne, ele-mesmo como quis. Aqui numa incursão aparentemente shakespereana, pois tudo se trata de uma versão do “The Taming of the Shrew”, uma das peças iniciais do dramaturgo, assim dando-lhe “legitimidade”, se esta fosse requerida.

É uma comédia bem disposta, a despertar-me a atenção quando está tudo ao soco, uma espécie de luta na lama avant la lettre, com mulher e tudo, e que mulher ali surge Maureen O’Hara, assim tão enlameada, rojada pela pequena ribanceira. Enfim, para os tempos e para aquele meio cinéfilo, aquilo é mesmo um prenúncio proto-erótico.

Wayne é McLintock, um latifundiário (como se dizia na minha terra) decente, beberrão como deve ser, mulherengo como deve ser, rijo como deve ser, patrão amigo como deve ser, paternal como deve ser (ali a induzir um bom noivo para filha, um rapaz também ele como deve ser, representado pelo seu próprio filho, transformando o ficcional em real), justo como deve ser, anti-politiqueiro como deve ser, defensor dos índios como deve ser (se estes forem como deve ser, claro).

O filme tem tudo, não faltam os ingredientes do estereótipo, assim a tornar-se confortável, acomodatício, e fico ali divertido, rindo-me, mas também perguntando-me, "o que é que este filme tem?", e isso não tem grande explicação, para além disso do estar monopolizado pelo grande Wayne, arquétipo do comme il faut, que se lixem as modernices, o politicamente correcto. Nisso tudo até o incentivo a que o genro escolhido dê uns açoites (birrentos) à sua bela filha parece graçola, a ver se os petizes virginais o deixam de ser. Não sei se o termo germinou na altura mas o filme, algo menor, é uma espécime de Duking, Wayne himself alone.

Mais um bocado, mais umas diatribes, e vem a parte final, uma apoteose pública de humilhação da sua mulher desavinda, exigente, batida e ridicularizada diante de toda a aldeia, a população desta, homens e mulheres, em júbilo pela merecida pancada a colocar finalmente ordem nas coisas. E tudo termina com Mauren 0'Hara, finalmente açoitada em público, e assim recompensada, correndo atrás de um aliviado John Wayne, com ele definitivamente reconciliada, pois “quanto mais me bates mais gosto de ti”, como mandava a sabedoria popular, a ordem conjugal, doméstica, e assim também a pública, finalmente reposta.

O interessante não é olhar para o filme agora, através das lentes de um qualquer “politicamente correcto”, após décadas de lutas e afirmações feministas, do surgir de uma outra sensibilidade pública que refuta o tradicional “entre marido e mulher não se mete a colher”, a transformação da violência doméstica em crime público, se se falar de outra forma.  

O verdadeiramente interessante é olhar esta época aparentemente tão próxima. O Duke aqui não aparece como o “Wayne negro” da sua década final, essa evolução para o não-linear, para o obscuro humano, que Scorsese aponta no seu “A personal journey through american movies” (1995). Ele está, entre os seus, resplandecente, bem disposto, hiper-jocoso, até quase falstaffiano, não fosse a saúde que transpira e a ética máscula que respira. E nisso perceber como o então topo de Hollywood podia (e queria) produzir algo assim em …1963

Deixo o filme abaixo, os cinco minutos finais são de antologia - uma antologia deste tipo de coisas.

 

 

publicado às 17:23

Dia da mulher

por jpt, em 08.03.14

Como os frequentadores do ma-schamba saberão não sou nada adepto deste calendário gregoriano laico, que vem substituindo (gerúndio pois é processo ainda incompleto) a atribuição de um santo católico a cada dia pela sua doação a um panteão de santas boas causas. Assim sendo também hoje (8 de Março) resmungo, ainda que seja o dia da mais bela receptora de causa, a mulher. Mas para que não seja malquisto, pelas mulheres em geral, pelas VA e AL daqui, e pela mulher amada, esta em particular, venho assinalar o dia. O dia dedicado à libertação da mulher, à igualdade. Um tema muito apetecível para um republicano. 

 

Deste modo, e com a ajuda dessa deliciosa rede social que é a Pinterest, aqui deixo algumas imagens alusivas ao Dia Internacional da Mulher:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

etc ...

