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Um do Rui Knopfli, para o final

por jpt, em 19.11.15

Ao ma-schamba comecei-o há 12 anos, lá em Moçambique, não por este monopolizado mas sim dele alimentado. Anos depois juntaram-se aqui bons amigos, pela tal amizade mas também por motivos das suas atenções ao país que nos encantara, a cada um de sua maneira. A vida correu-nos e o antes tornou-se distante. E nisso, por assim, o blog foi fenecendo, injustificado até. Terminamo-lo aqui. E se começou com um excerto do grande Rui Duarte de Carvalho ficará bem terminar com um poema de Rui Knopfli, para marcos não se podia pedir mais. Ficam os agradecimentos a quem leu, aturou, gostou e/ou resmungou.

 

Invernal

 

Corre já um arrepio pela crista

de Novembro. A imprevisível surpresa

da luz de inverno é a sua agressiva

doçura horizontal. Toma-se de frio

 

o ombro esquerdo, a moinha persistente

espreitando o coração cansado.

Subo devagar o Mall e a luz

fere-me os olhos frontalmente, filtrada,

 

fina e branca, quase paralela ao solo, 

como em África nunca aconteceria.

Perpendicular, fita-me de frente,

rasante ao chão como se lhe pedisse

 

que, por fim, me receba. Novembro,

agora pressago, Novembro, agora

sobre o ombro esquerdo, baixando,

insidioso, sobre o lado dito fatal.

 

Rui Knopfli.

publicado às 17:10

O discurso de Mia Couto

por jpt, em 03.09.15

Mia-Couto-exibindo-o-Certificado-do-doutoramento-H

 

 

Mia Couto recebeu ontem da Universidade Politécnica o título de doutor honoris causa. Na ocasião proferiu um intenso discurso [versão integral]. E muito interessante, um verdadeiro documento para se abordar o ambiente cultural do país e, nisso, também o político. Mia Couto é um homem muito gostável: acessível, afável, encantador mesmo. E um cidadão muito empenhado e corajoso. (Ao longo dos anos aqui tenho repetido, em vários postais, este meu entendimento que é apreço). E é um escritor muito gostado, daqueles a que os leitores não só aderem à obra como também ao homem. A esse propósito lembro-me de um pequeno episódio que disso julgo denotativo: quando atribuíram o Nobel da Literatura ao francês Patrick Modiano procurei informações sobre o escritor, que desconhecia (afinal já tinha lido um livro, "Dora Gruber", que pouco ou nada me dissera, tão pouco que o esquecera). Via Google fui parar à página no Facebook dos seus admiradores, tinha pouco mais de 2000 inscritos. Nesse mesmo dia acedi a uma das várias páginas-FB dedicadas a Mia Couto, a qual tinha mais de 100 000 inscritos! Pequenos detalhes decerto, mas que indiciam o fervor com que os admiradores o seguem, lendo e aplaudindo. E esse fervor, que em Moçambique é também, e muito normalmente, polvilhado de orgulho pátrio, tende para o unanimismo na recepção das suas obras e das suas opiniões, uma aceitação acrítica.

 

É um pouco esse o desconforto que sinto na leitura deste discurso. Que é, como disse acima, um documento para se ler o Moçambique de agora e de antes. Tem um conteúdo social retumbante - é absolutamente delicioso, antológico mesmo, o episódio do jovem que gostaria de ser honesto mas ao qual falta patrocínio para tal: se non è vero, è ben trovato. E uma vertente política notória, à qual é difícil não aderir, na defesa de valores pacíficos, de aversão às disparidades, de defesa do diálogo e da inclusão. Que corresponde, de modo quase explícito, a um rescaldo muito crítico do período presidencial recentemente terminado. Algo que se articula, sublinhando, na sua coincidência com as contundentes afirmações proferidas nesta mesma semana durante o julgamento em Maputo de Castel-Branco e Mbanze, ainda para mais divulgadas pela imprensa nacional em directo. São dois momentos simbólicos muito fortes, em sequência, assim uma semana a recordar em termos políticos, no que se configura como a reutilização explícita do património moral e ideológico samoriano pelos intelectuais nacionais, em contramão à utilização da figura do primeiro líder nacional que o estado vem fazendo nos últimos anos. Se este em busca de legitimação agora em modalidade de crítica (prospectiva).. Mas sobre esse conteúdo político não me cumpre opinar, estrangeiro e vivendo à distância, ainda que me permita pensar que seria (e será?) bom que os termos da sua elaboração sejam discutidos.

