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2014: personalidades do ano

por jpt, em 30.12.14

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publicado às 18:50

Será a isto que chamam lusofonia?FF

publicado às 19:53

jpt

publicado às 23:59

O Sandokan de Pratt

por jpt, em 18.03.10

[Hugo Pratt, Mino Milani, Sandokan. Le Tigre de Malaisie, Casterman, 2009]

O Sandokan de Pratt foi-me uma bela surpresa pois desconhecia a sua existência. Lamentavelmente inacabado, pois obra abandonada e perdidos os originais no início da década 1970 quando parira Pratt a "Balada do Mar Salgado" e depois se metera a dar vida ao Corto pelos quatros cantos do seu mundo. Ficou assim interrompido este Sandokan, cujos traço e tom são evidentemente dessa época, gloriosa. Uma pena, pois quero acreditar que se apenas interrompida a obra teria sido terminada em tempos posteriores, tão adiantada se apresentava. Aliás, a história do desaparecimento das pranchas e sua posterior descoberta, já após à morte do autor, narrada na introdução do livro, parece excessivamente rocambolesca. De qualquer forma mostra o estatuto de "arte menor" que a BD teria ainda nesses tempos - 40 e tal pranchas de Pratt, então já um autor de renome, perdidas assim nos escombros de uma revista?

Este Sandokan é espantoso. Vigorosamente orientalizado, novidade então nas representações das célebres aventuras, sendo a obra anterior à série televisiva infanto-juvenil que viria a popularizar o herói sob o fenotipo de Kabir Bedi, mas a questão vai bem para além do mero aspecto. Em Pratt Sandokan, o supra-sumo do herói romântico aventureiro de Salgari, aparece como um consciente resistente anti-colonial - e não o era também Cranio, pacientemente sob as ordens do "Monge" aguardando a sua hora, e a do seu pan-povo, na "Balada do Mar Salgado",

Extrema ainda a representação de Yanez, o português que Salgari postou junto a Sandokan, seu amigo dilecto - e não deixa de ser significante que em finais de XIX para Salgari o mais "transitável" dos europeus fosse um português. Aqui se Yanez aparece com os traços fisionómicos que em Pratt são os do seu Corto (e dele próprio), tem ainda a sua portugalidade extremada - onde foi ele representado como aqui?

Um livro que caminhava para fabuloso. E assim ficou.jpt

publicado às 00:49

Ernie Pike

por jpt, em 17.09.08

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É também o peso, em particular das edições de capa dura, que inibe a aquisição e importuna o transporte transcontinental de todo este Ernie Pike (Casterman), de Hugo Pratt e Hector German Oesterheld. Veio o tomo 4 dos cinco que julgo publicados.

Polémica ultrapassada sobre a sua autoria - o reconhecimento do papel autoral de Oesterheld não foi imediato nas edições europeias - fica o importante: pequenas histórias de guerra (a II Mundial, a da Coreia), heróis soldados anónimos, gente que afinal não é tão má como o poderia ser, alguns explorados que não são tão bons como tantos os gostam de pintar. Poesia de paz em caminhos muito únicos. O de haver algo de humano, portanto inesperado, nesses que se encontram em situações limites.

Depois há um interesse suplemantar. A recusa da teleologia daqueles que vêm a obra de Pratt como um caminho para chegar a Corto. Vale por si mesmo.

Ou seja, a exigir novas remessas destas capas duras.

publicado às 00:25

Guerra em Pratt

por jpt, em 17.09.08

Actualidades:

"É verdade que eu provenho de uma família fascista, mas não sinto qualquer incómodo por isso, e nunca o ocultei. E na minha infância, à parte alguns milhares de dissidentes, todos os italianos eram mais ou menos obrigados a aderir ao fascismo, mesmo os sindicatos, para poderem existir, tinham de reclamar-se dele. Por isso eu não vou ter vergonha porque aos sete anos, desfilei na Praça de São Marcos atrás de cem tambores que marcavam a cadência com uma camisa negra e um lenço azul. Não podia então ter consciência da palhaçada da situação. Depois, apercebemo-nos que tínhamos sido manipulados, que alguns de nós tinham morrido para nada. Houve, está claro, quem trocasse a camisa fascista para se tornar "partiggiano" no bom momento, ao passo que aqueles que se bateram com afinco foram muitas vezes mortos, mas sem se renegar.

