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Uma colectiva, a exposição "Roots", que julgo ancorada no eixo da célebre série televisiva dos anos 1970s, e que é produto de uma organização conjunta do MUVART (Movimento de Arte Contemporânea), do LAC (Laboratório de Artes Criativas), com apoio do próprio Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, foi ontem apresentada ontem no Centro Cultural Português de Maputo. Com curadoria de Jorge Dias, apresentam-se obras de sete artistas, cubanos, angolanos, portugueses e moçambicanos. De cá estão Aladino Jasse, Lizette Chirrime, David Mbonzo, Félix Mula.

 

Festiva, colorida (cromaticamente estimulante, se assim se quiser falar), anima o visitante. Recomenda-se a deslocação.

publicado às 09:06

Mais uma boa surpresa na Kulugwana (na estação dos CFM, Maputo). Inaugura amanhã a exposição em dueto de Jorge Dias e Victor Sousa. Hoje espreitei pela porta, durante a montagem, meti mesmo o nariz, a fingir que estava só a saudar. Garanto que é de ir. A partir de amanhã (quinta-feira, 25 de Agosto) oferta por todo um mês (e Setembro será um mês animado em Maputo), a exigir ser desfrutada. E amanhã é após as 18 horas. Estará lá o acima referido dueto de artistas, para ser questionado ou cumprimentado. E, espero, as obrigatórias chamussas. Até lá.

jpt

publicado às 22:26

O rescaldo de 2010

por jpt, em 27.12.10

Esta coisa do rescaldo no fim do ano é um exercício, costumeiro, de arrogância insuportável. Para o fazer arma-se o indivíduo da omnisciência necessária à divindade, daquela que se apropriou do tudo acontecido na última nesga de tempo, aquela à qual os pobres, e humanos, humanos chamam "ano".  Na realidade sei lá o que se passou durante o ano, nem mesmo da minha vida - entre o distraído e o obtuso, e ainda para mais encerrado na acédia -, neste pior e maldito dos anos que agora termina, posso fazer o altaneiro resumo e elencar os piores e melhores momentos. Mas, ainda assim, trôpego vaidoso, deixo-me botar o que me fica de 2010:

 

Sobre os livros ... Na literatura que obra "a do ano"? "O Olho de Hertzog" de João Paulo Borges Coelho, pelo chorudo prémio (Leya) e pela atenção que (finalmente) convocou sobre a já extensa obra do seu autor - e que espero se possa traduzir em  ... traduções. E em leituras, deste grande escritor moçambicano. Mas também pelo "projecto" que o livro encerra, o manifesto - LM do início de XX como umbigo do mundo. Fantástico de amor, etnográfico e ideal, pela cidade. Excelente (desperdício) como utopia do país, de desautarcia, pelo desencerramento contrário à década que agora vigora.

 

Na "oratura" (é um termo que abomino, referindo-se a literatura oral) uma obra de relevo [e aqui tão rara], "Fábulas de Cabo Delgado", recolha sistematizada por Gianfranco Gandolfo (uma das figuras do ano) e retrabalhadas por António Cabrita (idem). Sou muito pouco simpático a este tipo de fixação (e formatação) das narrativas populares mas o trabalho está muito bem conseguido - resultante da sonolência generalizada esta fixação da literatura popular em língua maconde não teve discussão, nem de especialistas nem de jornalistas nem de "proprietários" (diga-se que obras já bem anteriores do género, de Lourenço do Rosário e Luís Filipe Pereira, também não provocaram discussão crítica). Gandolfo esteve ainda (um grande ano para este trabalhador silencioso) na produção do livro e da exposição Matias Ntundo. Gravuras 1982-2010, um dos acontecimentos em livro e em exposição do ano (esta na Fortaleza de Maputo), central no domínio das artes plásticas. António Cabrita (figura crucial no meio cultural actual em Maputo) esteve ainda noutros eventos, dos quais destaco o excelente (apesar da pobre impressão) "Kok Nam. O Homem Por Detrás da Câmara", com sua entrevista e organização. Obra crucial. E que espero seja antecâmara de um verdadeiro álbum sobre a obra do Kok, a quem alguma apressada miopia continua a reduzir a um mestre de reportagem, coisa que efectivamente ele não é. Sendo muito mais.

