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"Lusofonia" e "cooperação"

por jpt, em 21.12.14

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Na decoração de um modesto restaurante italiano em Bruxelas encontro um painel composto por dizeres sábios em múltiplas línguas e variados alfabetos. E afronto a minha falta de cultura humanística. Pois passei anos neste ma-schamba resmungando contra a tonta ideologia da "lusofonia" e a tosca prática da cooperação (ajuda pública ao desenvolvimento) portuguesa.

 

Quando, afinal, bastaria ter afixado este dizer de João de Barros, que condensa (denunciando o seu tempo e anunciando o futuro tempo que é nosso). Ensinassem-no às gentes do Estado e que ao Estado ascende ...

publicado às 17:10

A esquerda que ri

por jpt, em 12.07.14

 

 

O Argentina-Alemanha vejo-o num bar, vindo de Mavalane onde me abandonara da família, ida "a banhos". Mesa alargada, gente conhecida, alguns amigos. O jogo cinzento, táctico diz-se, só lá para o fim nos animamos, até pela chegada de um argentino (celebrando pagando fartas rodadas). E por isso conversa alguma. Um bom amigo, profissional das empresas, sabedor dos bancos e das economias, vai-me abordando o "BES". E fala do DDT. Espanto-me, desconhecedor. "DDT"! diz, o petit-nom de Ricardo Salgado, o "Dono Disto Tudo" durante os largos últimos anos portugueses. Sorrio, sabida a condição desconhecida a denominação. Entretanto, resmungo, lá na "gasta pátria" desunham-se em partidites, "a esquerda/direita", como se assim não fosse, dele não fossem acólitos. "Pois", resmunga-me o amigo, nós na azia dos emigrados.

 

Apanho no Corta-Fitas eco de uma entrevista de Joana Amaral Dias, a antiga musa do neo-comunismo cool português: o "posicionamento esquerda-direita está ligado a uma estruturação psicológica que se dá por volta dos 18 meses". Assim "as pessoas de esquerda e de direita tem personalidade, cognição e ambições diferentes" e "aquilo que nós sabemos de uma maneira geral, é que a grande diferença entre os eleitores de esquerda e de direita é que os primeiros têm mais a capacidade de transformar aquilo que é inerente à condição humana, o ódio, o medo e a angústia, em laços com os outros – o tal poder para mudar". O grau de indigência é tamanho que nem vale a pena comentar. Mas lembrar quem a ouviu, ombreou, seguiu. A esquerda que ri, no vácuo recanto.

 

O Buala é um sítio muito interessante, sempre recomendável. Para quem não o conheça trata-se de um "portal multidisciplinar de reflexão, crítica e documentação das culturas africanas contemporâneas em língua portuguesa", indispensável para um olhar mais informado. Espanto-me diante de um texto acabado de colocar: "A subida eleitoral da extrema-direita na Europa", um texto assinado por Plataforma Gueto (e a nota de apresentação deste autor [colectivo?] é elucidativa). Poder-me-ia perguntar sobre a pertinência da colocação no Buala de um texto destes, cuja tese é uma imputação, a da assumpção das teses da extrema-direita (europeia) pelas forças partidárias actualmente no poder português. Mas isso são os critérios editoriais do próprio Buala, não me compete a mim delimitá-los, quanto muito notá-los. E, sobre este caso, lamentar a sua colonização pela agenda de luta partidária portuguesa, ainda para mais numa deriva deste tipo. Mas mais do que isso convirá olhar para este "texto" panfletário de acção política, com os ademanes académicos - as bibliografias, as citações de nomes célebres (Mbembe), cruciais na academia portuguesa (Valentim Alexandre, José Manuel Sobral) ou com situacional capital estratégico (Luís Bernardo Honwana, nome amigo e respeitável ali a dar muito jeito). Convém olhar pois o texto cruza a ideia (nela assenta?) do lusotropicalismo [e sua sequela lusófona] como molde intelectual da direita portuguesa (a tal difusa extrema-direita actual que quer combater). Nele, apesar das citações e das bibliografias, nada ocorre sobre a transversalidade dessas perspectivas. Trata-se, pura e simplesmente, de imaginar o "inimigo", e identificá-lo (delimitá-lo). O tempero "academicista" sobre um pensamento nulo. Uma bosta abaixo de cão. A conspurcar o "Buala, portal multidisciplinar de reflexão, crítica e documentação das culturas africanas contemporâneas em língua portuguesa". Ou não.