 

Mas fundamentalmente o que me toca é outra coisa. Sei que a maioria dos jovens moçambicanos pouca ou nenhuma literatura lê. Ao longo de anos a maioria dos alunos com que trabalhei o referiram. E aqueles poucos que o tinham feito (ou faziam) ao anunciarem os autores já lidos sistematicamente lembravam Mia Couto e, ainda que muito menos, Paulina Chiziane. E, só depois, Khosa. E de literatura estrangeira, tão menos acessível e tão mais distante, muito menos ainda, algo verdadeiramente raro. Assim, para muitos o Mia é a porta de entrada da literatura. E creio até que para vários também, infelizmente, quase a de saída. É nesse contexto que me custa ler a sua concepção utilitária de literatura, ainda para mais porque prevendo (e já assistindo) à aceitação do discurso (algo agora mensurável na rapidez do "partilhar" e "gostar" no mundo internético). Pois para Mia Couto a literatura está ali para "resgatar ... [a] moral perdida" sendo o " mecanismo mais eficiente e mais antigo de reprodução da moralidade" passando "não apenas sabedoria mas uma ideia de decoro, de decência, de respeito e de generosidade". Uma subalternização da literatura a uma função social e política, como se alimento da construção e reprodução nacional. Esta posição do escritor é conhecida, até porque a pratica. E é legítima, a cada um a sua opinião. E muitos dirão que corresponderá também ao seu contexto biográfico, aos constrangimentos e urgências que entende no seu país. Mas o que (me) custa é saber que pela sua influência vai penetrar o entendimento dos que ali, apesar de tudo, vão lendo. E que assim se podem deixar algemar pela ... moralidade. Esquecendo ou desconhecendo um velho ditado do colono (ou próprio, pois tantos dos leitores são portugueses): que de boas intenções está o inferno (literário) cheio. E assim torcendo o nariz a quem aparece a dizer que nisto de leituras (e até de escritas) o bom mesmo é a ... amoralidade.

 

publicado às 18:26

Ba Ka Khosa amanhã em Lisboa

por jpt, em 16.06.15

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Amanhã, ao fim da tarde, lá naquela Lisboa, ao pé da estação de metro do Chiado, na livraria Bertrand, será apresentado a edição portuguesa do livro Choriro, o mundo zambeziano que o grande Ungulani Ba Ka Khosa publicou em 2009. A oradora será a escritora portuguesa Lídia Jorge - a qual tem uma mozambican connection, fruto do seu "A Costa dos Murmúrios".

 

Espero que a sessão seja um sucesso, que o livro se venda, que o boca-a-boca funcione. E se algum por lá visitante por aqui, ma-schamba, tenha passado, faça o favor de dizer ao Ungulani que este Teixeira (aka jpt) lhe manda um abraço, de saudades preenchido.

 

publicado às 22:42

No feedly (33)

por jpt, em 21.05.15

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- "Tufo: património cultural de Moçambique", no Buala. Um texto algo ligeiro mas interessante de Hélio Nguane sobre a dança moçambicana. Abordando, acriticamente, essa deriva actual, a da "patrimonialização" (via UNESCO) das expressões culturais, o arremedo folclorista dos dias d'hoje - que em Portugal tão bem conhecemos, do fado aos chocalhos, para não falar do inenarrável episódio do "cante" alentejano ("canto", em português padrão).

