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Ainda Guevara em África

por jpt, em 13.02.10

[Ernesto "Che" Guevara no Congo (não resisto a chamar a atenção para a encenação da fotografia)]

Na sequência de textos sobre os contactos entre Ernesto Guevara e a direcção da Frelimo, no âmbito das iniciativas que aquele dirigente do movimento comunista teve em África (ver 1, 2, 3 [e ainda esta referência]) João Cabrita deixou abaixo um comentário que, pelo seu interesse, aqui transcrevo:

1. Se bem que a definição apresentada por Machado da Graça sobre o conceito de “foco” esteja correcta, no caso do Congo tinha um outro sentido. Tratava-se da ideia enunciada por Che Guevara sobre a “criação de dois, três muitos Vietnames”. Os Estados Unidos já estavam no Vietname, e a ideia dos cubanos era criar um conflito de idênticas proporções em África, a partir do Congo, e também expandir o já existente em vários países da América Latina. No raciocínio cubano, isto atrairia os Estados Unidos a novas zonas de conflito, o que acabaria por debilitá-los.

Um eventual envolvimento da Frelimo no esquema cubano não significaria necessariamente que todo o exército da guerrilha moçambicana tivesse de ser transferido da Tanzânia e do interior de Mocambique para o Congo. Imagine-se o tremendo problema logísitico que não se criaria se todos os efectivos militares existentes (Frelimo, MPLA, ZAPU, ANC, etc.) optassem por essa via. Sob o ponto de vista estratégico era de todo o interesse manter acesos os conflitos em Moçambique, Angola, Rodésia, Namíbia e África do Sul, dispersando-se assim as forças contrárias.

2. Machado da Graça diz não ter ainda visto nada que o convencesse de que a ligação de Mondlane aos Estados Unidos era “institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou”.

No meu estudo, que citei no artigo publicado no Zambeze, servi-me de documentação oficial do Departamento de Estado norte-americano, e de outra obtida na Biblioteca John F. Kennedy e na Biblioteca do Congresso (totalizando cerca de 400 páginas). Nela estão estampados de forma inequívoca os profundos laços existentes entre Mondlane e a Administração Kennedy. As ligações mantiveram-se mesmo durante a presidência de Lyndon Johnson.

Poderia mencionar, entre outros, os despachos trocados entre a embaixada americana em Dar es Salam e o Departamento de Estado, um deles, com a data de 29 de Junho de 1962, a transmitir um recado de Mondlane para Wayne Fredericks, adjunto do subsecretário de Estado para os assuntos africanos: Mondlane “necessita desesperadamente de fundos para consolidar a independência da Frelimo em relação ao Gana e aos países do bloco comunista”, dado que ele, Mondlane, “já despendeu todas as poupanças pessoais”.

Um outro exemplo, foi o financiamento concedido pela Fundação Ford para construção do Instituto Mocambicano (IM) em Dar-es-Salam, destinado a reforçar a periclitante posição de Mondlane face às correntes antagónicas que ele havia derrotado na corrida à presidência da Frelimo. As diligências começaram por ser feitas por Mondlane junto do ministro da justiça (Robert Kennedy) e terminaram no gabinete do ministro da defesa, Robert McNamara, que antes de ter integrado a Administração Kennedy havia sido director executivo da Corporação Ford. Cito de uma nota de Robert Kennedy para Mennen Williams, assistente do Secretário de Estado norte-americano, datada de 11 de Abril de 1963: “…Mondlane needs about 50 grand to keep the lid on his people and also stay on top. That seems to me a small investment.” No fim, o “investimento” da Fundação Ford orçou em $96,000.

E quem foi trabalhar para administração do IM foram pessoas como a Sra. Betty King, funcionária do African-American Institute em Dar-es-Salam. Parte do corpo docente do IM foi rectrutado pelo Corpo da Paz. É do domínio público que o African-American Institute é uma instituição do governo americano (tal como o Peace Corps) e que entre outras coisas publica o «Africa Report», revista que se distinguiu pela forma como promoveu a imagem de Mondlane. O articulista cubano da «Prensa Latina» não escrevia à toa.

