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Amigos Até ao Fim

por jpt, em 22.08.08

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John Le Carré, Amigos Até ao Fim (D. Quixote, 2004, tradução de Helena Ramos e Artur Ramos)

É uma injustiça feita ao autor. Mas depois de ler "Um Espião Perfeito" tudo sabe a pouco: a perfeição não se pode repetir?

Será a trama que não é tão cativante - ainda que a ideia da Contra-Universidade Global seja uma delícia, a fazer-nos olhar para o lado e a ver quais a desejariam, quantos a sonhariam ... Mas são os personagens centrais que deslustram, o torno Le Carré não os burilou o suficiente: Ted Mundy será apenas mais um, até algo cinzento, esquissado, até confundível com outros protagonistas que Le Carré criou. Qual a particular originalidade deste adornado filho de major "das Índias" alcoólico e decadente e de uma ausente criadita, que sempre lhe foi narrada como nobre inglesa? Crescido apenas com o amor de uma ama paquistanesa, num quartel recôndito? Um desvalido "ex-aluno do liceu comuna e ex-universitário de Oxford esquerdelho, que se tornara um falhado, um anarquista; um arruaceiro berlinense que, após uma sova bem merecida, fora posto na fronteira ao raiar da aurora; um professor não-qualificado expulso por libertinagem que criou uma situação falsa num jornal de província antes de se instalar no Novo México como aspirante a romancista, esgueirar-se de novo para Inglaterra e perder-se nos meandros sem esperança da burocracia das artes: um falhado dos pés à cabeça." (179-180). Apenas mais um in-between na galeria de Le Carré, como quase sempre. E ainda mais frágil o desenho do seu contraparte (o autor precisa de pares na sua articulação romanesca) Sacha, uma personagem-dínamo que não ganha consistência. A fábrica Le Carré não está aqui no seu melhor, os exemplares produzidos vêm algo alquebrados.

Ainda assim, o prazer Le Carré, ainda que com suspense mitigado e que as costumeiras sombras que perpassam as suas gentes surjam muito iluminadas. Fica, para além do nojo por este fundamentalismo cristão que vem dominando a América, a fantástica pancada no Blairismo, essa injusta etapa início-de-milénio para um Reino Unido que já foi grande, a merecer outros modos, outros meios. Que se o podre sempre existiu assim será demais:

"É a impaciência da velhice a manifestar-se cedo demais. E a raiva de ver o mesmo espectáculo vezes sem conta. (...)

É a descoberta, ao chegar aos sessenta, que meio século depois da morte do Império, aquele país tão mal governado pelo qual ele tinha feito qualquer coisa fora conduzido para combater outros povos, graças a um lote de mentiras, só para agradar a uma superpotência de renegados que pensa poder tratar o resto do mundo como se fosse o seu quintal."

publicado às 20:08


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