 

E o "Com as Mãos", do Luís Abélard. O Luís foi-se embora, cruel e devastadoramente cedo, mas deixou este seu encantado olhar sobre quem com as mãos nos encanta o mundo. Aqui. Inultrapassável livro. Textos dos melhores conhecedores de arte em Moçambique. E fotografias de 24 dos artistas moçambicanos.

 

No cinema João Ribeiro apresentou um filme, que não vi por razões de saúde. Decerto chegará o momento. Importante entender que a sua possibilidade brotou da inflexão dos financiamentos da União Europeia ao cinema africano. Nos últimos anos os caminhos esconsos (ditos lóbis, até com direito a acordo ortográfico) têm vindo a direccionar estes recursos para o cinema afro-francófono. No penúltimo processo o afro-lusófono foi alvo de vários financiamentos (o que já não aconteceu, dizem-me, neste último concurso), algo possível por razões de pressão política. A ver se tal caminho de financiamento continuará a ser percorrido.

 

Na imprensa dois factos. A passagem da "Índico", a revista de bordo da LAM, para a direcção de Nelson Saúte. Tendo-se tornado uma excelente revista cultural moçambicana, algo tão necessário e ansiado. E o facto do "País" publicar uma edição de sábado dedicado (quase)exclusivamente à cultura. Com valor flutuante mas muito significante que o jornal tenha feito esta opção.

 

Personagem do ano? Jorge Dias. Nos últimos anos tem sido o Curador do Museu Nacional de Arte onde constituiu com a sua directora, a excelente Julieta Massingue (pessoa única no exercício institucional), uma belíssima dupla, de sucesso, agitando e fazendo do Museu o sítio menos convencional da actual e convencional cena artística moçambicana. Entenda-se, ao contrário do que é quasi-universal, nestes últimos anos foi a grande instituição que serviu para agitar consciências e práticas artísticas no país. Este ano acolhendo (e produzindo) a Bienal do Muvart (Movimento de Arte Contemporânea em Moçambique), um passo em frente depois do relativo fracasso de há dois anos atrás, e mostrando que há caminhos percorridos (e não só "a percorrer") - ainda que a Bienal tenha sido uma realização passível de críticas, isso só significa a sua relevância. Para além da sua actividade de crítico artístico (do qual este jpt amador tantas vezes discorda) Jorge Dias apresentou ainda Transparências - muito valorizada por um excelente filme de Filipe Branquinho -, uma curiosa articulação entre a instalação programática (o corpo central) e falsa retrospectiva (antigas obras completamente reformuladas), que foi momento alto do ano na cena das artes plásticas. Agora termina o seu trabalho no Museu e segue como director da Escola de Artes Visuais (integrando a grande remodelação dos quadros estatais ligados à cultura). Se isso levanta algumas interrogações sobre que enfoque assumirá o Museu Nacional de Arte por outro deixa antever excitantes passos no ensino das artes aqui.  A ver vamos.

 

Acontecimento do ano? A construção civil em Maputo. Que virá a marcar a paisagem urbana da cidade e a auto-percepção da capital. A minha alma, se existisse, estaria em sangue.

 

jpt

publicado às 15:50

Jorge Dias em Livro

por jpt, em 13.09.10

[Jorge Dias Plasticien, Éditions de l'Oeil, 2008]

Mais um dos livros de bolso que esta editora dedica a artistas plásticos e escritores (julgo que há também um sobre Mia Couto, mas nunca o vi) moçambicanos, na sua colecção "Les Carnets de la Création", que conta com o apoio da cooperação francesa. É uma boa iniciativa de divulgação das obras, até pelo formato, vagabundo e transitivo. Como sempre a edição é trilingue (francês, inglês e português) e inclui um conjunto de fotografias sobre as obras do artista e um texto do seu "companheiro de estrada" Gemuce.

