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Maria Barroso

por mvf, em 07.07.15

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Morreu Maria Barroso. Conheci de raspão em meia dúzia de ocasiões, foi sempre muito simpática comigo mas não posso dizer mais do que isto. Sobre a sua vida pública tratam os jornais e a sua orientação ideológico-partidária pouco me interessa porque, pelo que  alguns amigos que a conheceram de perto sempre me disseram (e do pouco que vi), era uma Senhora, uma Amiga fiel como devem ser os Amigos e Mulher de enorme capacidade, o que ultrapassa, ou deve fazer ultrapassar, diferenças políticas. Fiz este retrato na apresentação da candidatura de Elísio Summavielle a presidente da Câmara Municipal de Mafra, um indefectível de Maria de Jesus Barroso, que aqui lhe exaltava as qualidades com uma energia extraordinária para o que imagino ser possível em idade avançada. Tenho algum orgulho neste retrato, um bom momento se me perdoam a imodéstia, que fica para eles, os seus Amigos, sobretudo para eles, como memória futura das pessoas relevantes  que nos vão passando pela vida.

publicado às 17:58
modificado por jpt a 12/8/15 às 10:55

Do que me ficou desta semana

por jpt, em 06.02.15

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Como disse aqui à semana que agora acaba preenchi-a com um congresso de ciências sociais, em Lisboa, ali ao antigo D.R.M. Cerca de 1500 participantes, mais os visitantes que iam só para ouvir alguma comunicação, bastantes portugueses, imensos brasileiros, escassíssimos congressistas vindos de outras paragens. Nestes cinco dias muitas conversas, algumas longas, muitas breves, com conhecidos ou neo-conhecidos. Num contexto destes fala-se de muitas coisas, claro, mas a política não falta, ainda para mais em época de "crise" e de syrizismo. Trata-se de um universo francamente à "esquerda", vem um pouco da tradição crítica das ciências sociais, vem também da própria história destes eventos (tratava-se do 12º "luso-afro-brasileiro").

 

E por isso retiro duas ideias da empiria acontecida. Apanhei um alargado punhado de colegas brasileiros bufando, autenticamente, com o PT, em particular com Lula ( e seu filho também) e com o estado venal do poder sob Dilma, ainda que diferenciando-a do seu predecessor. E isto, friso, verbalizado por gente que se anuncia como sendo (ou tendo sido) eleitor entusiástico do PT. Contrariamente, cruzei esta semana de inúmeros contactos com colegas portugueses sem que algum deles me tivesse referido o "affaire" José Sócrates.

 

Pois reina na sociedade lisboeta, apesar das primeiras páginas e das entrevistas na RTP, um silêncio sobre o ex-primeiro ministro, a esconder o desconforto que o eixo alargado dos seus (ex?)apoiantes sente. Isto mostrará, julgo e disso estou esperançado, que Sócrates é um cadáver político, impossível que se torna escamotear a gravidade das trapalhadas que o homem produziu quando alcandorado ao poder, pelo "povo", pela "classe média" e pelos "intelectuais profissionais tão apoiantes de Mariano Gago" - esta sequela actual do velho patrimonialismo de morgadio, isso do "dê-nos as bolsas de investigação que a gente dá os votos e o apoio público". Mas mostra também o vigor desta elisão higiénica que o PS intentou desde o seu congresso: não falar do assunto, deixar assentar a areia, enterrar o corpo malfadado. E regressar ao poder, sem reflectir no acontecido. Para fazer da mesma forma, claro que o mesmo. O primeiro passo, o de fazer as hostes (e os "amigos") assobiar para o lado está a correr bem, com competência.

 

A segunda coisa interessante ocorrida durante a semana foram as declarações de Soares, isso de "o juiz que se cuide!", dedicado ao juiz que enfrenta as referidas trapalhadas de Sócrates. Também sobre esta ameaça do antigo presidente nada ouvi, nenhum escândalo, nenhum remoque. Nem mesmo alguma "caridosa" redução do dislate a uma deriva anciã. Também aqui a lei da rolha partidária (ou amiguista) está a funcionar, e de modo bem competente. Nem mesmo aqueles que há mês e pouco tanto se indignaram com o poder timorense destratando os juizes portugueses aproveitaram o "intervalo para café" para se indignarem.