3. Não creio que o socialismo advogado por Mondlane correspondesse ao stalinismo do regime de Machel. Posteriormente à experiência stalinista da Frelimo, Janete Mondlane declarou que o marido “não teria concordado com as decisões tomadas após a independência, muitas das quais associadas à violação da ideia do direito à liberdade individual”.

Relacionado com esta questão recupero um livro -mais do que recomendável para analisar tantas outras questões mais vastas:

[Amélia Souto, Caetano e o Ocaso do "Império". Administração e Guerra Colonial em Moçambique durante o Marcelismo (1968-1974), Afrontamento, 2007]

"Pouco depois da luta armada se ter iniciado, Che Guevara fez uma viagem de 3 meses a África (chegou em Dezembro de 1964 a Dar es Salaam) assinalando o interesse de Havana pela luta que se desenvolvia no continente, sobretudo no Zaire. Em Fevereiro de 1965, Guevara visitou os escritórios da Frelimo, onde teve um encontro com Eduardo Mondlane. Este encontro foi tempestuoso. Segundo Gleijeses [Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington anda Africa, 1959-1976, Chapel Hill, Univ. South Carolina Press, 2002], Fidel Castro ainda recordava isso doze anos mais tarde, altura em que, num encontro com Erich Honecker, presidente da Alemanha Democrática, afirmou: "Os diferendos que nós tivemos com a Frelimo remontam ao tempo quando [...] Che Guevara se encontrou com Eduardo Mondlane. A irritação de Mondlane perante a insistência de Che Guevara de que a Frelimo devia enviar os seus guerrilheiros para serem treinados no Zaire conduziu a um choque pessoal entre ambos." Um outro aspecto que originou este choque relacionou-se com o exagero da Frelimo em relação às suas proezas militares (uma tentação que Fidel Castro evitou durante a guerra com Baptista) e perante as quais Che, que não era um bom diplomata, expressou o seu cepticismo, mas fê-lo de uma forma que ofendeu profundamente Mondlane. A conversa adquiriu um tom áspero que os dividiu.* Embora Cuba considerasse a Frelimo como um dos movimentos de guerrilha mais fortes de África, a quem desejava dar maior apoio, este primeiro encontro deixou marcas que nunca foram ultrapassadas totalmente durante a luta, tendo permanecido o mau sentimento gerado pelo encontro, "no qual o Che considerou Mondlane pouco digno de confiança, e Mondlane considerou Che irreverente e desrespeitoso". Apesar disso, Cuba ofereceu-se para enviar instrutores para os campos da Frelimo na Tanzânia, ou directamente para Moçambique, oferta essa que a Frelimo recusou por ser seu princípio enviar guerrilheiros para treino no exterior, em vários países, incluindo Cuba, sendo os chineses os únicos instrutores estrangeiros que a Frelimo permitiu na Tanzânia. Mas Cuba apoiou a Frelimo, não só treinando alguns dos seus quadros mas também fornecendo armamento, alimentação e uniformes.

*Esta versão é confirmado por Marcelino dos Santos que participou no encontro (era então Vice-Presidente da Frelimo) e que refere terem surgido pontos de vista diferentes relacionados com a preparação da guerra e o seu desenvolvimento." (pp. 209-210)

publicado às 23:26

A propósito das recentes entradas sobre os contactos de Ernesto Guevara (dito "Che") com a Frelimo Amélia Souto, que muito honra o ma-schamba com as suas visitas, enviou-me esta fotografia de uma reunião na Tanzânia do referido dirigente comunista com membros da direcção da Frelimo - onde se pode reconhecer Samora Machel.

