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Li hoje, dia em que soube que a Penguin desistiu dos porcos e das salsichas nos seus livros, dois textos díspares sobre os atentados de Paris e as reacções acontecidas. Ecoado por amigos em Maputo um texto de Mehdi Hasan um jornalista britânico de origem muçulmana (convém ler, pois o autor teve contactos com os terroristas sabendo quais as efectivas causas que os levaram à acção). Eu acho o texto uma falsificação execrável (de "falsificacionismo histórico" ou, pelo menos, "amputacionismo histórico") mas deve ser por ser eu um "hipócrita liberal" nas palavras de Hasan - e deve ser por isso que me fico a questionar sobre a razão que leva esses meus amigos, que sei pessoas ajuizadas, a elogiar/partilhar isto.

 

Também hoje li um texto de Helena Matos de que muito gostei (também decerto porque sou um "liberal hipócrita"), e no qual me parece que a autora mergulha todo o antebraço na ferida.

 

A propósito disto tudo lembrei-me de um velho texto de Swift, originalmente publicado em 1708 (!). E até comprei o livro só para o citar aqui, sete euros e meio para escrever este postal ... Swift é conhecido (lido?) fundamentalmente pelas viagens de Gulliver. Mas não foi só isso que botou. Como religioso profissional escreveu também esta pérola "Um argumento contra a abolição do cristianismo", um texto corrosivo, na actualidade legível como uma pérola de ambivalência. Confesso que acho mais interesse a este texto com três séculos, de um pastor da igreja irlandesa, do que aos dos cientistas sociais hiper-relativistas e tardo-multiculturais para os quais a "origem do (mal) do mundo" habita a oeste dos Urais:

 

"Sou  muito  sensível à fraqueza e presunção que é investir contra o humor geral e a disposição do mundo. Lembro que foi com grande justiça e respeito à liberdade, tanto do público como da imprensa, que foram proibidos sob ameaça de várias penalizações, escrever, discursar ou apostar contra - mesmo antes de isso ser confirmado pelo Parlamento; pois era encarado como uma maquinação para contrariar a opinião corrente do povo, o que, para além de loucura, é uma manifesta violação da lei fundamental que faz dessa maioria de opiniões a voz de Deus. Da mesma forma e pelos mesmos motivos, talvez não seja seguro argumentar contra a abolição do Cristianismo num momento em que todos os partidos parecem tão unanimemente determinados nesse ponto (...), mas assim que essa ideia é infelizmente produzida não posso ser inteiramente dessa opinião. Mais ainda, [para além de] eu ter a certeza de que uma ordem seria emitida para a minha imediata acusação pelo Procurador-Geral devo ainda confessar que, na postura actual dos nossos assuntos, em csa ou no estrangeiro, eu ainda não ter visto a absoluta necessidade de extirpar a religião entre nós.

 

(...) livremente concordo que na aparência tudo está contra mim. O sistema do Evangelho, após o inevitável apraecimento de outros sistemas, é genericamente antiquado e explodiu. Assim a massa ou o corpo comum do povo, entre os quais parece ter expirado o seu último crédito, parece tão envergonhada dele quanto as suas elites (...).

 

Contudo, uma vez que os coveiros propõem tão maravilhosas vantagens para a nação com esse projecto e avançam muitas e plausíveis objecções contra o sistema do Cristianismo, considerarei brevemente a força de ambos (...).

 

Primeiro, uma grande vantagem proposta com a abolição do Cristianismo é que isso em muito ampliaria e estabeleceria a liberdade de consciência, esse grande baluarte da nossa nação e da religião protestante, e aminda muito limitada elo sacerdócio, apesar das boas intenções da legislatura como podemos dar conta recentemente por via de uma grave ocorrência. Pois foi decerto reportado que dois gentlemen nos quais muitas esperanças eram depositadas, de brilhante sagacidade e profundo discernimento que, após uma apurada análise das causas e efeitos, fazendo uso apenas das faculdades naturais e sem o menor traço de educação, terem feito a descoberta de que não há nenhum Deus e que, comunicandop então generosamente os seus pensamentos para bem do público, foram há algum tempo, com uma severidade sem paralelo e com base em não sei que obsoleta lei, condenados por blasfémia." (Jonhathan Swift, "Uma Proposta Modesta / Um Argumento Contra a Abolição do Cristianismo", Alfabeto, 2011, pp. 39-46)

publicado às 19:32


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