É fácil dar lições a posteriori, mas nos anos trinta o imperialismo era coisa corrente: o colonialismo inglês aplaudia um filme como Os Três Lanceiros do Bengala e o Império colonial francês achava-se então no apogeu, autocelebrando-se cheio de boa consciência. E para a criança que eu era, o fascismo era uma abertura para o mundo exterior, ajudo-me em particular a cortar o cortão umbilical com a minha mãe. O mundo fascista deu-me a possibilidade de sair da minha família, de ter camaradas, de encontrar raparigas, pois o fascismo, com um objectivo natalista, decidira favorecer as relações entre os jovens dos dois sexos. Eu próprio sou, aliás, um resultado dessas campanhas. Não, eu não chegarei ao ponto de dizer que devo a vida a Mussolini. .

-As suas recordações da guerra perseguem-no?

-Sim. Alguns acontecimentos marcaram-me para sempre. Mas não tenho remorsos. Fui sem querer implicado em situações que me escapavam, e parece-me que a minha atitude foi coerente. Aconteceu-me disparar sobre pessoas, mas há momentos em que se é levado a fazê-lo. (...) Talvez tenha morto alguém, talvez não. Espero que não, mas repito, não sinto arrependimento. Era preciso disparar para manter os ditos inimigos à distância. (...)

Claro que a guerra é um disparte, mas o problema é que por vezes é preciso fazê-la, ou que por vezes nos vemos obrigado a fazê-la. É sempre uma fatalidade e uma má solução."

Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995, pp. 270-272 (Tradução de António Sabler)

Imagem reproduzida de Hugo Pratt, Corto Maltese - Memoires, Paris, Casterman, 1998

publicado às 00:22

Cultura(s) em Pratt

por jpt, em 17.09.08

- "Cultura ou culturas", singular ou plural, pois se a sua cultura é singular, é precisamente porque ela é plural (...) ao passo que a maior parte das pessoas só possuem um certo tipo de cultura - cultura universitária, de massas, esotérica, da sua classe social - a sua cultura é a síntese de todas as essas culturas que normalmente se excluem.

- É certo que abordei os tipos de cultura que referiu, e outros mais, como a cultura militar. Essa possibilidade de passar de uma cultura a outra parece-me mais frequente - e talvez mais fácil - nas pessoas que, como eu, são em parte autodidactas. O ideal parece-me consistir em ter professores que nos ensinem as bases, e depois fazermos nós próprios as pesquisas, em total independência relativamente às ideias dominantes nos meios oficiais. Na minha concepção, alguém que seja culto é necessariamente eclético: se apenas conhece o universo cultural a que pertence Kingsor ou aquele a que pertence King Kong, não é verdadeiramente culto." [201]

Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995

publicado às 00:19

Falar de mulheres

por jpt, em 17.09.08

Olhando as ideologias modernas. E da liberdade de falar de mulheres::

"- É verdade que sempre tive amigas entre as prostitutas, e esse quadradinho com Esmeralda é uma espécie de homenagem às putas. Penso que teria gostado de Thaís, a amante de Alexandre Magno." [257]

