Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Tintin no Congo

por jpt, em 08.07.15

tintin_akei_kongo_capa.jpg

 

 

Coisas de aniversariar. Mãos amigas ofertaram-me este "Tintin Akei Kongo", a edição traduzida em lingala, mais do que provavelmente uma iniciativa do iconoclasta Ilan Manouach - como se refere no blog "A Garagem", entre outras alusões -, um artista que já pontapeou os Schtroumpfs de Peyo e o Maus de Spiegelman, e que aqui "permanece" anónimo mais do que provavelmente devido a razões legais.

 

O interesse desta edição, numa língua que desconheço? A questão do racismo explícito nesta obra de Hergé (início de 1930s), bem à moda daquela época europeia. E o facto de assim permitir a apropriação endógena (os falantes de lingala) do seu conteúdo. Esta será a menor pois estou crente, ainda que desconhecedor do contexto do ensino escolar nos países onde se fala a língua, que a maioria dos leitores de lingala o será também em francês, língua oficial na maioria daqueles casos nacionais. Ou seja, neste âmbito o mais interessante será a apropriação do texto e a sua possível reformulação em termos de linguagem - uma questão muito bem levantada por Pedro Moura na parte final deste texto. E também o impacto que uma edição destas poderia/deveria ter no universo de recepção da obra de Hergé, quase um culto, desmontando-lhe as características verticais, até hieráticas, muito fruto do tipo de tratamento editorial/industrial actual.

 

O enquadramento geral é o referido racismo de Hergé, matéria recorrentemente denunciada. Dou-me muito mal com esta invectiva. Homem do seu tempo, "espírito de época" transpirado? Com toda a certeza, e mais do que tudo na refracção dos estereótipos vigentes, mas também na forma como eles se foram transformando ao longo dos 50 anos da sua carreira - facto visível nas próprias reformulações que foi fazendo nas reedições dos primeiros álbuns de Tintin (já para não falar da auto-censura ao primeiro). Mas estereótipos que continuam, alguns. Estarei eu a ser racista quando faço uma ligação electrónica quando escrevo "lingala", presumindo que quem aqui passe não saiba exactamente do que se trata? Estará o bloguista do simpático "A Garagem" a ser racista quando reduz a "dialecto" a língua lingala - desvalorização colonial e pós-colonial tão constante, e tão "barbarizadora" dos contextos africanos - enquanto louva esta edição? Ou estaremos apenas imersos no desconhecimento, farripas do(s) "espírito(s) de época(s)"?

 

O próprio conservadorismo de Hergé, até dito colaboracionismo (com o nazismo), questão que é hábito levantar, é resmungável. Há pouco conversava em Antuérpia com uma escritora, ali estrangeira, mulher empenhada e notoriamente "à esquerda". Referia-me ela, e também a propósito de Hergé mas não só, os seus antecedentes familiares flamengos, como estes tinham vivido o advento da II Guerra Mundial. Como naquele país esse foi também lido no seio das rivalidades (políticas, económicas, culturais) entre flamengos e valões. Como levantaram a então recentíssima memória do destratamento ("carne para canhão") do contingente flamengo na I Guerra Mundial, subordinado a um oficialato valão. Um Hergé flamengo (neerlandês) algo titubeante no início da avalanche alemã e do terror que lhe foi acoplado? Desse contexto às imputações posteriores vai um mundo de diferenças.

 

Há alguns meses fiz uma  intervenção sobre o banda-desenhista Joe Sacco. E depois escrevi um pequeno texto sobre isso, onde inclui um bocadinho sobre Hergé. Repito esse excerto aqui. Enquanto folheio, deliciado ainda que iletrado, este "Tintin Akei Kongo": 

 

Mas, para entender o “espírito da época” actual, atente-se como a crítica ideológica acomete “Tintin no País dos Sovietes” (Hergé [1930]) e “Tintin no Congo” (Hergé [1931]) (p. ex. Hind 2010; Moura 2012). E como se aparta o “Tintin na América” (Hergé [1932]), imediatamente subsequente (e partilhando algumas características estilísticas com as primeiras aventuras). Neste caso surge uma relativa neutralidade na recepção, esta protegida pelo anti-americanismo (e anti-industrialismo) constitutivos deste actual eixo de reflexão crítica, nisso tão coincidente com o conservadorismo de então de Hergé, tão patente no livro. Coincidência profunda na história intelectual que Revel (2002) abordou, ligando o “criticismo” actual ao tardo-romantismo de XIX, adverso à democracia, à sociedade de mercado (pois ligado à ambição reaccionária da manutenção da sociedade de estatutos), nesse amplexo adverso à sociedade americana. 

 

Mais ainda, é notório que a crítica à obra de Hergé enfatiza esses primeiros livros, em particular “Tintin no Congo” – particularmente no âmbito das sensibilidades pós-coloniais -, sem atentar que, para além da reprodução de ideias presentes no senso comum europeu de então (e as utopias evangelizadoras e progressistas que acompanharam o processo colonizador), o trabalho não só foi explicitamente secundarizado pelo próprio autor aquando da sua produção, mas também não reflecte as concepções e projectos coloniais do seu contexto (belga) e, até, os recursos literários então utilizados (Halen 1993). Mais ainda, esquecidas são as complexidades de obras mais tardias como “As Jóias de Castafiore” (Hergé 1963), ataque aos preconceitos contrários aos ciganos – e logo numa temática tão gostada pela “comunidade antropológica”. Como também a reflexão sobre as migrações forçadas, a exploração no seio da globalização, a permanência de polimorfas escravaturas – assunto candente, inclusive abordado por Sacco -, tende a esquecer o pioneiro “Carvão no Porão” (Hergé 1958), que antecipa em décadas outros registos (denunciatórios) sobre migrações forçadas. Ou a crítica-denúncia da sua fase final, em “Tintin e os Pícaros” (Hergé 1976), um legado actualíssimo de corrosiva descrença nos guevarismos.

 

É certo que estas obras poderão ser menosprezadas em certos sectores por razões de moda estética – o cansaço face ao classicismo, a “ligne claire” da BD “franco-belga”, de que Hergé é expoente máximo, e, quiçá, um intelectualismo adverso ao sucesso comercial desta corrente. Mas acima de tudo são punidas por não estarem aprisionadas pela actual cabotagem ideológica. O que se torna interessante é que a visão crítica sobre o autor se prende com uma linearidade analítica, tão inversa à apresentada pelo cume dos estudos culturais, explicitado na abordagem riquíssima e complexa de Edward Said ao trabalho de Joseph Conrad (Said 2000). Neste sentido a recepção actual da obra de Hergé, e de tantas outras, seja com sinal positivo ou negativo, deriva de um ambiente onde a prática canonizadora é exercida num estrito ambiente sociopolítico de incidência cultural. Sublinhando algo que Peeters (2003, 15) recorda: “Régis Debray [em Le Suite et le Fin (Gallimard, 2000)] mostrou bem como o intelectual, nascido com o caso Dreyfus como defensor do inocente injustamente acusado, se transformou pouco depois no procurador intransigente: deixando para outros as subtilezas do direito ou a análise minuciosa do contexto, proclama desde logo o seu conflito.”

 

publicado às 06:30


Bloguistas




Tags

Todos os Assuntos