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publicado às 06:02

Homossexualidade em África

por jpt, em 22.02.14

 

A ríspida política ugandesa face à homossexualidade casa com muitos discursos no continente africano (e até em Moçambique). Contrariamente ao velho dichote europeu "acontece nas melhores famílias", em inúmeros discursos vulgares africanos a homossexualidade é remetida não para uma qualquer alteridade monstruosa ou demoníaca (como em outras paragens in illo tempore) mas, pura e simplesmente, para uma radical excentricidade, dita como algo exógeno ao continente, aos africanos. Uma perversão trazida pelos estrangeiros, transcontinentais (fundamentalmente pelos europeus).

 

Sob um ponto de vista antropológico isto traduz uma generalizada e antiga forma de etnocentrismo, a recusa da humanidade aos outros. Nesse âmbito a humanidade não conhece a homossexualidade, apenas a conhecem aqueles menos humanos, os longínquos outros. Num outro registo, mais político, traduz a velha ideia de que o mal vem do estrangeiro, principalmente do colono.

 

Na campanha contra a repressão anti-homossexual vejo agora replicado no facebook o texto "21 modalidades de homossexualidade africana tradicional", uma súmula antropológica sobre fontes de trabalhos em África realizados tanto por antropólogos de XX como de viajantes ou historiadores europeus de séculos passados. 

 

A causa é justa, a repressão sobre a homossexualidade tem dimensões radicais em alguns países africanos e esta versão dessa realidade como "estrangeirice" é perfeitamente desconexa. Sou muito solidário com a causa, revoltam-me estas modalidades de exclusão e perseguição - ainda que, como ateu, me surpreenda as belas relações estatais, empresariais, dos mídia, turistícas e etc que as gentes das boas causas, heterossexuais e homossexuais, têm com os países que perseguem, excluem, prendem e até matam os meus companheiros descrentes na magia.

 

Mas este texto que as boas almas hetero/homo/bissexuais, cheios de (como sempre infernais) boas intenções, se aprestam a partilhar encanita-me. Não só pela amálgama das realidades afirmadas, aparentemente agregadas sem cuidados interpretativos. Não se trata de fazer uma crítica das "fontes historiográficas" ou das "fontes antropológicas" - para isso seria preciso ler o livro que as aborda.

 

Trata-se mesmo de resmungar com o artigo em causa, feito pelo jornalista Colin Stewart, no qual resume o livro "Boy-wives and female husbands", organizado por Murray e Roscoe. Termina o partilhável e partilhado artigo com a seguinte pérola, retirada do livro: nas sociedades africanas pré-coloniais (pelos menos nas que incluíam uma forte hierarquização social) as relações homossexuais eram comuns, aceites, respeitadas e codificadas. Mas depois veio o colono (o não-africano, o branco). E "What the colonisers imposed on Africa was not homosexuality “but rather intolerance of it — and systems of surveillance and regulation for suppressing it."

 

Ou seja, com eles veio o mal. Sobre as sociedades (a la Rousseau) tradicionais africanas, claramente tolerantes, impôs-se a perfídia estrangeira, branca, a qual veio estabelecer a intolerância, esse tal mal. Também nesta dimensão, a da sexualidade. Como nas outras.

 

É o mesmo raciocínio, pacóvio, daquele outro da homossexualidade ser uma exportação colonial. Apimentado com este incompetente remorso do "homem branco". Não tenho paciência para isto, um isto que nada mais é do que racismo preguiçoso, negando as complexidades e densidades, a intensidade societal africana. Ou seja, não "partilho" estes reducionismos históricos, estas "pastorais" cantando os "bons selvagens", pretinhos e, também, gays.

publicado às 11:53

No Feedly (1)

por jpt, em 03.01.14

 

 

As melhores imagens de ciência em 2013, através do De Rerum Natura.

 

O colectivo do excelente À Pala de Walsh elege os dez filmes de 2013. Vale a pena ler.

 

Doze livros editados em Portugal no ano passado: a escolha do  Antologia do Esquecimento.

 

Uma selecção de 10 livros de 2013, especialmente centrada em banda desenhada e ilustração.

 

Os acontecimentos desportivos mais importantes de 2013, no XV contra XV.

 

Um interessante texto de Achille Mbembe sobre Nelson Mandela e a África do Sul actual, ecoado na Buala

 

Uma evocação do mestre de banda desenhada Sergio Toppi, e é ali que noto que o autor morreu, e já há alguns meses. 

 

Picasa: aguda observação sobre o cliquismo fotográfico actual.

 

Robert Mitchum no Escrever é Triste.

