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Na semana passada decorreu aqui em Lisboa uma sessão comemorativa dos 40 anos de independência de Moçambique, a qual correu muito bem, várias intervenções muito interessantes. Foi na Faculdade de Letras, uma organização de Ana Paula Tavares e Fátima Mendonça, que tiveram a amabilidade de me convidar para falar. Integrei um painel com Sheila Khan, Delmar Gonçalves e Genitho Santana, dedicado às diásporas entre os países, os dois primeiros falaram de uma moçambicanidade constitutiva radicada (também) em Portugal e Santana sobre o actual processo migratório português para Moçambique. Eu estive na condição de velho, pois fora-me solicitado um depoimento como português residente de longa duração no país, e assim falei sobre a minha vida em Moçambique, algo que entendo como não diaspórico. Para isso li um texto, uma espécie de modesta fundamentação de uma intransumância identitária, atitude que penso obrigatória num antropólogo, agregada a um breve posicionamento político.

 

Quem tenha interesse em ler encontra-o clicando aqui: Depoimento nos 40 anos de independência de Moçambique.

publicado às 07:42

A Ilha em Lisboa

por jpt, em 03.05.15

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 (Ilha de Moçambique, fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

 

Anda um homem alquebrado, como se de colarinho apertado se tratasse. Convidam-no para jantar em casa amiga, lá residente casal companheiro de há décadas. Come bem e também bebe, conversa pelo menos tão bem. Afaga-se nisso. No fim trazem-lhe esta fotografia, a foto que é a "minha" Ilha de Moçambique pensei e senti logo quando a vi, há alguns anos. E dão-lha. O homem desalquebra-se, comovido.

 

Saí lá de casa alcandorado. Pronto a encontrar aquela luz, lá no fundo, nada exagerada como nunca o é o horizonte. 

 

publicado às 12:06

O Musgo

por jpt, em 19.02.15

Em 19 de Fevereiro fui viver para Moçambique, já lá tinha estado seis meses e tal em trabalhos. Foi em 1997, faz hoje exactamente 18 anos. Cada vez mais me convenço que errei agora, ao partir neste torna-viagem. Paciência, está feito. Telefonam-me de Maputo, a lembrarem a data, pretexto para a sorridente provocação "quando é que voltas?" em entoação de como se tivesse eu hora de chegada a Mavalane ... Sorrio, também, pois se nem visto tenho.

 

Para as machambas destes 18 anos e tal fico-me com este poema

 

 

Musgo

 

Dir-se-á mais tarde; 

por trémulos sinais de luz

no ocaso quase obscuro; 

se os templos contemplando

estes currais sem gado

ruíram de pobreza.

 

Dir-se-á depois

por púlpitos postos em silêncio;

peso também a decompor-se

no mesmo pouco som;

se desaba o desenho

da nave antes de fermentar

a cor da sua pedra,

como fermentam leite e lã

de ovelhas mais salinas.

 

Dir-se-á por fim

que nenhum tempo se demora

na rosácea intacta;

e talvez

que só o musgo dá, 

em seu discurso esquivo

de água e indiferença;

alguma ideia disto.

 

(Carlos de Oliveira, "Musgo")

publicado às 11:45

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 (foto do Luís Abelard, um amigo que faz saudades)

 

Sabia que o regresso a Portugal seria difícil. Durante os últimos anos fui muito solicitado por compatriotas (conhecidos, conhecidos de conhecidos, totalmente desconhecidos [auto-estrada do google]) com pedidos de ajuda para emigrar para Moçambique - como aqui narrei, pesaroso por não poder ser útil à esmagadora maioria. Mais que não fosse saberia por isso que para a gente da minha área (antes dita "humanidades") isto não está nada fácil. Quando há alguns meses decidi voltar ao país logo um amigo me escreveu "andas sempre em contraciclo", anunciando-me dificuldades. Escrevi então a algumas pessoas, que me aconselhassem o "que fazer?". De muitas recebi o silêncio - 18 anos fora é muito tempo, e a vida é a merda que é, e nós também o somos. Mas de outros amigos recebi então, e depois após aqui chegado, um apoio constante, como se irmãos uterinos, e queridos, fossem. Eles sabem quem são, não vale pena escrever-lhes o nome ("taggá-los", no português actual). Apoio companhia, e apoio profissional.