publicado às 09:20

O espelho do léxico

por jpt, em 01.06.14

 

 

Para quem vive longe custa ver como, enquanto os patrícios (e/i)imigram, o "país" se encerra sob si mesmo, no coro da inépcia da pequena-burguesia que vocifera, a mãozinha na anca, o falsete convicto, as certezas abespinhadas.

 

Estes dois pequenos exemplos lexicais são sintomáticos. Pois num país com décadas de lusofonice, entre os saudosistas que sonham a língua comum [se possível homografada] como o resquício possível da velha ordem colonial e os lusotropicalistas que se orgasmam a cada reviravolta lexical ou sintáctica a la Mia Couto, a reacção que houve a estes dois textos é intoxicante, mostra bem o putrefacto reinante.

 

Foram meses da rapaziada e raparigada mais à esquerda (mas não só) a gozarem com o "inconseguimento" avançado por Assunção Esteves. Vivendo num país onde o "desconseguir" é do quotidiano (e até simbólico) e vindo de um outro onde a "incapacidade" "inábil" tanto "desfaz", todo esse coro mui cioso da pureza da língua (intervalando a crença nas virtudes do "grande espaço lusófono") servia-me qual "cada tiro cada melro" - cada gozador cada morcão, sem hesitação.

 

Agora surge António Costa num cartaz apelando ao "capacitar". Logo leio meia dúzia de resmunguices com o termo, algumas até vindas dos tais eixos profissionais/hobiescos (e lobiescos, já agora) "lusófonos". Vivendo há anos num país onde "capacitar"/"capacitação" é uso corrente, mesmo profissional e institucional, numa relativa deriva semântica do velho "capacitar" qual "compreender", todas as risadinhas piadísticas de agora parecem-me de mestres-escolas de pobre paróquia.

 

Muita abertura ao "mundo", ao "enriquecimento" mútuo da língua, etc e tal. Mas bem bem à superfície apenas o mesmo de sempre, agarrados às pobres courelas, entre montes, até dos vizinhos pastores desconfiando que esses vão até lá acima, nisso vendo um pouco mais.

 

(Já agora, no minuto e pico que acima reproduzo de Assunção Esteves, política com a qual não simpatizo, diz ela mais do que dias a fio de facebook português ou de sessões alvares dos actuais "parodiantes de lisboa" feitos comentadores políticos. E o vazio das reacções gozadoras incrementa-me o grau "frustracional". Face aos bimbos que adoram o futebolês e perdigotam com algo que não lhes caiba no pré-google).

publicado às 00:15

Uanhenga Xitu

por jpt, em 15.02.14

 

Esta semana morreu Uanhenga Xitu, o delicioso escritor angolano. A quem nunca o leu deixo o "conselho", leia-o, é muito interessante. E, mais ainda, é saboroso. Há alguns anos foi  publicado em Portugal este "Bola com Feitiço" (dois contos: o mesmo "Bola com Feitiço" e "Mestre Tamoda") em edição de bolso, ainda andará pelos escaparates, será de fácil acesso. E por isso aqui o lembro. Em tempos deixei uma pequena nota de leitura sobre este livro [está aqui guardada], escrita porque me fez pensar na "modernidade" e na "lusofonia". Um livro que também se recomenda aos amantes do futebol (o conto "Bola com feitiço" é uma delícia para nós, "tribo do futebol").

 

Para relembrar ou como introdução ao escritor aqui fica este "apelo à leitura".

publicado às 08:35

 

[Fotografia de Sérgio Costa]

 

Anteontem Paulina Chiziane e Ungulani Ba Ka Khosa foram condecorados por Portugal, ambos recebendo o grau de Grande Oficial da Ordem Infante D. Henrique. Aconteceu numa gala televisiva, produzida para o efeito e transmitida por RTP e RDP (secções África), algo que me espantou, habituado a um diferente cerimonial estatal. Mas funcionou bem. Khosa falou e disse o fundamental, que estas condecorações reclamam a "cidadania diplomática" para a cultura, nisso saudando o actual embaixador português em Maputo (que é um homem a saudar, pois empenhado e clarividente) por ter a perspicácia de assim o entender e de o praticar.

