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A educação, em Merquior

por jpt, em 25.05.06

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José Guilherme Merquior, A Natureza do Processo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982) [Artigo relacionado aqui]

"...a melhor maneira de corromper um jovem é ensiná-lo a considerar mais aqueles que pensam igual do que aqueles que ousam pensar diferente." (pp. 208-209)**"A educação", disse Lord Brougham, "torna um povo fácil de governar mas impossível de escravizar". Tudo o que foi exposto, ou melhor, lembrado, neste livro sobre o progresso da civilização, supõe que o sentido e valor do processo histórico radicam num substancial aumento da liberdade. Aumento quantitativo: liberdade para muitos mais do que antes; e aumento qualitativo: liberdade múltipla e diversificada. Mais liberdades, e mais gente livre. Em última análise, a natureza do processo é o progresso da liberdade.Claro que, no processo, a presença, e até o papel, da violência são inegáveis. Mas a questão é saber se o seu vulto na sociedade cresceu ou diminuiu a partir da civilização burguesa que criou o industrialismo - e se o status cultural da violência, interna ou externa, foi reforçado ou minado." (198-199)"O problema é saber que significamos com a palavra "educação". De que se trata, fundamentalmente - de cultura, ou simplesmente de instrução? ... Sem instrução popular, é impossível estimular a cultura moderna, individualista por natureza..." (200)"A mensagem da história contemporânea é clara: cultura sem instrução colectiva é uma vã nostalgia conservadora; instrução sem cultura, uma atrofia do desenvolvimento." (207)"Já se observou que o único verdadeiro objecto da educação é deixar um ser humano em condições de fazer permanentemente perguntas. Justamente porque nossas massas industriais instruídas são geralmente incapazes dessa vigilância crítica é que prosperam as superstições leigas sobre a sociedade (marxismo) ou a psique (freudismo e dissidências). Uma educação crítica (expressão no fundo tautológica) produz naturalmente agnósticos aptos a recusar racionalmente os gnósticos extraviados na modernidade e propensos a transviar a cultura liberal da democracia e do progresso." (209)"..."revoluções educacionais" que se limitem a ampliar o acesso à instrução são saltos desenvolvimentistas de fôlego muito curto. A universidade de massa, produtora em série de "idiots savants", não é uma resposta eficiente ao desafio desse desenvolvimento contínuo que é o destino do industrialismo. Pois uma população de "idiots savants" será sempre fácil presa do generalismo charlatão, assim como um mundo instruído mas inculto será indefeso ante as revelações profanas de pseudoculturas messiânicas, salvacionistas ou apocalípticas." (208)"Chesterton captou nada menos do que a essência da cultura no velho sentido humanístico da palavra: cultura como autocultivo, cultura como fenómeno eminentemente perfectivo." (212)**"...aspecto muito frequente dos humanismos antimodernos: sua aglutinação em seitas ideológicas. A história dos humanismos nos últimos cem anos prova que é bem alta a taxa de convergência entre o que chamamos de "humanismo excludente" e uma formação sociocultural bastante peculiar: a vanguarda. ...vanguardas foram os diversos grupos artísticos e literários que criaram o euromodernismo em luta contra o espírito dos tempos modernos, erigindo a ideologia estética em antítese da ideologia social. Vanguardas são ... muitas delas herdeiras confessas do rejeicionismo cultural euromodernista.Essas coincidências ... revelam, de um ângulo sociológico, o parentesco de todos esses humanismos: a sua natureza gnóstica, isto é, de conhecimentos "superiores", fora do alcance do homem comum - que essas ideologias se propõem justamente orientar, guiar e "salvar";" (196)"Somente o teor crítico da genuína educação poderá resgatar a arte do nosso tempo da mentalidade niilista em que ela mergulhou, ao exarcebar o impulso antinômico das vanguardas euromodernistas; niilismo sempiternamente repetido a cada nova proposta de (anti)arte, a cada novo idioleto repassado de preconceitos e crendices contraculturais, e cansativamente saudado por esse santuário do conformismo intelectual que é a crítica neólatra de arte, de literatura ou de espectáculos ... essa arte "radical" - como seus equivalentes literários - representa o ponto mais baixo, o nadir, de uma cultura estética que se deixou colonizar pelo rancor "humanista" contra a civilização moderna. ... Uma arte que grita "pereat mundus" à história social não tem como enriquecer seu conteúdo - condena-se ao autismo da antiforma. Da desumanização da arte passa-se faltalmente à insignificância da arte, a uma produção artística cada vez mais irrelevante e supérfula, cada vez mais isolada da conversação inteligente e sensível da humanidade consigo mesma". (210-211)***"A lição de todos os grandes modernizadores ... consistiu em acreditar na eficiência de certas instituições, desmentindo implícita ou explicitamente quantos atribuíam [as] deficiências a factores étnicos ou psicoculturais. ... acreditar nas instituições não é uma fé cega. Não consiste em abdicar da consideração crítica de seus efeitos, limites e implicações. Por isso ... vivendo na atmosfera de livre exame inerente à sociedade aberta, exige o primado da moral de responsabilidade sobre a moral da convicção." (213)

publicado às 22:21

O liberalismo, de Merquior

por jpt, em 23.05.06

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José Guilherme Merquior, O Liberalismo. Antigo e Moderno (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, p. 57):

"Na cosmologia clássica da ideologia cívica, a praxis, a acção de homens livres, foi colocada muito acima da poiesis, a produção do trabalho manual. Por que motivo? Porque enquanto o objectivo da poiesis reside no produto e, portanto, em algo que ultrapassa a actividade que o produz, a praxis ou acção é um fim em si mesma. Smith foi o primeiro teórico social de importância a inverter essa valorização: em A Riqueza das Nações, a práxis de políticos, juristas e soldados é redondamente depreciada, enquanto a produção passa por cima. O comércio e a manufactura, e não a prática da política ou a actividade guerreira, proporcionaram o modelo da actividade meritória. E esta mudança de valores implicava o abandono da propensão elitista incorporada à saudade cívica."

publicado às 21:58


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