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Maimuna Adam no ICMA

por jpt, em 13.05.14

 

 

Só agora é que reparo: daqui a bocado, às 17.30 horas, no Instituto Cultural Moçambique-Alemanha (ICMA) inaugura a individual de Maimuna Adam "!Toma!". Tem blog dedicado, e o projecto está aqui apresentado. Fica disponível uma semana, até dia 20. 

 

É uma semana agitada em Maputo: foram as comemorações dos 30 anos de cooperação Moçambique-União Europeia, articuladas com o Xiquitsi, temporada de música clássica, que continua a decorrer, e com o ciclo de cinema europeu, também ainda a ser apresentado. Hoje dois livros do Francisco Noa, e antes a Maimuna. Quem tiver disponibilidade que se agite ...

publicado às 14:04

Arte, em Moçambique e em Portugal

por jpt, em 15.08.10

Como de costume a Bienal do Muvart provoca conversas com os artistas. Ontem no Museu Nacional de Arte decorreu a primeira com Vera Albuquerque e Maimuna Adam [no próximo sábado a conversa ocorrerá no atelier de Fornasini]. Um pequeno grupo discutindo arte pública e os trabalhos das artistas. Mas também, e como quase sempre quando aqui se aborda a "arte contemporânea", se levantou a questão "arte", do que é isso, o que a define ou substancializa.

 

Não serei eu, que apenas a olho, e sem particulares instrumentos de pensamento, que me porei a dissertar sobre isso em cima de um qualquer estrado. Não me parece que haja algo de intrínseco que a defina, uma qualquer característica própria, recenseável, que possa ser afixada. E  procurada por qualquer catalogador, qual detective. Isso de "arte" não passará de um consenso, consoante "quem está". Atribuímos ou não o epíteto. Sossego-me assim.

 

Mas também me irrita muito, ainda que de um modo não normativo, a extrema arrogância do impensamento que remete a característica "artística", o seu fundamento, para o acto intencional do autor. Isso do, explícita ou implicitamente, se afirmar que é arte o que o intenta. Um falso relativismo, que não é mais do que um falso intelectualismo, forjado e sustentado na "autoridade" - não tanto dos (candidatos a) artistas mas fundamentalmente na autoridade estatutária (ditatorial) dos "intelectuais": críticos, galeristas (funcionários) públicos ou privados, curadores [funções, aliás, que se misturam recorrentemente - hoje "galeras-me" amanhã "curo-te", para a semana "criticamo-nos"]. Caímos, quase sempre, no domínio da sociologia. E, mais profundamente, no campo da ideologia, do "correctismo". Nunca do intelectualismo, sempre a questionar a sua própria produção.

 

Um caso típico deste "arrivismo" (ditadura intelectual) nesta muito bem conseguida Bienal - está de parabens o MUVART, e em particular Jorge Dias -, e nisso "obra" excêntrica porque contrastante com as restantes devido ao seu radical défice de suporte programático é um filme de Jorge Rocha, "Arroz de condelipas e omelete de algas": alguém a cozinhar o arroz e a omelete, com o argumento de que a receita é nova. Meu argumento de crítica? Fuck (ou seja, foda-se)! Ao nível da "obra" apresentada.

 

O problema geral reside sistematicamente na base intelectual do pretendido: um falso (porque paradoxal) relativismo. Um aparente sem limites que não passa de uma acantonar ideológico. Ou seja a conjugação de olhares, de obras, é muitas vezes (claro que nem sempre) sustentado por abordagens intelectuais (normalmente a cargo de curadores) com textos a la carte, com retóricas falíveis que procuraram justificar a posteriori as obras colectadas, não surgindo assim como programas mas sim como justificatórias. Por vezes isso surge mesmo com textos teoricamente esburacados, não apenas manipulatórios: recordo que as duas itinerantes "contemporâneas" que mais recentemente passaram em Maputo, de origem institucional portuguesa, surgiam sustentadas com textos teoricamente muito frágeis: um, trabalhando "identidades raciais" de modo totalmente descontrolado, de um modo que faria corar qualquer candidato a licenciado em Antropologia; um outro que definia "pós-colonialismo" como marco de calendário, algo espantoso. Isto produzido ao mais alto nível do país. Mas mais do que a "plasticidade" conceptual é o autoritarismo ideológico deste meio profissional, disfarçado de relativismo que se sublinha. Da minha recente ida a Portugal três exemplos