(A versão portuguesa do texto está ligeiramente truncada no último parágrafo, nada que não seja ultrapassável com a consulta das outras duas versões).

jpt

publicado às 18:44

Jorge Dias no Instituto Camões

por jpt, em 05.09.10

A inauguração da exposição de Jorge Dias no Instituto Camões estava agendada para 1 de Setembro. Foi suspensa, como é óbvio. Mas desde ontem, sábado, que a "Transparências: Processos Criativos e Devaneios" está à nossa disposição, e assim estará até ao próximo dia 18. E vale muito, mesmo muito, ir visitar. Um parte de instalação, aqui desafiadora. Uma parte de retrospectiva recriadora do percurso do autor, sejam ecos remoldados de trabalhos anteriormente apresentados no estrangeiro, sejam reconstruções de velhíssimas obras do início de 1990s que são, objectivamente, novas obras de um agora outro artista. Um acontecimento, para não exagerar.

E vem muito a propósito, destes tempos que correm, esta "rat race" que ali é desafiada.

(o artista não tem qualquer responsabilidade nesta minha pobre fotografia, que só lhe prejudica a obra).

jpt

publicado às 01:47

Malangatana em Évora

por jpt, em 02.02.10

Na galeria Kulungwana (na estação dos CFM) uma mostra colectiva organizada por Berry Bickle serve para assinalar o fim das férias, uma mescla heterogénea que bem merece a visita: Idasse, Shikhani, Sitoe, a própria Berry Bickle, Famós, Victor Sousa, Jorge Dias, Ulisses Oviedo e Malangatana. Gostei particularmente dos "rizomas" de Jorge Dias, um inteligente regresso às suas instalações, e da surpreendente (para ele excêntrica) obra de Sitoe.

Bem estava Malangatana, ali avisando que está de viagem até à Universidade de Évora, onde receberá o doutoramento honoris causa em meados deste mês. Apadrinhado por Marcelo Rebelo de Sousa, seu conhecimento bem antigo. Aqui fica a reprodução de um quadro dessa década

["Nu com Crucifixo", 1960]

Nota: Imagem reproduzida de Okwui Enwezor (org.), The Short Century. Independence and Liberation Movements in Africa, 1945-1994 (Prestel, 2001). Se pressionada aumenta, para melhor visibilidade.

publicado às 00:11

Celestino Mudaulane: há um ano

por jpt, em 05.04.09

(mais "rascunhos")

 

Os meses iniciais de 2008 foram um período particularmente activos no campo dasa artes plásticas. Momento marcante de uma rara "descentralização", de uma exo-maputização, foi a apresentação da Zoologia dos Fluxos, de Jorge Dias, na Beira.

 

Marcante foi também a aparente colectiva "Dois Percursos Multi-culturais: o tempo ... já não tem tempo", onde se procurava congregar a (presumo que) primeira apresentação do trabalho de Frederico Morim com o de Celestino Mudaulane.

 

 

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Digo "aparente colectiva" pois foi uma exposição que trazia alguns dos habituais problemas de tantas das mostras colectivas que têm vindo a ser feitas. Dois artistas que em nada dialogavam, apenas uma justaposição em paredes e peanhas contíguas. Seria (será) melhor começar a chamar a tais eventos uma "paralela" de artes plásticas.