Ainda a este propósito, e em directa ligação ao texto de João Cabrita abaixo reproduzido transcrevo uma mensagem que o Machado da Graça (once a blogger, always a blogger) me enviou.

"Estive agora a ler o texto do Cabrita sobre Mondlane e o Che. Ele põe as divergências entre os dois, como apresentadas pelo Helder Martins, como questões de lana caprina. Nomeadamente a questão do tipo de guerrilha a desenvolver. Ora eu creio que esta questão não era, de forma nenhuma, coisa sem importância. Era uma questão fundamental. O que não tira importância aos outros aspectos que o Cabrita levanta no seu artigo nem, de facto, os contradiz.

Mas qual era a divergência entre Mondlane e o Che? O Guevara aprendeu a fazer guerrilha em Cuba e, depois da vitória dos guerrilheiros, sistematizou a sua experiência num livro, que eu devo ter para aí em qualquer lado. Era a teoria do foco guerrilheiro. Segundo ele a guerrilha devia conseguir intalar-se numa parte da área a libertar e depois, a partir de lá, ir libertando o resto do território. No caso cubanbo o foco teria sido a Sierra Maestra. Depois disso ele procurou transferir esta teoria do foco para áreas muito maiores. Quando morreu, na Bolívia, a ideia era conquistar o poder naquele país e, a partir dele, exportar a revolução para os vários países vizinhos com quem a Bolívia tem fronteiras. Ora foi isso, também, o que veio propor em África. Aqui o foco seria no Congo e todos os movimentos de libertação deveriam apoiar os congoleses até conquistarem o poder naquele país e, depois, dele partiriam para a libertação dos vizinhos. Isso implicaria, se bem percebo, que a Frelimo deixasse de lutar em Moçambique e fosse reforçar o contingente no Congo. Só depois deste libertado se passaria para outros e, um dia, se chegaria a Moçambique.

E, ao que sei, foi a isto que Mondlane se opôs, defendendo que a luta da Frelimo era dentro de Moçambique, para libertar os moçambicanos, e não no Congo. Se houve tudo o mais que o Cabrita afirma, não sei, mas diria que uma coisa pode não contradizer a outra mas apenas complementarem-se.

[Entretanto] Muito se tem falado da ligação de Mondlane aos Estados Unidos, mas ainda não vi nada que me convencesse de que a ligação era institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou. Mas um facto é que, no final da sua vida, ele declarou numa entrevista que a Frelimo estava cada vez mais socialista, um socialismo do tipo marxista-leninista. De qualquer forma, o artigo do Cabrita traz mais dados para a compreensão dessa época, o que é bom."

jpt

publicado às 09:11

Che e Mondlane

por jpt, em 11.02.10

(por AL mera intermediária de João Cabrita) -

 

O meu amigo e leitor maschambiano João Cabrita enviou-me um artigo dele sobre as relações entre Guevara e Eduardo Mondlane, publicado aqui há uns anos no jornal Zambeze. O artigo foi despoletado pela polémica causada com a publicação das memorias de Hélder Martins num livro chamado Porquê Sakrani. Aqui fica para vosso deleite:

 

DE HÉLDER MARTINS: "PORQUÊ SAKRANI?"

Livro de memórias suscita polémica

 

