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Consequências da Crise. Outras

por jpt, em 18.03.11

Geoge Steiner, ensaísta, crítico literário e professor e professor em Cambridge, considera, em entrevista a Revista Ler, de que a crise pode ter consequências muito positivas:

 

"Quando as coisas estão mal, muito mal, as pessoas começam a ler com seriedade, a ler melhor. Ouve-se mais e melhor música, por exemplo. (…) Os jovens começam a ter fome de algo mais substancial do que a pastilha elástica momentânea da pop. Já foi assim. Durante a guerra, a Blitz, as pessoas regressaram aos clássicos, leram-se os grandes romancistas vitorianos, os grandes poetas." E sugere: "O meu currículo oficial imaginário, se estivesse no poder, consistiria nas seguintes disciplinas: Música (toda a gente deveria ouvir, conhecer, aprender, mesmo que não seja para isso especialmente dotado. A Música combina a Matemática e a emoção humana), Arquitectura (toda a gente deveria aprender Arquitectura, porque esta combina a Engenharia, a Física, as Ciências do Meio, a Sociologia, a História e até a Política. Construir um edifício – e estamos num período de grandes obras de arquitectura – é um acto político de grande complexidade) e, claro, a Matemática. Então, Música, Arquitectura, Matemática e, de repente, dou por mim a falar de Platão."

 

PSB

publicado às 14:32

A tripartição

por jpt, em 27.08.10

[G. Steiner, Nostalgia do Absoluto, Gradiva (2003 [1974])]

"Devo sugerir, com hesitação, mas, espero, alguma seriedade, que a famosa divisão da consciência psicológica humana - id, ego, superego - deve muito à divisão em cave, quartos e sotão da casa da classe média vienense na viragem do século XIX para o XX." (25).

(muito a propósito, ver a entrada anterior)jpt

publicado às 13:13

Leio que George Steiner recebeu um honoris causa em Portugal. Fico algo curioso sobre as reacções que aconteceram. Não tanto as laudatórias, que honoris causa oblige. Mas entender como algumas bandas do espectro nacional o receberam e aclamaram (?).

Digo isto porque Steiner escreveu algo que assenta perfeitamente sobre Portugal - em particular sobre alguns extractos dominantes e bem sonoros do pensar português. Como terão eles embrulhado a recepção e sacralização deste vulto enorme? Porventura com silêncio, ele é pesado e elevado demais para o ataque, convirá assobiar para o lado.

Steiner Barba

Estou exactamente a lembrar-me de um seu pequeno livro, "No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas Para a Redefinição de Cultura" (Relógio d'Água, 1992, tradução de Miguel Serras Pereira). Na verdade é melhor citá-lo, ainda que algo longamente:

"A nossa experiência do presente, os juízos, tantas vezes negativos, que fazemos acerca do nosso lugar na história, vivem continuamente contra o fundo daquilo a que eu gostaria de chamar o "mito do século XIX" ou o "jardim imaginário da cultura liberal".

A nossa sensibilidade situa esse jardim na Inglaterra e na Europa Ocidental dos anos que vão aproximadamente de 1820 a 1915. A primeira data tem a falta de brilho do que releva das convenções, mas o fim do longo Verão reveste-se de uma exactidão apocalíptica. Os traços maiores da paisagem são inconfundíveis. Um nível de cultura elevado e crescente. O primado da lei. As formas de governo representativo, sem dúvida imperfeitas, mas que por toda a parte se generalizaram. Direito à privacidade e segurança cada vez maior nos espaços públicos. Reconhecimento espontâneo do papel axial das artes, ciências e tecnologia em termos económicos e civilizacionais. A obtenção paciente, ainda que por vezes difícil, da coexistência pacífica entre os estados nacionais (...) Interacção dinâmica e temperada de humanidade entre a mobilidade social e as linhas de força e os costumes estáveis da comunidade. Uma norma de poder, moderada pelos conflitos tradicionais entre as gerações, entre pais e filhos. Liberalismo sexual acompanhado por um critério de restrições vigoroso e subtil, colectivamente aceite. E ser-me-ia fácil continuar. (...)

