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Ao longo dos anos um tipo vai vendo o PS e achando que aquilo vai de mal a pior, e surpreende-se que possa ainda descer mais. Hoje, ao ler as notícias sobre a aprovação do novo Estatuto do Aluno, lembrei-me deste fabuloso cartoon de Zapiro, o genial desenhador sul-africano, e que serve de ilustração para os fungos mentais que as juventudes socialistas nos têm oferecido nas últimas décadas, que me lembre pelo menos desde aquele rapaz do "marketing", perdão, das "causas fracturantes", Sousa Mendes.

Contestando este novo documento surgiu o deputado Pedro Delgado Alves, anunciado como líder da JS. E botou esta "pérola": «O novo Estatuto do Aluno não percebe a visão integradora da escola pública», afirmou, e salienta «a defesa dos valores nacionais». «Mas eu não sei o que são valores nacionais. Sei o que são valores universais, como a liberdade, a igualdade e a fraternidade». A questão nem sequer é política, é apenas higiénica, o facto de haver imbecis, com uma tal ignorância, que os partidos (e neste caso, em particular, o seu antecessor António José Seguro) têm o atrevimento de nos colocar no cardápio. Há imbecis destes nos outros partidos? Porventura. Mas isso não menoriza em nada o asco que se sente diante deste "grau zero". E também para com os outros, os que o rodeiam. E que, não sendo estas larvas, com elas aceitam  ombrear.

Esta é uma tirada patrioteira? Nada disso. Até poderia ser apenas de um pai de uma miúda que a semana passada estava a estudar (e a lembrar-me) do Conde de Andeiro, de João das Regras, de Gil Eanes no Cabo Bojador, e coisas similares. Aos dez anos, a apreender factos históricos, na sua subjectividade disfarçada de objectividade, e a perceber que está a receber símbolos e valores. Com uma perspicácia e capacidade intelectual bem superior à deste atrevido imbecilóide. Que o PS, António José Seguro e aqueles que o seguem, entendem poder servir para algo. Convém guardar o nome, Pedro Delgado Alves, pois estou certo que daqui a anos, décadas até, continuaremos a vê-lo e ouvi-lo, na Assembleia, num qualquer governo, nas tvs, nas empresas públicas. Apesar de ser óbvio que este homem é um insulto. Às mentes alheias. A todos nós.

A este propósito lembro-me que há alguns anos aqui deixei um feixe de citações de George Orwell sobre estas coisas dos "valores nacionais", textos do tempo da 2ª guerra, e dela colhendo alguns efeitos. Mas que mesmo assim, algo datados, mostram bem a diferença entre quem pensa e este energúmeno, entre quem pensa e a escória, de aldrabões feita, que o escolhe para "ser algo".

Patriotism has nothing to do with conservatism. It is devotion to something that is changing but is felt to be mystically the same…” (My country left or right, p. 6).  “By “patriotism” I mean devotion to a particular place and a particular way of life, which one believes to be the best in the world but has no wish to force upon other people. Patriotism is of its nature defensive, both military and culturally. Nationalism, on the other hand, is inseparable from the desire of power.”

By nationalism I mean first of all the habit of assuming that human beings can be classified like insects and that whole blocks of millions or tens of millions of people can be confidently labelled “good” or “bad”. But secondly – and this is much more important – I mean the habit of identifying oneself with a single nation or other unit, placing it beyond good and evil and recognizing no other duty than of advancing its interests. Nationalism is not to be confused with patriotism.…” (Notes on nationalism, pp. 8-9).

E, infelizmente, nas querelas dos dias continua a haver gente que o é aderindo ao habit of identifying oneself with a single nation or other unit, placing it beyond good and evil and recognizing no other duty than of advancing its interests. São aqueles que, apesar de tudo, aceitam ser representados por estes delgados alves. São ainda piores do que esta nulidade atrevida.

jpt

publicado às 01:05

O correctismo segundo Orwell

por jpt, em 08.07.11

 

Em tempos aqui coloquei a citação de Orwell que vou repetir. Agora a propósito deste correctismo actual, que no seu avatar linguístico abaixo e mais abaixo abordei. Apenas para lembrar que não se trata de boa (confiável) gente ...