lder Martins, histórico da Frelimo, médico de profissão, pedagogo inovador, depois de Janet Mondlane e Nadja Manghezi com O meu coração está nas mãos de um negro, lançou-se na narrativa da gesta libertadora moçambicana, passando para o papel as suas memórias. Porquê Sakrani - Memórias dum médico duma guerrilha esquecida é o título de um exaustivo trabalho, de leitura fácil mas cativante, lançado o ano passado nas bancas nacionais e estrangeiras. Tal como o título sugere, o livro é o testemunho de Hélder Martins sobre a fase da luta armada contra o colonialismo. Um livro que promete ser polémico, pelo menos relativamente a um “grande tema, como o autor lhe chama. Trata-se da visita de Che Guevara ao escritório da FRELIMO. lder Martins insistiu em contar essa apaixonante faceta da história recente de África pois que, como ele afirma no livro, “muitos anos mais tarde, ouvi e li versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas, que não estiveram presentes.” E remata Martins: “Portanto, a minha versão é por testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.” Recentemente, o director deste jornal teve oportunidade de entrevistar um outro autor moçambicano e um dos temas focados foi precisamente o encontro de Che Guevara com a direcção da Frente de Libertação de Moçambique. Trata-se João Cabrita, autor de Mozambique: The tortuous road to democracy, que apresentou na altura uma versão radicalmente oposta desse encontro; quiçádisparatada”, na óptica de Martins. A pedido do ZAMBEZE, João Cabrita preparou o seguinte artigo, e nele reitera a posição anteriormente defendida, avançando com novos dados sobre o “grande tema”.

 

*** Num livro de memórias de publicação recente,[1] Hélder Martins referiu-se à disputa havida entre Cuba e a Frelimo no decurso dum encontro entre Eduardo Mondlane e Che Guevara, realizado em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965. O autor fez questão de deixar claro que decidira referir-se ao assunto dado que "anos mais tarde, tinha ouvido e lido versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas que não estiveram presentes ao encontro". A versão de Hélder Martins, segundo ele conta, baseia-se em “testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.” Em suma, Hélder Martins refere que a disputa que opôs Eduardo Mondlane a Cuba centrou-se na rejeição de conceitos de luta de guerrilha defendidos pela delegação cubana, e no mal-estar causado por Che Guevara por ter levantado dúvidas quanto à autenticidade dos comunicados de guerra emitidos pela Frelimo. Tal como outros membros da Frelimo, Hélder Martins incorre no erro de se atribuir a essa disputa questões de lana-caprina, tais como conceitos de luta de guerrilha e comunicados de guerra empolados, quando a causa fundamental gira em torno da recusa de Eduardo Mondlane em participar num ambicioso plano que Cuba pretendia executar na África Austral com o apoio dos movimentos de libertação. Tratava-se de um plano que, no fundo, punha em cheque os interesses dos Estados Unidos, país em relação ao qual Eduardo Mondlane era um fiel aliado. O facto de não se ter assistido ao encontro de Dar-es-Salam, não impede, que na presença de documentos oficiais e do testemunho das partes intervenientes, se possa fazer um juízo da situação e avançar com conclusões que, até prova em contrário, não podem, do pé para a mão, ser rotuladas de “disparatadas”. É interessante referir que Hélder Martins também não esteve presente ao encontro de Dar-es-Salam pois segundo relata no livro apenas chegou à Tanzânia em Março de 1965. O que não deixa ser caricato, é que, no seu livro de memórias, Hélder Martins fez questão de frisar que a sua versão sobre a disputa entre Mondlane e Cuba se fundamentou naquilo a que ele próprio referiu como “fofocas” contadas por pessoas que acidentalmente iam a Dar-es-Salam, mas que ele se sentiu à-vontade em descrever como fontes “primárias”, não identificando, todavia, nenhuma delas. Qualquer investigador concordará que no campo da pesquisa, as “fofocas” não colhem.