Segundo os nossos interesses transportamos connosco diferentes elementos ou partes deste todo complexo. O pai "sabe" de uma época passada em que as boas maneiras eram estritas e os filhos obedeciam. O sociólogo "sabe" que houve uma cultura urbana em larga medida imune às actuais ameaças anárquicas ou baforadas de violência intempestiva. O religioso e o moralista "sabem" que existiu um tempo em que os valores eram reconhecidos por todos. Cada um de nós poderá evocar as alíneas que melhor convenham ao seu caso: a casa onde a ordem reina, com os seus servidores e o seu recato; os parques dominicais com a sua ociosidade tranquila; o latim nas salas de aula e a subtileza apostólica dos anfiteatros universitários; as livrarias autênticas e os debates parlamentares intelegíveis. Os homens de cultura "sabem" num sentido peculiar, e simbolicamente definido da palavra, que houve um tempo em que uma produção universitária e literária séria, economicamente acessível, era sinónimo da descoberta de um público extenso e dotado de competência crítica. Há ainda hoje há muita gente para quem o célebre Verão sem nuvens de 1914 é a abertura de um passado a que corresponde um mundo mais civilizado, mais confiante, mais humano do que tudo o que depois dele conhecemos." (15-16)

É o que o autor resume como "O mito da Queda é mais forte do que qualquer religião particular" (14), algo que dá sentido às sociedades. Nem vale a pena exemplificar, o conteúdo elencado dessa visão mitológica (e metafísica) do " jardim imaginário do século XIX", surge no Portugal de hoje constantemente erguido (a morte do português, o desaparecimento de Portugal, o fim dos cafés e das suas tertúlias culturais, os livros que são lidos, a tv, o povo, etc. etc. etc.). O que é interessante - e denotando o tempo longo português - é que em Portugal as balizas históricas desse jardim não são equivalentes às anunciadas neste texto. Uma minoria - muito ligada a pobres estratégias de ascensão social, de descendentes de pequenos comerciantes e mercenários do norte da Europa, que estrategizam para preservar os nomes estrangeirados, aportados ao país no liberalismo de XIX - ancoram-se, paradoxalmente, num insane monarquismo absolutista, em Portugal chamado "miguelista", imaginando o tal paraíso onde reinaria "Uma concordância profunda entre o homem e o seu quadro natural de existência" (14) - e escrevo esta entrada na véspera do 1 de Dezembro, onde esse sector mais ridículo, e não só porque arrivista, da sociedade portuguesa sai à rua.

As restantes faixas do espectro intelectual que repisa constantemente este discurso "decadentista" - à "direita" mas também à "esquerda", pois estamos não tanto numa dimensão programática mas sim numa fundamentalmente identitária, de auto-reclamação e de auto-constituição -  alinha a história de outra forma. A desordem portuguesa, a desumanização do seu povo e da sua cultura, é não tanto desenhada pelo seu confronto com um mundo liberal de XIX mas fundamentalmente pela sua contraposição com a ordem, porventura imperfeita, mas dotada de sentido e sentidos, estabelecida no século XX português, o "jardim imaginário do Estado Novo", o totalitarismo até-fascizante, o colonialismo. Afinal sempre recordados como estruturantes dos valores e das boas práticas, seus enquadradores ainda que porventura imperfeitos.

Mas "o jardim imaginário é, sob certos aspectos decisivos, uma simples ficção." Ouvindo os historiadores "É-nos dado a entender que a crosta de requinte civilizacional cobria profundas fossas de exploração social; que a ética sexual burguesa mascarava uma imensa área de hipocrisia turbulenta; que os critérios de formação cultural exigente diziam respeito a muito poucos; que o ódio entre as gerações e as classes era visceral, ainda que muitas vezes silencioso; que a segurança do faubourg e do parque estava directamente ligado à ameaça, reconhecida mas contida, dos casebres e tugúrios. Quem quer que queira abrir os olhos poderá descobrir o que era um dia de trabalho numa fábrica vitoriana ou como a mortalidade infantil atingia grandes números das regiões mineiras do Norte de França durante as décadas de 70 e 80 do século passado. Torna-se inevitável reconhecermos que a riqueza intelectual e a estabilidade da classe média e média superior durante o longo Verão liberal assentava, de modo directo, no domínio económico e, em última instância, militar de grandes zonas daquilo a que hoje chamamos mundo subdesenvolvido ou Terceiro Mundo. Tudo isso salta aos olhos. Sabemo-lo nos nossos momentos racionais. Trata-se, todavia, de uma espécie de saber intermitente, menos próximo do pulsar da nossa sensibilidade do que a mitologia, a metáfora cristalizada, ao mesmo tempo difundida e densa, de um grande jardim da civilização doravante em escombros." (17)