 

A Barriga de um Arquitecto é um excelentíssimo blog. Dinossauro já, cumpriu uma década.

  

Dá para viver sem se ter conta no banco? Um belo texto (e uma boa pergunta, sublinho eu quando aqui em Portugal) no Bandeira ao Vento, na sua bela série "Postais de um fotógrafo de bairro", uma colecção de pérolas.

 

As 20 palestras TED mais vistas (actualização). 

 

"A identidade cultural europeia", o prefácio de António Barreto ao livro de Vasco Graça Moura com esse título.

 

 Desejo assim para 2014 uma maior saúde às palavras, no Apenas Mais Um

 

Sobre Sá Carneiro e ao que o reduzem actualmente: no Abrupto.

 

"Meninas a intenção é boa, mas tanta maminha já cansa": uma acertada abordagem sobre as mamocas feministas, no Domadora de Camalões.

 

Um mergulho no bloguismo português, no Delito de Opinião.

 

Sei da existência de um documentário sobre o cante alentejano, feito por Sergio Tréfaut: através do Margem Esquerda do Odiana.

 

José Pacheco Pereirahá muito reconheço na figura de Ramalho Eanes uma dignidade pessoal e um sentido de estado e de serviço público, que são tão escassos na actualidade, que brilham no meio da escuridão moral e cívica em que está mergulhada a nossa vida pública, dominada por gente obcecada pela sua carreira, permeáveis a tudo, menos no seu bem-estar e “protagonismo”. Não admira que Eanes fosse ficando sozinho na sua honra modesta, enquanto ao lado tudo apodrecia. Não é que o seu mérito não seja absoluto, mas o feito do seu mérito ainda se salientou mais devido à degradação da política portuguesa.

 

Natal em Lisboa: eu cheguei a 24 e ainda assim deu para ver (e já nem falo na azáfama pós-natal dos saldos): O que este ano me surpreendeu foi a loucura das compras num período de crise. Há muito tempo que não via um tal frenesim e sou capaz de apostar que o consumo interno terá dado um pulo bastante significativo, apesar de haver quem diga o contrário. Como economista surpreende-me e como cidadã fico perplexa, porque o cartão de crédito vai ter de ser pago em Janeiro..., no Fio de Prumo.

publicado às 11:27

 

A actriz protagonista. E o anúncio do filme em questão:

 

 

 

Ao longo do ma-schamba bem tenho resmungado contra esta piroseira do calendário laico, que a cada dia de santo católico (mais ou menos mágico, mais ou menos antepassado local) - essas superstições das brumas de antanho que vão sendo acarinhadas pela plutocracia apostólica romana - quer substituir por uma santa causa. "Ele" é o dia contra o cancro, contra a gasolina, contra o não-sei-quê. E, às vezes, a favor disto ou daquilo. São os santinhos pós-modernos, é o que é.

 

Mas que sirvam para alguma coisa. Para pensar. Hoje vem-me este "Volver" ("Voltar"), um filme fascista do espanhol Almodovar, um cómico que teve sucesso nas últimas décadas de XX, navegando a "movida" de Tierno Galvan e as olimpíadas de 1992. E muito dado à afirmação das mulheres, construtor, gabam-no, de grandes personagens femininas. A lembrar no dia que querem internacional das mulheres.

 

Este "Volver" foi o último filme dele que vi. Como nos seus anteriores fui lá à procura de um sorriso mais continuado, um pouco de boa disposição, ainda que a verve do cineasta se tenha vindo a esgarçar. Saí irado, enjoado tamanha a repugnância. Sim, tem Penelope Cruz, actriz que faz vacilar os mais arreigados valores. E com ela, as outras boas actrizes (a corte do cineasta) e Almodovar ele mesmo, pelo que todos aplaudem.

 

Não vou resumir a historieta, uma quase-saga familiar, centrada num conjunto de mulheres com garra e esguias na acção, cativantes, industriosas, combativas. Personagens para cativar, seguir, acarinhar. Há quatro homens no filme, todos trastes ou a modos que isso. Dois secundaríssimos, um assistente de produção cinematográfica, que ensaia a sua posição para uma deslambida sedução; um pobre dono de restaurante, meio-falido e notoriamente incompetente, sobre o qual se deixa a névoa de um suave assédio com base na sua posição de patrão. E dois relevantes: o marido de personagem de Penelope Cruz (sobre a qual tentam agir os anteriores, claro), um verme ébrio, mandrião, futeboleiro, que tenta violar a sua filha (não-biológica) púbere. E o pai de Penélope Cruz, com fortes tendências polígamas. Estes dois são assassinados, um involuntariamente, o outro, o pobre pai "infiel", queimado vivo pela pérfida ciumenta mulher.