O PLANO DE CUBA

A intervenção militar cubana em África não se tratou de uma iniciativa pessoal de Che Guevara. Ela obedecia a um plano concebido ao mais alto nível pelo governo de Cuba e que contava com o apoio da China, da União Soviética e de outros países do chamado bloco de Leste. Em África, Cuba dispunha do apoio da Argélia, do Gana e da Tanzânia, entre outros países. O objectivo cubano consistia em servir-se da luta que vinha sendo travada no Congo-Kinshasa, na sequência do assassinato de Patrice Lumumba, para promover um conflito de grandes proporções na região austral do continente, em particular nos territórios ainda sob dominação colonial (Angola, Moçambique, Rodésia do Sul e Namíbia) e, numa fase posterior, na África do Sul. Em última instância, pretendiam os dirigentes cubanos atrair os Estados Unidos a mais uma zona de conflito, para além dos que já se desenrolavam no sudoeste asiático e começavam a ganhar forma na América Latina. Tal como afirmou Che Guevara ao presidente egípcio, Abdel Nasser, em Abril de 1965: "Creio que irei para o Congo pois neste momento é a zona mais quente do mundo. Com o apoio dos africanos, através do Comité [de Libertação da OUA] na Tanzânia, e com dois batalhões de cubanos, acredito que podemos desferir um golpe contra os imperialistas no coração dos seus interesses no Katanga."[2] Che Guevara viria a entrar no Congo-Kinshasa, através da Tanzânia, em Abril de 1965. Liderava um contingente militar de cerca de 200 homens, com a particularidade de todos eles serem cubanos de origem negra. Uma outra coluna de efectivos cubanos de idêntico número, liderada por Jorge Risquet, foi desdobrada no Congo-Brazzaville. Segundo o já citado estudo de Piero Gleijeses sobre a intervenção militar cubana em África, a missão da coluna de Risquet era prestar apoio à guerrilha do MPLA, defender Brazzaville na eventualidade dum ataque a partir do Congo-Kinshasa, e actuar como força de reserva de apoio à coluna de Che Guevara. Para além das forças de guerrilha opostas ao regime de Kinshasa, o plano cubano apresentado por Che Guevara aos movimentos de libertação em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965, teve a aprovação do MPLA, do ANC da África do Sul, assim como da guerrilha ruandesa liderada por Joseph Mundandi, e de forças opostas aos regimes da Guiné-Equatorial e dos Camarões. O apoio subsequente de Cuba ao PAIGC viria a revelar-se de particular importância para os avanços na luta contra a ocupação colonial portuguesa na Guiné-Bissau. A Frelimo de Eduardo Mondlane opôs-se a esse plano, o que aliás não constituía novidade para Che Guevara. Segundo Juan Benemelis, ex-funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros cubano, aquando da sua passagem por Accra em Janeiro de 1965, o presidente Kwame Nkrumah transmitiu a Che Guevara "as suas reservas sobre Eduardo Mondlane".[3] Idêntica advertência foi feita a Che Guevara por Pablo Rivalta, embaixador cubano em Dar-es-Salam. Ainda de acordo com Benemelis, que foi o primeiro encarregado de negócios na embaixada cubana em Dar-es-Salam, o embaixador Rivalta advertiu Che Guevara de que os acampamentos de treino de guerrilheiros da FRELIMO na Tanzânia, estavam 'contaminados' por membros do 'Corpo da Paz'. No entanto, Rivalta informa Che Guevara que dentro da Frelimo poderia contar com "Marcelino dos Santos, como um elemento de toda a confiança." Rivalta havia conhecido Marcelino dos Santos durante um encontro da União Internacional de Estudantes em Praga. Não era apenas o Gana e o governo de Cuba que viam Eduardo Mondlane como revolucionário pouco consequente. Já em Outubro de 1964, Noureddine Djoudi, embaixador da Argélia na Tanzânia e representante do seu país no Comité de Libertação da OUA em Dar-es-Salam, se havia referido ao primeiro presidente da Frelimo como “um fantoche americano, a quem faltava espírito de militância, e era incapaz de liderar um movimento revolucionário.”[4] Mondlane não só se recusa a apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinsahasa, como também rejeita o apoio de Cuba para a prossecução da luta armada em Moçambique, não obstante a escassez de meios materiais com que a Frelimo se vinha debatendo desde a sua fundação em 1962. Pablo Rivalta, numa mensagem expedida de Dar-es-Salam para Che Guevara no Congo-Kinshasa a 19 de Agosto de 1965, fala da necessidade de se alterar o plano sobre o uso de instrutores militares cubanos que a pedido de Julius Nyerere haviam chegado à Tanzânia para o treino de guerrilheiros da Frelimo em Tabora.[5] Rivalta viria a clarificar o teor da sua mensagem em declarações prestadas a três autores cubanos que integraram o contingente de Che Guevara no Congo-Kinshasa. Rivalta é citado pelos autores como tendo dito que "alguns companheiros que o Che pensava enviar para Moçambique não puderam ir porque os contactos que tínhamos estabelecido com o governo da Tanzânia e com os moçambicanos disseram que não era ainda o momento, e o Che deu-me ·instruções para que fossem para o Congo e para o Congo os enviei."[6] Uma outra prova da recusa sistemática de Eduardo Mondlane em alinhar com o plano cubano, surge em Outubro de 1965. Numa derradeira tentativa de salvar do colapso o contingente militar cubano destacado no Congo-Kinshasa, o próprio Fidel Castro deu instruções a Jorge Risquet para promover um encontro com os dirigentes da Frelimo e do MPLA em Brazzaville, durante o qual devia voltar a insistir junto da Frelimo para que apoiasse o plano. Segundo Benemelis: "Na reunião de 8 de Outubro (de 1965) com os movimentos de libertação das colónias portuguesas, Castro faz um último esforço para salvar o foco africano. A delegação cubana compromete-se a ajudar o MPLA e a Frelimo, com a condição de as mesmas se unirem ao Che, no Congo. Não obstante, a FRELIMO moçambicana, na pessoa de Eduardo Mondlane, evita o compromisso. A anterior disputa Guevara-Mondlane, meses antes, centrou-se no mesmo dilema: Mondlane negou-se a colocar a FRELIMO como fonte de abastecimento do comando guerrilheiro de Che."[7] A posição irredutível de Eduardo Mondlane foi transmitida por Marcelino dos Santos que participou no encontro de Brazzaville.