"Os contactos físicos entre homens nunca me atraíram, mesmo apresentados como expressão de uma cumplicidade viril ... aí então, acho uma parvoíce machista. (...) Eu considero a homossexualidade uma variante particular da sexualidade, atestada desde a Antiguidade, e evidentemente o lugar ocupado pela homossexualidade nos mitos e nos heróis da Grécia antiga interessa-me. Penso, por exemplo, na amizade intensa entre Aquiles e Pátroclo, que, dada a mentalidade da época, acompanhava provavelmente uma relação homossexual. E como Aquiles tinha uma escrava favorita, Briseida, podemos imaginar, debaixo da tenda, umas situações interessantes ... Pergunto-me também o que um homem invulnerável como Aquiles poderia sentir sexualmente. Talvez Pátroclo e Briseida lhe fizessem umas coisas no calcanhar! Deviam formar um belo trio. Agamémnon acabou por roubar Briseida a Aquiles, mas devolveu-lha depois da morte de Pátroclo." [254]

Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995

publicado às 00:11

Religião em Pratt

por jpt, em 17.09.08

- "Qual poderia ser a sua religião?- A procura. Eu procuro a verdade, mas sei que nunca a atingirei completamente. Se um dia chegasse à conclusão de que a alcançara, deveria achar que não era possível, que algo me havia escapado e que tinha de prosseguir. Qualquer pessoa que acredite deter a verdade é potencialmente perigosa - e essa é a razão principal por que desconfio de todos os que professam uma religião. No que a mim diz respeito, creio nunca ter atingido a verdade, nem sequer a minha verdade. A verdade é inatingível, o mais que podemos é ter a esperança de nos aproximarmos dela. É este o meu próprio dogma. Se tenho uma religião, é a da procura, da procura que tende para a Verdade."

(Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995, p. 251)

publicado às 00:06

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por jpt, em 17.09.08

Eu sou o nómada da minha biblioteca

Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d’Água, 1995, pp. 288 (Tradução de António Sabler)Imagem reproduzida de Hugo Pratt, Corto Maltese - Memoires, Paris, Casterman, 1998

publicado às 00:05

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As coisas que se aprendem (em casa). Numa já velha revista Selecções BD (Maio 200, nº 19, 2ª série) descubro que, afinal, Hugo Pratt foi um dos que desenhou o Major Alvega, um episódio "O Ouro Precioso" [Battler Britton and the Wagons of Gold] até publicado em Portugal, no saudoso Falcão (nº 417).

Eis a fantástica junção de ícones: o valente ribatejano Major James Eduardo de Cook e Alvega (vergonhosamente conhecido na pérfida Albion por Battler Britton) por Hugo Pratt.

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publicado às 12:30

A Guerra em Hugo Pratt

por jpt, em 18.08.06
"É verdade que eu provenho de uma família fascista, mas não sinto qualquer incómodo por isso, e nunca o ocultei. E na minha infância, à parte alguns milhares de dissidentes, todos os italianos eram mais ou menos obrigados a aderir ao fascismo, mesmo os sindicatos, para poderem existir, tinham de reclamar-se dele. Por isso eu não vou ter vergonha porque aos sete anos, desfilei na Praça de São Marcos atrás de cem tambores que marcavam a cadência com uma camisa negra e um lenço azul. Não podia então ter consciência da palhaçada da situação. Depois, apercebemo-nos que tínhamos sido manipulados, que alguns de nós tinham morrido para nada. Houve, está claro, quem trocasse a camisa fascista para se tornar "partiggiano" no bom momento, ao passo que aqueles que se bateram com afinco foram muitas vezes mortos, mas sem se renegar.É fácil dar lições a posteriori, mas nos anos trinta o imperialismo era coisa corrente: o colonialismo inglês aplaudia um filme como Os Três Lanceiros do Bengala e o Império colonial francês achava-se então no apogeu, autocelebrando-se cheio de boa consciência. E para a criança que eu era, o fascismo era uma abertura para o mundo exterior, ajudo-me em particular a cortar o cortão umbilical com a minha mãe. O mundo fascista deu-me a possibilidade de sair da minha família, de ter camaradas, de encontrar raparigas, pois o fascismo, com um objectivo natalista, decidira favorecer as relações entre os jovens dos dois sexos. Eu próprio sou, aliás, um resultado dessas campanhas. Não, eu não chegarei ao ponto de dizer que devo a vida a Mussolini.-As suas recordações da guerra perseguem-no?-Sim. Alguns acontecimentos marcaram-me para sempre. Mas não tenho remorsos. Fui sem querer implicado em situações que me escapavam, e parece-me que a minha atitude foi coerente. Aconteceu-me disparar sobre pessoas, mas há momentos em que se é levado a fazê-lo. (...) Talvez tenha morto alguém, talvez não. Espero que não, mas repito, não sinto arrependimento. Era preciso disparar para manter os ditos inimigos à distância. (...)Claro que a guerra é um disparte, mas o problema é que por vezes é preciso fazê-la, ou que por vezes nos vemos obrigado a fazê-la. É sempre uma fatalidade e uma má solução."
Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995, pp. 270-272 (Tradução de António Sabler)Imagem reproduzida de Hugo Pratt, Corto Maltese - Memoires, Paris, Casterman, 1998