 

The distinction that really matters is not between violence and non-violence, but between having and not having the appetite for power. There are people who are convinced of the wickedness both of armies and of police forces, but who are nevertheless much more intolerant and inquisitorial in outlook than the normal person who believes that it is necessary to use violence in certain circumstances. They will not say to somebody else, “Do this, that and the other or you will go to prison“, but they will, if they can, get inside his brain and dictate his thoughts for him in the minutest particulars. Creeds like pacifism and anarchism, which seem on the surface to imply a complete renunciation of power, rather encourage this habit of mind. For if you have embraced a creed which appears to be free from the ordinary dirtiness of politics – a creed from which you yourself cannot expect to draw any material advantage – surely that proves that you are in the right? And the more you are in the right, the more natural that everyone else should be bullied into thinking likewise.

 

(“Lear, Tolstoy and the Fool“, no “Inside the Whale and Other Essays” (Penguin Books, 1962 [1957]) p. 118)

 

jpt

publicado às 11:30

Proto-histeria nacionalista

por jpt, em 08.07.11

Em Portugal e não só tempos de crise. Já longos, e continuarão a prolongar-se. Pelo que vou lendo são tempos de nacionalismos a chegar. E nisso um pimba-cliquismo, um "pimbismo" galopante. Ou galopante? Repito um excerto de uma mais longa citação aqui colocada, que me parece muito a propósito:

 

 

Moreover, although endlessly brooding on power, victory, defeat, revenge, the nationalist is often somewhat uninterested in what happens in the real world. What he wants is to feel that is own unit is getting the better of some other unit, and he can more easily do this by scoring off an adversary than by examining the facts to see whether they support him. All nationalist controversy is at the debating-society level.” (p. 22)

 

By nationalism I mean first of all the habit of assuming that human beings can be classified like insects and that whole blocks of millions or tens of millions of people can be confidently labelled “good” or “bad”. But secondly – and this is much more important – I mean the habit of identifying oneself with a single nation or other unit, placing it beyond good and evil and recognizing no other duty than of advancing its interests. Nationalism is not to be confused with patriotism.…”.

 

“By “patriotism” I mean devotion to a particular place and a particular way of life, which one believes to be the best in the world but has no wish to force upon other people. Patriotism is of its nature defensive, both military and culturally. Nationalism, on the other hand, is inseparable from the desire of power.” (pp. 8-9)

 

[Georges Orwell, Notes on nationalism, In Defence of English Cooking, Penguin Books, 2005)

 

jpt

publicado às 00:53

Os dizeres de um jornalista

por jpt, em 11.02.10

Vem muito a propósito do que em Portugal se vai dizendo sobre "liberdade de expressão". E do como dizem. E do quem diz o que diz como diz. Orwell num texto dedicado ao totalitarismo ("The prevention of literature", de 1945). E há sessenta anos a falar de hoje. E dos actuais pretendentes a mandarim, também.

 

 

"To keep the matter in perspective, let me repeat what I said at the beginning of this essay: that in England the immediate enemies of truthfulness, and hence of freedom of thought, are the Press lords, the film magnates, and the bureaucrats, but that on a long view the weakening of the desire of liberty among the intellectuals themselves is the most serious symptom of all. (...)

 

Meanwhile totalitarianism has not fully triumphed anywhere. Our own society is still, broadly speaking, liberal. To exercise your right of free speech you have to fight against economic pressure and against strong sections of public opinion, but not, as yet, against a secret police force. You can say or print almost everything so long as you are willing to do it in a hole-and-corner way. But what is sinister, as I said at the beginning of this essay, is that the conscious enemies of liberty are those to whom liberty ought to mean most. The big public do not care about the matter one way or the other. They are not in favour of persecuting the heretic, and they will not exert themselves to defend him. The are at once too sane and too stupid to acquire the totalitarian outlook. The direct, conscious attack on intellectual decency comes from the intellectuals themselves."

