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A Guerra do Ultramar

por jpt, em 16.03.11

 

«Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar», afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva.". Fico estupefacto diante destas afirmações. Não se trata propriamente de em 2011 fazer a denúncia da guerra colonial (do Ultramar, segundo a terminologia ideológica de então e, ao que parece, de novo estabelecida). Não se trata de fazer a denúncia daqueles que foram arregimentados e socializados pelo regime político (e social) de então para combater. Nem do feixe de motivações que então ocorreram. A história foi assim, há que a respeitar e compreender. Ou seja, só respeitando a compreenderemos. Os indivíduos nela participaram e devem também eles ser compreendidos, na sua complexidade e na sua pluralidade.

 

Lembro de há um ano aqui no ma-schamba (alguns textos sobre o assunto foram entretanto retirados pelo seu autor ABM, e estão afixados no seu blog) se discutiu imenso uma imbecilidade de pretensões literárias, racista e ignorante, da autoria de Isabela Figueiredo, um mero sub-produto (re)produtor de estereótipos sobre o regime colonial e tardo-colonial português. Tralha então muito apoiada pelos bloguistas e jornalistas amigos do editor coimbrão, alguns dos quais também por ele editados e que nem sequer o diziam, uma rastejante desvergonha, com o corolário de uma "jornalista cultural" do Público ter encontrado no livro o início dos estudos pós-coloniais portugueses [assim consagrando o olhar dos sábios que por mero desapego tanto descobriram e louvaram aquilo]. Tralha imersa no tardio folclore anti-colonial muito a jeito da vacuidade da "esquerda" portuguesa, como sempre muito atreita aos mais básicos dos estereótipos tonitruantes. A ideia que aqui se defendia então era exactamente essa, a de que olhar o passado para o compreender (e para nele basearmos olhares e atitudes, para além do seu fruir) exige mais do a cegueira ignorante e preguiçosa do "pró" e "contra", e muito mais do que o "denuncionismo" a la carte para agradar ao grupo de amigos.

 

Agora, e infelizmente, é essa cegueira ignorante  que o PR Cavaco Silva agita de novo, mas a do "pró". Incapaz de apelar (enquanto PR) a um olhar atento e crítico, e como tal criativo, sobre passado, suas motivações, corporizações, práticas e, como tal, sobre o presente. Apelando ao "patriotismo" "cego", e injusto, que foi provocado e sangrado durante a guerra. Colonial. Ou, como parece ser de novo o título, do Ultramar.

 

É lamentável. Alguns dirão que se trata apenas de um apelo à generosidade, ao desapego ao bem-próprio, das novas gerações, quiçá até uma crítica à ideologia radical individualista propagada pelo complexo mediático esquerdista (sim, é algo necessário combatê-la). Mas afirmar isso implica já de si um muito problemático juízo de valor sobre as forças motrizes do esforço militar de então e da sua tradução nos indivíduos. Mas, muito pior, tem também efeitos "nacionaleiros" na visão actual (sempre a constituir e a renovar) dos portugueses, e em particular desses jovens a quem se dirigem as palavras, sobre África e sobre as relações entre Portugal e os países africanos. Efeitos "nacionaleiros", perversos, incompreendedores.

 

Espera-se muito mais, muitíssimo mais, de um Presidente da República. Que a falar assim parece, apenas, um facebookeiro dos murais supra-saudosistas, sucessores e herdeiros do mundo dos "chats", verdadeiramente tétricos que por aí abundam. Vão vê-los e lê-los antes de questionar da pertinência deste desconforto com as declarações de Cavaco Silva. Vão lá ver o constante e transversal saudosismo, patrioteiro, colonialista. Horrível. Ignaro. E muitíssimo diferente da saudade, coisa essa que todos temos, de um quê ou uns quês de cada um.

 

jpt

publicado às 12:15

O perigo da monomania,

por jpt, em 29.01.10

coisa que em blog como este se veste de monotemática, impede-me de continuar a botar textos sobre o que aqueceu o ma-schamba nos últimos largos dias. Mas nas catacumbas dos comentários a discussão (*) continua. Acabo de deixar - por alturas do 80º comentário - o que noutro contexto seria um "post" dedicado ao racismo e a Portugal (e sua intelectualidade dita de "esquerda"). Ou, por outras palavras, dedicada aos alçapões do "obscurantismo" sectário de onde não ascende alguma da intelligentsia (minha) patrícia.

jpt

Adenda: Leitora amiga queixou-se que abrir uma caixa de comentários com 80 itens é um processo moroso, apelando a que facilitássemos a leitura. Assim sendo copiei o comentário em causa e coloquei-o na caixa de comentários desta entrada, onde o acesso é mais rápido. Não querendo com isso encerrar a outra caixa, onde a discussão abrangia várias questões.