publicado às 23:09

Nomadismo

por jpt, em 18.08.06

"Eu sou o nómada da minha biblioteca"


Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995, pp. 288 (Tradução de António Sabler)

Imagem reproduzida de Hugo Pratt, Corto Maltese - Memoires, Paris, Casterman, 1998

publicado às 11:14

Cultura em Hugo Pratt

por jpt, em 16.08.06
- "Cultura ou culturas", singular ou plural, pois se a sua cultura é singular, é precisamente porque ela é plural (...) ao passo que a maior parte das pessoas só possuem um certo tipo de cultura - cultura universitária, de massas, esotérica, da sua classe social - a sua cultura é a síntese de todas as essas culturas que normalmente se excluem. - É certo que abordei os tipos de cultura que referiu, e outros mais, como a cultura militar. Essa possibilidade de passar de uma cultura a outra parece-me mais frequente - e talvez mais fácil - nas pessoas que, como eu, são em parte autodidactas. O ideal parece-me consistir em ter professores que nos ensinem as bases, e depois fazermos nós próprios as pesquisas, em total independência relativamente às ideias dominantes nos meios oficiais. Na minha concepção, alguém que seja culto é necessariamente eclético: se apenas conhece o universo cultural a que pertence Kingsor ou aquele a que pertence King Kong, não é verdadeiramente culto." [201]
Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995

publicado às 23:05

As Mulheres, em Hugo Pratt

por jpt, em 16.08.06
Olhando as ideologias modernas. E da liberdade de falar de mulheres::"- É verdade que sempre tive amigas entre as prostitutas, e esse quadradinho com Esmeralda é uma espécie de homenagem às putas. Penso que teria gostado de Thaís, a amante de Alexandre Magno." [257]"Os contactos físicos entre homens nunca me atraíram, mesmo apresentados como expressão de uma cumplicidade viril ... aí então, acho uma parvoíce machista. (...) Eu considero a homossexualidade uma variante particular da sexualidade, atestada desde a Antiguidade, e evidentemente o lugar ocupado pela homossexualidade nos mitos e nos heróis da Grécia antiga interessa-me. Penso, por exemplo, na amizade intensa entre Aquiles e Pátroclo, que, dada a mentalidade da época, acompanhava provavelmente uma relação homossexual. E como Aquiles tinha uma escrava favorita, Briseida, podemos imaginar, debaixo da tenda, umas situações interessantes ... Pergunto-me também o que um homem invulnerável como Aquiles poderia sentir sexualmente. Talvez Pátroclo e Briseida lhe fizessem umas coisas no calcanhar! Deviam formar um belo trio. Agamémnon acabou por roubar Briseida a Aquiles, mas devolveu-lha depois da morte de Pátroclo. [254]Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995

publicado às 23:03


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