 

O interesse de lembrar tal evento será ainda o de o usarmos para reflectir nas armadilhas do "multiculturalismo" que surgia em título - o cujo, na prática mas não na vontade organizativa, com toda a certeza integrando então os programas político-culturais do Ano Europeu do Multiculturalismo, implicita o irredentismo das "formas culturais". Com efeito a incomunicabilidade entre obras e artistas terá sido produto dos incidentes biográficos dos autores, um porventura indisponível para maior envolvimento, um outro apresentando uma verdadeira individual.

 

Mas o que ficou na memória, para além dos artistas, foi o "multiculturalismo" ideológico a gerar a incomunicação. Algo que até sociologicamente se denotava, como o mostrou o tipo de público que aderiu à exposição, bem delimitado.

 

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[Frederico Morim]

 

O que tivemos então foi um contexto bem "pop" de Frederico Morim, artista proveniente do mundo (e de dimensões estéticas) da publicidade,

 

dsc_0093.jpg[Celestino Mudaulane]

 

paralelamente a uma obra de Celestino Mudaulane, porventura o grande escultor actual em Moçambique, ali a ensaiar novos caminhos na sua cerâmica - os quais, honestamente, muito me desiludiram.

 

A última memória, bem para além dos artistas. O facto de Mudaulane ter apresentado uma obra e à sua revelia terem sido colocadas duas outras obras suas (dois desenhos). Na altura, e ainda hoje, isso levantou-me a estrutural questão, incidindo sobre o grau de autonomia (e, como tal, de responsabilização) que os artistas locais vão tendo face aos galeristas.

 

Pouco, como isto o demonstrou. E, pelos vistos, tal diminuição estatutária é aceite. Natureza oblige?

publicado às 13:19

Olhares e Experiências

por jpt, em 04.04.09

E por referir "rascunhos" de posts que foram ficando para trás. Este é uma memória de uma exposição colectiva, já com um ano, realizada com artistas ligados ao Movimento de Arte Contemporânea. Aconteceu na Associação Moçambicana de Fotografia, por ocasião da visita do presidente português, em Março de 2008.

O meu objectivo era o de discutir a sua pertinência e a adequação do formato à lógica do Movimento. E ainda, e num outro registo de questionamento, o da adequação à sala disponível. Questões que prescreveram, claro. Fica a memória.

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Uma exposição colectiva organizada pelo Movimento de Arte Contemporânea (Muvart), sob curadoria de Jorge Dias. Abaixo fotografias de obras (algumas já anteriormente apresentadas outras então inéditas) de Jorge Dias, Celestino Mudaulane, Ivan Serra, Gemuce e Anésia Manjate, respectivamente.

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publicado às 04:06

Na constante sucessão de exposições e mostras de artes plásticas em Maputo talvez não se dê o destaque devido à particular actividade - quase frenética - de um núcleo de artistas ligados à reclamação de uma arte contemporânea, alguns vinculados ao Muvart, outros nem tanto. Actividade em Maputo mas também em presença em colectivas e oficinas no estrangeiro, Europa e África, terreno mais propício à recepção às linguagens escolhidas.

 

E agora, saudavelmente, também já no norte do país, algo encetado pela apresentação da "Zoologia dos Trópicos" de Jorge Dias na Beira, um desenvolvimento de instalações que têm vindo a ser apresentadas há alguns anos.


Um feixe de actividades que integra a dinamização de palestras e discussões, com participantes residentes ou visitantes. E que acolhe particular relevo no seio do Museu Nacional de Arte, que tem sido exemplo de uma instituição cultural aberta aos seus agentes. E que tem articulado com os (aqui) importantes centro cultural franco-moçambicano (a casa da cultura de Maputo) e o Instituto Camões (a melhor sala de exposições local - e onde o seu responsável, o adido cultural António Braga tem sido exemplar tanto na relação com este momento artístico como - e esta é mais geral - como na forma como tem dinamizado o seu centro cultural ainda que esmagado pelos conhecidos constrangimentos financeiros).