(*) Um reducionismo ma-schambístico deplorável. Pois ao mesmo tempo que se discutiu o conteúdo do "Caderno de Memórias Coloniais" continuam a chegar contributos e comentários para o texto "A "Casa do Capitão", na baía de Inhambane".

jpt

publicado às 13:24

O erro é o outro

por jpt, em 22.01.10

 

 

Descubro que Rui Bebiano, dono do excelente A Terceira Noite, integrou o Arrastão tal como já o havia feito o bom do Bruno Sena Martins. Supreende-me, o Arrastão que conheci no seu início era um sítio horroroso, de uma demagogia até dolorosa e não o imaginava como o local para bloguistas deste teor. Mas porventura com estas entradas será agora um local a seguir, apesar do seu fundador. Descubro isso através do texto "Do Outro Lado do Tempo" [reproduzido no Arrastão], que se refere ao ma-schamba, enquanto local de "cegos ou preconceituosos"   [ligando directamente a um texto do ABM que também foi referido no Bibliotecário de Babel, ainda que em termos neutrais (a ligação foi retirada, quero crer que por causa dos problemas de servidor que ontem aqui tivemos)]. Tudo isto devido à mais longa polémica sobre livros que este blog já conheceu.

 

No seu texto Rui Bebiano afirma a complexidade da sociedade colonial e os processos de construção da sua memória (silêncio por um lado, mi(s?)tificação por outro) em Portugal. Quasi-termina, e muito bem, com a clarividência que lhe é habitual: "Os portugueses que povoaram o império colonial, ou «o nosso ultramar», não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas. Reconhecer esta diversidade só valoriza esse passado ...". Posto isto deste lado "lado/blog" - onde habitam a "cegueira" e os "preconceitos" - ocorre-me opinar.

 

Entendo que a construção da memória colonial passou por um discurso explícito à época das independências (e implícito desde então) que por um lado denota e por um outro lado procura instalar uma dupla fractura na sociedade portuguesa, e que está para além das memórias dos ex-colonos, da sua visão. A primeira é topológica: é notório que alguns sectores ideologicamente mais ligados ao momento colonial purificam esse passado, reproduzindo o mito do "bom colono" até à exaustão, assentes numa bondosa visão ontológica ou culturalista do "português" (ainda que esta concepção resvale transversalmente - e surpreendentemente? - na sociedade portuguesa, veja-se o influente tardolusotropicalismo de Boaventura Sousa Santos).  Noção que casa, em comunhão de alimentos, com a nostalgia mitificadora que Bebiano identifica.

 

Mas também é certo que desde o retorno das comunidades portuguesas em África houve um movimento inverso, o da sua demonização generalizada, a imagem do "explorador dos pretos". Essa aversão terá sido causada pela noção social dos custos da guerra e, também, pela muda mágoa da derrota. Mas, fundamentalmente, nessa invectiva o colonialismo, suas causas e benefícios, foi remetido para a "sociedade colona" e para os reduzidos estratos possidentes (grupos económicos nacionais, na sua maioria também então expropriados via nacionalização, donde culpabilizados). Deste modo o colonialismo foi extirpado da sociedade metropolitana, uma higienização homogeneizadora e auto-mitificadora que a apresentava como martirizada pelo fascismo (e pelo próprio colonialismo) - o carácter estruturalmente colonial da socioeconomia portuguesa foi assim torneado. Essa amputação benéfica, até moralizante, traduziu-se na criação de um "Outro" (pouco)interno, o colono. O silêncio memorialista de décadas da população retornada que Bebiano refere, a sua rápida e silenciosa integração no Portugal de então ("supostamente indolor", como bem diz) terão sido também (é minha mera opinião) respostas a essa aversão concidadã (e, evidentemente a necessidades socioeconómicas, de não ficar "a viver no passado").  Mas a aversão foi e é também ideologicamente produzida e reproduzida pelos sectores mais adversos ao Estado Novo colonial, que assim simbolizavam e balizavam a sua recusa do passado. Até hoje.

 

Assim sendo falar dessas memórias tem sido desde esse tempo  não tanto falar do passado recente colonial mas, e fundamentalmente, traçar uma topologia de discursos sobre o Portugal actual. Utilizando a história (quasi-alheia) para nos situarmos "neste" ou "naquele" lado. Quase sempre encastrados na areia.