MONDLANE E OS ESTADOS UNIDOS

A intervenção militar cubana nos dois congos em 1965 coincide com uma série de acções que os Estados Unidos vêm desenvolvendo no campo militar, político e diplomático no sentido de manter a sua influência na região. Mondlane é um elo importante nos esforços diplomáticos encetados por Washington. O estudo de Piero Gleijeses revela que em finais de 1964, a Administração Johnson, promoveu o recrutamento de forças mercenárias na Rodésia e na África do Sul, assim como na Bélgica e na França, as quais, sob o comando de Mike Hoare, foram enviadas para o Congo-Kinshasa a fim de salvarem o regime de Moses Tshombe da derrocada face aos avanços da guerrilha simba e à impotência das forças governamentais. A acção das forças mercenárias, segundo demonstra Gleijesses, citando documentos oficiais norte-americanos obtidos ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação, foi de primordial importância para a derrota da guerrilha simba e o colapso da intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. Entre outros factores que contribuíram para o fracasso da intervenção cubana incluem-se as profundas divisões no seio do movimento de guerrilha congolês, a decisão do governo tanzaniano em retirar o apoio à rebelião congolesa, e o golpe de estado ocorrido na Argélia em Junho de 1965. O contingente cubano viria a abandonar o Congo Kinshasa em Novembro de 1965, cerca de 7 meses após ter infiltrado o território congolês. Aviões soviéticos da Aeroflot procederam ao transporte do contingente de Dar-es-Salam para Havana. Paralelamente à acção militar no Congo-Kinshasa, os Estados Unidos desenvolvem, em parceria com Eduardo Mondlane, uma iniciativa diplomática tendente a levar Portugal a solucionar o problema de Moçambique pela via pacífica. Em Julho de 1965, por ocasião da visita de Robert Kennedy à África Austral e Oriental, Mondlane discutiu a situação em Moçambique com o antigo ministro da Justiça americano e outros dirigentes norte-americanos em Dar-es-Salam. Mondlane confidenciou a Wayne Fredericks, subsecretário de Estado para os assuntos africanos, que caso Portugal concordasse com um plebiscito sobre o futuro das colónias, os termos desse plebiscito seriam menos importantes do que o processo político que ele iria despoletar. Efectivamente, Mondlane admitia que uma eventual independência de Moçambique não necessitaria de fazer parte do plebiscito. Para Mondlane, uma escolha simples entre Moçambique permanecer como província ultramarina portuguesa ou como membro duma comunidade Lusófona era por si só um significativo passo em frente. Na sequência deste encontro, o Departamento de Estado apresentou uma proposta a Salazar em Agosto de 1965. O embaixador norte-americano em Lisboa, George Anderson, é quem entrega a proposta concertada na base no encontro de Dar-es-Salam no mês anterior. Salazar mantém a mesma posição irredutível.