 

O filme é a sorridente consagração destes assassinatos, o elogio das mulheres rijas, belas, activas e autónomas, que matam os homens. Lhes congelam os cadáveres. Queimam os corpos. O povo ri-se, paraboliza a tralha. Almodovariza-se, claro, que ainda é chic.

 

Lembro-me que então saí do cinema como "homem à beira de um ataque de nervos". Fosse este o registo elogioso numa cobóiada a tratar assim os índios, num filme israelita a tratar assim os árabes ou vice-versa, um stallone a esmagar tardo-vietcongues ou neo-aladinos, um anacrónico grupo de "maquisards" a esventrar alemães na Bretanha ou sei mais lá o quê, e a gente resmungaria sobre o tom. Assim não. Gosta-se, o contrário "fica mal". Resmunguei, disseram que era um exagerado, que via coisas, ideologias, onde elas não existem.

 

Passados anos, há algumas semanas, fui a Nampula. Fiquei numa agradável pensão, a "Ruby". Onde às quintas-feiras se organiza um "walk-in", no pequeno jardim há cinema.  Regressei de Angoche numa quinta, por lá me realojei. Havia cinema, umas dezenas de espectadores. O filme era o "Volver". Sorri, e lá fiquei a esconder a febre com uns whiskies e a olhar a Penelope Cruz. No final as senhoras presentes passaram os pequenos filmes, alusivos ao dia que era - e que eu desconhecia. Era o dia do "One Billion Rising", contra a violência masculina.

 

Um filme de causa, ali confirmei, uns passados anos. Em Nampula, imagine-se. Que não  é, exactamente, o mais cosmopolita dos locais.

 

Causa justa, dizem. "Gender", anglicizam. Queimem os infiéis, ululam. 

 

É o dia internacional destas mulheres? Hoje, 8 de  Março, é o dia de São João de Deus. Antes ele, antes essa superstição, que estas derivas fascistas das "boas causas".

publicado às 17:03

Ao longo do Zambeze

por jpt, em 13.12.12
 

Outro texto que não é de blog, já antigo, sobre direitos das mulheres e crianças na região do Zambeze moçambicano. Para quem tiver interesse nestas coisas, fica na minha conta da rede social Academia.

jpt

publicado às 18:11

Entretanto, no país da presidentA

por jpt, em 16.09.12


[Gustave Courbet, "A Origem do Mundo" (1866)]

 

No país da lachanófoba Dilma, a PresidentA do Brasil, como gritam as ignorantAs do "género", ela própria e os eunucos do mensalão, a sonante Academia Brasileira de Letras acaba de censurar um programa que realizava devido a neste ser exibida uma reprodução deste quadro de Courbet, a tal "Origem do Mundo" - esse que 146 anos depois de ser pintado continua a provocar imbecilidades destas.

 

Um tipo pode rir-se. Reconhecer este moralismo cristo-marxista, sempre em can-can progressista. Tão forte e sempre tão ignorantA nos países de outrAs PresidentAs. Sempre arrogantA, sempre censório e ditatorial. E sempre mensaleiro, claro.

 

Que indigentA gentA. Perigosa, já agora.

 

jpt

publicado às 17:13

A branca de neve em versão grunha

por jpt, em 02.07.12

Mesmo atendendo ao cartaz que evoca um "ambiente" a la Alice de Tim Burton, essa grosseira alarvidade (tamanha que justifica o pleonasmo), levei a princesa a ver A Branca de Neve e o caçador. De antemão sei duas coisas: que estes mitos infantilizados em XIX, e depois liofilizados em inúmeras adaptações da pujante indústria da literatura "infanto-juvenil", nunca foram de versão única, mas sim recontados e recontáveis, ricos de conteúdos; e que o cinema americano, em particular o juvenil, vem tendendo para o boçalismo a ecrã aberto.