 

Parece-me pois normal que a produção de discursos sobre o passado colonial e, muito em particular, a produção de discursos de recepção aos discursos sobre esse passado levante reacções acaloradas e adesões inesperadas. Não tanto por uma súbita curiosidade historiográfica, mas fundamentalmente porque (ainda!) são motrizes de auto-posicionamentos individuais e colectivos no espectro político. E, porque assim a história surge como mero objecto para manipulação actual, nisso se vai coisificando o passado colonial e, por maioria de razão, coisificando os seus interagentes sociais: os colonos e os colonizados, nas suas multiplicidades contextuais.

 

Mas para além dessa fractura "sistémica" entre o Portugal vítima e o Portugal colono, houve a proposta de uma segunda fractura, sociológica, a identificar. Nesse caminho, nesse "luto colonial" como Alfredo Margarido chamou ao silêncio português sobre África, sublinhou-se uma noção implícita e indita, a da excentricidade da população colona. Por um lado a afirmação da sua "sobreportugalidade", por parte das vozes mais saudosas da "gesta nacional", considerando-a gente sobrecapaz, agente de grandes feitos, uma imagem que convive (paradoxalmente?) com discursos que afirmam a mediocridade do povo português residente, um contexto político-discursivo que tantas vezes baseia nesse elitismo a sua inimizade à efectiva democraticidade do país.

 

E, por outro lado, a afirmação a da sua "importugalidade", a da sua bestialização exploratória, ao invés das mais pacíficas (solidárias) populações metropolitanas e/ou então imigradas para o mundo industrializado. Esta imagem é gerada num contexto político-discursivo (e de investigação) que valoriza a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade (melhor dizendo, valoriza os discursos sobre a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade), por isso mesmo desapaixonando-se de um contexto colono, sempre ou elite ou intermédio na sociedade colonial exploratória. Essa excentricidade, esse verdadeiro "expatriamento" dos colonos enquanto tal, funcionou e funciona como uma des-identificação. O ónus da "sobreportugalidade" não é suportável, pela sua evidente inexistência, pela confrontação (esmagadora) que provoca às biografias. E o estigma da "bestialização" apenas poderia provocar um tribalismo "pied-noir" ou, como foi o caso, o desenlaçamento comunitário - salvo alguns núcleos convivenciais, até tardios, mas sem repercussões de índole socioeconómicas e, muito menos, políticas. Incrementando os mecanismo de mitificação do passado, sobredimensionando as reacções às construções históricas, sejam elas positivas ou negativas.

 

Nesse sentido o mundo português colonial (pela sua mitificação, positiva ou negativa, pela santificação ou pela demonização, seja pela sua sobreportugalidade seja pela sua importugalidade) é expelido de Portugal, e o Outro Colonial é reificado. E esses processos funcionam através da mesma metodologia, assentam em generalizações, produtoras e reprodutoras de desconhecimento histórico. Similitudes que cruzam aparentes divergências ideológicas.

 

Ao falar-se do livro de Isabela Ferreira, ao ler-lhe o blog inicial, ao ouvi-la agora, o que encontro é exactamente o mesmo tipo de operação intelectual: a generalização (culturalista? ontológica?, há que ler o livro para lhe entender as forças motrizes, muitas vezes apenas discerníveis na retórica) produtora de desconhecimento. Uma generalização aposteriorística (como já em texto anterior aqui disse). Para quem diga que isso é inultrapassável no discurso (literário ou outro) importa sublinhar/repetir que o aqui se trata é da projecção no passado de questões ideológicas e políticas actuais, um passado imaginado (literário que seja) para falar do hoje, do fincar o respectivo posicionamento - e daí as adesões e efusões que tanto tem provocado. Seja a autora sejam muitos dos leitores.

 

O livro aborda a realidade colonial. Bebiano diz-nos que esse passado "conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas.", uma "violência latente ou explícita do quotidiano". Com toda a certeza. Para além da violência colonial (que era e é a essência de uma situação colonial, sistémica) é notório que essas são características que todas sociedades históricas contêm, sejam as ameríndias que Rousseau não conheceu seja a rotineira "república dos relógios de cuco" de Orson Welles. Descrever essas experiências assente em generalizações, em imputações culturalistas, em negação da multiplicidade histórica, postulando um qualquer "nós", bom ou mau, para além das empirias? Não me ofenderá se houver génio (seja lá o que isso for) literário. Por isso muito estou curioso em ler o livro. Há genialidade? Fantástico, não interessarão as generalizações empobrecedoras. Mas se não a houver, se estivermos apenas diante de uma prosa ((boa, média, má) mortal que pretende descrever um passado, imputar e invectivar esse passado assente em generalizações preconceituosas então isso é, quanto muito, panfletarismo. Mais ou menos catártico, mais ou menos teatralizado. Produtor de cegueiras, reprodutor de preconceitos. Des-conhecedor. Do tal mundo expelido de Portugal. E que assim não é reintegrado, auto-compreendido, pese a retórica "desveladora" que anuncia e que o recebe. E, como tal, des-conhecedor do próprio objecto Portugal.