 

jpt

publicado às 01:27

Nestes últimos dias no ma-schamba tem-se falado mais de colonialismo do que nos anteriores seis anos que as nossas courelas já levam. Muito, mas não só, a propósito do livro de memórias de Isabela Figueiredo (que, vê-se, mexeu na colmeia. Advertidamente, acho). Livro que a jornalista Vanessa Rato aventa ser um momento fulcral na história intelectual portuguesa, anunciando o advento (ou a possibilidade) de um pensamento pós-colonial em Portugal. Talvez por isso, pela percepção ou sensação desse episódio único, tanto aqui têm falado os bloguistas, os comentadores (os residentes e não só) e, até, alguns outros bloguistas que para cá têm feito ligações (mais ou menos abonatórias). Dando-me, ao fim destas semanas, a sensação de já ter os cromos opinativos todos (e isto sem sentido pejorativo), os mais fáceis e os mais difíceis. A caderneta completa! Mas fui compreendendo o meu erro. Pois se a continuidade (muito bem-vinda) de comentários me levou a desconfiar desse sucesso, demonstrando afinal a incompletude, foi a tal referência à actual emergência da reflexão "pós-colonial" em Portugal que me fez entender o meu erro. Pois, e por arrastamento, por analogia ou homofonia, se se quiser, isto levou-me a perceber esta questão no seio do pensamento pós-moderno.

 

Tento explicar-me. Sou um homem do tempo das cadernetas de cromos, essas "grandes narrativas" conclusivas, com princípio, meio e fim, conclusivas e argumentáveis. Ainda que algo incompetente no assunto, reconheço, pois apenas completei as colecções "Mundial de 1974" - no qual Johan Cruyff e sua Laranja Mecânica foram injustiçados pela vil Alemanha -,

 

[imagem encontrada no Santa Nostalgia]

 

e uma esplêndida e mui expressiva "História de Portugal", da qual guardo ainda memórias muito vivas, constantes, em particular dos cromos da muito dumeziliana Deuladeu Martins botando pão muralhas fora, dos cotos de Navas de Tolosa, do pavoroso e zarolho (Dumézil também?) Geraldo Sem-Pavor ao assalto em Évora, do entalado Martim Moniz ali às portas de Lisboa, e claro que do Nosso Senhor Jesus Cristo planando nos céus da Batalha de Ourique abençoando Afonso Henriques, seus homens e, obviamente, todo o Portugal que aí vinha. Para além do último e destacado cromo, o alusivo ao Presidente do Conselho, Professor Marcello Caetano, que Deus tivesse na Sua santa guarda.

 

[imagem encontrada no Pena e Espada]

 

Ora o que ultimamente me tem revelado a minha filha é que o paradigma "cromo" faleceu. A grande narrativa terminável, conclusiva, a encerrar de modo contíguo em apropriada caderneta, é coisa do passado. Deparamo-nos hoje com uma versão diversa, uma contínua actividade de troca, inacabável, dos stickers. Seja em versão Hannah  Montana seja nos "fofos". Sendo que os rapazes [lá está, a vil ideologia de género a moldar as jovens mentes, a discipliná-los para os papéis sociais a que aderirão julgando-os naturais] têm uma panóplia de viçosos super-heróis para fruirem da mesma actividade.

 

[imagem encontrada aqui]

 

[imagem encontrada aqui]

 

Nesta incessante troca de itens não se vislumbra conclusão, não estão eles numerados nem catalogados. Nem são arrumáveis por predeterminada ordem, cada coleccionador(a) preenche e repreenche criativamente os múltiplos suportes (livros, pastas, cadernos, folhas, paredes, frigoríficos, sei lá) que vai escolhendo. O limite, conceptual e estético, seria o céu não fosse tudo isto ser mediado, entenda-se reprimido, pelas bolsas (aliás, cartões de crédito) paterno-maternais [a tal ideologia de género que sobrevaloriza o termos "paternais" tem que ser combatida]. Estamos diante de uma corrente total de dádivas, sem objectivo nem finalidade para além delas próprias. Barro para um novo (pós-moderno? pós-colonial?) ensaio sobre o dom, com toda a certeza.