Mais valia ter ficado em casa. Certo que estes velhos mitos estão carregados de violência, dessa que o mundo está cheio e que tanto ameaçava narradores e ouvintes. Em particular este "branca de neve", conto de transição, ritualizando o crescimento, suas rupturas e integrações. Mas a mediocridade do filme (a sua malvadez) baseia-se noutra coisa, não apenas na violência que atravessa a(s) história(s). Ainda que que a narrativa tenha coisas interessantes. A melhor das quais é o plebeísmo que lhe está no centro, com a purificação, a força do bem, restaurador da ordem, proveniente de um mero caçador, bêbedo e viúvo, bem diverso do nobre casto (o jovem "principe") do costume. Certo é que o "caçador" está no conto, ficámos e ficamos sempre na dúvida do que é que a Branca de Neve terá realmente oferecido para salvar a vida, o que levou o caçador a abandoná-la na selva (bosque) em vez de a assassinar, tanto assim arriscando. Mas que seja ele o verdadeiro regenerador é uma aparente boa deriva, democrática. Diga-se que assim o filme nos deixa com um "príncipe do povo", blairiano. Inconsciente, como todo o blairismo, das incongruências que acarreta - no discurso "correcto" que expressa ignora-se que o "bem", a "ordem" assim não provém de uma tutela sobre a natureza (o "príncipe" virgem) mas da agressão sobre ela (o caçador, dela violador, e símbolo do excesso sensual).

Mas a repugnância pelo filme bem ultrapassa esse plebeísmo. Por um lado, e se o apelo é ao público menor, não me parece realmente necessário meter logo de início a rainha má a espetar um punhal no coração do pobre rei pai. Com detalhes de malvadez. Símbolo da incapacidade desta era cinéfila em apresentar a violência sem ser num realismo pauperizador.

E principalmente isto de ver a Branca de Neve transformada numa Joana D'Arc, cavaleira liderando exércitos medievais, contra o dragão do mal, espada na mão, é muito pobre, e expressa a tal incapacidade boçal em olhar e representar a violência da existência, que os contos nos trazem. Exactamente como no recente Alice de Tim Burton, que tantos elogios levou dos "intelectuais", sempre deliciados com qualquer moda, como a do chic plástico de Burton e Depp. Agora ao ver o assalto ao castelo lembrei-me do que então escrevi: "como na filiação do livro ao idioma do “género” (gender). Alice é transformada numa campeã do bem, melhor dizendo numa paladina guerreira. O papel de paladino, do vencedor da hidra do momento, é tradicionalmente de um homem, o herói. Agora Alice não é apenas a protagonista, não é apenas a heroína sonhadora. É mesmo a paladina, excalibur na mão, actualização de Lancelot, ali decepando cabeças. Pura actualização, em versão “género”, dos velhos mitos. " Onde estava Alice está agora Branca de Neve, também empobrecida nesta versão gender. Mas, acima de tudo, em versão grunha. Esta grunhice na qual o combate à violência do mundo só pode ser entendida como uma batalha de espada na mão.

O filme, a querer-se realista, tem ainda outros defeitos que o tornam implausível nos seus próprios termos. O menor dos quais não será a sua incoerência. Pois quem tem uma rainha má ("a mais bela de todas") representada por Charlize Theron tem um enorme problema, o de encontrar uma outra mulher que nos convença ser ainda mais bela. Não será impossível mas a Charlize coloca a fasquia muito alta. E se Kristen Stewart veste bem a parte andrógina desta  moda-gender, na sua radical desengraça como cavaleira e líder da soldadesca, no seu andar arqueado e olhar façanhudo que faz lembrar o Mel Gibson de Braveheart, há essa outra dimensão da beleza mágica ("ordenadora") que lhe é inacessível. É certo que é injusto qualificar as pessoas pelos suas características físicas. Mas, ainda assim, tem alguma competência fazê-la competir com a Theron pelo trono da beleza? Pode esta Kristen Stewart reclamar o lugar de mais bela quando apresenta umas orelhas daquele tamanho todo?

Enfim, uma catástrofe de filme. E um susto, para a miúda.jpt  

publicado às 12:22

Maldito relativismo

por jpt, em 01.05.12

Nestas coisas da auto-punição ocidental ("O Remorso do Homem Branco", chamou-lhe há 30 anos Pascal Bruckner) a aparência bem-pensante funciona, tem piada, parece esclarecida. Alimentada do chic do relativismo, na encenação do cosmopolitismo. Nesse can-can a esconder-se a pobreza da melodia, da reflexão. Passo pelo FB, o rossio de agora, e abundam as generalidades. Muitas nesse eixo. Esta é uma delas. Quem poderá contestar a sua pertinência? O seu elegante relativismo, o pasto de tantos antropólogos e colegas transdisciplinares, o encanto de quem com eles convive?