 

Não quero reduzir esta actividade ao MUVART, vários são os caminhos dos seus participantes, vários são os ênfases da sua conjugação. E artistas há que se em diálogo com as linhas do movimento a ele não não se fideliza(ra)m. Mais do que tudo o MUVART, momento determinado de ruptura (até geracional) no meio artístico nacional, assumirá o seu sucesso exactamente através da sua dissolução no tempo. Como é característico dos movimentos deste tipo. Nem reduzir ao Muvart nem a este, e aos seus membros, exigir-lhe uma coerência que em tempos louvei- até mesmo por considerar a incoerência um importante mecanismo de produção artística.Mas passados anos sobre o seu surgimento, passados anos sobre a vontade de dexotização da arte local, da sua interrogação, apetece-me interrogar alguns dos acontecimentos do último ano, uma interrogação companheira - mas desconfortada.Três pontos me parecem cruciais: 1. a discussão sobre a interacção e recepção do estrangeiro; 2. a discussão sobre a movimentação colectiva; 3. a interrogação sobre os momentos individuais

 

1. A verdadeira internacionalização deste movimento artístico (e não falo exactamente do MUVART, mas da onda que o torneia) encetou-se na itinerância (infelizmente incompleta) Réplica e Rebeldia [para uma descrição ver aqui], uma vasta iniciativa com curadoria de António Pinto Ribeiro e produção do Instituto Camões.

 

A questão que considero relevante neste âmbito é que a arte se exibe explicitamente ideológica. Ora nesse espartilho seria conveniente, melhor, exigível, um radical questionamento ideológico dos eventos - o que neste caso exigiria uma etnografia explícita do processo produtivo. A mim o que se me afigura é que o radicalismo das propostas estéticas - formais - não é acompanhado do radicalismo das propostas estéticas - analíticas. Ou seja, a crítica (o desvendar, também) do processo social da produção artística individual não é acompanhado por uma similar olhar sobre a produção de eventos institucional, e sobre as práticas ideológicas que o balizam, encaixam.

 

Um pouco elíptico mas para facilitar. O discurso "arte-contemporânea" moçambicano baseou-se (também) na recusa da determinação alheia (alheia ao campo artístico, nisso se conjugando agentes nacionais e estrangeiros) sobre o que é "arte" e, em particular, o que é "arte africana/moçambicana".

  

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[Frederico Morim e Celestino Mudaulane, "Dois Percursos Multi-culturais: o tempo ... já não tem tempo", Abril-Maio 2008, Instituto Camões Maputo]

 

 

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[Frederico Morim]

 

 

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[Celestino Mudaulane]

publicado às 10:48

Uma exposição já antiga

por jpt, em 03.07.08

Catálogo, portanto memória, da colectiva "Lisboa-Maputo-Luanda", acontecida em Lisboa em 2007, na Cordoaria Nacional, associando trabalhos de artistas angolanos, moçambicanos e portugueses. No caso dos artistas moçambicanos demonstrando até algumas peças entretanto tornadas emblemáticas - o meu particular apreço pelo "Conselho de Anciões", de Anésia Manjate, bela peça com conteúdo muito polémico, e cuja contraposição com a "Máscara" de Marcos Muthewuye é aqui particularmente feliz, indiciando as tensões existentes na leitura artística do actual..

Mas para além da memória (invejosa) de uma exposição o catálogo mantém-se particularmente interessante pelo que dele se recolhe nos textos enquadradores. A justificarem uma reflexão (provavelmente já realizada) sobre as concepções ali representadas e até sobre os efeitos - potenciadores e constrangedores - da integração dos artistas (das várias nacionalidades e contextos)  neste circuito internacional. Mais ainda, as próprias contradições entre os textos denotam as contradições existentes entre os agentes que actuam (controlam?) a recepção artística em alguns cenários internacionais e, assim, algo influenciam a produção.