 

É certo que me baseio numa amostra muito pequena, ouvida sem qualquer sistema. Ficando-me num mero "achismo". Mas parece-me assim que a passadeira rosa está aí bem esticada, para que os futuros (antigos) possidentes nela ascendam. E isso assusta.

publicado às 21:07

Os noventa anos de Mário Soares

por jpt, em 07.12.14

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Hoje o 90º aniversário de Mário Soares. Sobre o homem o realmente fundamental está dito por Pedro Correia, no Delito de Opinião. Bem melhor isto com ele do que se sem ele tivesse corrido.

 

 

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(Os cartoons são de Augusto Cid, Rui Palma, João Abel Manta e António, respectivamente).

 

 

 

 

publicado às 15:46

O Partido Socialista de António José Seguro ganhou, como se esperava e como todos sabem, as eleições pr'á Europa. A compreensível alegria pelo feito levou Francisco Assis a um estado de euforia que só o líder acompanhou, ultrapassando-o até na demonstração do contentamento. Visto na televisão o espectáculo do dueto do Altis, em que só faltou ao par vencedor dançar o "Vira" para entreter a plateia, com um discurso de Seguro que soava a pré-escrito para outro resultado, ou seja, preparado para uma natural e estrondosa vitória que teimou em não se confirmar sobre a tão famigerada como estafada coligação de direita, a Aliança Portugal, que deixasse o Governo a pão e água, uma coisa parecida com o que se passou com o antigo ídolo e grande campeão do socialismo do nosso pobre Tozé e do imortal Mário Soares, o fracatível Sr. Hollande, que acabou a levar na pá da Le Pen sem apelo nem agravo, deixando a França ( e a Europa) em estado político-cataléptico. Ao mesmo tempo que Seguro expandia a sua alegria e debitava disparates fechado em si próprio e Assis dava trabalho às suas glândulas sudoríparas como habitual, iam-se sabendo os resultados e não parecia que a tal vitória fosse, afinal, de tal modo esmagadora que levasse o cândido Tozé ainda com o tacho ao lume, a reclamar uma maioria absoluta nas legislativas do ano que vem, sem sequer olhar para a gigantesca abstenção da paróquia, o recorde de votos brancos e nulos, o fenómeno Marinho Pinto ultrapassando o desfeito BE da surfista Marisa e nem dando confiança ao partido do meio da esquerda, o Livre do esquecido Tavares, ou o que se ia conhecendo dos resultados europeus, que se diriam preocupantes. De notar que uma vitória expressiva nem seria uma habilidade por aí além, dado o que a Aliança Portugal (PPD-PSD/CDS-PP ou melhor, PSD-PP...) tem feito "pelo" País nos últimos três anos, gerindo uma herança miserável  - que seria bom não esquecer, já agora! - mas estabelecendo prioridades a mando ou voluntárias com terrível indiferença pelos resultados na pele, na vida, de grande parte dos portugueses, a que consegue juntar uma ineficácia notável que pode sem grande dificuldade confundir-se com incompetência ou falta de vontade, sendo ambas miseráveis, e em muitos dos casos a quase estagnação, sobretudo, naquilo que se diz essencial, a reforma do estado e a  dieta nas gorduras do dito como a que o cabeça-de-lista Rangel fez com tão nítidos e bons resultados.  Enfim, nestas coisas já se sabe, os nervos apoderam-se de um gajo, dizem-se coisas que são coisas que se dizem (antigo provérbio árabe), e no que toca a Seguro, esperar mais do que ele pode dar é pedir a um cão que suba a uma árvore. Situações em que a ansiedade e a pressão aumentam e que podem acontecer a qualquer momento a todos nós, podem levar a desvarios variados e mesmo a ejaculações precoces, o que espero sinceramente, não ter sido o caso, mas convém que em cargos de responsabilidade extrema, as pernas não tremam, a voz se não embargue, os sentimentos não embotem a necessidade da acção rápida, eficaz e ponderada.  