 

A expulsão do mundo colonial, da sua voz, do encontrar as nuances para além do pólos "beleza tropical" / "violador de pretas", é uma incapacidade de olhar a multiplicidade colona - e, frise-se, nisso também se afirmando a incapacidade epistemológica ou literária (consoante o discurso) de olhar a multiplicidade colonizada. Mas essa coisificação do colonizado (que aliás é o que mais me interessa nesta trama toda), esse desinteresse analítico por África que é estruturante em Portugal é questão que, ainda que ligada a todos estes factores, exigiria um outro texto.

 

Essa incapacidade, esse desinteresse (ideológico?), pelo "mundo" colono (e, por arrastamento, pelo "mundo colonizado") denota-se no próprio texto de Bebiano. "Só pelos meados da década de 1990 surgiram os primeiros estudos e recolhas de testemunhos, e só agora, quase quarenta anos passados sobre o fim do conflito, se tornou normal ouvir ex-militares, ou as suas famílias, a falarem de forma livre dessa experiência durante tanto tempo calada. Percebe-se finalmente que tudo foi menos simples, e menos insignificante para a vida das pessoas envolvidas, do que se pensava com o cheiro a pólvora ainda nas narinas.". Ou seja, o que Bebiano anuncia - com toda a certeza en passant, como é normal no registo blog, ainda que ele seja um bloguista de excelência - é que o olhar sobre África sobre o qual atenta é o olhar metropolitano sobre África, dos soldados (na sua esmagadora maioria metropolitanos, e é notoriamente a eles que o autor se refere). Se pegarmos na sua excelente obra "O Poder da Imaginação. Juventude, Rebeldia e Resistência nos Anos 60" (Angelus Novus, 2003) este movimento já se encontra. A juventude portuguesa em África (pp. 156-160), as suas práticas e imaginários, sua ligação com o sistema português, são brevemente lidos através dos olhos dos letrados (oficiais?) metropolitanos ali deslocados. Entenda-se, a sociedade colona como tal inexiste na reflexão, como se ela não pertencesse à dimensão portuguesa da "cultura-mundo" (p. 13) ou, pelo menos, fosse verdadeiramente significante para a reflexão [poder-se-á dizer, e concordarei de imediato, que todo o trabalho tem os seus limites de objecto. Mas aqui parecem-me inditos e/ou provocados por este contexto intelectual. Ou a memória está-me a trair muito].

 

Entenda-se, também aí ela - a sociedade colona - está expulsa do que é o objecto (Portugal). É certo que o movimento colonizador foi tardio (como mostra Claudia Castelo em "Passagens Para África.", Afrontamento, 2007), mas nos anos 60 havia já uma enorme população não-metropolitana, na maioria de primeira geração mas também de múltiplas gerações em África. E como tal, basta(s) juventude(s) e seus discursos. Não chamo isto para criticar Bebiano, misturar o registo de blogs com livros profissionais, apoucá-lo, menosprezá-lo. Pelo contrário, friso que muito gostei deste seu livro (e quem seria eu para o questionar, se fosse caso contrário). Apenas convoco essa dimensão para referir que até num intelectual possante como Bebiano se encontra (pelo menos nesta sua obra e, secundariamente, neste seu pequeno "post") a matriz estruturadora destes preconceitos ideológicos sobre o mundo colono, desta "outrização" colona, da sua expulsão do verdadeiramente significante, de um higienismo societal feito projecto ideológico no regime democrático português. A qual assenta, repito-me até à exaustão, na mera utilização de generalizações a la carte. Talvez por isso agora este agrado, a defesa entusiasmada, com a obra aparecida. Que é mais-do-mesmo, afinal. Só que, agora, do "lado certo". Para aquele "lado", claro.