Uma ficção insustentável para "quem quer que queira abrir os olhos", diz Steiner. Por isso mesmo me interrogo do como o terão recebido tantos saudosos, afinal saudosos, selectivamente elogiando, do corporativismo salazarista, do "português" ensinado nos "liceus Camões", do produtor de mestiçagem calibrado por Gilberto Freyre, do "bom povo português", da "alta cultura" até mesmo se marginalizada, ou melhor ainda por isso mesmo. Esses que enchem os jornais, os blogs, a academia. Esses que - mais do que tudo - pensam e sentem como o "ficcional XIX" o afinal XX português. Não abrem os olhos? Nada! Apenas não sabem contar. Ou, por outra, não fizeram a (boa) 4ª classe "dos tempos", essa que era a que "valia a pena, onde se aprendia a sério".

Adenda: uma longa entrevista com George Steiner.

jpt

publicado às 18:53

Saramago

por jpt, em 21.10.09

[Nota: Porfírio Silva, do Machina Speculatrix demonstrou nos comentários o seu desagrado pelo epíteto com que o descrevi. Tem toda a legitimidade para o fazer. Dou a mão à palmatória, ainda que insista que o meu propósito não era insultuoso do bloguista mas sim desqualificador do seu texto. Assim sendo alterei a entrada]

steiner-gramaticas

"A mística judaica imagina que um segundo de distracção do escriba ao qual Deus ditou a Torah se traduziu pela omissão de um acento, de um signo diacrítico. Foi através desse erratum que o mal se infiltrou na criação. (...) Distraído por qualquer coisa de realmente importante, Deus "deixou cair do Seu bolso" um cosmos inacabado." (49)

"Job, o Edomita, não reclama justiça. Se tivesse sido judeu, tê-la-ia reclamado. Mas Job, o Edomita, reclama sentido. Exige de Deus que faça sentido (fazer sentido [make sense]): eis uma das fórmulas mais impensadamente problemáticas das gramáticas da criação). Exige que Deus Se torne compreensível. Recusando por completo a concepção agostiniana - "se o apreendes, não é Deus" - Job intima Deus a revelar-Se de outro modo que não o das aparências do absurdo e do insensato. Os horrores imerecidos que desabam sobre Job abrem uma dupla possibilidade: que o criador seja fraco - e o satânico poderá prevalecer - ou puerilmente volúvel e sádico. Como um homem que "matasse por prazer". Que seja, como diz Karl Barth no seu comentário do Livro de Job, "um Deus sem Deus". (...) Deus é então culpado de ter criado". (55-56), etc., etc.

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, 2001, tradução de Miguel Serras Pereira]

O mal-estar com deus não é novo, veja-se acima. O mal-estar com os homens de deus também não o é. José Saramago, num país onde os blogo-Blasfemos defendem o criacionismo diante do aplauso burguês, convém não o esquecer, e onde milhões continuam a acreditar na visão de Fátima, botou o seu mal-estar com os homens de deus. E, é esta apenas a minha opinião, o seu mal-estar com (o seu) deus, um deus crual e vingativo. Em termos felizes?

Talvez não muito, dando o flanco a imputações de leitura pouco profunda da Bíblia. Pois o velho escritor (talvez já na idade e na situação de olhar deus) arranca agora umas declarações "chocantes": A Bíblia (e o Corão) não é [são] de inspiração divina, disse. Coisa com que qualquer letrado deveria poder concordar. Invectiva também contra o deus castigador - aí reduzindo mas não falsificando. E alude (corrosivo, irado?) aos "maus costumes" vertidos na Bíblia - a mim choca-me a imagem dos "maus costumes", o que é o Mal?, mas acima de tudo o que são os males?