 

Enquanto termino a escrita de um trabalho que trouxe de  Moçambique meti-me a fazer um tardio doutoramento, em Antropologia no ISCTE. Não para ostentar o penacho do PHD, mas por razões pragmáticas: hoje em dia já tenho vários antigos alunos meus doutorados e, ainda que isso me dê muito  prazer, na concorrência no mercado laboral a profusão de graduações das novas gerações estralhaça-me. Para isso, sonhando fazê-lo rapidamente, pedi uma bolsa de investigação à Fundação de Ciência e Tecnologia, em Setembro passado, e comecei a frequentar aulas. 

 

Os juris de avaliação dos pedidos de bolsa reuniram em Novembro passado. Os resultados foram agora divulgados - dois meses depois das reuniões. Sim, dois meses depois!!! Em 2014/5 um departamento do estado português leva dois meses a comunicar aos investigadores científicos o resultado das suas candidaturas ... A minha candidatura não foi avaliada, um erro no processo de inscrição. Não fui só eu: o programa de inscrição de candidaturas da FCT é fraco, e permite erros na colocação das áreas científicas. Ouço dizer que há problemas semelhantes no sector de Engenharia. E sei que na minha área disciplinar, a Antropologia, houve imensos erros devido à falibilidade do sistema. Por isso este ano nesta nossa área de Antropologia houve mais candidaturas a investigações de doutoramento e pós-doutoramento não-avaliadas (liminarmente recusadas, por motivos informáticos) do que avaliadas (entre as quais se seleccionam as que serão financiadas). Uma desgraça, em termos disciplinares. E a comprovação, empírica, do mau desenho e péssimo desempenho daquele sistema informático.

 

Passei o fim-de-semana com isto na cabeça, a fingir-me inteiro - a desentender-me com as pessoas queridas que me rodeiam, que pouco disto perceberão. E a almoçar com a senhora minha mãe, que nada disto sabe. E a falar com a menina minha filha, lá em Bruxelas, que nada disto imagina. E a encenar-me carro de assalto blindado, como se esfuziante numa ida ao estádio de Alvalade. Hoje de manhã fui à FCT pedir informações sobre a possibilidade de pedir a revisão do processo. E por revisão entenda-se ser avaliado, apenas saber da hipótese de um hipotético financiamento. Que o fizesse, disse-me a diligente e simpática funcionária, que não desistisse, insistiu, humana. Mas avisando que o processo demorará dois ou três meses, nunca menos.

 

Saí para o ISCTE, tenho que acabar quatro textos, tarefas que me cabem no congresso da semana que vem, actividade inscrita neste eixo de actividade. Trabalho que me obriga a pagar uma jóia de 100 euros, hoje último dia por favor especial. Não, não ganho pelo trabalho, pago para o poder fazer! Para cumular este ramalhete ...

 

Desisto, avanço para casa. Elísio, que veio de Maputo em trabalho, ficou cá hospedado. Trouxe uma Jameson. Bebo meia dela na tarde, esqueço os textos (esses que tenho que pagar para os ler). E vou para a net, candidato-me aos primeiros dois postos que vejo: um em Moçambique, mas sei que será muito difícil obtê-lo, a começar pelo visto de trabalho, sempre tão difícil para um português. E a um outro, uma vaga vista na rede Linkedin, um posto no Afeganistão. Depois paro, bebo mais um Jameson, lembro-me da Carolina em Bruxelas nos seus 12 anos. E lembro-me, ainda mais, que tenho 50 anos - se calhar a minha época de afeganistões já passou. E como não teria sequer hesitado antes dela nascer.

 

Depois recordo-me do que disse o outro dia a um amigo, solidário, a oferecer-se para ajudar, "dispõe pá, não te ponhas com coisas ...", apesar de também ele agora na mó de baixo: "isso do orgulho é coisa de XX. Neste XXI não o podemos ter, ao orgulho". E associo-lhe a velha pergunta: "para que serve um blog?". E respondo-me: para procurar trabalho. 

 

E assim sendo: se alguém que passe por aqui souber de um trabalho disponível faça o favor de me avisar. De preferência fora daqui, foda-se.

 

[O meu currículo vital está aqui - e o meu e-mail está lá colocado].

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publicado às 17:35

2034

por jpt, em 31.12.14

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Este 2014 foi-me o pior, apesar de bem acompanhado nestes últimos, conseguiu suplantá-los e de que maneira. Mas hoje, dia de revelião, lembrei-me do de 1994, há vinte anos exactos, terminado em Pemba (e culminado na então discoteca Shiva) quando vinha da África do Sul. E nisso recordei a constatação de que 1994 terá sido o melhor ano da minha vida adulta.