 

Finalmente. Pode o meu caro ABM ter caído no caldeirão laurentino dos "preconceitos" e, pese embora o seu riquíssimo trajecto biográfico, não passar de um irremediável "cego" com prosápias. Posso eu mesmo, pela minha biografia, ininteligência ou até pela raiva contra tudo contra o que me parece neo-comunismo europeu de fachada libertária (ainda que, concedo, às vezes nem o seja), estar viciado em goladas dessa poção preconceituosa que me condena às trevas da "cegueira". [A nossa AL está isenta pois não concorda connosco no olhar sobre a produção de Isabela Figueiredo]. Mas é nestas trevas pre-conceituosas em que vegeto que me ocorre que Rui Bebiano, e talvez alguns outros, sofrem de uma ligeira miopia. Ou melhor, de um pequeno astigmatismo, que é coisa bem diferente. Nada que não se possa resolver, facilmente, com umas meras próteses oculares. Isto se não continuar(em) a pensar que o erro é o outro.

 

Depois há os outros que o(s) seguem. Mas esse é o comboio descendente. Vêm à gargalhada. "Uns por verem rir os outros. E outros sem ser por nada." E não há óculos que lhes sirvam. Estão como hão-de ir. Assim como eu e o ABM, pelos (in)vistos!

 

ADENDA: em comentário Rui Bebiano esclarece que no seu texto apenas ligou explitamente ao ma-schamba o termo "preconceituosos" pelo que a consideração de "cegueira" não foi sua intenção. Aqui deixo a nota, agradecendo o esclarecimento e lamentando a minha extensão interpretativa.

 

jpt

 

[Não sou capaz de escrever numa tarde algo deste tipo que seja mais legível ou coerente. A própria arrumação peca. Mas o "tempo bloguístico" implica a sua colocação agora, senão perderia a sua justificação. Daí o tamanho e sisudez, a repetição e o esburacamento. E, temo, a ilegibilidade. Ainda assim está botado.]

 

ADENDA SEGUNDA: uma semana depois de ter escrito este texto ouvi toda a entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo, feita por Carlos Vaz Marques. Após isso deixei neste texto do ma-schamba (entretanto transferido) um comentário nela baseado. Mas ficará melhor arrumado aqui, como será óbvio a quem ainda aqui volte. Abaixo fica a sua transcrição:

 

"Ainda que em contradição com o que disse acima regresso aos comentários deste texto sem ser em diálogo directo com outros comentadores. Mas só ontem ouvi toda a espantosa entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo realizada por Carlos Vaz Marques. E como não escreverei nenhum texto (post) sobre o assunto [outros machambeiros resmungariam, estou certo, devido a cansaço] quero, pelo menos aqui, deixar alguns pontos: um, que já tinha referido, mas que nunca é demais lembrar, é o do seu absolutismo intelectualmente incontrolado: "todos os homens eram como o meu pai [aka, horríveis], alguns até piores", algo surpreendente - e não é uma expressão literária, é uma opinião, portanto não tem requebros retóricos ou formais que a defenda. [as "citações" são aproximações ao discurso oral, mas procuram ser o mais fieis que me é possível].

 

Depois há a sua recorrente, e "lamentosa", afirmação "eu estava lá, eu era colonialista, eu fui colonialista, eu assumo". Para uma pessoa que viveu em Moçambique até aos doze anos (por mais que tivesse dado uma estalada numa outra) isto é surreal. Ou seja, denota uma teatralização do seu estatuto, uma sobrevalorização pessoal que apenas - só pode - quer funcionar como instrumento de legitimação empírica do discurso. Pobre afirmação e legitimação. E, entenda-se, a reclamação de "colonialista" para uma menina de 12 anos, ainda para mais reclamada 35 anos depois, é de uma indigència intelectual, de uma ignorância pungente sobre tudo o que é reflexão sobre aquele sistema histórico, e não apenas semântica - algo pouco aceitável para quem afirma ter passado as últimas décadas envolta nesta sua característica biográfica (alguém me poderá vir dizer que IF quer ser a Gunther Grass portuguesa, mas nem sorriso isso provocará).

 

Finalmente, a cereja em cima do bolo. IF diz que reconhece logo, e ainda hoje, os moçambicanos no meio de outros africanos (negros). Pois eles são lindos, têm uma cor fantástica, especial, têm características emocionais e estéticas únicas, tudo isso por ela (só por ela?) imediata, visceral, espontaneamente reconhecível - sei que os meus amigos moçambicanos (negros e não só) que aqui tenham chegado (ou que a tenham ouvido) já se estão a rir (e, com toda a certeza, a afiarem a língua para os óbvios impropérios de retórica machista que este tipo de discurso provoca). Mas vamos ficar no registo sério: ouvir este discurso é ouvir o típico discurso racialista, a da homogeneização alheia, a da des-individualização alheia (bonitos?, todos? a mesma cor da pele? todos? simpáticos? todos? agradáveis? todos? etc? todos?). É este discurso generalizador que IF utiliza para os colonos (portugueses, brancos, horríveis, infectos) e para os ex-colonizados (moçambicanos, negros, lindos, bem-cheirosos). É este discurso racialista, húmus de todo o racismo, que usa para o contexto moçambicano. Paternalista, desconhecedor. Acima de tudo racista na sua negação da multiplicidade estética, emocional, comportamental, afinal individual.