 

- A taxa única dos taxis no aeroporto de Lisboa, no A Origem das Espécies.

 

- Je suis Vilhena, no Book Loving Girls.

 

- O país dos outros, Rui Knopfli editado em castelhano, no Da Literatura.

 

- "Eu não faço parte do grupinho ACAB (All Cops are Bastards). Criticar a atitude daquele polícia e desejar que seja exemplarmente castigado não é colocar em causa a PSP – é defendê-la.", sobre o espancamento de Guimarães, no Bitaites.

 

- Pior era impossível, sobre os custos do marketing (eleitoralista?) da Câmara Municipal de Lisboa e da Polícia nas comemorações da vitória benfiquista, no Blasfémias.

 

- 1776: the revolt against austerity, on New York Review of Books Blog.

 

- Sobre a visão da ciência de Mariano Gago, no jornal i via De Rerum Natura. Não é para agora, só para daqui a alguns anos: Gago foi muito importante na concepção nacional da investigação, e nisso ímpar agente de desenvolvimento do país. E foi também ministro conivente com o "socialismo" craxiano que devastou o desenvolvimento do país. Como - daqui a uns anos - iremos olhar para a sua obra, se vista de modo abrangente? (Já agora: faz hoje seis meses que Sócrates está detido, esse que em pleno conselho de ministros gozava, primus inter pares, com as acusações à sua "licenciatura", dizia quem lá se sentava).

 

- O arquitecto do Café Majestic, no A Cidade Surpreendente, blog dedicado ao Porto, cidade de que ando a aprender a gostar.

 

- Who's afraid of african democracy?, no New York Review of Books Blog.

publicado às 21:50

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Francisco Noa acaba de receber, hoje mesmo, o Prémio de Literatura BCI 2014, que lhe foi atribuído a propósito do livro "Perto do Fragmento, a Totalidade. Olhares sobre a Literatura e o Mundo", uma preciosa colectânea de ensaios à qual juntou uma série de prefácios, apresentações de livros e textos de opinião.

 

Este é o prémio literário mais importante no país, agora pela primeira vez atribuído fora do eixo ficção/poesia. É uma jubilosa notícia. Pelo reconhecimento público que implica a um intelectual de grande densidade. E inflexível, no compromisso que assumiu com a reflexão, sem ademanes nem facilitismos de ocasião. 

 

Quando este livro foi publicado botei aqui nota da sua apresentação pública. Na altura escrevi, e agora repito: "Francisco Noa é um tipo que vale. Exemplar. No registo pessoa, amigo. Como intelectual.". Acho que disse tudo o que senti dizer. E, também por isso, a minha alegria neste dia.

publicado às 18:01

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Na próxima quarta-feira, 26 de Novembro, assinalar-se-á em Lisboa o cinquentenário da publicação de "Nós Matámos o Cão Tinhoso" de Luís Bernardo Honwana, livro crucial na literatura moçambicana. Na Faculdade de Letras será apresentada uma reedição (comemorativa), editada pela Alcance. E acontecerão conferências e conversas dedicadas ao livro e seu contexto, contando com várias participações, entre as quais Fátima Mendonça, Maria Alzira Seixo ou Luís Carlos Patraquim.

 

Quem quiser consultar o programa das actividades, que decorrem durante todo o dia, bastar-lhe-á para isso clicar aqui. Até quarta-feira.

 

 

 

publicado às 13:48

A lembrar Craveirinha

por jpt, em 18.11.14

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Pinto Lobo, leitor de quem já falei, e que há uma década tem a paciência de aturar o ma-schamba e de me ir mandando documentação, enviou-me há algum tempo um texto que o escritor João Reis escreveu quando José Craveirinha morreu, já no longínquo 2003.

Partilho-o aqui.