[8] Em face do que acaba de ser exposto, torna-se óbvio e claro que seria um contra-senso o presidente da Frelimo apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. E se não apoiou, não foi por questões de lana-caprina atrás mencionadas, mas sim por que uma aliança com Cuba não condizia com a maneira de ser de um dirigente que desde a sua subida ao poder se havia demarcado dos desígnios do bloco comunista em relação ao continente africano. E a prova de que o distanciamento de Eduardo Mondlane era em relação a Cuba e não a Che Guevara propriamente dito, foi que mesmo depois da sua morte na Bolívia, o presidente da Frelimo continuou a manifestar a mesma posição, nomeadamente em conferências na Universidade de Dar-es-Salam e em entrevistas com correspondentes estrangeiros. Cuba não perdoaria Mondlane por ter proferido “declarações injuriosas” contra Che Guevara numa entrevista concedida a jornalistas norte-americanos do «Liberation News Service». Foi por intermédio da agência noticiosa estatal, Prensa Latina, que as autoridades cubanas acertariam contas. Num extenso artigo sugestivamente intitulado “Presidente da Frelimo desmascarado”, e posteriormente publicado no «Juventud Rebelde» e transmitido pela Rádio Havana Cuba, a Prensa Latina começa por se referir a Mondlane como alguém “que viaja aos Estados Unidos com mais frequência do que um embaixador do Departamento de Estado”. Depois, estabelece uma diferença entre Che Guevara e Mondlane: O Che e o Senhor Mondlane realmente diferem em tudo. Em primeiro lugar, o senhor jamais entrou em Moçambique para combater junto da guerrilha a cuja formação ofereceu obstinada resistência após a fundação da Frelimo. O senhor escolheu Washington e outras grandes capitais como campo de batalha enquanto o Comandante Guevara seleccionou a Sierra Maestra primeiro, e depois as montanhas bolivianas, onde combateu até à morte.”[9] Segundo Fidel Castro, Eduardo Mondlane viria a retractar-se, se bem que as relações entre o primeiro presidente da Frelimo e Cuba permanecessem sempre distantes. De passagem por Berlin Oriental a 3 de Abril de 1977, Castro manteve um encontro com Erich Honecker, no decurso do qual informa o dirigente da antiga RDA sobre as conversações que acabara de manter com Samora Machel na cidade da Beira. As palavras proferidas por Fidel Castro provam uma vez mais que a disputa entre Cuba e Eduardo Mondlane tem causas muito mais profundas do que a versão de Hélder Martins, apoiada em “fofocas”: Havia diferenças entre nós e a Frelimo, que datavam do tempo em que a Frelimo estava baseada na Tanzânia, e onde o Che Guevara conversou com Mondlane. Nessa altura, Mondlane não concordou com o Che, e disse-o publicamente. Posteriormente, publicaram-se em Cuba artigos de imprensa contra Mondlane. Mais tarde, Mondlane retractou-se, mas apenas avel interno pelo que as coisas permaneceram mais ou menos no ar.”[10] Mas já em relação a Samora Machel, Castro tinha uma outra opinião, em tudo diferente daquela que o governo cubano havia manifestado em relação a Eduardo Mondlane por intermédio do jornal «Juventud Rebelde», órgão oficial da União da Juventude Comunista de Cuba: Na realidade, Samora Machel foi para mim uma surpresa. Passei a considerá-lo com um revolucionário inteligente que tomava posições claras e mantinha um bom relacionamento com as massas. Ele causou-me muito boa impressão. Conversámos durante dia e meio. (…) Antes disso não sabíamos ao certo qual a influência que os chineses exerciam sobre ele. Ele agora está mais próximo da União Soviética e de outros países socialistas.”[11]