 

IF é apenas mais uma das pessoas que pensa assim, mal e pauperrimamente, sobre os outros, neste caso sobre os moçambicanos - já encontrei inúmeras pessoas com este tipo de discurso, o desvalorizador do alheio (neste caso do negro), da sua irredutível diversidade humana - mesmo que, e é uma das versões, disfarçado (até inconscientemente) pelo elogio colectivo, por um olhar "simpático" sobre o magma alheio. O que me surpreende não é que IF assim pense, assim escreva, assim fale. Há tantos e tantas assim.

 

O que me surpreende (pouco) e entristece (também já pouco) é que no meu país um meio literário, cultural, até jornalístico, que se reclama de um eixo intelectual e político moderno (ou pósmoderno), democrata [alguns até libertários], unanimemente anti-colonial e crítico do conteúdo colonial português, que esse meio acolha acriticamente estes dislates, um discurso neles assente. Elogiam-no, defendem-no e (como em recente artigo no suplemento cultural do jornal Público, de Vanessa Rato) é-lhe até aventado o estatuto de iniciador de um discurso pós-colonial em Portugal. Esta adesão será conjuntural por um lado - um pouco de "estação", um pouco por efeitos de grupos (blogo)mediáticos - mas é por outro lado indiciadora de um contexto intelectual dominante: está no Público, está nos jornais, está na rádio (o desvelo de Carlos Vaz Marques é óbvio), está nos blogs - até o Respirar o Mesmo Ar do meu amigo, e co-bloguista do Olivesaria, jpn surge a reclamar a excelência disto.

 

Dislates da autora. Pouco importante. Mas que gigantesco manto de ignorância no meu Portugal todo este pequeno fenómeno vem desvendar. E isso sim é lamentável. Doloroso. Porque estrutural."

 

[Numa ida rápida ao Google note-se a recepção entusiástica em blogs bem diversos ideologicamente - assim demonstrando a trasversalidade desta perspectiva superficial, que se pensa crítica, sobre o período colonial português: vejam-se como exemplos os O Insurgente, Elevador da Bica, XicoNhoca, Divas e Contrabaixos, o já referido A Terceira Noite, Irmaolucia, Da Literatura . Para uma diferente postura, leituras acolhedoras do texto literário mas sem subscrições acríticas vejam-se, por exemplo, Defender o Quadrado e Peão (este último é um post de Cláudia Castelo, acima referida e a quem eu desconhecia a prática bloguística). Entretanto A. Teixeira reagiu ao facto de eu o ter integrado no conjunto de leitores entusiásticos (sob este ponto de vista), considerando que desentendi este seu texto, intepretando-o abusivamente. Lamento se o tresli. E aceito que tal fiz, a intenção é a do autor não a do passante: fica aqui a (minha) mão estendida à palmatória.]

publicado às 17:33

The Best of ma-schamba?

por jpt, em 12.01.10

marcello caetano no estádio de alvalade

 [Marcello Caetano ovacionado no estádio de Alvalade, num Sporting-Benfica, no final de Março de 1974. Fotografia copiada do Dias Que Voam

 

O bom de ter um blog colectivo é poder entrar em polémica interna (já que para a externa isto "foi chão que deu milho" ...). Vem isto a propósito do ditirambo do ABM "The best of maschamba" e respectivos comentários. Onde há muita coisa com que discordo. E que me apetece aqui realçar pois ultrapassam a questão abordada.

 

1. O texto do ABM refere-se ao livro "Caderno de Memórias Coloniais", de Isabela Figueiredo, autora do Novo Mundo (e anteriormente do O Mundo Perfeito). Ainda não li o livro em causa - soube da sua edição através do Francisco José Viegas e li a crítica de Eduardo Pitta, opiniões literárias que muito prezo, mas ainda não o comprei. Há alguns anos li o O Mundo Perfeito e fui, progressivamente, abandonando o seu convívio. Meu gosto, apenas. Entendera o conteúdo, cansei-me da escrita. Coisa normal que não tem que ser nem adjectivada nem explicada. Como é óbvio sem ter lido o livro, tendo uma longínqua memória de alguns textos (os quais, aliás, coligidos - e julgo que aumentados - em livro até poderão saber-me diferente) e agora apenas com algumas citações desgarradas, seja no Da Literatura seja no Jugular, procurarei nada dizer sobre o seu conteúdo nem sobre a sua forma.