Um esclarecedor texto de João Lima Pinharanda, "Cabo Não", reflectindo sobre a história dos ambientes sociopolíticos de produção artística na África aqui representada, traçando uma breve geneologia analítica da emergência de uma autonomia artística. E, lateralmente, deixando algo que parece óbvio mas que é constantemente posto em causa, por consumidores e por oradores: "Nenhum nacionalismo cultural pode estabelecer como objectivo a recuperação de qualquer pureza ou genuinidade original (quer dizer, pré-colonial)." Uma "Evocação de Luanda", de Alberto Oliveira Pinto, realçando a plasticidade e entrecruzamento das topografias e das simbologias (da topografia simbólica, melhor dizendo), deixando intuir como são (ou podem ser) constantementes reapropriadas (reconstruídas) no discurso artístico.

E ainda dois outros textos, em aparente contraposição. Um interessante "A Geografia do Encontro ou o Re.Desenho do Mundo: Curiosidade, Mercância e Fé", de José Monterroso Teixeira, que busca recentrar o olhar sobre as artes plásticas internacionais na continuidade do olhar português sobre o mundo, nascido da expansão. E isso assente na recuperação da dicotomia entre o olhar épico de Camões e o olhar negocial (efabulatório, também) de Fernão Mendes Pinto - por outras palavras, a dicotomia entre a "expansão" e o "encontro". Sendo (devendo ser) o olhar de hoje devedor da verve de Mendes Pinto. Se este debate português é já algo antigo torna-se interessante vê-lo explícito no palco da recepção artística actual, e enquanto proposta de sustentção de um pólo central. [E, num outro plano, é sempre interessante perceber como a reflexão ideológica portuguesa se centra na influência do seu Renascimento, apagando séculos de experiência histórica posterior, dos seus feitos e dos efeitos que os feitos tiveram nas concepções da alteridade. No fundo, uma exigência de depurarmos a memória].

Mas mais importante ainda - até porque os conteúdos específicos da reflexão intelectual portuguesa sobre a sua história (e "identidade") não serão particularmente importantes para a actividade artística que nos é estrangeira -, pois demonstrando dimensões fundamentais na gestão das interacções artísticas internacionais, é o texto introdutório do próprio comissário da exposição Victor Pinto da Fonseca. Deixa uma declaração de princípios, que parece pacífica, amável até: "... porque só a arte parece ter o poder de inscrever ligações entre países, como verdadeiras pontes."*

Entenda-se, não estranho apenas a sua difícil (possível?) fundamentação empírica: 

1. afirma uma irredutibilidade "negocial" entre os contextos nacionais, que parece exagerada;

2. afirma uma característica (ontológica) "conversacional" à arte que exige conceptualização fundamentadora, bem como a do deficit das outras actividades neste âmbito.

Mas muito mais do que isso aqui se explicita uma secundarização da arte. E a vontade, a actividade, da sua instrumentalização. Uma arte ao serviço da tal "ligação entre os países", uma sua politização não no sentido do capital de questionamento que encerra, sim nos efeitos apaziguadores que proporciona.

Enfim, arte pela arte não, sim arte para o diálogo. Um diálogo que se quer apresentar sem ruídos, por via de uma descontextualização radical. Porque sendo "O enfoque do transnacional é o novo paradigma na arte contemporânea, substituindo o pós-moderno.", o argumento surge como o da sua desterritorialização. Melhor dizendo, associalização: "A exposição não reinvindica um contexto socio-político, antes, convida o espectador a pensar na singularidade de vida de cada artista presente ...". O indivíduo (artista), local e global, em trânsito comunicacional. "Toca algum sino"?

*[Citar trechos de textos é quase sempre deturpá-los à vontade do citador. Infelizmente não os encontrei disponibilizados na internet, para os ligar, permitindo uma leitura nunca truncada. De resto, sobre os textos de que me afasto: a exposição transposta no livro é óptima, donde o comissário fez um bom trabalho, muito para além das frases que aqui pico e pilho. E o texto de J.M. Teixeira é muito interessante e fundamentado, um prazer de leitura.]