 

 

Uma apresentação de Carolina Caycedo no Centro Cultural de Belém, obras de 2007-2009. É o "valor estético", esse velho mito, destes nylons cosidos à mão que os levou àquelas paredes? Nada, nem foi essa a intenção da artista. São as frases, os slogans: "não pagues impostos", "nem deus, nem patrão, nem marido", etc. Peço desculpa da minudência, as obras são dos últimos três anos. Dá para ver o carácter de ladainha envelhecida do discurso? Já agora, e porque não é obviamente a dimensão paradoxal discursiva que a artista intende, dá para ver o vazio intelectual de quem afixa "confiem uns nos outros" conluiado com "não paguem impostos". Dá para ver o registo do impensamento atrás da "atitude"? Ou a equação "anarquismo=arte" é a "essência substantiva" de arte, esta afinal intrinsecamente definível por via da adesão a uma corrente política?

 

[Pedi na recepção do CCB um local onde deixar a minha pateada diante desta indigência. A recepcionista ficou aflita (não conhecia a palavra "pateada") e, depois de esclarecida, lá me propôs o "livro de honra", ao qual humildemente me recusei, ou o "livro de reclamações", manifesto exagero. Ou seja, o pessoal entra e sai, e cala-se. Pior, concorda - ainda que de impostos em dia, cônjuge pela mão, e desconfiando do mariola do lado. É "arte", um bocadinho ao domingo à tarde ... depois a vida continua, "Malato ao fim dia, Domingo Desportivo depois de jantar". Arte Contemporânea?]

 

Segui à Fundação Calouste Gulbenkian. Ali encontrei isto

 

 

"Liberdade Quando o Povo" [das razões do letreiro da obra na Gulbenkian ser trilingue (inglês, português e espanhol) mas encimado com o título em versão inglesa em maiúsculas só me pode ocorrer de que é uma surpreendente mostra de que o provincianismo atacou a prestigiada fundação sediada na capital portuguesa], uma obra Barthélémy Toguo - um artista muito interessante, diga-se.

 

A obra, mas mais do que ela própria a sua selecção (ou encomenda), é paradigmática de um "olhar arte" que é um nada relativista (afinal) "definir arte". Como se vê na fraca fotografia estamos diante de um monte de entulho submergindo homens, expressos em hirtos braços de manequins (o tom piroso da obra é lateral ao meu resmungo). No centro está um poste encimado pela bandeira nacional do país representado, no qual, como ali é realisticamente mostrado, o povo (os tais bracinhos) é esmagado pela tirania (o tal entulho). Arte, apesar dos bracinhos de manequim. Olhando um futuro sem entulho.

 

Agradou-me esta intervenção no parque da Gulbenkian. E, enquanto em família fotografava a obra (a petiz Pimentel Teixeira aparece lá atrás), perguntei-me: isto podia representar os nómadas ciganos em Portugal desde há décadas esmagados pela política e polícia estatal portuguesa, sempre sedentarizando-os (submergindo-os a um literal - os andares dos prédios de habitação social - e também a um metafórico entulho - a agressão cultural). Caberia com toda a certeza no próximo ciclo Gulbenkian, ou numa sequela em outros locais, porventura menos importantes.

Mas se alguém juntasse um entulho similar e pusesse como seu suporte discursivo (porque é sempre disso que se trata) " subúrbio pequeno-burguês destruído pela heroína consumida pelos seus descendentes, traficada por ciganos" [os pirosos bracinhos de manequim porventura picotados qual junkies, que estamos no regime realista]  isso não seria considerado pela intelligentsia artística como arte, seria obscurantismo, preconceito, reaccionarismo, implicaria esgares e risos, até reclamações de superioridade cognitiva (estética?). Ou seja, sob a ditadura curadorística (aliás, curandeirística) "arte" sim, mas apenas segundo o obscurantismo sociológico (ideológico) a que se adere.