 

A diplomacia cultural portuguesa (que integra a acção cultural externa mas nela não se esgota) tem sido, pelo menos nos últimos vinte anos, muito frágil e desconexa. Não por questões políticas ou (escassez) de recursos económicos mas devido a determinantes estruturais: as características culturais e as dinâmicas patrimonialistas da administração pública portuguesa. Factores que mais fazem louvar a inteligência em induzir e a capacidade de levar a cabo um acto destes, inusitado. O qual sublinha o óbvio mas tantas vezes esquecido: a diplomacia (e a política) é feita por pessoas, não por "estruturas" mais ou menos esconsas. Haja gente (assim)!

 

Na cerimónia acontecida pode-se retirar ainda uma actualização do modo como a administração e alguma intelectualidade portuguesas entendem o relacionamento com Moçambique e, por extensão, com os restantes países de língua oficial portuguesa. Khosa e Chiziane foram condecorados tendo em conta os seus méritos literários mas os fundamentos expressos foram também outros. Por um lado, como reconhecimento da sua importância sociológica, pois reconstrutores do conteúdo cultural do país. Por um outro lado, e com particular relevo, pela sua promoção do enriquecimento da língua portuguesa, em léxico, em sintaxe e, como Khosa sublinhou, na semântica, devido ao convívio com as suas línguas primeiras. 

 

Todos os locutores portugueses se referiram a esse assunto, à importância do trabalhos destes escritores no actual cerzir do português. O embaixador em Maputo, José Augusto Duarte, a apresentadora da gala televisiva Sónia Araújo, bem como (através de mensagens gravadas) o presidente Cavaco Silva e um conjunto de individualidades (Morais Sarmento, Rebelo de Sousa, Canavilhas, Moura Duarte e Rogeiro, sendo que este falou muito bem). O notável é que, num momento ancorado no reconhecimento da importância do trabalho sobre a língua comum, nenhum dos portugueses se referiu à "lusofonia".

 

Finalmente! Poder-se-á mesmo dizer que anteontem se assistiu ao (festivo) funeral dessa noção - cheia de subtexto colonial, incompreendedora -, tão dinamizada pela intelectualidade socialista em finais de XX, inconsciente herdeira da "visão do mundo" do republicanismo colonial, e nesse lamaçal intelectual incapaz de entender o mundo actual. Noção recuperada, há pouco, aquando da ascensão do novo governo, com os assomos de uma "diplomacia lusófona", jogada na luta do poder interna à actual coligação governativa. Mas agora com breve apogeu. Acabou. Resta esperar que a purificação nocional seja, efectivamente, acompanhada por uma maior capacidade interpretativa. E, assim, política.

 

 

publicado às 03:46

 

Pedro Correia é um jornalista português e fervoroso bloguista, animando, entre outros, os muito lidos blogs Delito de Opinião, onde também colaboro, e o És a Nossa Fé!, no qual também já escrevi.

 

Agora publica Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico, editado pela Guerra & Paz O livro já está à venda e será apresentado em Lisboa na próxima terça-feira, dia 21, a partir das 18.30, na Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa). O Pedro Correia é um adversário deste documento atamancado e do seu bafiento substrato político. E o livro é uma sua contribuição para uma desejável iluminação em Portugal.


Fica aqui o aviso para os visitantes que residam em Portugal, para a participação no lançamento, se possível. E para a leitura e divulgação do livro.


Por cá, em Moçambique, onde a questão acordista é verdadeiramente marginal, uma verdadeira intrusão externa, reina a ideia da sua inevitabilidade a prazo. Pois, indepentemente de ninguém subscrever argumentos positivos em relação ao acordado, a ideia que vai brotando nos discursos sobre o assunto é a de que o AO90 terá que ser aceite, para que não fique Moçambique isolado no seio dos países que usam o português. E até, infelizmente, algumas editoras nacionais se apressaram a adoptar o AO90 que não está em vigor, algo verdadeiramente incompreensível. Até sob o ponto de vista económico, dado que os seus livros não são exportados (nem exportáveis ...).