 

E deixo-o também assim: 

 

Ao Meu Belo Pai Ex-emigrante
 
 
Pai:
As maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
Ante os meus sócios Bucha e Estica no "écran" todo branco
e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: - "Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém."

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Aljezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o "Trinta-Diabos" de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de "bicicleta" à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas do Circo Pagel
nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no "xituto" Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen OSullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de Trazan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o "Cascabulho" para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardino, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofisma nas covinhas da face
e eu também Ee que musámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de sécuas ávidos sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das úmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza realgarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!

 

 

publicado às 01:31

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Nesta edição do CULTURA. Jornal Angolano de Artes e Letras, nº 67 (basta pressionar o título para aceder) está uma entrevista com Francisco Noa (páginas 13 e 14), homem sempre a escutar. Aqui aborda questões ligadas à utilização da língua portuguesa em Moçambique. Depois também, e com algum detalhe (o possível) numa entrevista a um periódico, a situação na literatura moçambicana. Destaco, para os interessados, as suas referências aos novos autores que se vão destacando.

 

publicado às 05:45

Há algumas semanas quando Eduardo White morreu escrevi um texto sobre ele (que se calhar deveria ter escrito quando ele em vida), sobre a aventura que foi a edição de um livro por ele organizado "Rostos da Língua. Breve Antologia de Autores de Língua Portuguesa".

 

Escrevi-o com os meus livros já empacotados, encerrados num contentor, tal como o meu computador imóvel, ali esperando uma travessia transoceânica. Ou seja, as imagens e fotos que vim digitalizando. Portanto procurei na internet uma imagem da capa do livro, para encimar o texto, e não a encontrei: o que demonstra bem o menosprezo (para não dizer pior) do Instituto Camões por uma edição sua (ainda que a chancela fosse, então, tripla). Nem lhe digitalizou a capa, nem o terá distribuído de forma a alguém o fazer - e nem vou recordar as microdicências que a este propósito ouvi dos então responsáveis daquela instituição. Adiante, descobri agora a imagem da capa do "Rostos de Língua" num álbum que fiz para o facebook, "livros relacionados com Moçambique", uma coisa mais ou menos insana, maníaca, onde vou juntando centenas de capas de livros que fui lendo ao longo dos anos.

 

Capa para o qual o Eduardo exigiu a presença da pintura do Naguib. Está aí, com o cordão envolvente lacrado, coisa que deu bom trabalho.. Lá dentro páginas A4, soltas, com poemas e excertos de prosa, para serem lidos, distribuídos, trocados, mastigados.

publicado às 10:35

 

 

Estante Austral (7)

“Canal de Moçambique”, edição de 24.9.2014

 

 

“Namacurra”, a I Guerra Mundial em Moçambique na banda desenhada de João Paulo Borges Coelho

 

Em 2003 João Paulo Borges Coelho publicou o seu primeiro romance, “As Duas Sombras do Rio”, cujo impacto logo o firmou como nome maior na literatura moçambicana. Condição que se sedimentou  pela permanente produção que se seguiu na década seguinte (“As Visitas do Dr. Valdez”, “Índicos Indícios I – Setentrião” e “Índicos Indícios II – Meridião”, “Crónica da Rua 513.2”, “Campos de Trânsito”, “Hinyambaan”, “A Cidade dos Espelhos”, “O Olho de Hertzog”, “Rainhas da Noite”). E que desde cedo foi sinalizado através da atribuição do maior prémio literário nacional, o José Craveirinha de Literatura de 2006, então atribuído ao “As Visitas do Dr. Valdez”, e, posteriormente do prémio Leya 2009, em Portugal, dedicado ao “O Olho de Hertzog”.