[1] Hélder Martins, Porquê Sakrani - Memórias dum médico duma guerrilha esquecida. Maputo, Editorial Terceiro Milénio, 2001.

[2] Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington, and Africa, 1959-1976,  The University of North Caroline Press, 2002.

[3] Juan F. Benemelis, Castro - Subversão e terrorismo em África, Europress, Odivelas 1986

[4] “Telegrama Confidencial” expedido pela Embaixada dos Estados Unidos em Dar-es-Salam a 15 de Outubro de 1964. (Documento obtido ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação e citado em João M Cabrita, Mozambique - The Tortuous road to democracy, Palgrave, 2000.)

[5] Ernesto Che Guevara, The African Dream - The diaries of the revolutionary war in the Congo, The Harvill Press, Londres 2000.

[6] Paco Ignacio Taibo II, Froilán Escobar, Félix Guerra, O ano em que estivemos em parte nenhuma - A guerrilha africana de Ernesto Che Guevara, Campo da História, Porto 1995.

[7] Benemelis, op ci

t[8] “Telegrama Secreto” expedido da Embaixada dos Estados Unidos, Dar-es-Salam, 29 de Julho de 1965; “Memorando Secreto” relativo à conversa entre o embaixador Anderson e Salazar, 22 de Outubro de 1965, citados em Cabrita, op cit

[9] Teofilo Acosta, Desenmascarado el presidente del Frelimo, Juventud Rebelde, Havana 21 de Maio de 1968 p3

[10] A transcrição do discurso de Fidel Castro foi encontrada nos arquivos do antigo Partido Unificado da Alemanha. Está disponível na Internet : http://cwihp.si.edu

[11] Ibid

publicado às 12:32



Feito coincidir com o 19º aniversário da morte de Samora Machel, que hoje se cumpre, o lançamento deste "A Morte de Samora Machel", da autoria de João M. Cabrita (Edições Novafrica), um jornalista moçambicano. Apoiado em documentação relativa ao incidente [que outra palavra utilizar sem assumir opinião?] e em entrevistas com peritos e testemunhas, o autor apresenta um livro muito bem escrito, com artes de tornar acessíveis aos leigos as questões técnicas envolvidas, rápido, com trechos até apaixonantes, na bem conseguida reconstrução do fatídico momento totalmente desprovida de qualquer intenção ficcional.

Na obra Cabrita cruza ainda as diferentes posições e relatórios então elaborados pela Comissão de Inquérito sul-africana e pelas Comissões moçambicana e soviética, que acompanharam o inquérito. Em conclusão defende a justeza das conclusões da Comissão de Inquérito, as quais apontam como causa uma sucessão de erros da tripulação soviética.

Livro decerto destinado a polémica, pois o desaparecimento de Samora Machel continua a ensombrar a sociedade moçambicana.

Adenda: visitantes deixaram endereços onde se poderá complementar esta visão: o A Morte de Samora Machel, do próprio João Cabrita onde se tem acesso à introdução do livro e à transcrição do gravador de cabine; e o The Case "Samora Machel" que apresenta versão contraditória das causas do acontecimento.

publicado às 19:43


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