 

Assim esclarecido (actualizado) pela minha filha regresso ao blog e à temática colonial, e mais descansado. Que penso eu, bloguista aqui fundador e que nada tenho falado do colonialismo, do que para aqui se vai dizendo? (o colonialismo ou não, o racismo ou não, o Eusébio ou não, o Monstro Sagrado ou não?, o electricista da Matola ou não, o que os portugueses deixaram ou não, o Bloco de Esquerda ou não, etc. ou não?). Não posso achar, nem resumir. Não porque me faltem cromos na caderneta. Mas porque ela, afinal, não existe. Apenas posso, agora (desde Dezembro de 2009) que parece que começou o pensamento pós-colonial em Portugal, aproveitar para meter uns stickers (versão "fofos") na porta do frigorífico e uns outros no blog. Para o blog seguem estes, nada raros:

 

 

Num texto de 1936 George Orwell (autor muito simpático a largo espectro de leitores) escreveu. "Here was I, the white man with his gun, standing in front of the unarmed native crowd - seemingly the leading actor of the piece; but in reality I was only an absurd puppet pushed to and fro by will of those yellow faces behind. I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the "natives", and so in every crisis he has got to do what "natives" expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it." (George Orwell, "Shooting an Elephant", 1936, Inside The Whale and Other Essays, Penguin Books, p. 95). Repito, é um texto de 1936.

 

 

Entretanto na página Facebook de um prezada colega encontrei este filme que de imediato me fez lembrar este livro, comprado recentemente na Livraria Sá da Costa (ao Chiado, Lisboa) pela quantia de 0,5 euros.

 

[Aimé Césaire, Discurso Sobre o Colonialismo, Sá da Costa, 1978. Tradução de Noémia de Sousa, prefácio de Mário de Andrade]

 

Podemos hoje olhar para o livro, na realidade um panfleto com todas as características desse tipo de documento, publicado originalmente em 1955 (e retomando um texto de 1950), com grande distância. Césaire era ainda membro do Partido Comunista Francês, explicitamente crente na filosofia de história comunista (e o panfleto termina com uma profissão de fé típica, hoje anquilosada), a qual até contradiz parte do argumento multilinear que defende (as "possibilidades" de desenvolvimento que imagina). Defende o afrocentrismo de Cheikh Anta Diop (que não será ele próprio reactivo?), hesita (apesar de tudo) na refutação radical do conceito de filosofia bantu do padre Tempels,  mi(s)tifica o comunitarismo das sociedades africanas ante-coloniais ("Eram sociedades democráticas, sempre. Eram sociedades cooperativas, sociedades fraternais." (27), e chega a pontapear Marco Polo como exemplo do colonialismo. Mas se não o lermos anacronicamente (como ele o fez ao pobre de Marco Polo) encontramos um diagnóstico acutilante. É só escolher para citar. Escolho dois trechos: um, porque muito orwelliano, e porque vem a propósito do que aqui (ma-schamba) vem sendo dito: "Será preciso estudar, primeiro, como a colonização se esmera em descivilizar o colonizador, em embrutecê-lo, na verdadeira acepção da palavra, em degradá-lo ..." (17) "...a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a acção colonial, a empresa colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada sobre o desprezo pelo homem indígena e justificada por todo esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende (...) É esta acção, este ricochete da colonização, que importava assinalar." (24).

 

E escolho outro trecho dedicado a alguns dos comentadores. O autor segue Lévi-Strauss e Leiris (então figuras centrais no pensamento antropológico em francês), adversários da ideia de supremacia cultural (e seu corolário, a ideologia do "progresso) - coisa que, sessenta anos depois continua a não entrar na cabeça de muito boa gente, uns porque acham que ele (progresso) é muito bom e entendível, outros porque confundem isto com um tal de "relativismo". Disse Césaire (repito, traduzido por Noémia de Sousa, introduzido por Mário de Andrade e publicado em Portugal pela Sá da Costa em 1978, e vendido em finais de 2009 no centro de Lisboa por 0,5 euros):

 

