Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Observação Participante

por jpt, em 06.06.10

[Jack London, O Vagabundo e Outras Histórias, Dinossauro Edições, 1995]

 

(texto mais para antropólogos e vizinhos)

 

A observação participante é o grande mito dos antropólogos, em tempos o método que consistiria na fusão do investigador com os pobres diabos que se estudava, ideia que veio a ser muito (auto)criticada, assim se originando páginas infindas para se comprovar a ideia, tão "bom senso" afinal, de que isso (o "eu" tornar-se um "outro") é coisa impossível. Para os leigos isto é coisa pouco interessante ou pouco referida, mas muitos dos mais velhos leram ou ouviram falar de Carlos Castaneda, e as suas aventuras com os cogumelos mágicos. Pois serve como símbolo. Assim sendo o desvario de ser o outro foi-se acabando, ainda que haja muito bom profissional que continue a encenar o seu exotismo (acontece nas melhores famílias) - se a deglutição de cogumelos alucinantes saiu de moda hoje são mais os dias do "curandeirismo" (o antropólogo como proto-curandeiro) como a década passada foi a do "The Chief and I" ("olha para nós na fotografia", eu mais o chefe tradicional, tão amigos que nós somos, e coisas assim) - tralhas que sempre me fazem lembrar aquela velha série televisiva em que o careca Yul Breyner era o rei do Sião e a preceptora inglesa, ali deslocada em intuitos civilizadores, lhe caía na cama (presumivelmente pujante, dadas as sabedorias orientais).

 

Estas coisas da "observação participante" vêm-me a propósito deste livrinho do Jack London que fui buscar à estante. É, enquanto London, muito fraquinho, um pobre conjunto de textos político-ideológicos, tudo muito engajado num socialismo democrático (como hoje se diria) de inícios de XX, firmemente ancorados na crença da via sindicalista para a reforma social. Mas ainda assim tem três textos muito interessantes: o auto-biográfico "O que a vida significa para mim"; um belíssimo exemplo de evolucionismo organicista, até com toques de eugenia social, muito de época (já agora, bom para aulas, caso algum colega passe por aqui) "O que o sistema de livre concorrência faz perder à comunidade".

 

Finalmente, um delicioso "Ao Sul da Fenda" publicado em 1909, um tratado sobre a observação participante. Está lá tudo - não há nada como um génio literário, mesmo em narrativa menor. Freddie Drummond é um professor de sociologia (!!, oops, e assim até tem mais piada) da universidade da Califórnia e lança-se em investigações na zona operária de São Francisco. Alguns livros irá publicar sobre a matéria assim analisando a matéria que Bill Totts (ele próprio, versão operária) lhe vai trazendo. Um dia, e claro que nisto haverá um cherchez la femme, Bill Totts mata (engole) o professor Drummond e segue triunfante, amada pelo braço, a via de líder sindical. Uaau.

 

jpt

publicado às 17:39

 

Paulo Querido narra a "introdução" da vuvuzela em Portugal, a campanha da petrolífera GALP para "acompanhar" o mundial da bola deste ano. Para os incautos que ainda não a conhecem: a vuvezela é horrível, o vuvuzelar é um atentado. Ao sossego alheio, ao bem-estar público, à ordem natural das coisas, à moral e bons costumes, à ecologia. Em resumo: é satânico (aka fascista ou comunista, para os mais dados à política e menos às espiritualidades). A história da introdução desta corneta em Portugal (que espero venha a desfalecer rapidamente) "diverte-me" por duas coisas: pois conheço o seu obreiro - com o qual tenho até mediado parentesco espiritual - há mais de um quarto de século (a velocidade do tempo é, também ela, coisa satânica) e gosto de saber que continua a mexer, seja lá como for, com a pasmaceira circundante; e porque confirma isto de que aos meus patrícios basta acenar com qualquer banha-da-cobra (aka gadgets) que eles correm logo a comprar. Crise ou não crise, como sobreviver se não se tiver o que o vizinho do lado já tem? Como recusar aos "filhinhos", aquele casalinho ranhoso (até tatuado e escarafunchado em piercings, ou a caminho disso) gerado lá em casa, o que os outros "meninos" da turma já têm?, não irão eles crescer deficientes sem todas as "vuvuzelas" do bazar? Tudo isto lembra-me um texto do grande Jack London, coisa com mais de um século já, portanto ainda anterior ao dito"audiovisual":