Por isso, e para além de desejar um bom 2015 a todos os visitantes do ma-schamba, fico-me nesta impaciência: que venha 2034, que já percebi que a mim os pólos chegam-me de vinte em vinte anos.

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publicado às 18:51

No final do ano (2)

por jpt, em 30.12.14

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[Dançarina de tufo, foto minha (jpt), Ilha de Moçambique]

 

O mau ano está a acabar, segundo a lei das compensações o bom ano está a chegar. E prepara-se. Uma das coisas que me está a entusiasmar é um painel que co-organizo com o Pedro Pereira Leite e com o Maurício Barros de Castro, para a Conferência Europeia de Estudos Africanos [levou ECAS de acrónimo] no próximo mês de Julho, em Paris.

 

O  nosso painel tem como tema a música africana urbana actual, sendo que os termos "urbana" e "actual" são também assunto de discussão. Chama-se "Ruas em Chamas: músicas urbanas africanas entre resistências e insurgências". A versão actual do resumo está aqui (basta pressionar).

 

Acontece que o prazo final para a apresentação de propostas de comunicações é o dia 9 de Janeiro. Mesmo a seguir ao Dia de Reis boreal e exactamente na primeira semana de férias de verão austrais. Por isso aqui fica o "apelo aos textos", quem tiver interesse em participar no nosso painel poderá fazê-lo através deste sítio: "Streets of Fire"

publicado às 15:12

No final do ano (1)

por jpt, em 30.12.14

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[Painel em madeira, autoria anónima, Moçambique (1950-1960?). Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo]

 

Neste final do ano deixo aqui ligação para o último texto que escrevi em 2014, caso possa interessar a alguns dos visitantes. Chama-se "Trabalhar sob Moçambique: narrativa biográfica e investigação científica".

 

São breves 5 páginas onde procuro elaborar sobre a influência que os trabalhos de terreno em Moçambique em  mim tiveram no tipo de abordagem ao real. E, mais ainda, na atitude. Laboral e, espero, na vida.

 

Foi escrito por desafio do Pedro Pereira Leite. E apresentado numa sessão colectiva, que aqui narrei.

publicado às 14:47

Peniche

por jpt, em 10.12.14

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Peniche é tão longe como o é a Manhiça mas o certo é que não ia lá há mais de 30 anos, coisas da inércia. Quando lá terei ido? Não sei, pois constato agora que nem tinha memória da terra. O Pedro levou-me lá, coisas de ter ele uma actividade universitária de "extensão" na escola secundária local, a "Árvore das Memórias", assim a intitula ele.

 

Ao seu desafio logo disse que sim, pois para além de tudo o mais prometeu-me pagar o almoço. Assim fomos, bem recebidos na escola, um robusto edifício "Estado Novo tardio" (1957, acho) em muito bom estado, já bem acrescentado nesta alvorada de milénio. Assisti à sua sessão numa turma super-animada e enérgica de um curso técnico-profissional (daqueles que a chanceler Merkel nos recomenda), da qual gostei imenso, vinte jovens a desmontar as preconcebidas e preconceituosas ideias sobre a "decadência (geracional) do império romano".

 

A simpaticíssima colega que nos acolhera dera-nos um brifingue ("sinopse" em português arcaico) sobre a natureza e a sociedade penicheira, detalhando-se face à nossa particularmente enfática curiosidade gastronómica. Foi-nos assim recomendado o alfaquique frito com açorda de ovas ou um sequinho (de cantaril), não deixando de nos avisar sobre os "esses de amêndoa", ditos como prenunciando um júbilo final. O local que acabámos por escolher para culminar a nossa penichice foi o restaurante "Sardinha", do qual não retirámos razões de queixa. Ainda que, devido à situação proto-calamitosa que nos acomete, nós lumpen-intelectualidade, eu tenho prescindido das degustações regionais, algo mais dispendiosas, e me tenha ficado pelo quase-sempre prestável peixe-espada grelhado, um vintage dos frutos do mar. Mas que ali nem grande coisa. O Pedro sabe da poda e explica-me: "estão proibidos [pelo demo ASAE] de grelhar em carvão - só nas "festas" o podem fazer - e os grelhados ficam assim, desenxabidos". A ecologia tem custos, assumo.