"Falam-me de progresso, de "realizações", de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios. Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificiências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. Lançam-me à cara factos, estatísticas, quilometragens de estradas, de canais, de caminhos de ferro. Mas eu falo de ... milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. Lançam-me em cheio aos olhos toneladas de algodão ou de cacau exportado, hectares de oliveiras ou de vinhas plantadas. Mas eu falo ... de economias adaptadas à condição do homem indígena desorganizadas, de culturas de subsistência destruídas, de subalimentação instalada, de desenvolvimento agrícola orientado unicamente para benefícios das metrópoles, de rapinas de produtos, de rapinas de matérias-primas. (...) Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação." (26)


Tenho mais stickers. Este é um muito wallersteiniano trabalho sobre a economia colonial.

 

[Carlos Fortuna, O Fio da Meada. O Algodão de Moçambique, Portugal e a Economia-Mundo (1860-1960), Afrontamento, 1993]


Cola bem ao texto anterior, pois o que aqui se trata é da ligação profunda da economia da cultura forçada de plantas comerciais em África e do processo de industrialização português (metropolitano). Para alguns poderá servir para deixar de fazer uma história especulativa, contra-factual, essa do "Ah, se Marcello tivesse actuado... Ah, se Salazar tivesse tido outra visão". Sim, podiam ter tido. Mas não tiveram pois "é(era) a economia, estúpido!". [Já agora, dá para colaborar no entendimento sobre a indústria portuguesa no seio da União Europeia ...] Servirá, acima de tudo, para compreender que Portugal era um país colonial, não um país com colónias.

 

 

[Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios, Círculo de Leitores, 1988]

 

Voltando à primeira forma, essa de ver quem e como eram os colonos inseridos no pacote "sistémico". Há um quarto de século a escritora Lídia Jorge, que veio a tornar-se figura importante na ficção portuguesa, escreveu este romance passado na Beira colonial. Traçou um quadro complexo da sociedade colonial de então, da (ir)relação havida com o mundo colonizado, um meio até contraditório (veja-se a evolução da personagem protagonista, Eva-Evita), assim influenciando as mentes dos portugueses (metropolitanos ou residentes), numa flutuação das concepções. Contrariamente ao que os blogodesenhadores actuais muito gostam não incidiu particularmente sobre "as conas das negras" (a burguesia é sempre espantável) mas encetou o livro com a célebre paisagem dos múltiplos carregamentos de cadáveres de negros, envenenados por álcool metílico, e dos discursos e sensações gerados sobre isso. Um pastel bem mais impressionável, e significante, para os menos espantáveis, diga-se.

[Adelino Serras Pires & Fiona Claire Capstick, The Winds of Havoc, St. Martin's Press, 2001]

 

Um belíssimo sticker é este, a propósito de sabermos das memórias, dos interstícios do mundo colonial. São as memórias de Serras Pires (que têm edição portuguesa, presumo que na Europa-América), homem do mundo, de relativas posses, uma personagem bem conhecida, com a característica de serem muitíssimo legíveis (a co-autora, Fiona Capstick é uma profissional da escrita). Colono filho de colono, Serras Pires teve (e ainda tem) uma vida cheia, figura carismática. [Para os adeptos da caça este é um livro incontornável]. Muito interessante a forma como aqui se explicita, sistemática e conscientemente, a visão benéfica da África colonial, e de como no livro se subentende, e entende, as particulares modalidades de relacionamento (por um lado sistémico, por outro lado pessoalizado) de relacionamento com os africanos "originários", como agora se diz. Mas traz também as flutuações de relacionamento intra-mundo colonial - são recorrentes e profundas as críticas à governação colonial, aos mandarins metropolitanos, ao BNU (a finança todo-poderosa) e, excelente, "aos a sul do Save" (questão que largas décadas depois, e com tão diferentes actores, ainda se coloca). Um episódio marcou-me na leitura do livro - o pai Serras Pires, velho colono inaugural na região do Guro adoece, já idoso, ao fim de trinta anos na região. Tem que ser evacuado de urgência mas não sobreviverá à viagem de carro até à Beira. É então necessário evacuá-lo de avião mas não há pista de aterragem no Guro. Será construída durante uma noite, por mobilização popular. Cabe a história no modelo? Explica o colonialismo? Se sim, cristalizamo-la e embandeiramo-la? Se não, censuramo-la?

