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Sócrates, a prisão e o Benfica

por mvf, em 17.01.15

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 A comunicação social dá conta que José Sócrates mantém uma luta feroz com o regulamentado na cadeia de Évora, estabelecimento onde é mais conhecido por 44, coisa que não lhe será estranha pois apelido de familia é coisa que nunca utilizou numa simpática proximidade, num tu-cá-tu-lá, numa, ainda que limitada, intimidade com o cidadão que decerto ao venerável leitor destas diatribes não escapou.

O caso agora relatado é algo complexo, de alcance jurídico-político-social duvidoso para incautos como este Vosso criado. Ao que se vai sabendo o 44 entrou para a choça com umas botas de cano, ao que parece curto - um tipo de calçado a que outros que não os eruditos jornalistas chamariam prosaicamente botins - mas os responsáveis da cadeia não querem saber disso para nada e proíbem o elegante e sofisticado recluso de as calçar, estabelecendo uma diferença entre as boutiques da Rodeo Drive ( Los Angeles) e o cárcere eborense que entendem, algo exageradamente, não ser uma colónia de férias. Por outro lado e muito bem, os advogados do 44, presumo que a pedido do próprio, pretendem que o seu constituinte enfie os delicados pés onde muito bem lhe apetecer e sem restrições. Não é conhecida a argumentação para a modificação da medida inibidora de uma das mais amplas liberdades individuais, ou seja, calçar-se a gosto, a contento do 44, mas a capacidade extrema até agora patenteada pelos causídicos por ele contratados leva-nos a ter a maior confiança na forma como irão descalçar esta bota, ou melhor, este par de botas, sabendo-se já que apresentarão a breve trecho um recurso junto da Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais que espera ter efeitos suspensivos sobre a utilização dos chanatos.

Não é nosso hábito brincar com assuntos delicados e sérios e estamos convictos que este é um combate digno de um homem que esteve tantos anos à frente do país com tão bons resultados como se tem provado  - esqueçamos por ora alguns deslizes menores como o aeroporto de Beja, já que no tocante ao processo do futuro aeroporto/ trapalhada da Ota é preferível passar um pano com Sonasol não vá alguém lembrar-se de pedir ao Costa de Lisboa neste ano em que pretende chegar aos comandos do governo da gasta Pátria, que explique a cerrada defesa da extravagante e cara solução numa posição que com a Câmara no regaço rapidamente abandonou..., as auto-estradas e estradas transformadas em scuts do interior do país que os automobilistas, teimosos como muitos e ingratos como poucos, insistem em não utilizar com a frequência esperada, alegando ser demasiado barato o pagamento por cada meia-dúzia dequilómetros desconfiando assim da qualidade da generosa oferta e preferindo utilizar as velhas estradas municipais que, apesar da falta de conservação, dão para os gastos, ou os mais de 150 milhões oferecidos a consultores sobre a viabilidade  do TGV  que ao não entrar nos carris evitou que mais 11 mil milhões de Euros fossem ao ar segundo o  insuspeitoTribunal de Contas... A talhe de foice, lembremos o que se gastou nos 10 - estádios - 10 (!) de futebol para o EURO 2004 do nosso contentamento e suas acessibilidades, responsabilidade directa do governo de António Guterres e do seu dilecto ministro que tutelava o desporto, o eminente Engenheiro José Sócrates. Essas contas, caladas, que puseram a corda ao pescoço de tantas autarquias deviam agora ser lembradas bem como o homem que segundo o 44 liderou todo o processo de candidatura à realização do evento, o Sr. Carlos Cruz, também ele preso. Na sua visão, como a de quase todos os presos e condenados de Portugal, uma injustiça, uma perseguição pessoal rotulada, também ela, como infame. Devia mesmo, e dando crédito a destacados membros da sociedade lusa (não confundir com a SLN, valendo o éne como negócios ou negociatas, do BPN), pensar-se em eliminar a Justiça ou, pelo menos, limitar-lhe a  daninha actuação quando agarra quem não devia, destabilizando interesses privados que são muitos deles públicos. Não chegando a esses extremos, a nossa proposta também aponta no sentido de deixar em paz e sossego os mais "poderosos" entrando com humildade por um postigo semiótico. Altere-se ligeiramente o que se entende geralmente como símbolo da Justiça, melhorando-lhe a imagem. Deste modo, voltar-se-ia atrás, aos tempos da Grécia pré-FMI/Tróica e a estatueta de Thémis (ou de Diké) destaparia os olhos para melhor ver as iniquidades que se vão praticando ou, numa versão mais rebuscada, trocar a conhecida venda (significante: tratar todos por igual, sem distinção, com imparcialidade) por um avental, uma espécie de manto diáfano à la Eça que se arranja em qualquer loja e que tapasse as vergonhas (entenda-se vergonhas como partes pudibundas).