 

Todo este já longo programa ficcional e o relevo obtido tende, até paradoxalmente, a obscurecer as anteriores incursões do autor na banda desenhada. Algo que se deve também, é isso evidente, às características do contexto editorial moçambicano. Pois as três obras que publicou no início dos anos 1980s (julgo que entre 1980 e 1982, incerteza devida ao facto dos meus exemplares não estarem datados) estão esgotadas há já muitos anos, sendo inclusive quase impossível encontrá-las nos fervilhantes alfarrabistas das ruas de Maputo – isto apesar das tiragens de então terem sido bastante grandes, conta-se que na ordem dos 20 mil exemplares. Nessa já recuada época Borges Coelho publicou “Akapwitchi Akaporo Armas e Escravos” e “No Tempo de Farelahi” (Instituto Nacional  do Livro e do Disco) e ainda  “Namacurra”, este último na revista periódica “Kurika”, e do qual apenas possuo exemplar fotocopiado.

 

(O texto completo está aqui).

publicado às 10:25

Lisboa, o escaparate lusófono

por jpt, em 23.09.14

 

Digam-me resmungão, mal-disposto. Passeio por Lisboa, vou à Barata, ainda uma livraria. Ali me sentari, num longo café bebido em companhia de co-bloguista. Antes vasculhara as estantes e os escaparates, sem comprar que os parcos euros são para poupar. Dou, e bem central está, com este escaparate "lusófono": alguma literatura brasileira (Jô Soares, claro) e a africana "de língua oficial portuguesa" - ainda não lá vi nada da Guiné Equatorial, mas decerto que da próxima vez lá estará.

 

No referido "escaparate lusófono", aquilo que vale a pena ler, segundo a Barata (repito, que ainda é uma livraria), está ... o habitual. Basta atentar no que "telefotografei". Sem, resmungo (o tal mal-disposto), um único livro de Ruy Duarte de Carvalho (comprei um que me faltava, exemplar novo, editado em 2008, por 3 euros, na banca livraria da estação do Oriente). Não tem um único livro de João Paulo Borges Coelho (sabe-se lá porquê, continua a ser triturado pela sua editora, é uma vergonha).

 

E sem um único livro de António Quadros, mas isso já é um "traço cultural" português, sociedade incapaz de o apreender, que aquilo ainda afundava se o lessem ...

publicado às 11:56

 

 

Uma preciosidade, verdadeira, apresentada anteontem em Coimbra. Esta apurada colectânea das crónicas de João Albasini, trabalho de Fátima Mendonça e de César Braga-Pinto, publicada pela editora moçambicana Alcance. O livro será apresentado hoje, domingo, no Porto (Feira do Livro, Jardins do Palácio de Cristal, Galeria da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, às 19 horas).

 

João Albasini (1876-1922) é uma personagem crucial da história intelectual moçambicana. E já foi eleito como protagonista literário, por João Paulo Borges Coelho no seu recente "O Olho de Hertzog". O livro integra dois artigos contextualizadores, cada um deles escrito por um dos organizadores, a luso-moçambicana Fátima Mendonça e o brasileiro Braga-Pinto. Integra 97 crónicas, anotadas, publicadas nos célebres e fundacionais jornais de Lourenço Marques, "O Africano" (1908-1918) e o "O Brado Africano" (1918-1974).

 

No contexto da edição moçambicana e na bibliografia sobre a história de Moçambique este livro é um verdadeiro luxo. Um monumento imperdível. 

 

Agora vou lê-lo.

publicado às 09:37

Um atrevimento meu

por jpt, em 11.09.14

 

 

 

 

De amanhã a sábado decorre o 9º Congresso Ibérico de Estudos Africanos. Já abaixo referi que lá vou botar uma faladura. Mas também tenho outra sessão. Esta é mesmo um atrevimento meu, a meter a catana em machamba alheia (ou seja, como agora terei que passar a dizer, a foice em seara alheia). Este homem, João Paulo Borges Coelho, tem-se farto de escrever. E eu vou-me meter a falar sobre a sua ficção. O meu texto é um pobre esquisso (e um dia poderá vir a ser um pobre ... texto completo). Mas é o que é, e se vou ler um rascunho também o posso divulgar: meti-o aqui ("João Paulo Borges Coelho: uma geologia ética de Moçambique"), para consulta dos que se interessem. Mas vão lá com alguma ... predisposição para a solidariedade, sff.