 

São os meus stickers. Do após-colonialismo. Quanto aos do pós-colonialismo, não tenho grande curiosidade. Valem-me tanto como a tralha avulsa da "vocação milenar" ou da "gesta pátria". Ou menos, que nem lhes acho interesse museológico. E estes stickers, e mais alguns que meti na porta do frigorífico (aka, geleira), valem-me para os próximos tempos. Daqui a seis anos, se ainda houver ma-schamba, volto a botar sobre colonialismo e após-colonialismo. Mas não, espero (que a esclerose não me ataque), sobre o pós-colonialismo.

 

jpt

publicado às 03:03

Correctices, segundo Orwell

por jpt, em 21.01.10

A propósito da efeméride (o escritor morreu a 21 de Janeiro de 1950) aproveito para lembrar este conjunto de ensaios de George Orwell, "Inside the Whale and Other Essays" (Penguin Books, 1962 [1957]), escritos nos anos 30-40 de XX. Tem textos deliciosos, entre outros "Inside the Whale" onde mergulha nas três primeiras décadas de XX da literatura anglófona, centrado no "Trópico de Câncer" de Miller  - o qual não só qualifica de excelente mas, acima de tudo, como exemplar da atitude da época, um "Jonismo", um deixar-se refugiar para o interior da baleia (ainda que Jonas tivesse sido engolido por um peixe, lembra Orwell), submergindo-se na /submetendo-se à realidade. Uma baleia transparente no caso de Miller, explicita ainda, frisando que a "obscenidade" do autor não conta, nem positiva nem negativamente, para a avaliação do seu trabalho. E lembro um fantástico texto "Boys' Weeklies", uma belíssima análise da literatura juvenil, bem precursora de trabalhos similares.

Mas foram as recentes polémicas aqui que me lembraram o livro, em particular o pequeno "Shooting an Elephant", a narrativa de um episódio da estadia do autor como polícia na Birmânia britânica, e da sua radical recusa do mundo colonial, vivida em ambivalência pessoal. Um discurso muito distante dos panfletarismos de causas que tantas décadas depois (o texto é de 1936!) continuam a ser entoados, sem bons e maus, apenas mostrando as duplicidades de sentimentos e práticas em que os indivíduos históricos navegam, e os preconceitos tantas vezes absurdos que os constroem e dinamizam.

E de um outro texto do livro deixo um trecho completamente actual, demonstrando as gentes que nos continuam quotidianamente a entrar "em casa", com grande afã:

"The distinction that really matters is not between violence and non-violence, but between having and not having the appetite for power. There are people who are convinced of the wickedness both of armies and of police forces, but who are nevertheless much more intolerant and inquisitorial in outlook than the normal person who believes that it is necessary to use violence in certain circumstances. They will not say to somebody else, "Do this, that and the other or you will go to prison", but they will, if they can, get inside his brain and dictate his thoughts for him in the minutest particulars. Creeds like pacifism and anarchism, which seem on the surface to imply a complete renunciation of power, rather encourage this habit of mind. For if you have embraced a creed which appears to be free from the ordinary dirtiness of politics - a creed from which you yourself cannot expect to draw any material advantage - surely that proves that you are in the right? And the more you are in the right, the more natural that everyone else should be bullied into thinking likewise." ("Lear, Tolstoy and the Fool", p. 118)

jpt

publicado às 00:00

George Orwell sobre o Nacionalismo

por jpt, em 28.04.06
"Political or military commentators, like astrologers, can survive almost any mistake, because they more devoted followers do not look to them for an appraisal of the facts but for the stimulation of nationalistic loyalties. And aesthetic judgements, especially literary judgements, are often corrupted in the same way as political ones."