 

Mas ocorre-me citar o Francisco José Viegas: "Isabela Figueiredo, neste livro, fornece uma das imagens possíveis, explosiva, comovente, em chamas. É bom ver que, finalmente, se pode falar livremente sobre África.". É disso que se trata. Nos últimos tempos do ma-schamba por várias vezes o trio teclista e alguns dos prezados comentadores residentes temos falado do interesse, da necessidade, em produzir e recolher as memórias do período colonial. Nesse sentido não há as "memórias correctas". A cada um as suas. Que se queiram assumir como absolutas, correctas, é inadmissível. Que as queiram assumir como inaceitáveis, é inaceitável. Assim a insurreição diante do livro, ainda por cima assente numa pequena nota crítica de Fernanda Câncio, parece-me algo apressada (vamos lá a ler o livro) e, fundamentalmente, em contra-corrente com o que, no meio das nossas divergências, aqui temos vindo a defender.

 

O ABM e comentadores acusam a autora de ser jovem quando saiu de Moçambique, o que invalidará as memórias. Ora o livro não é um texto histórico, factual. Nesse âmbito que interessa, ou seja o em que é que menoriza, que tenha ela saído jovem de Moçambique? Recordo uma outra bloguista que jovem saíu de Moçambique, e cujo livro memorialista não levantou essa questão: Isabella Oliveira, do Chuinga.

 

2. A questão de fundo parece-me ser de fácil identificação: a autora invoca o racismo dos colonos portugueses. Discutir a forma como o faz, repito-me, exigirá ler o livro (ou mergulhar nos seus blogs). Mas a questão fundamental não é essa: a questão relevante é a de auto-inteligibilidade, de auto-compreensão, no fundo a da construção das memórias de cada um. Dos que conheço (e dos que leio) a esmagadora maioria dos portugueses que viveram o período colonial em África assentam a sua percepção desse real numa tríade, mais ou menos difusa: teórica - a de uma simpática particularidade miscigenadora portuguesa (um digest de Gilberto Freyre, reavivado pela intelligentsia socialista lusófona do fim do milénio, profundamente herdeira do republicanismo colonial); histórica - a da inexistência de um verdadeiro racismo, ou de um racismo violento, no sistema colonial português (percepções assentes no memorialismo sobre as interacções infantis, juvenis, domésticas, sexuais, até escolares, mas nunca sistémicas); política - as ditaduras subsequentes às independências foram piores do que o colonialismo (concepção sempre recorrendo à quantificação do mal).

 

Apontar(-lhes) que o extraordinário mas datado trabalho de Freyre teve evoluções ou até propor(-lhes) que era acima de tudo um discurso afirmativo da superioridade civilizacional (e portanto do necessário primado na cena americana e mundial) do Brasil sobre os EUA? Não colhe. Afirmar(-lhes) que as ditaduras de Luís Cabral, de Agostinho Neto, a socioeconomia de guerra de Eduardo dos Santos, o totalitarismo de Samora Machel não são comparáveis, em termos de regime, da sua natureza, das suas constituintes, com o colonialismo? Não colhe. Afirmar(-lhes) que o regime colonial era racista, no seu sistema, na sua essência, e que um regime e um sistema só vivem pelos seus agentes, pelos seus indivíduos, ainda que estes diversificados na sua heterogeneidade individual e contextual? Nem (lhes) interessa.

 

Continuo a insistir. É importante ouvir a memória do tempo colonizado. A dos colonizadores, a dos colonos, a dos colonizados. Todos eles, na sua multiplicidade, na sua diferença, as constroem. Com resultados muito diversos.

 

3. O que eu concordo, e muito, é na inadmissibilidade, tantas vezes explícita e muitas outras implícita, de traçar um corte na sociedade portuguesa de então: a racista (fascista) colona, a longínqua oprimida metropolitana. Algo encetado logo no 1974, no preconceito português tardo-metropolitano contra os "retornados" e ainda recorrente. Está aí em cima, e não apenas para provocar, a fotografia de 31 de Março de 1974. Marcello ovacionado pelo povo de Lisboa. Não para negar, pura e simplesmente, a adesão do povo português à democracia e à paz (ou à paz e à democracia, inversão que o "fernãolopismo" encomiástico nunca admite). Mas para a matizar, complexificar.