Valerá a pena citar um texto de 1869, de um pensador que se tornou extremamente influente em determinados contextos culturais e políticos? E considerar que as coisas não são um cartaz divertido, a festa da aparente irreverência, mas uma história, feita de processos e lutas por direitos?  e de textos? Que foram e são contextuais, local, cultural e intelectualmente? E que, já agora, mas isso até é uma minudência, até acompanham a mudança ou continuidade das vestes predominantes?

Ainda assim, a ver se enveneno a dieta de alguns antropólogos, e de seus "companheiros de estrada":

"The object of this Essay is to explain as clearly as I am able, the grounds of an opinion which I have held from the very earliest period when I had formed any opinions at all on social or political matters, and which, instead of being weakened or modified, has been constantly growing stronger by the progress of reflection and the experience of life. That the principle wich regulates the existing social relations between the two sexes - the legal subordination of one to the other - is wrong in itself, and now one of the chief hindrances to human improvement; and that it ought to be replaced by a principle of perfect equality, admitting no power or privilege on the one side, nor disability on the other."

É assim que começa "The Subjection of Women" de John Stuart Mill. Repito, de 1869.Há coisas muito mais importantes, e saborosas, do que papar estes cardápios ilustrados da imbecilidade. Assim como que os menus das casas de hamburguers ...jpt

publicado às 03:57

Gender Issues

por jpt, em 26.10.11

"Hoje [Qadaffi] foi finalmente caçado no cano de esgoto em que se escondia" ... "Assads, Salehs e ratos quejandos, não perdereis pela demora!" diz Ana Gomes, eufórica com o linchamento a que assistimos na televisão [a ligação é para o Cachimbo de Magritte que a cita, pois como saberão os leitores veteranos do ma-schamba aqui recuso-me a ligar blogs explicitamente anti-semitas como o é o blog da nossa eurodeputada socialista e antiga embaixadora portuguesa (esta senhora, racista e homofóbica, para além dos outros atributos que vem ululando, carregou a bandeira nacional, literalmente falando, convém não esquecer isso para nossa vergonha e fastio)].

Não há dúvida, isto é um processo de libertação das mulheres. Finalmente livres daquelas imbecis (e alguns aqueles também) que andavam por aí a dizer que com as mulheres na política haveria outra sensibilidade no poder, outra concepção do mundo, outro "humanismo". Saudemos a liberdade feminina, a igualdade de direitos. Homens, mulheres, a merda é a mesma.

(filme encontrado num blog que não ligo, pois aí me foi pedido para desamparar loja).

jpt

publicado às 22:46

Adão e Eva, versão integrista

por jpt, em 29.08.11

 

"Adão e Eva, versão muçulmana" foi como me chegou, via e-mail amigo. Não tem autor identificado. Um bom sorriso para a semana que avança.

 

jpt

publicado às 10:05

 

Lula da Silva discursou na reunião da União Africana, em Malabo. Significativo, do crescente peso económico e político, do Brasil no horizonte africano. O discurso [aqui na íntegra] tem uma parte inútil - meramente protocolar,  sobre a "juventude", mote da reunião de um conjunto de líderes que em grande parte se reproduzem pela exclusão e opressão da juventude (Ben Ali, o ex-defensor da juventude tunisina, é hoje em dia uma caricatura mas há meses seria um must na dita cimeira). Mas na sua parte substantiva é importante.

 

Questiona os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - que me parece ser um resquício de XIX (se aceitarmos, como me parece fácil, que a II Guerra Mundial nasceu em Versalhes, na qual parecia que XIX tinha terminado) e não corresponde às necessidades de um necessário ordenamento actual. A insuficiência das Nações Unidas passará também por isso. Mas a proposta reformista de Lula é populista. Certo que Índia e algum país da América Latina deverão ser membros permanentes, mas Lula quer meros critérios geográficos. Ora que país africano tem "substrato", político, diplomático, militar, económico, para ser membro permanente do Conselho de Segurança, ainda por cima "em representação" do continente? Ou melhor, só para "representar" o continente?

 

Lula avança dois pontos ainda: as origens da crise internacional estão nos países sobredesenvolvidos e na desregulação dos mercados e isso não pode condenar os países pobres a maior pobreza. Certo. Aproveita ainda para criticar a NATO sobre a Líbia. E tem toda a razão. Aquilo já devia ter acabado, a bem das populações que foram, em propalada instância, a causa da intervenção.