De qualquer modo, mesmo o PS tendo ganho a corrida para Bruxelas, foi para alguns sectores do partido como se tivesse perdido e eis que com a luz verde que Mário Soares acendeu  quando disse que aquilo foi uma vitória pírrica, reaparece de imediato como eventual desafiante à liderança, o António Costa. Soares, macaco velho, sabe-a toda e com a alusão ao rei Pirro revelou indirectamente a todos os interessados o que sempre soube: Seguro não fará o PS voltar aos tempos áureos e dando o sinal, logo Costa se chegaria à posição de partida. Um pequeno detalhe que me entristeceu bastamente foi o momento escolhido por Costa para o anúncio do seu sacríficio pela Pátria: António Costa estava como presidente da CML inaugurando um monumento que homenageia a vida e obra de Maria José Nogueira Pinto, quando não se conteve e declarou a sua disponibilidade para outros vôos. Na minha terra chama-se falta de respeito e de decoro, mas deve tratar-se de uma questão geográfica.
Voltando à vaca fria, que é como quem diz, a António José Seguro, dele não se ouviu dizer que fosse um cinéfilo inveterado mas certamente tem conhecimento de uma ou duas fitas clássicas. Uma delas, deve estar agora a atordoar-lhe a existência, sobretudo se a sua imaginação lhe pregar uma partida, e é nestas alturas de intranquilidade que as partidas acontecem, que as surpresas saltam do breu, que os abraços podem apertar, por amizade e carinho, o papo aos mais desprevenidos, que mãos supostamente amigas podem esconder instrumentos que interrompam a circulação sanguínea para além de estragar a mais cuidada e elegante camursina. Se Seguro viu Psycho, mesmo que não tenha entendido o enredo, sabe que a partir de agora não pode tomar um duche retemperador e merecido porque por detrás da cortina pode vir um facalhão empunhado por algum seu correlegionário. Seguro, inseguro, pode ser levado a voar na tal imaginação e a prever um remake do filme do velho Alfredo, uma versão ainda mais aterradora, num género ainda por explorar cinematograficamente, o thriller musical. Uma história leve e alegre como o poeta que o apoia ou apoiava, com uma carga de "suspense", um vai-não vai, um mata-não mata prolongado e com um fim dramático: No fundo, um psico-drama musicado em que ele personificaria Marion Crane, substituindo Janet Leigh com enorme desvantagem para os espectadores, enquanto um outro Anthony que não  o Perkins, interpretaria na perfeição o faquista Norman Bates numa produção à Bollywood.
Será que Tozé se enfia na banheira ou deixa a higiene de lado?
Aqui fica, como refresco da memória, um trecho do filme original de 1960:

publicado às 20:46
modificado por jpt a 11/7/14 às 04:43

Mário Soares e os outros

por jpt, em 10.06.13

Tenho o facebook e a minha lista de blogs cheia das intervenções de Mário Soares, adversas ao governo português. Sobre este último já disse o que tinha a dizer no já velho dia 27.6.2011: um governo com o CDS/PP que coloca como secretário de estado um daniel campelo não tem qualquer hipótese, é mais da mesma merda, eco da corrupção do sistema político, então, na primeira era campelo, patrocinada pelo paupérrimo Sampaio.

 

Venho de uma função  oficial, o tal 10 de Junho das comunidades, onde encontro conhecidos e amigos, alguns funcionários outros nada disso, capazes de invectivar o presente e salvaguardar o passado. E assim a irritar-me, francamente. Amizade à parte fico irado. Gostam do passado, que regressa. Apreciam Soares (esse com o qual José Pacheco Pereira se apouca terminalmente, chamando-lhe agora "Presidente", como se estes cargos fossem imorredoiros, como se não fossem a termo certo, electivos, como se não fossemos nós uma república, e é pena ver um professor que respeitámos senilizar-se intelectualmente por mera estratégia, ecoando a parvónia protocolar americana, sacralizadora). Soares o do abraço, em visita oficial à Argélia, ao corrupto, corruptor Craxi, então auto-exilado pois procurado pela justiça italiana, tamanha a sua conivência com a Mafia. Os mesmos funcionários e outros nada disso que gostam de Sampaio, o presidente que foi abraçar o corrupto Abílio Curto, o presidente da câmara condenado à prisão (por "amizade", disse então em falso arroubo másculo, mascarando o pontapé dado na necessidade de defender a democracia e a tendencial limpeza do sistema administrativo-político).