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 03:07

 

 

Estante Austral (4)

"Canal de Moçambique", edição de 27/8/2014

 

 

"Rostos da Língua" de Eduardo White

 

 

Inesperada a malvada morte, a levar Eduardo White. Como acontece quando nos leva os escritores a fazer-nos revolver as estantes, vasculhar-lhes os livros. E, quando os conheceramos, a fazer-nos lembrar os episódios comuns, mesmo que secundários nas suas vidas.

 

Foi isso agora comigo, a empilhar-lhe os livros, voltando à frente e avançando para trás. E a recordar o White, o Eduardo e o Dino, conforme o tom do tempo. E do dia. Em particular a lembrar, com aguda saudade, os tempos em que ele produziu, muito mais ambicioso do que mero sonhador, o “Rostos da Língua. Breve Antologia de Autores de Língua Portuguesa”, uma edição de 1999, a cargo de uma coligação institucional (o Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, o Movimento Artistas Contra a Pobreza, e o Instituto Camões – Centro Cultural Português de Maputo).

 

É desse período que me ocorre falar. Que sobre o intrínseco da poesia de White outros deverão falar, respeitador que vou da especificidade do “campo poético”, um universo, exigia ele, de particularidades no sentir. Uma estética própria, à qual associava uma exigência de ética própria, inacessíveis, reclamava ele, a nós-outros, comuns mortais.

 

Eu conhecera o EW poucos dias após chegar a Maputo. Na inauguração do agora Camões Maputo, do qual vinha eu como responsável. Lembro que me deparei com um homem enorme, vigoroso e reclamando, sem pejo, uma qualquer desatenção que entendia terem-lhe feito. Tratava-se da preparação de uma mesa redonda televisiva, a transmitir em directo no então célebre programa cultural da RTP, o “Acontece”, responsabilidade do já falecido Carlos Pinto Coelho, também ele daqui oriundo, sempre amável e que então se desdobrava em afabilidade com o poeta. Aderi à sua atitude, mas realmente estupefacto, com a inesperada personagem. Pois lera-o superficialmente, sem verdadeiramente atentar. Não era aquele White que escrevera “As aves / também nós cantamos. / De resto é tão pouco / o que nos diferencia desses animais /quando dentro temos uma / que vive / e não dorme”? Afinal assim? De facto a ave era aquela, viçosa, tonitruante e não a engaiolada que eu, distraidamente, imaginara.

 

(O texto completo está aqui)


 

publicado às 14:47

Textos de Eduardo White

por jpt, em 27.08.14

(Eduardo White com Nataniel Ngomane, foto daqui)

 

 

Entre domingo, quando Eduardo White morreu, e ontem recordei no facebook (através da página blog ma-schamba e do grupo ma-schamba) alguns textos que ele enviara, em tempos recuados, para este blog. E ainda alguns apontamentos que eu fizera, a ele dedicados. Aqui ficam as ligações, em particular para os leitores alheios ao facebook (e a esses locais de acompanhamento deste blog):

 

- (15.5.2004): "Poema da perguntação".

 

- (28.2.2012): "A lusografia, a lusofonia e eu".

 

- (7.7.2004): "O poeta".

 

- (26.2.2008): "A Ilha (de Moçambique)".

 

- (12.4.2004): "Trecho do apassarado".

 

- (6.7.2004): "Requerimento".

  

- (22.2.2004): Um livro de Eduardo White, esse pardo mestiço.

 

- (24.10.2004): "Excerto do Manual das Mãos". 

  

- (7.5.2009): o meu apontamento "Manual das mãos".

 

 

publicado às 10:33


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