 

 

"Desperdício comercial. Consideremos o capítulo da publicidade. Para realizar aquela que inunda as ruas de papelada, profana a atmosfera, polui o campo, viola a santa intimidade familiar, emprega-se um verdadeiro exército: redactores, fabricantes de papel, impressores, coladores de cartazes, pintores, marceneiros, douradores, mecânicos, etc. Sabe-se que os fabricantes de sabão e de produtos farmacêuticos chegam a gastar meio milhão de dólares por ano em publicidade. Este desperdício comercial apresenta-se sob variadas formas, uma das quais diz respeito as artigos que são feitos para serem vendidos, e não para servir, como os alimentos falsificados e as mercadorias de pacotilha; ou, parafraseando Matthew Arnold, lâminas de barbear que não cortam, fatos que não vestem bem, relógios que nunca funcionarão." (Jack London, O Vagabundo e Outras Histórias, Dinossauro Edições, 1995, p. 74. Tradução de Ana Barradas)

 

jpt

publicado às 12:41

Turismo

por jpt, em 02.02.05

 

"Há muitos turistas que viajam por todo o mundo, buscando incessantemente paisagens deslumbrantes, marítimas ou terrestres, e maravilhas e belezas da natureza. Invadem a Europa em batalhões cerrados; vêem-se manadas e rebanhos deles na Florida e nas Antilhas, nas pirâmides e nas encostas e cumes das Montanhas Rochosas dos Estados Unidos e do Canadá..."

 

(Jack London, O Cruzeiro do Snark, Antígona, 1998, 104)

publicado às 01:18

A Casa de Mapuhi

por jpt, em 03.01.05

[Na última semana, fora de casa, muito me lembrei deste conto. Só agora, regressado, o posso revisitar...]

 

"Apesar da deselegância pesada das suas linhas, a Aorai manobrou agilmente na brisa ligeira, enquanto o seu capitão a aproximava o mais possível da costa, para a deixar fundeada a pouca distância do fluxo de rebentação. O atol de Kikueru, um círculo de areias coralíferas de uns cem quilómetros de largura e uns trinta de circunferência, sobressaía levemente da água, um metro a metro e meio acima do nível do mar...

 

 

O vento era aterrador. Nunca imaginara que pudesse soprar daquele modo. Uma vaga assaltou o atol, molhando-o até aos joelhos, antes de ir morrer na lagoa. O sol tinha desaparecido e um crespúsculo cor de chumbo abatia-se agora sobre eles. Açoitaram-no gotas de chuva vindas em direcção horizontal, com um efeito semelhante ao de balas de chumbo. Salpicos salgados bateram-lhe na cara, como uma bofetada. Doeram-lhe as bochechas e assomaram-lhe lágrimas involuntárias aos olhos irritados. Várias centenas de indígenas tinham trepado às árvores; noutra ocasião, aqueles cachos de fruta humana ter-lhe-iam inspirado o riso. Depois, como taitiano que era, dobrou-se pela cintura, abraçou-se à árvore, apertou as plantas dos pés contra a superfície do tronco e começou a trepar. No alto encontrou duas mulheres, duas crianças e um homem. Uma menina segurava um gato firmemente nos braços...

 

Não muito longe dele, um coqueiro foi arrancado pela raiz e caiu, atirando ao chão a sua carga humana. Naquele preciso momento uma vaga varreu a faixa de areia e todos desapareceram....Os coqueiros voavam, desabavam, caíam cruzados uns sobre os outros, como fósforos. A força daquele vento assombrava-o...

 

Às três da manhã a força do ciclone amainou. Às cinco, só corria uma brisa suave. Às seis, a calma era total e o sol brilhava. O mar sossegara. Na margem ainda revolta da lagoa, Mapuhi viu corpos dilacerados dos que tinham morrido ao terminar a travessia...

 

Dos dois mil e duzentos que estavam vivos na noite anterior, só restavam trezentos, como apurou o censo feito pelo missionário mórmon e um gendarme...Em todo o atol não ficara pedra sobre pedra, só um em cada cinquenta coqueiros resistira à força do vento e os que restavam estavam totalmente despedaçados, sem um único coco..."

 

(Jack London, "A Casa de Mapuhi", Contos do Pacífico, Lisboa, Antígona, 1999, pp. 38-67)

publicado às 23:42


Bloguistas




Tags

Todos os Assuntos