 

Do discurso mesmo só retiro um ponto negro: o ranhoso espirro da mais imbecil ideologia do género. Aquele seu "Presidenta" não é um erro ortográfico. É uma infecção.

 

[NOTA: abaixo uma comentadora acusa-me de ignorância quanto a esta questão. E está certa, como se pode ver pela definição de "Presidenta" no Houaiss. Em tempos recentes li algures uma fundamentada refutação do termo (onde?) mas pelos vistos também errónea. Não servirá isso para esconder a atrapalhação agora sentida ("onde me meto?"). Mas fica o texto assim, para aprender a não me armar aos cucos].

 

[ADENDA À NOTA: Francisco Belard: "A presidenta e outros usos do género" e Ciberdúvidas (usando os insuspeitos Lindley Cintra e Celso Cunha, na "Nova Gramática do Português Contemporâneo") explicam bem a incorrecção do termos Presidenta. Não a sua inadmissibilidade mas a sua incorrecção. É erro gramatical. E plebeísmo sociológico. E, digo eu, arrivismo político. Sossego-me. E replico o resmugo.]

 

Depois de ler, e bem, o seu discurso, parece que Lula decidiu improvisar. E borrou a pintura. Lá veio invectivar o Ocidente por nunca ter (nem hoje) tratado africanos e sul-americanos como seres humanos com igual dignidade, pois parecem "nativos". É a "carta racial" tão do agrado PTista. E é a "lusofonia" de Brasília, este constante abraçar dos africanos assente numa comunhão entre povos colonizados e racialmente oprimidos. Uma falácia múltipla. Mais do que tudo porque quer esquecer as relações de poder económico e político que se procura instituir. Mas também porque reproduz "para africano ver" o auto-embelezamento brasileiro, cujo ecos se vão encontrando aqui por Maputo (por exemplo os grupos de capoeira cujos mestres estão cá contra o colono ..., num processo que deveria ser estudado). A ladainha do país colonizado e sofredor, racialmente outro face ao agressor euro-ocidental.

 

Ora o Brasil, independente desde 1820, é um enorme país colonial. Supra-agressor dos seus "nativos". Que não têm a cor nem as formas faciais do "meu irmão Lula". Este auto-nativismo brasileiro é-me ainda mais irritante do que a nossa pobre "lusofonia".

 

Este atrevimento, falsário, da elite política e cultural brasileira (o delicado cantor Caetano Veloso ainda há alguns anos fazia ditirambos contra os colonizadores portugueses no Brasil, "ele" que há 190 anos coloniza aquele país), não seria nada mais do que ridículo de intelectualmente indigente se não tocasse num ponto. O racialismo que Lula agita casa com, e legitima, o racismo transversal, internacional. XXI verá grandes alterações. E não será o fim do racismo, nem do racialismo. Eles serão forças motrizes de muitos movimentos. Dentro de África e nas relações de África com outros contextos - muito para além dos politicamente correctos que querem apagar o existente, sossegando consciências em vez de combater o monstro (que não é monopólio do tal "ocidente" que dá jeito a Lula verberar). Por isso esta camaradagem "nativista" de Lula, este "parecemos nativos" pode, hoje, provocar risos nos africanos a olhar para aquele branco (colono, digo eu). Mas legitima o "vocês ...". O ovo da mamba.

 

E não é assim que se combate o racismo, claro. Como também não é com "presidentAs" que se promove a igualdade de direitos. Urge combater esta retórica. Reaccionária. E, na insensibilidade industrialista e capitalista, colona.

 

jpt

publicado às 23:06

Mulher, republicana, portuguesa

por jpt, em 28.05.11

 

Pediu-me a minha amiga AAL que fizesse eu hoje um post aqui no ma-schamba para celebrar Carolina Beatriz Ângelo, portuguesa e republicana que neste dia em 1911 exerceu o seu direito de cidadã, a primeira Mulher a votar em Portugal e na Europa (excepto Finlândia e Noruega). Sendo médica, foi também a primeira médica a operar no Hospital S. José em Lisboa. Grande feminista desconhecida. Ouçamo-la em discurso directo, transcrita de uma entrevista do jornal “A Capital”, sobre esse dia histórico do primeiro voto feminino (e feminista) em Portugal:

 