[Tenho com a obra de Saramago uma relação há muito estabelecida. Não é a minha prosa (nesse registo o A Saga/Fuga de JB de Ballester encheu-me) nem é o meu mundo. Aos vinte anos li - e muito gostei - o Levantado do Chão. Antes lera, e gostara, o Memorial do Convento. Logo, logo, li o Ano da Morte de Ricardo Reis - que me terá sido um dos mais importantes livros da vida, foi a última leitura não-profissional que me forcei a levar até ao fim. Tinha vinte e um anos e ainda me lembro de o terminar: "nunca mais faço isto", exclamei, e desde então se não estou a gostar largo o livro. E assim fui fazendo, e também com vários dos seus livros. Depois, em 1998, li-lhe o Todos os Nomes, recebera ele o Nobel e por razões profissionais achei que lhe devia ler a obra. Nada gostei, lembro a sensação de estar diante de uma amálgama dos mundos de Borges e Kafka em registo longo e cansativo. São as vantagens do leigo, lê e pensa consoante o que lhe vem à cabeça.

Tenho do homem Saramago um conhecimento diferente. Cruzei-o em Maputo duas vezes. Deparei-me com uma cultura atroz (rais parta o homem), uma sageza ágil traduzida numa perspicácia fantástica, daquelas do "chegar, ver e entender", uma capacidade de improviso oral espantosa. E curvei-me diante da gentileza que comigo teve - e bem precisado estava eu, no meio dos lusobárbaros à solta. Não é por isso que lhe vou ler os livros, ainda comprei (em sessão de lançamento aqui, com direito a autógrafo final) o A Caverna, mas não terminei, cansado. Separo, como sempre, o homem dos seus livros, das coisas que faz.]

Mas não posso deixar de me espantar com o efeito Saramago. Em Portugal é um chorrilho. Cai o carmo e a trindade. O deputado Mário David, eurodeputado do PSD, propõe que o homem deixe de ser português pois ofende o povo - o que é isto, o ostracismo porque o homem diz que o deus nosso-senhor ensinado às crianças é castigador, porque lhe nega a omnisciência e restante omnipotência? A que miséria intelectual está condenado um dos partidos básicos do regime português, a que baixeza está condenada Portugal? Por todo lado abundam as críticas ao perverso escritor, ao medíocre escritor - imerecido Nobel. Dá para tudo: invectivam a ignorância com que põe em causa a grandiosidade literária da Bíblia (lendo as notas noticiosas bem que procuro saber como o fez, mas não o encontro: e até o mais arguto dos bloguistas carrega contra o gigantesco moínho de vento) - já agora gostaria de saber quais dos utentes deste argumento arrumam a sua Bíblia nas estantes no seio da literatura (letra B; secção vários; autor Deus, etc) ... Na área do bloguismo político socialista (um bocado a despropósito, acho eu) aproveita-se para lembrar que Durão Barroso foi do MRPP em 1975 (mas nunca se refere que Mário Lino foi um abjecto controleiro estalinista dos comunistas portugueses destacados para Moçambique, não sei porquê, ou talvez porque as histórias são vergonhosas e "jamais" convirá lembrá-las). Os mais exaltados camaradas truncam-lhe os argumentos, feitos meras bandeiras ao deus-dará.

Ninguém se lembra que dos escritores o que interessa são os livros? Olho para trás, Oscar Wilde devia ser uma bicha insuportável, Shakespeare um tiranete lá no teatro, Tolstoi um chato do caralho. Lowry um bêbedo de fugir, Céline um nazi filhodaputa. É disso que falamos ou lemos-lhes, deliciados, os livros?