[George Orwell, "Notes on nationalism", In Defence of English Cooking, Penguin Books, 2005, p. 12]

publicado às 08:57

 

[George Orwell, In Defence of English Cooking, Penguin Books, 2005]

 

Um tratado (quatro textos pequenos) de bom senso. Impiedoso. Dá vontade de ir postando citações ao longo de uma semana. Coisa mais actual, a falar de nós e vizinhos. E muito mesmo dos vizinhos (já que nós somos sempre mais belos e inteligentes do que aqueles, portanto menos retratáveis).

 

1. "Ours was the one-eyed pacifism that is peculiar to sheltered countries with strong navies. For years after the war, to have any knowledge of or interest in military matters, even to know which end of a gun the bullet comes out of, was suspect in "enlightened" circles." [My country right or left, p. 3]

 

"Pacifist propaganda usually boils down to saying that one side is as bad as the other, but if one looks closely at the writings of the younger intellectual pacifists, one finds that they do not by any means express impartial disapproval but are directed almost entirely against Britain and the United States. Moreover they do not as a rule condemn violence as such, but only violence used in defence of the western countries" (Notes on nationalism, p. 26).

 

2. “Patriotism has nothing to do with conservatism. It is devotion to something that is changing but is felt to be mystically the same..." (My country left or right, p. 6)

 

"To this day it gives me a faint feeling of sacrilege not to stand to attention during "God save the King". That is childish, of course, but I would sooner have had that kind of upbringing than be like the left-wing intellectuals who are so "enlightened" that they cannot understand the most ordinary emotions". (My country right or left, p. 7)

 

3. (Dedicado ao blog Tugir) “All nationalists considerer it a duty to spread their own language to the detriment of rival languages, and among English-speakers this struggle reappears in subtler form as a struggle between dialects” (Notes on nationalism, p. 16)

 

4. pensando em tantos blogs ultraliberais portugueses acriticamente pró-americanos, onde tanto reconheço o nacionalismo "transferido" que Orwell afirma:

 

"Nationalism ... does not necessarily mean loyalty to a government or a country, still less to one's own country" (p.9) ... "The intensity with which they are held does not prevent nationalist loyalties from being transferable" (p. 16) … For the past fifty or a hundred years, transferred nationalism has been a common phenomenon among literary intellectuals … What remains constant in the nationalist is his own state of mind: the object of his feelings is changeable, and may be imaginary” ... (p.17)

 

"All nationalists have the power of not seeing resemblances between similar sets of facts Actions are held to be good or bad, not on their own merits but according to who does them, and there is almost no kind of outrage – torture, the use of hostages, forced labour, mass deportations, imprisonment without trial, forgery, assassination, the bombing of civilians - which does not change its moral colour when it is committed by “our” side." (p. 18)

 

"The nationalist not only does not disapprove of atrocities committed by his own side, but he has a remarkable capacity for not even hearing about them..." (p. 19)

 

"Moreover, although endlessly brooding on power, victory, defeat, revenge, the nationalist is often somewhat uninterested in what happens in the real world. What he wants is to feel that is own unit is getting the better of some other unit, and he can more easily do this by scoring off an adversary than by examining the facts to see whether they support him. All nationalist controversy is at the debating-society level." (p. 22) [Meu sublinhado, já que é algo que sempre me surpreendeu no tal mundo blogoliberal luso]

 

5. "By nationalism I mean first of all the habit of assuming that human beings can be classified like insects and that whole blocks of millions or tens of millions of people can be confidently labelled “good” or “bad”. But secondly – and this is much more important – I mean the habit of identifying oneself with a single nation or other unit, placing it beyond good and evil and recognizing no other duty than of advancing its interests. Nationalism is not to be confused with patriotism.…”. (Notes on nationalism, pp. 8-9)

 

"By “patriotism” I mean devotion to a particular place and a particular way of life, which one believes to be the best in the world but has no wish to force upon other people. Patriotism is of its nature defensive, both military and culturally. Nationalism, on the other hand, is inseparable from the desire of power."

 

6. é só abrir o livrinho, decerto há carapuços para me meter. Que tanto bom senso não será só nos outros que falta.

publicado às 11:04


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