 

Será este livro, acessível e inteligente, uma boa ocasião para se reflectir e discutir sobre o assunto. Por isso fica o meu aviso para os livreiros moçambicanos, que importem este "Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico" da editora Guerra e Paz. Alimentando uma possível discussão sobre esta intrusão intrometida, inútil, atrevida. Uma rasteira lusofonice. Estou certo que haverá leitores. E, até, poderá haver debate público.

 

E, até, comprometo-me, alguma blogo-publicidade.

publicado às 07:29

Acordismo Ortográfico

por jpt, em 13.05.13

Shoprite, Maputo, porta de empurrar para a geleira das bebidas ...

Exemplo de fonética globalizante, aka glocalismos.

publicado às 20:18

Alguém me consegue explicar o que é o "neorealismo" que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Portuguesa, secção "Camões instituto da cooperação e da língua" apresenta em Maputo?

publicado às 21:59

 

Um bom artigo sobre o Acordo Ortográfico, de Vasco Graça Moura, devastando um pobre texto acordista de Margarita Correia. Para ler também António Guerreiro no seu "O AO90 e os seus trolhas", ainda que eu torça o nariz a um dos argumentos, isso do governo (que surge no texto no lugar de "estado") não ter legitimidade de legislar sobre a língua. Acho que sim, que tem (se assim não fosse quem o poderia fazer?). Deve é fazê-lo com ponderação. E sageza - que são coisas que, nitidamente, faltam ao estado português, grande turbo desta tralha.

publicado às 22:48

Semanário blog-in

por jpt, em 09.03.13

 

Uma muito interessante entrevista sobre Hitchcock, no Da Casa Amarela.

 

"Os problemas têm solução", um postal obrigatório, para pontapear a depressiva escatologia dominante.

 

Os Nossos Tempos, um blog dedicado em particular à astronomia e sua história. Vale para acompanhar.

 

"O melhor bordel do mundo", visitado pelo Pedro Bidarra.

 

Notícia da publicação de "Os Filhos do Zip-Zip", de Helena Matos, um livro que lerei. Fico até ansioso.

 

e,

 

Agradecimentos ao excelente sítio Buala, que reproduziu o meu texto sobre a imigração em Moçambique.

 

Continuo a resmungar com a "lusofonia". Agora nos comentários de um postal de Alexandre Pomar.

publicado às 04:14

A Lusofonia

por jpt, em 20.01.13

De ler é o artigo de António Pinto Ribeiro: "Para acabar de vez com a lusofonia", publicado no "Público" e transcrito no sempre imprescindível Buala. O que me custa é que ele seja escrito em 2013. Entenda-se, que em 2013 ainda seja útil, necessário, escrever isto. Significando que a pobre noção "Alimentada pela esquerda mais retrógrada [e patrimonialista, meu acrescento] e pela direita mais nacionalista e nostálgica do império" ainda subsiste em Portugal. E com algum vigor, como se viu aquando da ascensão do novo poder, nisto da lusofonice tão vácuo como o núcleo socialista anterior.

Década e meia depois de intelectuais de mão-cheia como Eduardo Lourenço, Alfredo Margarido e Miguel Vale de Almeida terem dissecado e desmontado o pobre discurso. Mas "a(quela) gente não lê", é o que é ...

jpt

publicado às 03:10

O valor económico da retórica?

por jpt, em 30.11.12

Chega-me por "correio-e" (as redes universitárias ...) a nota de imprensa do "Camões Instituto de Cooperação e Língua" anunciando o próximo lançamento do livro O Potencial Económico da Língua Portuguesa (coordenação de Luís Reto, publicação Texto).

A deliciosa nota de imprensa, com toda a certeza ecoando as concepções do livro, anuncia: Para 2010, o livro indica a existência de 254,54 milhões de «falantes nativos» de português, correspondente às populações dos 8 países de língua oficial portuguesa, o que compara com os ‘cerca’ de 400 milhões (os dados mais precisos divergem) de falantes de cada um dos universos de espanhol e inglês. Valor para o português que não compreende pequenos núcleos de falantes nativos noutros territórios (Goa, Macau) nem os emigrantes fora do espaço lusófono. Os autores reconhecem que «nem todos os naturais» dos 8 países, nomeadamente os africanos e os timorenses, têm o português como língua materna.