 

Crise portuguesa? Sim, claro. A incapacidade de ver que a crise vem do populismo corruptor é sinal do profundo de que brota a crise. Não são os extremistas, adversários da democracia, que são os grandes inimigos desta. São estes aparentes democratas incapazes de encontraram as raízes sistémicas do abalo que sofremos. Da "banda do cavaco" a estes socialistas mediterrânicos. É refutando esta tralha, a formada nos 80s de Macau, socialista, podre desde então, e o bloco psd, germinado no cavaquistão. A democracia defender-se-á assim. Refutando esta escumalha, "presidentes" e não presidentes. Não topologicamente. Nunca com o amigo de mafioso Craxi ou com o amigo de corrupto Curto, nem com o gajo que ganhou upgrading da "Mariani".

 

Para a frente, democraticamente. E nunca para trás. E, nisso, claro, nunca com quem despreza a república, como agora o afinal servil Pacheco Pereira. Uma purga, é o que o país precisa. Já! Também, amizade à parte, diante dos funcionários ou nem tanto, amigos ou conhecidos. Assassinos do meu país. Por interesse próprio, alguns. Porque obtusos, outros.

publicado às 20:06

O Conselheiro Soares

por jpt, em 22.09.12

 

Maça-me o Mário Soares. Maça-me quase tanto como os assuntos graves de Estado o maçam a ele, ao que parece. O homem devia gozar a reforma, que se supões confortável, tomar conta do guito que os Portugueses sem recalcitrar enfiam na sua Fundação ano após ano e deixar a malta em paz. Não, Mário Soares pensa que está aí para as curvas e que pode dizer tudo o que lhe passa pela carola. Poder pode, é claro mas, por vezes, penso que não devia. Que diabo, o Dr. Soares a falar de finanças? Logo ele? Dirão os mais atrevidos que sim, que pode e deve porque de FMI percebe ele, que teve experiência de chamar quem ajuda a quem não se consegue ajudar. O homem teve o seu papel importante para o País, para o bem e para o mal. Foi um dos responsáveis pela descolonização que poderá ter sido a possível mas não a apregoada exemplar e que é bom não esquecer, fez frente ao Cunhal num tempo difícil para a gasta pátria, foi ministro, primeiro ministro, foi presidente da chafarica duas vezes, uma com o apoio do sapo engolido pelo PCP e outra a correr sózinho, escreveu, leu, veste-se melhor que a maltosa que anda pelo parlamento, sempre com uma gravatas a fazerem jus aos nós que apresenta, tem piada, é óptimo conversador, etc, etc. Perdeu fôlego e foi rabiado até pelo Alegre quando quis voltar ao mais alto poleiro de Portugal. Dele se diz que é mau de contas e que isso nem lhe interessa por aí além. Talvez por isso, defendesse que o Euro fosse o dólar da slot machine e carregando no on da impressora ao mesmo tempo que enfiando um chouriço no aparelho, automaticamente de lá saíssem porcos gordos e lustrosos. Nos últimos tempos anda a esbracejar contra tudo e todos, entende que o governo da geringonça devia ser derrubado, que a alemão e, sobretudo a Angela Dorothea, é pior que uma doença venérea, que a troica e os seus acordos impressos e assinados pelo ex-chefe dos socialistas não servem sequer para limpar o rabo a um cão vadio, que os seus amigos do FMI mais não serão agora que um bando de agiotas, etc, etc e etc. Pois cansa-me o Conselheiro Soares e tudo o que agora se vai mostrando nas redes sociais, de coisas que disse ou lhe puseram na boca, salvo seja qualquer segundo sentido, como atirar os colonos aos tubarões e outras pilhérias que, a terem sido pela ilustre e vetusta figura proferidas, mereceriam um tratamento menos cortêz do que até agora tem recebido. Esqueçamos também aquela cena que se lhe atribui de pisar a bandeira de Portugal, porque isso qualquer muçulmano irado faz com enorme facilidade com os símbolos que considera serem nefandos para o Islão, não lembremos que mal abriu a boca no tempo do daninho Sócrates enquanto este ia atirando areia para os olhos de toda a gente com a conivência dos Pinhos, dos Linos e sobretudo, do Teixeira dos Santos e tantos outros esmerdejados boys como o Campos das Obras Públicas... Esqueçamos isto e aquilo, esqueçamos que anda a apregoar uma possível e razoável por justa, rebelião popular e violência variada, avulsa ou organizada, há que tempos, esqueçamos que só não foi a manif anti-troica porque tinha de ir ao Algarve, senão lá estaria na 1ºlinha, combatente natural que é. O que me custa a aceitar, é que, sendo por direito próprio, conselheiro de Estado, num tempo em que vemos Portugal muito atrapalhado com um rombo no casco que só o dinheirinho que nos emprestam pode ir tapando, com gente incapaz de governar com capacidade e de nos dar esperança, o Dr. Mários Soares se pire da reunião, como diria o anafado Nogueira Leite, antes, muito antes do final. Aquilo, acredito que uma chumbada do pior, conhecido o tema e muitos dos circunstantes, é, apesar de tudo, o Conselho de Estado e quem lá está é porque quer e não a fazer um part-time para entreter. Lá porque se trata do Dr. Soares, já pode ir para casa mais cedo? Pode ficar a dormitar de pantufas enquanto o Presidente da República e os restantes conselheiros dão voltas à pinha a ver se isto não implode? Pode, claro que pode, apesar de ter ficado desperto aquando da vitória de Hollande como se dele próprio fosse, exuberante que estava e com uma das televisões, pelo menos, a mostrar o momento. Claro que a vitória mais que esperada do francês é mais importante que qualquer TSU que por aí venha ou deixe de vir. Afinal ele é Mario Soares e que se lixe o respeito pelas instituições e pelo País. Tem mais que fazer e só se espera que o seu motorista não tenha violado nenhuma regra do Código da Estrada dada a pressa em que o conselheiro estava para se ver livre da incumbência.Que querem? Maça-me o Conselheiro Soares.