 

E também na inadmissibilidade, porque desadequação, de entender "racismo" como uma universalidade e uma homogeneidade de práticas e concepções, seja in illo tempore seja nos tempos actuais. Muito menos como se uma "condição nacional", um "pecado original particular". A autora percorre esse caminho? (algumas citações deixam-no entrever). Simplifica o seu olhar, empobrece-o? Talvez assim seja, mas isso será coisa a discutir depois de lida. E reconhecendo que o seu interesse lhe vem exactamente da sua subjectividade, que extremada seja, e não apenas da sua factualidade - e com isto não nego o interesse de memórias assentes em factos, documentos mais literais. Apenas a elas não me restrinjo.

 

4. A este propósito o ABM critica a edição em livro de textos de blogs, com isso ironiza. Pois eu, pelo contrário, acho muito bem, nada tenho contra livros, nada tenho contra blogs. Nada tenho contra livros que geram blogs, nem blogs que geram livros. Há blogs e livros que são uma merda, outros nem tanto. Alguns são muito bons. E até já saíram livros imortais (blogs não conheço). Eu  por acaso gostava de ter tido um livrito com textos do ma-schamba, até lhe dei um título: "Ao Balcão da Cantina". Para oferecer aos amigos no Natal, para dar aos meus pais e restante família. Tudo autografado "com apreço, com amor, com amizade, com reconhecimento e gratidão, etc. e tal", conforme os casos. Mas não pegou, paciência. Quando houver um mp3 para livros talvez aconteça.

 

5. A comentadora Sabine tem toda a razão - muito do que o ABM critica está espetado em textos antigos meus aqui metidos. É esta a piada de ter um blog colectivo que não é um instrumento político (ou de outra qualquer índole). Somos amigos que não concordamos em muita coisa. E partilhamos um blog (há um convidado que ainda não respondeu - e que grande reforço que ele seria/á?, há dois putativos colaboradores que estão com vergonha, ou enfadados?, se calhar até chegará mais gente, a ver vamos).

 

6. Ainda a este propósito o companheiro Carlos Gil foi colocar este texto no Jugular e acusa Fernanda Câncio de ter censurado essa inserção. Dois pontos: a) discordo completamente que se possa afirmar censura. Há anos que para aí pus qualquer coisa como "o blog é a minha casa e só entra quem eu quero". Isto dos blogs (mesmo um blog como o Jugular, que tem uma dimensão política-pública - eu acho-o um instrumento) não são orgãos de comunicação social. Assim sendo têm outras obrigações, outras exigências, outra "deontologia" (metaforicamente falando, claro). E neste registo seleccionar textos, seleccionar comentários é perfeitamente legítimo, normal, admissível. Nós aqui não o fazemos (mas também só temos comentadores amigos - o que deriva, é a minha opinião, do tom do blog. E da sua modesta dimensão quantitativa, claro), mas compreendo perfeitamente que isso seja feito alhures. E não só não acho censura como não condeno.

 

Mais, as razões aduzidas por Fernanda Câncio são aceitáveis. Dela nunca li trabalho algum, nunca a vi na televisão ou escutei na rádio. Li alguns, muitos poucos, textos em blog. Dela apenas ouço o que a vox populi diz (que tem um namorado; que é muito arrogante). Que ela não lhe queira (à tal voz ...) ceder demonstra fibra - seria muito mais fácil dizer "sim, senhores e senhoras, sou a tal, mas vamos passar à frente" e a gente passado algum tempo nem ligava ao facto. Mas era uma cedência, a mulher acha que não temos nada a ver com isso e prefere manter o bruaáá sobre a sua vida afectiva do que ceder. Aqui entre nós só lhe fica bem. Apesar dos (meus) pesares ... que são muitos. Ou seja, só isso é que lhe fica bem, qu'isto não está para salamaleques com os aparelhos socialistas, seus apaniguados, coniventes e (infelizmente, muito infelizmente) com os seus recém-cooptados. Ou por outra, nada me moveu contra a mulher de Bettino Craxi. Mas nunca aceitei que Mário Soares lhe fosse dar um abraço. Nem que Jorge Sampaio fosse abraçar Abílio Curto, desconhecendo até se este foi ou é casado. Ambos abraços em registos oficiais, nunca esquecer. O resto é nada. Ou, vendo bem, é tudo o que se vai vendo no meu país. Mas, na realidade, isto já nada tem a ver com o livro de Isabela Figueiredo.

 

jpt [texto ligeiramente modificado]

publicado às 04:02


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