 

Finalmente, visitei "Tudo o Que é Sólido Dissolve-se no Ar: o Social na Colecção Berardo" (uma vantagem, textos trilingues - português, inglês, francês - mas encimados com versão maiúscula em português. Afinal é em Lisboa.). Não vou dissertar sobre as razões que justificam aquela particular recolecção do acervo local, ou seja quais as ligações encontradas naquelas obras que "convocam problemáticas do quotidiano que enunciam uma crítica do real" (texto do desdobrável que acompanha a exposição). Tudo bem, mas também não adianta muito sobre os critérios.  Dá para tudo, no fundo (na prática, se quisermos, o que não o faz?). Mas fiquei com uma dúvida, à qual nem meus livros nem o google me conseguem responder. A exposição é apresentada pela instância curadora como partindo do "Manifesto do Partido Comunista" de Karl Marx e Friedrich Engels, o título é uma citação da obra. De início surgem uns painéis de teóricos (e práticos) revolucionários, o substrato teórico deste olhar crítico. Um desses painéis de arautos do marxismo revolucionário é este

 

Ancorar uma concepção de "arte" numa particular noção de "emancipação" como sua justificação é arte sacra. Daí o reaccionarismo radical que habita tantas das aparentes rupturas. Aqui gostaria de dar um exemplo, até já antigo: trazer, expondo-o, um lavatório ao Maputo da primeira década de XXI. "A burguesia já foi espantada" deste modo há muito tempo. Reproduzir esse "ecce homo" agora, aqui, é nada mais do que neo-colonialismo ("para quem é [ex-colonizado] basta"). Ou puro conservadorismo.

 

jpt

publicado às 11:57

 

O tempo passa. Amanhã no Museu Nacional de Arte acontece a inauguração da 4ª edição (bienal) da Exposição de Arte Contemporânea, agora já tradicional organização do MUVART (Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique), movimento que é ele próprio o mais relevante acontecimento das artes plásticas que ocorreu no país na última década. Ainda não fui ver o que se preparou nesta "Rotura e Desconversão", darei eco a partir de amanhã.

 

Adenda: a nota informativa da organização

 

O Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique – MUVART, uma associação de artistas contemporâneos de Moçambique e o TUNDURO – Festival Internacional de Artes, apresenta a exposição internacional de Arte Contemporânea no Museu Nacional de arte.


A exposição “Rotura e Desconversão” reúne 17 artistas de 6 países do programa do MUVART “Expo Arte Contemporânea Moçambique” existe há 6 anos, com carácter de uma bienal. Este evento, pretende sensibilizar, teorizar, e estimular a produção da arte contemporânea através da sua circulação dentro e fora do pais. É a IV edição e tem como objectivo, a troca de experiências entre os artistas participantes, a circulação das produções actuais, possibilitando deste modo o conhecimento, a informação e debate sobre a arte contemporânea.


Através do trabalho dos artistas aqui apresentados, a exposição da conhecer os contornos que a arte contemporânea está a tomar em Moçambique. Estes trabalhos estão virados para uma arte transnacional e dialogam com universos multiculturais. Os artistas têm vindo a abrir mão de opções estéticas, matrizes nacionalistas e narrativas sócio-político-cultural, escolhendo um percurso individual e subjectivo na produção das artes visuais. Estes mesmos artistas procuram e encontram seus pares em outras geografias de matriz cultural diferente.


De Moçambique estão presentes os artistas, Sónia Sultuane, Maimuna Adam, Gemuce e Marcos Muthewuye, membros do MUVART, que questionam a dinâmica da produção artística e a sua teorização em Moçambique. Os artistas Titos Mabota, Gonçalo Mabunda, Branquinho, Fornasini, Vinno Mussagi e Famós representam uma parte da produção artística que consideramos significativa no panorama actual da arte no país e internacionalmente. Do Brasil vêm as artistas Isa Bandeira e Vera de Albuquerque com a actividade artística na cidade de São Paulo, trabalham com diferentes suportes de arte. A artista Soledad Johansen do Chile, vive e trabalha na cidade de Maputo e desenvolve actualmente um projecto intitulado “Corpos Flexíveis”. O artista Fred Morim de Angola vive e trabalha na cidade Maputo e apresenta trabalhos no âmbito do projecto “Mundo 100 Valores”. Dos Estados Unidos da América estão presentes os artistas Evans Plummer e Mike Bancroft que trabalham num projecto onde questionam mecanismos e espaços de circulação da arte pública e de Portugal o artista Jorge Rocha com o projecto de “Culinária expansiva” que usa a Web como suporte da sua obra de arte.


jpt

publicado às 19:44


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