Vã política, vã jornalice, vã bloguice. Vã-glória de opinar.

jpt

publicado às 02:29

...

por jpt, em 02.09.08
A Montanha Mágica recorda (apela?) a "serendipidade" literária.

publicado às 16:28

Em adição ao que andei auto-comentando:

"Humilhada em 1870-71, a França encontra-se ávida de "seriedade". Não tinha sido o sistema teutónico a prevalecer, mas sim a superioridade prussiana em matéria de ensino e de pensamento sistemáticos, tanto na área da ciência como das humanidades. O Gymnasium alemão, as universidades após as reformas de Humboldt e os padrões que regiam a investigação e as publicações eruditas haviam encorajado um tipo de mentalidade que sublinhava a frivolidade, o amadorismo e os caprichos dos costumes intelectuais e académicos do Segundo Império. A preeminência militar fora um resultado lógico dos hábitos de rigor analítico encarnados por Hegel (...). Alexandre Dumas, em 1873: "Já não se pretende ser espirituoso, ligeiro, libertino, escarnecedor, céptico e tolo." A França deve agora confrontar o "muito sério". Se não conseguir fazê-lo perecerá.

(...) As duas vozes dominantes, os Mestres deste renascimento, serão Ernest Renan e Hippolyte Taine. (...) Renan faz do "sejamos sérios" a pedra-de-toque do ensino secundário e superior." (83-84)

(George Steiner, As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2005. Tradução de Rui Pires Cabral)

publicado às 08:33

Em adição ao que andei auto-comentando:

"Humilhada em 1870-71, a França encontra-se ávida de "seriedade". Não tinha sido o sistema teutónico a prevalecer, mas sim a superioridade prussiana em matéria de ensino e de pensamento sistemáticos, tanto na área da ciência como das humanidades. O Gymnasium alemão, as universidades após as reformas de Humboldt e os padrões que regiam a investigação e as publicações eruditas haviam encorajado um tipo de mentalidade que sublinhava a frivolidade, o amadorismo e os caprichos dos costumes intelectuais e académicos do Segundo Império. A preeminência militar fora um resultado lógico dos hábitos de rigor analítico encarnados por Hegel (...). Alexandre Dumas, em 1873: "Já não se pretende ser espirituoso, ligeiro, libertino, escarnecedor, céptico e tolo." A França deve agora confrontar o "muito sério". Se não conseguir fazê-lo perecerá.

(...) As duas vozes dominantes, os Mestres deste renascimento, serão Ernest Renan e Hippolyte Taine. (...) Renan faz do "sejamos sérios" a pedra-de-toque do ensino secundário e superior." (83-84)

(George Steiner, As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2005. Tradução de Rui Pires Cabral)

publicado às 08:33

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por jpt, em 21.02.07
Adicionando a este meu texto, sobre o "Jardim de Outro Homem", de Sol de Carvalho:

"O erotismo, encoberto ou declarado, em fantasia ou em actos, encontra-se intimamente ligado ao acto de ensinar, à fenomenologia da relação entre Mestre e díscipulo. Este facto elementar tem sido trivializado através de uma fixação no assédio sexual. Mas continua a ser central. Como poderia ser de outro modo." (30-31) "Já vimos ... que o eros, a sexualidade declarada ou dissimulada, pode impregnar as relações de poder entre Mestre e discípulo. O desejo de agradar ao Mestre, de "atrair o seu olhar amoroso" está tão presente no Banquete e na Última Ceia como em qualquer seminário ou lição particular. Quer se trate de ballet, de futebol ou de papirologia, as lições e sessões de treino são um híbrido complexo de amor e de ameaça, de imitação e de rejeição." (87) "Eros e ensino são inextrincáveis. A afirmação é verdadeira antes de Platão e depois de Heidegger. As modulações do desejo espiritual e sexual, da dominação e da submissão, a interacção da inveja e da fé, são de uma complexidade, de uma delicadeza que desafia a análise exacta (...). Os componentes são mais subtis que a mera questão do género, que as demarcações entre homo e heterossexualidade, entre as relações convencionalmente consideradas lícitas e as proibidas com os mais jovens. As inversões de papéis ocorrem constantemente (...). A própria possesão física consumada é um aspecto secundário quando comparado com o acto de ensinar e tudo o que ele implica - essa asssustadora interferência na alma, no desenvolvimento, de outro ser humano. Um Mestre é o amante ciumento de uma potencialidade." (117)

(George Steiner, As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2005. Tradução de Rui Pires Cabral).

publicado às 08:11

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por jpt, em 21.02.07
Adicionando a este meu texto, sobre o "Jardim de Outro Homem", de Sol de Carvalho:

"O erotismo, encoberto ou declarado, em fantasia ou em actos, encontra-se intimamente ligado ao acto de ensinar, à fenomenologia da relação entre Mestre e díscipulo. Este facto elementar tem sido trivializado através de uma fixação no assédio sexual. Mas continua a ser central. Como poderia ser de outro modo." (30-31) "Já vimos ... que o eros, a sexualidade declarada ou dissimulada, pode impregnar as relações de poder entre Mestre e discípulo. O desejo de agradar ao Mestre, de "atrair o seu olhar amoroso" está tão presente no Banquete e na Última Ceia como em qualquer seminário ou lição particular. Quer se trate de ballet, de futebol ou de papirologia, as lições e sessões de treino são um híbrido complexo de amor e de ameaça, de imitação e de rejeição." (87) "Eros e ensino são inextrincáveis. A afirmação é verdadeira antes de Platão e depois de Heidegger. As modulações do desejo espiritual e sexual, da dominação e da submissão, a interacção da inveja e da fé, são de uma complexidade, de uma delicadeza que desafia a análise exacta (...). Os componentes são mais subtis que a mera questão do género, que as demarcações entre homo e heterossexualidade, entre as relações convencionalmente consideradas lícitas e as proibidas com os mais jovens. As inversões de papéis ocorrem constantemente (...). A própria possesão física consumada é um aspecto secundário quando comparado com o acto de ensinar e tudo o que ele implica - essa asssustadora interferência na alma, no desenvolvimento, de outro ser humano. Um Mestre é o amante ciumento de uma potencialidade." (117)

(George Steiner, As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2005. Tradução de Rui Pires Cabral).

publicado às 08:11

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por jpt, em 08.01.07

steinerlogocratascapa2

"Gostaria de ser lembrado como um bom mestre de leitura, entenda-se de uma leitura reparadora num sentido profundamente moral: a leitura deveria ligar-nos a uma certa visão, comprometer a nossa humanidade, tornar-nos menos capazes de seguir o nosso caminho como se nada fosse." (99) "O nazismo, o comunismo, o estalinismo convenceram-me do seguinte paradoxo fundamental: a cultura livresca – a bookishness, para empregar uma velha palavra inglesa, que diz bem aquilo que quer dizer – a cultura literária mais elevada, todas as técnicas da propaganda e da formação literárias não só acompanham a bestialidade, a opressão e o despotismo, como sob certos aspectos, o encorajam." (97) "O século que acaba de chegar ao fim mostrou o bastante que o modelo clássico de um humanismo capaz de fazer frente à barbárie, ao inumano, graças a uma certa cultura, a uma certa educação, a uma certa retórica, era ilusório … " (146)

publicado às 17:44

...

por jpt, em 08.01.07

steinerlogocratascapa2

"Gostaria de ser lembrado como um bom mestre de leitura, entenda-se de uma leitura reparadora num sentido profundamente moral: a leitura deveria ligar-nos a uma certa visão, comprometer a nossa humanidade, tornar-nos menos capazes de seguir o nosso caminho como se nada fosse." (99) "O nazismo, o comunismo, o estalinismo convenceram-me do seguinte paradoxo fundamental: a cultura livresca – a bookishness, para empregar uma velha palavra inglesa, que diz bem aquilo que quer dizer – a cultura literária mais elevada, todas as técnicas da propaganda e da formação literárias não só acompanham a bestialidade, a opressão e o despotismo, como sob certos aspectos, o encorajam." (97) "O século que acaba de chegar ao fim mostrou o bastante que o modelo clássico de um humanismo capaz de fazer frente à barbárie, ao inumano, graças a uma certa cultura, a uma certa educação, a uma certa retórica, era ilusório … " (146)

publicado às 17:44

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por jpt, em 08.01.07

steinerlogocratascapa1

 "É necessário ter-se muito orgulho e muita modéstia (talvez as duas coisas sejam a mesma) ..." (152)[George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d'Água, 2006]

publicado às 17:42

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por jpt, em 08.01.07

steinerlogocratascapa1

 "É necessário ter-se muito orgulho e muita modéstia (talvez as duas coisas sejam a mesma) ..." (152)[George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d'Água, 2006]