É o valor económico da retórica?

Passam as décadas e "isto" continua ...

Nota pé-de-postal: População de Angola: 18.056.072 (2011); População do Brasil 190 755 799 (2010); População de Cabo Verde: 523.568 (2011); População da Guiné-Bissau: 1.628.603 (2011); População de Moçambique: 23.515.934 (2012); População de Portugal: 10.781.459 (2011); População de São Tomé e Príncipe: 183.176 (2011); População de Timor-Leste: 1.201.255 (2011).

publicado às 11:21

 

Um excelente texto de Vasco Graça Moura. Sobre o acordo ortográfico e, a esse propósito, sobre o desnorte da sociedade portuguesa. Acertado. E doloroso. Partilho-o aqui, muito em particular para os visitantes moçambicanos. Porventura menos atentos a esta questão, que ainda não os assombra, pois vivendo em "país livre do acordo ortográfico". E para que não venham a cair sob o mesmo estrupício. E, já agora, para que possam fruir dos elogios que VGM distribui pela África Austral:

 

O Acordo, outra vez


As questões de fundo relativas à aplicação do Acordo Ortográfico continuam por resolver. Não entrou em vigor, mas há sectores, tanto oficiais como privados, em que vigora sem rodeios especiais o princípio do faz-de-conta. Faz-se de conta que o Acordo já se aplica de pleno e estropia-se alegremente a nossa língua. Jornais e editoras continuam a fazê-lo da maneira mais bárbara. Há já alguns livros importantes que saem cheios dos correspondentes aleijões. E eles só não vieram ainda afectar uma série de clássicos da língua pela razão singela de que cada vez menos se cura de editá-los e pô-los ao alcance de toda a gente.


Ninguém parece ter sequer acordado para a necessidade de uma revisão. As duas grafias coexistem, porque, felizmente, um quotidiano importante e uma grande parte dos colaboradores da imprensa lusitana se mantêm fiéis à grafia anterior e esta é, por enquanto, a única que, legalmente, pode e deve ser aplicada. Toda a gente sabe que é assim e não vale a pena repeti-lo.


É possível que o lobby das editoras, depois de se ter precipitado na adopção do Acordo em livros escolares, manuais, dicionários e agora noutras publicações, procure impor essa coisa sem nome em todos os sectores da vida nacional, em especial no escolar. Também é possível que o poder não saiba lá muito bem o que fazer, seguindo e alimentando, neste aspecto, a desorientação das escolas.


Os partidos políticos com assento parlamentar têm vindo a pactuar, sem excepção, com esse estado de coisas. Ninguém lucra absolutamente nada com ele. Mas tudo isso redundaria apenas num simples exercício de humor de gosto discutível, se não se traduzisse numa violência quotidiana contra a língua. E o certo é que, se as coisas continuarem assim, dentro de uma geração ninguém conseguirá pronunciar correctamente a língua portuguesa tal como ela é falada deste lado do Atlântico.


Por outro lado, o que interessa, para além da questão jurídica e cultural de fundo, é uma questão política assaz bizarra. E a questão política actualmente resume-se a isto: estão a ser aplicadas não uma, mas três grafias da língua portuguesa. A correcta, em países como Angola e Moçambique, a brasileira (no Brasil) e a pateta (em Portugal e não se sabe em que outras paragens). Os representantes dos Estados-membros na CPLP, esses, devem dar pulinhos de corça alvoroçada e do mais puro regozijo com tão portentoso contributo que a organização deu para unificar a grafia do português.


Enquanto se anda nestes preparos, toda a gente se esqueceu do famigerado vocabulário ortográfico comum. Onde pára o dito? Dele, ninguém sabe dizer nada, como da formosa Mariquinhas... Até agora, o vocabulário peca pela inexistência pura e simples e ninguém se preocupou com a superação de tão momentosa dificuldade. Ora não parece que actualmente, com as restrições que afectam tantas áreas da investigação e da diplomacia, haja qualquer possibilidade de ele ser concretizado.