Enfiim, não será fundamental discutir os artefactos intelectuais de uma exposição já acontecida há um ano. Mas é interessante visitar o conjunto das obras e atentar nestes caminhos. Enquanto se espera pelos próximos.

[Anésia Manjate, "Conselho de Anciões", 2005; Cerâmica e Corda de Sisal]

[Gemuce, "Deixa-Andar", 2005; Esculturas, chapas de zinco, video]

[Jorge Dias, "Neocasulo", 2005; Camisete, arame, tecidos]

[Marcos Muthewuye, "Máscara", 2000; Metal]

[Tembo Dança, "sem título", 2006; Arame farpado, madeira, tecido, plásticos, rede metálica, papel]

publicado às 01:56

 

 

Lisboa-Maputo-Luanda, exposição na Cordoaria Nacional em Lisboa. Com moçambicanos, Anésia, Gemuce, Jorge Dias, Marcos Bonifácio e Tembo. Até finais de Abril.

publicado às 20:11

Jorge Dias em Lagos

por jpt, em 10.01.06

referi a exposição Zoologia dos Trópicos que Jorge Dias (alguns trabalhos visíveis também na página do ArtAfrica) apresentou com o brasileiro Nelson Leirner em Lagos, Portugal. Do catálogo de então reproduzo agora alguns dos seus trabalhos.

E abaixo incluo ainda crítica de Rocha de Sousa à exposição, publicada no Jornal de Letras de 7 de Dezembro passado (nº 918).

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["3 bolas", cerâmica" (2005)]

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["Neo Casulo", tecido, linha e insecto de arame (2005)]

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["Sem Título", peneiras, insectos de arame e cerâmica e artesanato de madeira (2005)]

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["Frango Descansando", frango embalsamado, cadeira de descanso, carvão, grelha e luz eléctrica (2003)]

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jdiaslagos7.jpg["Sem Título", peneira de bambu e insectos de arame e sinal de trânsito (2005)]

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["Caixas", caixas de cartão revestidas com cerâmica, tecido e jornal (2004)]

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publicado às 07:58

Colectiva

por jpt, em 29.11.05

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Está em exposição no Centro Cultural Franco-Moçambicano e hoje, às 18 h, por lá haverá debate sobre mais esta exposição organizada pelo MUVART (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique [elo com história do movimento]). Em podendo assistir e participar o desafio é estimulante.

Já por aqui o disse, do interesse e carinho pela emergência do MUVART, das experiências de arte contemporânea que o movimento tem provocado. Num processo que não se esgota nos seus participantes, com particular relevo para o mais-velho Rosa, que até lhe é antecessor. À sua maneira, radicalmente individualista, prosaicamente anti-mercado. Tudo isso provado na sua recente individual, na Casa de Cultura do Alto-Maé, da qual infelizmente não retive nenhuma imagem: não tinha qualquer material de apoio (e eu sem máquina, ali avisado de surpresa), exposição de curta duração, âmbito reduzido. A fazer perder de vista uma mão-cheia de peças bem interessantes, em particular dois "quadros", falsos mimetismos, de excelência.

Do movimento MUVART mais haverá a dizer, começando a sua internacionalização, desde Jorge Dias em Lagos, Portugal, com 15 peças (ainda em exposição) à hipótese de Gemuce seguir a Dakar. E da participação alargada na colectiva lusófona que António Pinto Ribeiro organiza, e cuja itinerância aqui será inaugurada no Abril. E ainda da próxima grande internacional, a apresentar em Setembro.

Múltiplas razões para acompanhar este andar. Para mim uma muito em especial, para além da amizade: do "desafricanizar" da arte, da ruptura com o que aos artistas aqui é imposto, tanto por mercados de fora como pelos essencialistas de aqui, todos buscando, mercados subalternos ou ideólogos do presente, matéria-prima para discursos ditos identitários.