publicado às 17:42

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por jpt, em 08.01.07

Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa, ou no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde ao modelo spengleriano de um apocalipse racional – ora que só poderá ressuscitar através de uma transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo”. A estes pertenceria a verdadeira “alma”, e a beleza da negritude e do Eros. Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente, e devendo ser compreendido ao mesmo tempo em termos psíquicos e sociais” (70-71)“E tambem é verdade que a própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (...) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pos-voltairiano.A nossa incapacidade presente de enunciarmos com clareza estes traços manifestos, de convivermos com eles fora de uma rede de culpabilidade e impulsos masoquistas, levanta problemas graves. Na tentativa de aplacarmos* as furias do dia de hoje, denegrimos o passado. Manchamos a herança de grandeza em que, sejam quais forem as nossas limitações pessoais, somos convidados a participar pela nossa história, pelas nossas línguas, pela couraça, e se se quiser pelo fardo, da nossa pele. De resto, as evasões, as autonegações e reformulações arbitrárias da memória histórica a que a culpabilidade nos impele são, de um modo geral, inconsistentes. (...) Quase todos os gurus e publicistas ocidentais que apregoam o novo ecumenismo penitencial, que se declaram irmãos de sangue da alma sublevada e vingativa da Ásia ou da África, não vivem mais do que uma mentira retórica. No sentido mais crítico da palavra, encontram-se numa situação falsa. Em virtude das falsas fidelidades a que obriga, esta situação desgasta ainda mais as nossas reservas de inteligência e afectividade. Se quisermos compreender em que pontos, em termos políticos e sociais, o passado clássico errou, teremos que reconhecer não só a incomparavel força de criação humana desse passado, como também o que, de modo problemático mas persistente, a ele nos liga” (73-74)*No texto traduzido “aplicarmos”, mas presumo que seja gralhaGeorge Steiner, No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas Para a Redefinição da Cultura, Lisboa, Relógio d’Água, 1992 (1971) [tradução de Miguel Serras Pereira] - atente-se na data da edicao original.

publicado às 11:05

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por jpt, em 08.01.07

Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa, ou no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde ao modelo spengleriano de um apocalipse racional – ora que só poderá ressuscitar através de uma transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo”. A estes pertenceria a verdadeira “alma”, e a beleza da negritude e do Eros. Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente, e devendo ser compreendido ao mesmo tempo em termos psíquicos e sociais” (70-71)“E tambem é verdade que a própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (...) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pos-voltairiano.A nossa incapacidade presente de enunciarmos com clareza estes traços manifestos, de convivermos com eles fora de uma rede de culpabilidade e impulsos masoquistas, levanta problemas graves. Na tentativa de aplacarmos* as furias do dia de hoje, denegrimos o passado. Manchamos a herança de grandeza em que, sejam quais forem as nossas limitações pessoais, somos convidados a participar pela nossa história, pelas nossas línguas, pela couraça, e se se quiser pelo fardo, da nossa pele. De resto, as evasões, as autonegações e reformulações arbitrárias da memória histórica a que a culpabilidade nos impele são, de um modo geral, inconsistentes. (...) Quase todos os gurus e publicistas ocidentais que apregoam o novo ecumenismo penitencial, que se declaram irmãos de sangue da alma sublevada e vingativa da Ásia ou da África, não vivem mais do que uma mentira retórica. No sentido mais crítico da palavra, encontram-se numa situação falsa. Em virtude das falsas fidelidades a que obriga, esta situação desgasta ainda mais as nossas reservas de inteligência e afectividade. Se quisermos compreender em que pontos, em termos políticos e sociais, o passado clássico errou, teremos que reconhecer não só a incomparavel força de criação humana desse passado, como também o que, de modo problemático mas persistente, a ele nos liga” (73-74)*No texto traduzido “aplicarmos”, mas presumo que seja gralhaGeorge Steiner, No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas Para a Redefinição da Cultura, Lisboa, Relógio d’Água, 1992 (1971) [tradução de Miguel Serras Pereira] - atente-se na data da edicao original.

publicado às 11:05


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