Entre as consequências relevantes dessa inexistência conta-se a impossibilidade de aplicar o Acordo de cuja entrada em vigor o vocabulário comum é condição prévia, por muito que isso pese ao Prof. Evanildo Bechara, que lê a exigência correspondente como se ela unicamente se reportasse ao vocabulário técnico e científico. É de lamentar que, na pessoa do ilustre académico, a interpretação jurídica não consiga acompanhar o saber do linguista emérito.


Alem disso, é muito de estranhar que, no ano em que o Brasil se apresenta em Portugal e Portugal se apresenta no Brasil com tanta pompa e circunstância, nenhum dos países interessados tenha feito qualquer reparo à maneira como a grafia do português, que se pretende oficial e oficiosamente seja agora adoptada em Portugal, consagra uma série de enormidades que não estão, nem podem estar, a ser aplicadas no Brasil e que aumentam a desconformidade com a maneira como a língua se escreve de um lado e do outro.


Talvez tenhamos de esperar que se realize um ano de Angola em Portugal e de Portugal em Angola para o problema merecer atenção. E então não será de estranhar que tenhamos de agradecer aos angolanos um rigor na grafia da nossa língua de que, por cá, nós portugueses já não somos capazes.


jpt

publicado às 19:48

 

No final de XX Alfredo Margarido escreveu:

 

"Hoje, uma fracção substancial dos teóricos da "portugalidade", fazem da língua o agente mais eficaz da unidade dos homens e dos territórios que foram marcados pela presença portuguesa. Não tendo havido uma grande reflexão anti-colonialista antes das independências, registou-se a necessidade urgente de organizar uma ideologia explicativa: os portugueses foram obrigados a renunciar à dominação política e económica, mas procuraram assegurar o controle da língua.


O drama ... provocado pelo acordo ortográfico ..., deriva dessa inquietação: se a língua não for capaz de assegurar a perenidade da dominação colonial, os portugueses ficarão mais pequenos. A exarcebação da "lusofonia" assente nesse estrume teórico ..."

 

Diante da crise que avassala o meu país, um dia aqui botei: "Desabrigada no pós-1974 a sociedade portuguesa não desenvolveu a economia nacional, agora num contexto concorrencial, e abrigou-se sob o Estado, redistribuidor das benesses europeias (a “cooperação”, como se diz em África). Nesse processo a velha socioeconomia colonial tornou-se uma socioeconomia estatizada, via Estado central e via municípios (e escapámos à “regionalização”). As denúncias moralistas contra o “clientelismo”, o “caciquismo”, o “patrimonialismo” (“os jobs for the boys”) esquecem o acordo social que assentou nisto. Tal como há décadas atrás os teóricos marxistas falavam em “burguesias compradoras” improdutivas no Terceiro Mundo, assistimos ao crescimento de uma “sociedade compradora”, de bens e serviços. E o “FEDERismo” tornou-se o projecto português, não tanto o “federalismo” europeu.No fundo, de forma perversa e até contraditória, Portugal vive agora a efectiva descolonização, ou melhor, vive o processo de acolonização. O proteccionismo colonial morreu e o seu avatar proteccionismo estatal, que protegeu a sociedade após 1975 do embate externo, está moribundo. Há pois uma monumental incongruência (que não é apenas da discussão entre dívida pública e privada) na sociedade, entre o projecto produtivo e a auto-concepção de cidadania."

 

Vem isto a propósito da visita de ontem de Angela Merkel a Portugal. À noite ouvi, de raspão, o noticiário da SIC onde Miguel Sousa Tavares comentava essa visita. Tem mais de vinte de anos como figura fundamental da informação televisiva. Escritor afamado, de grande sucesso, gostado. Jornalista, director de publicações. Cronista, viajante, na imagem de cosmopolita. Homem ouvido, seguido. Filho de Francisco Sousa Tavares grande jornalista, advogado e político, entre tanta coisa também o homem que discursou no Largo do Carmo, voz do parto da democracia. Filho da enorme Sophia de Mello Breyner. Sobrinho do grande Ruben A. Casado com Teresa Caeiro, antiga governante, inclusivamente secretária de estado das Artes e Espectáculos (como se "Cultura"). Ponho aqui os laços familiares não por indiscrição, que são públicos e muito honrosos, muito mesmo. Mas porque sublinham o seu capital cultural, e social, a sua legítima pertença à elite cultural portuguesa, na qual não é arrivista. E na qual a sua biografia profissional o sedimenta. Com  isto tudo é pacífico  considerá-lo uma voz do olhar português sobre o mundo.