 

 

Vosso

mvf

publicado às 21:51

O passado e o presente/futuro

por jpt, em 16.12.11

Dois textos a ler. Sobre o passado ler José António Barreiros: "Mário Soares: o perfume barato do contar". A nossa memória colectiva é muito curta e convém regressar à história da III República para se perceber as longas continuidades. JAB é um conhecedor de meandros, que não desvenda, e um muito diversificado bloguista que interessa seguir. E sobre o presente e o futuro um excelente texto de Manuel Maria Carrilho: "A dívida e a culpa".

 

jpt

publicado às 15:12

 

Ainda que nenhum vínculo a ele me ligue (um singelo voto em 1995 não me dá direitos particulares) considero importante um PS saudável para a vida democrática, em crise ou sem crise. Leio agora que Basílio Horta acaba de ser escolhido para vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Socialista. Abaixo critiquei algumas mudanças actuais naquele partido. Chega agora a hora de sinal contrário, a de saudar esta eleição que demonstra a vitalidade, um rejuvenescimento daquele partido. E como tal um contributo positivo para a vida nacional.

 

Aproveito para recordar um bom momento da carreira política de Basílio Horta, recolhido no Herdeiro de Aécio, e que procura simbolizar futuros contributos positivos deste contexto do PS. Passo a citar:

 

Vale a pena relembrar, já que vem a propósito, um saudoso debate presidencial travado nos idos anos de 1991, entre Mário Soares e Basílio Horta. Preparava-se Soares para fazer mais uma vez o seu papel de patriarca, que lhe era habitual naquela campanha para a sua reeleição (os passeios na avenida ainda deviam ser higiénicos…), quando Basílio deu em lhe estragar o script, começando por lhe chamar padrinho (a propósito do caso do fax de Macau) como aperitivo de um chorrilho de acusações bem mais desagradáveis. A cara de Soares não mostrava nada do bonacheirão da imagem de marca da versão oficial. Ao intervalo, Soares foi-se municiar, e mal o debate se reiniciou, foi ver Soares a puxar de um novo estribilho: Bananas! Ficou-se a saber que havia uma história sórdida que tinha a ver com uma importação de bananas quando Basílio era Ministro do Comércio Externo num governo de Soares, havia talvez uns 15 anos.