Cimg2050.jpgMuvartSoniaSultuane.jpgSónia Sultuane: "De Dentro Para Fora"Cimg2046.jpg

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David Mbondzo: "Lado A"

Cimg2045.jpgMuvartTembo.jpg

Tembo: "Forma e Conteúdo"

Cimg2052.jpgMuvartLuisMuiengua.jpg

Muiengua: "Elementos Extruturados" (sic)

Cimg2047.jpgMuvartMouzinho.jpg

Mouzinho: "Campo Flutuante e Inconsciente do Significado".

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[grupo, CCF-M, dia da inauguração]

Desta exposição, com curadoria de Jorge Dias, ele ideólogo do movimento, Sónia Sultuane, a poetisa que já colaborou poeticamente na anterior colectiva "Humano", apresenta o seu primeiro trabalho individual. A mim que me perdoem, palavroso ainda. Mbonzo coloca o trabalho que mais me interessa, visualmente. Mas também como proposta, no que pretende com este "Lado A" "Trago máscaras por serem formas que escondem a verdadeira ou falsa imagem do "eu"", assim também no não-visual a fugir às dicotomias. Muiengua [e é já altura de acertar em definitivo com a grafia do nome, em cada momento surge diferente] regressa com "Elementos Extruturados" (caramba, não há ninguém que possa fazer a revisão, limpar os erros ortográficos?), que já tinha apresentado e impressionado na colectiva Upanamo na Associação Moçambicana de Fotografia em Agosto. Regressa e prejudica, aumentou a instalação (mais 4 colunas?) mas nada mais. E encerrando a instalação na pequena sala que lhe coube fica um apertado do não-respirar nada voluntário. Algo que lembra o facto do "Franco", sendo o melhor local cultural da cidade, não ter uma sala de exposições - nesse sentido foi distraído o trabalho de recuperação do edifício e instalação de um centro cultural. Em lado nenhum, e com tanto espaço, se pode expôr com qualidade. Com os jovens Tembo e Mouzinho, tal com Mbonzo ainda alunos da Escola de Artes Visuais e aqui a estrearem-se em exposição, fico desarmado, nada me ocorre para além das discordâncias conceptuais. Talvez o incentivo de quem está a andar, a fazer brotar um processo.

Mas francamente, haverá pior para uma produção do que apenas gabar-lhe o facto de existir? De processuar? Acho que esta é uma encruzilhada para o MUVART, já andou o suficiente para não se justificar apenas o olhar simpático, o incentivo. A colectiva do ano passado, a colectiva Jorge Dias-Gemuce deste ano, puseram a fasquia alta. Chegou a altura de bater. Exigir. Provocar.

(texto retocado, integrando ainda novas ligações)

publicado às 17:37

Jorge Dias em Lagos

por jpt, em 09.11.05

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Jorge Dias, um dos mentores do MUVART (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique), está em Portugal, apresentando com Nelson Leirner a exposição Zoologia dos Trópicos no Centro Cultural de Lagos, actividade integrada no Faro Capital Nacional de Cultura [o sítio é muito pouco "amigo do utente"]. Até 31 de Dezembro.

publicado às 11:56

Metamorfose, de Jorge Dias

por jpt, em 04.09.05

JorgeDiasMetamorphosis.jpg

Jorge Dias, "Metamorfose", 2003 [técnica mista (jornais, sisal, sapatos), dimensões variáveis]

Ainda que em fraca reprodução (de um separador publicado pelo Museu Nacional de Arte) aqui fica registo de uma obra que é das minhas primeiras memórias de arte contemporânea em Moçambique. Foi apresentada em 2003, naquele Museu, no âmbito de uma exposição colectiva que anunciou o surgimento do Muvart (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique), do qual este artista, também professor na Escola de Artes Visuais, é animador (e ideólogo).

publicado às 16:48


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