 

Irado, insurge-se Sousa Tavares que a tradução das palavras da governante alemã tenha sido em "brasileiro" - algo da responsabilidade da embaixada alemã diz-lhe a colega Judite de Sousa (um intérprete brasileiro? um alemão que estudou português no Brasil?) - pois "na nossa terra fala-se a nossa língua", diz o comentador, mais-que-ríspido.

 

Assim, sem mais, no país da lusofonia, esse paleio impensante, retórica vã perseguida desde o alterglobalismo a la BE de Boaventura Sousa Santos até à direita cristã dos paladinos ortógrafos, passando pelo magma inintelectual socialista-republicano até ao actual poder na velha retórica de Braga de Macedo e Morais Sarmento, eis, explícito, cristalizado, o que se pensa sobre a língua, a "nossa língua", com o "nosso sotaque", a que é legítima, o que é legítimo, para efectivar (nossas) portas dentro. Na crise, que se lixe a "lusofonice".

 

Diante da frase xenófoba, racista, colonial, do "dono da língua" "dono da terra" pensei que o dia seguinte fervilharia. De gente irada, democrática, inclusiva, solidária. Ou mesmo, pura e simplesmente, lusófona.

 

Mas nada, nem uma petição, nem um protesto, nem "memes" no facebook. Até gente tão participativa, anteontem revolucionária, furibunda no indignismo, tão atarefada em gritar contra a senhora do Banco da Fome que disse meia dúzia de vacuidades expressando algumas coisas nada populares mas não  tão desacertadas (Portugal vive estruturalmente produzindo muito menos do que consome, algo que o pensamento preguiçoso antropomórfico traduz como "vivemos acima das nossas possibilidades", como se isto (aquilo) fosse uma família) cala-se agora. Desatenta? Nada. Concordante, no tom xenófobo, no teor colonialista. Pois a uma (relativa) perenidade do enquadramento estatal da acção social corresponde uma manutenção cultural, profunda, a estruturar o olhar sobre o real, e o país.

 

Pois para as velhas "massas", cujo internacionalismo se acomoda na tasca onde se atafulham do molho do caracol, e para as elites, com um cosmopolitismo encerrado no bidé, que nem usam, no país o que se fala "é a nossa língua", o "nosso sotaque". Nem notam, nem atentam. A mentezinha colonial(ista), a superioridade pacóvia.

 

E depois, enquanto revolucionam, indignados, contra a "austeridade" que os fere, vão mandando para filhos e enteados, quando não para eles próprios, "ó socorros", "arranja-me um emprego" para onde outros, os "lusófonos" tão amigos que eles são, irmãos mesmo, falam a (afinal) "nossa" língua.

 

Tudo isto, toda esta gente, de sotaque certo e de língua certa, cheios de certezas.  A justificarem bem, infelizmente, todo o descalabro. De agora. E anunciado.

 

Amanhã? Lá estarão todos a ouvir o "miguel". E a indignarem-se.

 

Não há futuro. Com esta gente.

 

jpt

publicado às 18:49

Leitor amigo envia-me este cartaz do colóquio a realizar na próxima semana na mui bela Évora (a cidade mais bonita de Portugal, pelo menos das que conheço). Tenho muita pena de não ir lá, ainda por cima estando aqui tão perto, um pouco a sul. Pelo encanto da cidade anfitriã. Pelo que se come naquela terra. E porque o título do colóquio me cheira a "esturro" (aliás, lusofonices e hibridezes, o tralálá do costume), bom para dar caneladas, para a verve corrosiva e sarcástica dos após-repastos. Mas talvez o conteúdo drible o nome, assim podemos sonhar.

jpt

publicado às 16:56


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