 

Depois percorremos a Fortaleza, perdão, o Forte de Peniche. O Pedro doutorou-se sobre a Ilha de Moçambique, eu andei por lá bastante, aos caídos, isto de fortalezas (perdão, fortes) chama-nos, apela-nos. Surpreendeu-me o tamanho daquilo, imponente. E, sem saber da sua história, quem terá tido a ideia de a instituir assim, imponente, naquela ilha [Peniche era uma ilha? acho que o ouvi dizer]. Assim posta exige uma leitura sobre a história da estratégia defensiva desta nossa costa.

 

Percorremos o parco museu do forte, a lembrar a prisão do "Estado Novo". Depois todo o terreiro daquilo - tem um museu (municipal) que não visitámos e uns ateliers de artistas locais - uns guerreiros em metal a lembrar a arte étnica da África Austral d'agora, aquilo de transformar o espólio de armas em arte, mas aqui talvez com menos arreganho imaginativo. Acima de tudo fico estupefacto, de novo, agora vendo-o de dentro, com o tamanho do forte. E, claro, com o seu desuso. Que fazer do verdadeiro mamarracho? Vários edifícios, das várias levas de construção, devolutos. Parece-me aquilo aprisionado, ainda que já não prisão, da museologia. Turismo, serviços, comércio, algo tem que ali entrar, verdadeiro mausoléu de um tempo que vai passando. 

 

No final a exposição do centenário de Cunhal. Que fique explícito, eu gosto de Cunhal, por motivos estéticos e familiares. Mas o que encontro em exposição no edifício público é uma mescla da sua invocação e da evocação da prisão "dos tempos". É a narrativa PCP colocada em edifício público. É muito legítima, mas é isso. Como se entregássemos os palácios às narrativas monárquicas e os templos às narrativas eclesiásticas. Falta ali qualquer coisa, em termos de tratamento. Por exemplo? Visitámos a sala final acompanhados de um casal. Francófono. Nem uma legenda em língua estrangeira. O que restou do internacionalismo proletário?, pelo menos ...

 

publicado às 18:59

é madrugada ...

por jpt, em 22.11.14

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cheguei à casa d'antes que é agora a d'agora, estou sentado à secretária do meu pai no seu escritório. Ele não está, morreu há três anos. E o quanto gostaria ele de estar, pois amava viver. E quanto ironia, sarcasmo até, partilhariamos hoje, ao sabermos quem foi preso, que noite longa seria esta se fosse nossa e não só minha ...

 

Faz(es)-me falta. Mais até para estes momentos, parcos, felizes.

 

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publicado às 03:10

Joe Sacco

por jpt, em 10.11.14

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Vivo perto da Bedeteca de Lisboa, e tenho lá ido. Por isso apeteceu-me escrever sobre banda desenhada, a meter-me em coisas de que sei (mais) pouco. Deixei agora um texto longo na minha conta da rede Academia. Quem tiver interesse encontra-o clicando no título: "Joe Sacco: o engajamento denunciatório".

 

publicado às 18:37

Auto-sarcasmo

por jpt, em 05.11.14

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Acabaram os maços de "Peter Azul" que trouxe de Maputo: uma nova vida que começa.

 

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publicado às 10:52

Polissemia (? ...)

por jpt, em 04.11.14

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publicado às 22:46

O Senador na Bélgica

por VA, em 29.09.14

Para ti senador.

Estes romanos são loucos, mas isso também não é novidade.

VA

publicado às 10:21

Sobre Malangatana

por jpt, em 24.09.14

 

 

A fotografia é de cerca de 2005, eu e Ídasse pegámos nas nossas filhas, então tão pequenas, e fomos no fim-de-semana a casa de Malangatana. Ele estava a fazer um mural, e lá trabalharam os dois enquanto as petizas calcorreavam a área e trepavam aos blocos.

 

Foi um belíssimo dia, a recordar com saudade. Por essa mesma lembrei-me que aquando da morte de Malangatana o Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural (FUNDAC) me pediu para escrever o texto que a instituição apresentou por ocasião do seu funeral. Para minha memória guardei-o aqui. É um texto de ocasião (e que ocasião!). Deixo-o como memória do mais-velho.

publicado às 21:21

Mudanças na vida

por jpt, em 13.09.14

 

 

Uma enxurrada de mudanças na minha vida, existenciais e ideológicas. Aqui noto a primeira. Na sessão final do IX Congresso Ibérico de Estudos Africanos, acontecida nestes últimos dias em Coimbra, a agradável sessão convivencial entre os participantes, decorreu sob as vestes ideológicas destas paragens: o rissolismo.

 

As saudosas chamussas? Nada.

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publicado às 23:47


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