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 A deriva já vai longa e não tem o estimado frequentador deste estaminé mais tempo a perder, roído que está de curiosidade e minado na sua infinita paciência. Aqui vai o que falta:

Aqui há uns dias o Sócrates recebeu uma visita de um seu correlegionário, desta feita não do Partido Socialista mas do Sport Lisboa & Benfica. Falamos do tão famoso como extraordinário "Barbas" que se tirou de trabalhos e foi visitar o 44. Para lhe alegrar a forçada estada levou como oferta um cachecol e um édredão da colectividade desportiva de que ambos são ferverosos adeptos. Acontece que o regulamento de uma cadeia pode ser diverso das congéneres mas, como se vê nas séries televisas policiais americanas, um cachecol pode tornar-se em perigoso adereço, servindo, por exemplo, para um gajo em desespero se enforcar, ser enforcado ou enforcar alguém. Assim sendo, talvez o 44 devesse agradecer o cuidado que com ele e com os seus companheiros de infortúnio vão tendo lá na choça eborense, magnífico exemplar do género que aqui há anos enquanto primeiro-ministro requalificou para melhor receber criminosos de outra estirpe, gente de outro gabarito, que não a do vulgar assaltante de beira de estrada, do pequeno traficante ou do típico carteirista da baixa lisboeta. Por vezes discutimos regulamentos sem conhecer os seus fundamentos. Como mero temos que a vetusta penitenciária de Lisboa (E.P.L.) não permite a entrega de uvas aos presos. Incrédulos perguntamo-nos a razão do que parece ridiculo mas afinal não mais é a pretensçao de evitar que o detento mais industrioso transforme o apreciado fruto em vinho, podendo com isso levar a estados de embriaguez mais adequados em discotecas e bares do que em casas de reclusão. Como este há outros exemplos regulamentados que sugerem haver alguma atenção à tensão que naturalmente existe numa cadeia, precavendo males maiores.

Com tudo isto não se pretende retirar qualquer mérito ao Papillon do Largo do Rato na sua luta incessante contra o estado da Justiça e no qual não terá reparado nos 6 anos de chefia do Governo. Perseguido agora como benfiquista que é, depois de o ter caçado como político como muitas vozes declaram e não como criminoso comum que a mesma Justiça entende ser. Qualquer dia ainda o perseguem como Testemunha de Jeová ou coisa assim...

Caramba! Perseguição política e também desportiva não está ao alcance de todos e inquieta o mais pacato contribuinte. Solidário que tento ser, entendo que todo o preso deve ter o direito a usar com orgulho e pundonor o cachecol do Benfica.

Força nas canetas Zé, nem que seja na esferográfica vermelha com que mandaste à merda todo um jornal numa das tuas missivas. A luta continua!

 

Post-scriptum:

a foto que ilustra o postal mostra interesses comuns entre Vale e Azevedo e José Sócrates aquando do Euro 2004 e não me altera minimamente  a infundada certeza que se trata de inocentes. 

publicado às 19:30


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