“Eu e um grupo de dez senhoras, pertencentes à Associação de Propaganda Feminista, dirigimo-nos para o Clube da Estefânia pelas 10 horas da manhã, onde entrámos sem incidente digno de nota, sendo respeitosamente acolhidas e muito cumprimentadas por todos os que ocupavam o enorme salão. No final da primeira chamada o presidente da assembleia, Sr. Constâncio de Oliveira, consultou a mesa sobre se deveria ou não aceitar o meu voto, consulta na verdade extravagante, porquanto, estando recenseada em virtude duma sentença judicial, a mesma não tinha competência para se intrometer no assunto, visto que a lei eleitoral diz no seu artigo 64o: ‘Nenhum cidadão, recenseado e reconhecido como o próprio, poderá ser inibido de votar excepto se aparecer em manifesto estado de embriaguez, etc.’ Foi contra esta descabida consulta à mesa que se levantaram várias vozes de protesto, entre as quais muito intensamente sobressaiu a de um, cavalheiro que não conhecíamos e que, depois de insistirmos para que nos dissesse o nome, soubemos chamar-se Joaquim Beja. Todas as sufragistas lhe agradeceram a sua atitude perante a justiça da nossa causa. A mesa compreendeu, enfim, o seu dever e na respectiva altura fui chamada. Nessa ocasião o presidente dirigiu-me palavras de elogio e deferência, individualmente imerecidas, manifestando-se a assembleia estrondosamente com palmas e vivas, ao que eu respondi agradecendo e prometendo participar às sufragistas de todo o mundo civilizado, que ultimamente tanto me têm felicitado, que os mais inteligentes homens portugueses estão connosco compartilhando do mesmo ideal.”

 

 

Quem era esta mulher, aparentemente arredada dos compêndios de história e quase desconhecida dos portugueses?

 

Carolina Beatriz Ângelo nasceu na Guarda em 1877, onde, frequentou os estudos primários e secundários.Na cidade de Lisboa frequentou a Escola Médico-Cirúrgica, tendo concluído com bastante êxito o curso de medicina. Tornou-se a primeira médica cirurgiã portuguesa a operar no hospital de São José, onde conheceu Januário Barreto e se casa no próprio ano da formatura. Em 1902, desse matrimónio resulta uma filha, mas aos 21 anos fica viúva.Carolina Beatriz Ângelo revelou-se uma das figuras mais carismáticas do feminismo e do republicanismo da primeira década do século XX. Em, 1911, Carolina Beatriz ao ler a lei prevista na Constituição de 1911 verificou que esta ao decretar quem tinha direito ao voto, não especificou o sexo e a perspicácia desta médica, levou-a a lutar pelo seu direito ao voto já que era uma cidadã portuguesa. Esta lei, ao definir quem seriam os cidadãos que poderiam votar, não distinguiu o sexo, dizendo apenas que quem poderia eleger o governo seriam os cidadãos portugueses. Carolina Beatriz apresentou um recurso em tribunal a fim de poder votar.A 28 de Maio de 1911 torna-se a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto e a legislação é imediatamente alterada, especificando que apenas os cidadãos portugueses masculinos poderiam votar.As mulheres portuguesas tiveram de esperar por Salazar para poderem [votar novamente], no ano de 1931, Salazar determinava que, as mulheres, para votarem tinham de ter cursos secundários ou superiores, enquanto que aos homens bastava apenas saber ler e escrever.Em suma, Carolina Beatriz Ângelo abriu uma “janela”ao ter sido a primeira mulher a votar em Portugal, após a Primeira República e mostrou que a mulher também pode e deve participar em todas as decisões importantes da sociedade que integra.Carolina Beatriz Ângelo quis e desejou que a mulher pudesse ser avaliada pela inteligência, razão e não somente como fada do lar, isto é, dona de casa e mãe. Carolina Beatriz Ângelo idealista do movimento feminista fez parte de uma Associação de Propaganda Feminista que defendia a igualdade de oportunidades da mulher na política, e na vida social tal como os homens.

 

Igualmente grande feminista e grande mulher a minha amiga AAL que, tivesse ela sido nada naquela  época, estaria certamente em 1911 ao lado (senão mesmo à frente) de Carolina.ALEm jeito de nota final não resisto a chamar a atenção dos leitores maschambianos para a delícia de candura do segundo texto aqui citado. No respectivo link encontra-se também bibliografia disponível na internet sobre esta mulher notável.

publicado às 23:06


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