 

Agora vou ali tomar os meus medicamentos.

 

jpt

publicado às 17:06

Soares na Mondlane

por jpt, em 23.06.05

Mário Soares hoje, em conferência na Eduardo Mondlane. Lá estive, a curiosidade em ouvir-lhe o tom aqui. Mas acima de tudo em tentar perceber o tom daqui. E Soares em África é uma curiosidade. Estadista a sério, goste-se ou não dele, e portanto por cá nunca lhe gostaram as aberturas aos movimentos oposicionistas durante os 80s - nem à Renamo, então meros "bandidos armados", nem em Angola à UNITA. Enfim, goste-se ou não dos ditos movimentos, goste-se ou não de Soares, a história causou (a história não "dá", não é gente) razão a este último.

 

Trouxe-me memórias. Estive em Luanda há quase 10 anos quando ele foi a Angola em "visita de Estado", um in extremis pois foi a sua última viagem como Presidente. Dizia-se então à boca aberta que tinha forçado a viagem, não queria deixar o posto sem ir a Angola - e só os incautos podem desprezar o peso desse tipo de deslocações. E pude então entre-perceber o desconforto local com o sucesso da viagem, com os banhos (pequenos, controlados, mas ainda assim banhos) de multidão enquanto ele, sem autoridades locais, passeava no centro de Luanda - gente na rua [esses a que os pequenos burgueses filhos de malteses hoje chamam de "populares"] a dizerem-me, entusiasmadissimos "os nossos [políticos] passam de carro, a voarem, este anda no meio de nós", num óbvio "assim, sim!". E não esquecerei a piscadela de olho que o velho (Senhor Presidente, claro) me enviou e a um outro patrício, nós ali no passeio a vê-lo passar, um evidente "estão a ver como é?" e nós estávamos.

 

Soares na Mondlane hoje, coisa bem diferente, ladeado por Joaquim Chissano (a quem amplamente citou). Uma memória das negociações de há 31 anos, em Lusaka, da independência (no sábado faz 30 anos - [Machado e se aqui colocássemos o tal som que oferecias no ano passado?]), um final com citação de António José de Almeida no Brasil no seu 1º Centenário "obrigado por se terem tornado independentes!". E ainda lhe sobrou discernimento para quando o interpelaram sobre o modo como "deu a independência" a Moçambique corrigir num "eu não dei, nós negociámos a independência". Clarividente (e polissémico, claro).

 

Depois um olhar sobre o mundo, contra o neo-liberalismo dos 3Bs (Blair, Bush, Berlusconi), esse do proteccionismo em casa e da abertura alhures (nada de novo, liberalismo vitoriano), contra a reprodução da divisão internacional do trabalho. Pela defesa da ONU do "Por Um Novo Milénio", contra a univisão globalizante (das multinacionais, sic), pelo regresso a alguns textos de Marx (e aqui um grande e audível sorriso na audiência).

 

No debate que se sucedeu foi algo atacado, um interveniente citando Jorge Jardim, o "Moçambique, Terra Queimada". Não pude deixar de pensar que está tudo ao contrário, um "estrutura" daqui criticando Soares baseado em Jardim. Ele também o pensou, estou certo. Mas a polémica desritualizou o momento. E terá mostrado o como o mundo mudou.

 

Saí para o cigarro a pensar como é que o discurso do Velho (esse que para o aqui era reaccionário..) será integrado por uma elite (também académica) agora ferozmente neo-liberal. Hum...ainda o isqueiro me está aceso e retiro o "ferozmente". Desesperadamente neo-liberal, é melhor. Pois, "que fazer"?

 

E o mais importante? Nem uma gota de paternalismo. Nem um suspiro disso. E por isso saio contente. E, confesso, orgulhoso.

 

(Pena que tenham partido o molde)

 

Amanhã vai a Matalane, à utopia do Malangatana - aqui confesso a pena do não convite. E hei-de protestar com o velho.

publicado às 19:28


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